Phobos
November 27th, 2004, 05:14 AM
A Câmara de Sintra vai discutir a elaboração de um plano de urbanização para a serra da Carregueira, com cerca de 1700 hectares. Especialistas botânicos temem que seja mais um passo para levar o betão a uma importante zona natural e a CDU quer que a serra seja classificada como "paisagem protegida".
A serra da Carregueira, na freguesia de Belas, faz parte com a serra de Sintra e o parque de Monsanto das últimas manchas florestais da zona norte da Área Metropolitana de Lisboa. O presidente da autarquia sintrense, Fernando Seara, vai propor a elaboração de um plano de urbanização para 1708 hectares na serra e envolvente. O perímetro é delimitado por Mira-Sintra e Belas (a sul), Casal de Cambra (nascente), Dona Maria e Vale de Lobos (norte), e freguesia de Almargem do Bispo e traçado do IC16 entre Colaride e Portela (poente).
A proposta abrange ainda os planos antes aprovados, mas nunca elaborados, do espaço turístico da Tapada do Grilo e da Quinta do Molhapão. O Plano Director Municipal (PDM) faz depender o licenciamento de empreendimentos em espaços de desenvolvimento turístico da existência de planos de urbanização ou de pormenor. Ora, na área prevista para o plano e segundo o PDM, 719 hectares (42 por cento) destinam-se a uso turístico, 506ha (29,6 por cento) são espaços "culturais e naturais", 297ha (17,4 por cento) são florestais, e urbanos e urbanizáveis somam 57ha.
O programa preliminar proposto ao executivo assume que a área predominante destinada ao turismo corresponde ao "grande motor de desenvolvimento do plano de urbanização, bem como grande parte da sua justificação e enquadramento". Os restantes 47 por cento de espaços naturais e florestais, acrescenta-se, "sublinham a componente ambiental, paisagística e cultural que o plano de urbanização deverá ter".
No entanto, apesar destas ressalvas de natureza ambiental, o plano de urbanização suscita preocupação na comunidade científica. "A serra de Sintra, independentemente do valor como Paisagem Cultural [da UNESCO], está muito artificializada e, em termos naturais, o que sobra está na serra da Carregueira", avisa Jorge Capelo, da Associação Lusitana de Fitossociologia, salientando que a serra da freguesia de Belas "é o último reduto da vegetação da região saloia".
A serra de Sintra possui "habitats" identificados na Carregueira, mas de menores dimensões. Só que a riqueza da serra próxima do mar assenta sobre vegetação exótica, enquanto em Belas as espécies são autóctones. Trata-se de uma área com flora e "habitats" com importância regional, nacional e comunitária, muitos dos quais protegidos, e que "se acham actualmente sob forte regressão devido à expansão urbana". Posto isto, este investigador do Instituto Superior de Agronomia defende que a serra "deveria ser classificada com recurso às figuras de 'sítio' da rede Natura 2000".
Solução para Belas Clube de Campo
A área do plano está também abrangida pelas orientações do Plano Regional de Ordenamento do Território (PROT) da Área Metropolitana de Lisboa. A estrutura de protecção e valorização ambiental do PROT estabelece um corredor de ligação entre o estuário do Tejo e a serra de Sintra, que passa precisamente pela Carregueira. Além da função de "corredor verde" entre as duas serras, a ligação da Carregueira com a Várzea de Loures assume igualmente importância no "efeito barreira", ao separar a malha urbana contínua e desordenada que alastra desde o rio Tejo, da zona "rural" a norte da área metropolitana.
Um autarca socialista entende que o plano visa principalmente resolver o problema dos 1600 fogos aprovados para o Belas Clube de Campo, em plena serra da Carregueira, sem a realização prévia de um plano de urbanização.
O vereador Baptista Alves adianta que a CDU vai propor a articulação do plano de urbanização com o Plano Verde do concelho, em elaboração, e que a área de intervenção seja alargada aos 250 hectares para incluir vários aglomerados entre o Cacém, Almargem do Bispo e Belas. "O plano deve cerzir o tecido urbano que está disperso", preconiza o autarca, apontando a necessidade da "preservação e salvaguarda do património cultural e natural" da serra da Carregueira, através da classificação como "paisagem protegida".
