Petronius
June 29th, 2005, 11:41 PM
PÚBLICO - EDIÇÃO IMPRESSA - CULTURA
Director: José Manuel Fernandes
Directores-adjuntos: Nuno Pacheco e Manuel Carvalho
POL nº 5574 | Quarta, 29 de Junho de 2005
Escola Portuguesa de Macau: o crime do século
A opinião de José Manuel Fernandes
Esqueçamos tudo o que a musa antiga canta, que outros valores mais baixos se levantam. A anunciada demolição do edifício da antiga Escola Pedro Nolasco, em Macau, prenuncia o mais grave crime patrimonial na arquitectura dos últimos 100 anos, no espaço da lusofonia. Salvaguardando as devidas diferenças de escala e valor, ficará por certo tão tristemente famoso como a destruição do Hotel Imperial em Tóquio, ou da Maison du Peuple em Bruxelas, nos violentos anos de 1960.
A concretizar-se esta destruição, a Fundação Oriente, o Estado português e o Governo de Macau ficarão para sempre responsáveis por um gravoso, evitável e incompreensível acto contra a dimensão da modernidade, e contra a afirmação qualificadora da arquitectura portuguesa - uma das supostas bandeiras da nossa cultura.
É preciso que Carlos Monjardino e Edmundo Ho, entre outros responsáveis, saibam e entendam que a antiga Escola Pedro Nolasco, de 1966 (actuais instalações da Escola Portuguesa em Macau), não é um edifício qualquer: representa o melhor da obra de Raul Chorão Ramalho (1914-2001), um dos melhores arquitectos portugueses do século XX, com exposição de homenagem realizada (1997), Prémio da AICA-Ministério da Cultura (1997) e uma vasta obra a confirmar a sua capacidade e a do nosso país, em obras como hospitais (Viana do Castelo, Beja), centros de Seguranca Social (Funchal, Setúbal, Angra), embaixadas (Brasília), hotéis (Funchal, Alentejo), centrais hidroeléctricas (Madeira) e muitas, muitas obras de habitação, comércio, infra-estruturas (e várias delas em Macau).
Além disso, o edifício da escola é um dos melhores, senão o melhor, de toda a arquitectura moderna de Macau construída no século XX, e um dos melhores representantes da chamada "arquitectura cívica" e urbana dos anos 1960-70, do Sul da Ásia - como foi bem apresentado na conferência promovida pela ARCASIA em Dez./2004, em Macau. Encontra-se em muito bom estado de conservação e uso, tendo sido restaurado em 1998-99 com ampliação das suas instalações. No momento em que Macau está a candidatar o seu património arquitectónico da área do centro histórico (do "Leal Senado" à Sé) a património da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), será um verdadeiro "tiro no pé" destruir um edifício valioso que praticamente "encosta" àquele espaço urbano. Tal situação deverá ser, evidentemente, denunciada na comissão da UNESCO que dá parecer sobre o tema.
Recordemos os antecedentes mais próximos deste sinistro processo, uma vez que, pelas notícias recentes (Abril e Maio de 2005), o que se avizinha em relação à Escola Portuguesa é de facto a sua inapelável demolição. A decisão, em 2004, da natural e acertada mudança para novas instalações na Taipa não acautelou a preservação dos seus edifícios, pátios e espaços ajardinados envolventes - ao que parece para os terrenos resultantes poderem ser reutilizados para a construção de mais um casino, ou algo análogo, em terrenos centrais e valiosíssimos da cidade.
Alertados pela situação, vários arquitectos escreveram na imprensa e denunciaram nos media esta situação (em Dezembro de 2004 e Janeiro de 2005), pedindo à Ordem dos Arquitectos em Lisboa que tomasse uma atitude clara sobre o assunto.
Uma carta da bastonária da Ordem, entregue em mão pelo Presidente da República a Edmund Ho, aquando da sua visita a Macau em Janeiro, evidenciava o significado do edifício, a sua situação fragilizada e a necessidade de o recuperar para novas funções, dignas e úteis. Mas ,até hoje, nenhum indício deixa entender que tenha sido entendida esta mensagem.
Desejamos, neste alerta actualizado sobre um assunto tão grave, que uma atitude clara e inovadora seja tomada. O património do século XX existe e este é um dos seus ícones. Tal atitude é possível - apenas depende da vontade política dos intervenientes. E a verdade é que alguns deles têm uma sensibilidade, ética e estética, uma cultura e um conhecimento das condições concretas de Macau que lhes permitirão uma actuação à altura das circunstâncias. Falou-se já em "Museu da Lusofonia", e em "Museu da Arquitectura", para vir a ocupar o edifício da antiga escola. Mas há muitas outras soluções possíveis.
Recuso-me a acreditar que Macau, com a sua actual dinâmica de enriquecimento e de nova dimensão (A "Las Vegas" do Oriente, que já suplanta a original!), não arranje uma alternativa de terreno para ampliar os seus casinos, e não tenha pensado numa opção para usar o imóvel da escola: a de vir a ser por exemplo um "Museu do Jogo" - tema fulcral na cultura da China e, afinal, a razão profunda da dimensão e riqueza actual de Macau, além de constituir uma homenagem, indirecta mas justa, ao um dos seus mais eficazes "construtores", Stanley Ho.
