Viriatox
March 24th, 2005, 09:49 PM
Cinema Capitólio: uma morte anunciada
O cine-teatro Capitólio, no Parque Mayer, encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público através do DL 8/83 de 24 de Janeiro, e faz parte de um importante conjunto de edifícios do concelho de Lisboa prestigiados com classificação idêntica, como o Palácio Nacional de Belém, o Palácio das Necessidades, o Teatro D. Maria II, o Teatro S. Carlos e muitos outros, numa distinção que cobre vários períodos da história da nossa arquitectura urbana.
O edifício foi construído em 1931, com projecto do arquitecto Luís Cristino da Silva, a quem se devem significativas obras por todo o território nacional e que, sensivelmente no mesmo período, produziu outras importantes e do mesmo espírito arquitectónico, com destaque para a entrada do Parque Mayer, o Café Portugal e a agência do Diário de Notícias, estas últimas no Rossio.
Trata-se de um edifício de concepção avançada para a época (refira-se a inovação que representava o acesso por passadeira rolante em rampa, ligando o piso da entrada com o do balcão) e que faz parte de um conjunto já bastante delapidado da arquitectura modernista e deco lisboeta. Desse período fazem parte também os edifícios do Diário de Notícias e do antigo Hotel Vitória, ambos na Av. da Liberdade, o edifício da Standard Eléctrica na Av. da Índia, a Estação de Sul e Sueste, o edifício do cinema Cinearte em Santos, etc. De todos, o Capitólio é dos mais representativos e de linguagem mais coerente.
Esta introdução resulta da recente notícia sobre a previsível demolição do edifício, para dar lugar ao complexo projectado pelo arquitecto Frank Gehry, o que só agora tornou claro o triste destino do Capitólio, embora fosse previsível, uma vez que a sua localização central compromete o desenvolvimento de outras ideias para o local. Assim, se nada se fizer, vai-se demolir património construído por um arquitecto português de prestígio, o que constituirá um precedente grave para a nossa cultura.
Se o Capitólio não pode ficar no sítio de origem, por que não transferi-lo para outro local dentro do Parque Mayer, respeitando plenamente a construção até ao pormenor e em condições aceitáveis para o novo projecto?
Se a manutenção do edifício no local constituir uma dificuldade acrescida nos acordos com um arquitecto habituado a escolher o local das suas obras, onde o desafogo visual é um atributo importante, pode o edifício ser reconstruído em Entrecampos, nos terrenos da Feira Popular, integrando-o no plano de pormenor que para ali vier a ser concluído.
Perante o volume de investimentos envolvidos na operação Parque Mayer, o encargo com esta transferência seria insignificante e salvava-se uma peça importante da história da arquitectura portuguesa.
Raul Ceregeiro
Arquitecto
O cine-teatro Capitólio, no Parque Mayer, encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público através do DL 8/83 de 24 de Janeiro, e faz parte de um importante conjunto de edifícios do concelho de Lisboa prestigiados com classificação idêntica, como o Palácio Nacional de Belém, o Palácio das Necessidades, o Teatro D. Maria II, o Teatro S. Carlos e muitos outros, numa distinção que cobre vários períodos da história da nossa arquitectura urbana.
O edifício foi construído em 1931, com projecto do arquitecto Luís Cristino da Silva, a quem se devem significativas obras por todo o território nacional e que, sensivelmente no mesmo período, produziu outras importantes e do mesmo espírito arquitectónico, com destaque para a entrada do Parque Mayer, o Café Portugal e a agência do Diário de Notícias, estas últimas no Rossio.
Trata-se de um edifício de concepção avançada para a época (refira-se a inovação que representava o acesso por passadeira rolante em rampa, ligando o piso da entrada com o do balcão) e que faz parte de um conjunto já bastante delapidado da arquitectura modernista e deco lisboeta. Desse período fazem parte também os edifícios do Diário de Notícias e do antigo Hotel Vitória, ambos na Av. da Liberdade, o edifício da Standard Eléctrica na Av. da Índia, a Estação de Sul e Sueste, o edifício do cinema Cinearte em Santos, etc. De todos, o Capitólio é dos mais representativos e de linguagem mais coerente.
Esta introdução resulta da recente notícia sobre a previsível demolição do edifício, para dar lugar ao complexo projectado pelo arquitecto Frank Gehry, o que só agora tornou claro o triste destino do Capitólio, embora fosse previsível, uma vez que a sua localização central compromete o desenvolvimento de outras ideias para o local. Assim, se nada se fizer, vai-se demolir património construído por um arquitecto português de prestígio, o que constituirá um precedente grave para a nossa cultura.
Se o Capitólio não pode ficar no sítio de origem, por que não transferi-lo para outro local dentro do Parque Mayer, respeitando plenamente a construção até ao pormenor e em condições aceitáveis para o novo projecto?
Se a manutenção do edifício no local constituir uma dificuldade acrescida nos acordos com um arquitecto habituado a escolher o local das suas obras, onde o desafogo visual é um atributo importante, pode o edifício ser reconstruído em Entrecampos, nos terrenos da Feira Popular, integrando-o no plano de pormenor que para ali vier a ser concluído.
Perante o volume de investimentos envolvidos na operação Parque Mayer, o encargo com esta transferência seria insignificante e salvava-se uma peça importante da história da arquitectura portuguesa.
Raul Ceregeiro
Arquitecto