O presidente da autarquia, Fernando Seara, admite que o Belas Clube de Campo é um dos projectos que o plano "ajudará a resolver", para além de ser "uma maneira de condicionar a construção na serra".
fonte:Publico (http://jornal.publico.pt/2004/11/26/LocalLisboa/LL04.html)
A serra da Carregueira, na freguesia de Belas, faz parte com a serra de Sintra e o parque de Monsanto das últimas manchas florestais da zona norte da Área Metropolitana de Lisboa. O presidente da autarquia sintrense, Fernando Seara, vai propor a elaboração de um plano de urbanização para 1708 hectares na serra e envolvente. O perímetro é delimitado por Mira-Sintra e Belas (a sul), Casal de Cambra (nascente), Dona Maria e Vale de Lobos (norte), e freguesia de Almargem do Bispo e traçado do IC16 entre Colaride e Portela (poente).
A proposta abrange ainda os planos antes aprovados, mas nunca elaborados, do espaço turístico da Tapada do Grilo e da Quinta do Molhapão. O Plano Director Municipal (PDM) faz depender o licenciamento de empreendimentos em espaços de desenvolvimento turístico da existência de planos de urbanização ou de pormenor. Ora, na área prevista para o plano e segundo o PDM, 719 hectares (42 por cento) destinam-se a uso turístico, 506ha (29,6 por cento) são espaços "culturais e naturais", 297ha (17,4 por cento) são florestais, e urbanos e urbanizáveis somam 57ha.
O programa preliminar proposto ao executivo assume que a área predominante destinada ao turismo corresponde ao "grande motor de desenvolvimento do plano de urbanização, bem como grande parte da sua justificação e enquadramento". Os restantes 47 por cento de espaços naturais e florestais, acrescenta-se, "sublinham a componente ambiental, paisagística e cultural que o plano de urbanização deverá ter".
No entanto, apesar destas ressalvas de natureza ambiental, o plano de urbanização suscita preocupação na comunidade científica. "A serra de Sintra, independentemente do valor como Paisagem Cultural [da UNESCO], está muito artificializada e, em termos naturais, o que sobra está na serra da Carregueira", avisa Jorge Capelo, da Associação Lusitana de Fitossociologia, salientando que a serra da freguesia de Belas "é o último reduto da vegetação da região saloia".
A serra de Sintra possui "habitats" identificados na Carregueira, mas de menores dimensões. Só que a riqueza da serra próxima do mar assenta sobre vegetação exótica, enquanto em Belas as espécies são autóctones. Trata-se de uma área com flora e "habitats" com importância regional, nacional e comunitária, muitos dos quais protegidos, e que "se acham actualmente sob forte regressão devido à expansão urbana". Posto isto, este investigador do Instituto Superior de Agronomia defende que a serra "deveria ser classificada com recurso às figuras de 'sítio' da rede Natura 2000".
Solução para Belas Clube de Campo
A área do plano está também abrangida pelas orientações do Plano Regional de Ordenamento do Território (PROT) da Área Metropolitana de Lisboa. A estrutura de protecção e valorização ambiental do PROT estabelece um corredor de ligação entre o estuário do Tejo e a serra de Sintra, que passa precisamente pela Carregueira. Além da função de "corredor verde" entre as duas serras, a ligação da Carregueira com a Várzea de Loures assume igualmente importância no "efeito barreira", ao separar a malha urbana contínua e desordenada que alastra desde o rio Tejo, da zona "rural" a norte da área metropolitana.
Um autarca socialista entende que o plano visa principalmente resolver o problema dos 1600 fogos aprovados para o Belas Clube de Campo, em plena serra da Carregueira, sem a realização prévia de um plano de urbanização.
O vereador Baptista Alves adianta que a CDU vai propor a articulação do plano de urbanização com o Plano Verde do concelho, em elaboração, e que a área de intervenção seja alargada aos 250 hectares para incluir vários aglomerados entre o Cacém, Almargem do Bispo e Belas. "O plano deve cerzir o tecido urbano que está disperso", preconiza o autarca, apontando a necessidade da "preservação e salvaguarda do património cultural e natural" da serra da Carregueira, através da classificação como "paisagem protegida".
O presidente da autarquia, Fernando Seara, admite que o Belas Clube de Campo é um dos projectos que o plano "ajudará a resolver", para além de ser "uma maneira de condicionar a construção na serra".
fonte:Publico (http://jornal.publico.pt/2004/11/26/LocalLisboa/LL04.html)