Director: José Manuel Fernandes
Directores-adjuntos: Nuno Pacheco e Manuel Carvalho
POL nº 5574 | Quarta, 29 de Junho de 2005
Escola Portuguesa de Macau: o crime do século
A opinião de José Manuel Fernandes
Esqueçamos tudo o que a musa antiga canta, que outros valores mais baixos se levantam. A anunciada demolição do edifício da antiga Escola Pedro Nolasco, em Macau, prenuncia o mais grave crime patrimonial na arquitectura dos últimos 100 anos, no espaço da lusofonia. Salvaguardando as devidas diferenças de escala e valor, ficará por certo tão tristemente famoso como a destruição do Hotel Imperial em Tóquio, ou da Maison du Peuple em Bruxelas, nos violentos anos de 1960.
A concretizar-se esta destruição, a Fundação Oriente, o Estado português e o Governo de Macau ficarão para sempre responsáveis por um gravoso, evitável e incompreensível acto contra a dimensão da modernidade, e contra a afirmação qualificadora da arquitectura portuguesa - uma das supostas bandeiras da nossa cultura.
É preciso que Carlos Monjardino e Edmundo Ho, entre outros responsáveis, saibam e entendam que a antiga Escola Pedro Nolasco, de 1966 (actuais instalações da Escola Portuguesa em Macau), não é um edifício qualquer: representa o melhor da obra de Raul Chorão Ramalho (1914-2001), um dos melhores arquitectos portugueses do século XX, com exposição de homenagem realizada (1997), Prémio da AICA-Ministério da Cultura (1997) e uma vasta obra a confirmar a sua capacidade e a do nosso país, em obras como hospitais (Viana do Castelo, Beja), centros de Seguranca Social (Funchal, Setúbal, Angra), embaixadas (Brasília), hotéis (Funchal, Alentejo), centrais hidroeléctricas (Madeira) e muitas, muitas obras de habitação, comércio, infra-estruturas (e várias delas em Macau).
Além disso, o edifício da escola é um dos melhores, senão o melhor, de toda a arquitectura moderna de Macau construída no século XX, e um dos melhores representantes da chamada "arquitectura cívica" e urbana dos anos 1960-70, do Sul da Ásia - como foi bem apresentado na conferência promovida pela ARCASIA em Dez./2004, em Macau. Encontra-se em muito bom estado de conservação e uso, tendo sido restaurado em 1998-99 com ampliação das suas instalações. No momento em que Macau está a candidatar o seu património arquitectónico da área do centro histórico (do "Leal Senado" à Sé) a património da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), será um verdadeiro "tiro no pé" destruir um edifício valioso que praticamente "encosta" àquele espaço urbano. Tal situação deverá ser, evidentemente, denunciada na comissão da UNESCO que dá parecer sobre o tema.
Recordemos os antecedentes mais próximos deste sinistro processo, uma vez que, pelas notícias recentes (Abril e Maio de 2005), o que se avizinha em relação à Escola Portuguesa é de facto a sua inapelável demolição. A decisão, em 2004, da natural e acertada mudança para novas instalações na Taipa não acautelou a preservação dos seus edifícios, pátios e espaços ajardinados envolventes - ao que parece para os terrenos resultantes poderem ser reutilizados para a construção de mais um casino, ou algo análogo, em terrenos centrais e valiosíssimos da cidade.
Alertados pela situação, vários arquitectos escreveram na imprensa e denunciaram nos media esta situação (em Dezembro de 2004 e Janeiro de 2005), pedindo à Ordem dos Arquitectos em Lisboa que tomasse uma atitude clara sobre o assunto.
Uma carta da bastonária da Ordem, entregue em mão pelo Presidente da República a Edmund Ho, aquando da sua visita a Macau em Janeiro, evidenciava o significado do edifício, a sua situação fragilizada e a necessidade de o recuperar para novas funções, dignas e úteis. Mas ,até hoje, nenhum indício deixa entender que tenha sido entendida esta mensagem.
Desejamos, neste alerta actualizado sobre um assunto tão grave, que uma atitude clara e inovadora seja tomada. O património do século XX existe e este é um dos seus ícones. Tal atitude é possível - apenas depende da vontade política dos intervenientes. E a verdade é que alguns deles têm uma sensibilidade, ética e estética, uma cultura e um conhecimento das condições concretas de Macau que lhes permitirão uma actuação à altura das circunstâncias. Falou-se já em "Museu da Lusofonia", e em "Museu da Arquitectura", para vir a ocupar o edifício da antiga escola. Mas há muitas outras soluções possíveis.
Recuso-me a acreditar que Macau, com a sua actual dinâmica de enriquecimento e de nova dimensão (A "Las Vegas" do Oriente, que já suplanta a original!), não arranje uma alternativa de terreno para ampliar os seus casinos, e não tenha pensado numa opção para usar o imóvel da escola: a de vir a ser por exemplo um "Museu do Jogo" - tema fulcral na cultura da China e, afinal, a razão profunda da dimensão e riqueza actual de Macau, além de constituir uma homenagem, indirecta mas justa, ao um dos seus mais eficazes "construtores", Stanley Ho.