Viriatox
July 31st, 2005, 06:46 PM
Público, 2004-04-02
\"Municipalize-se o Espaço Aéreo\"
Por FERNANDA RIBEIRO
\"A municipalização do espaço aéreo acima do oitavo andar\" foi a proposta lançada anteontem pelo socialista António Brotas, na tertúlia promovida pelo PS, no Martinho da Arcada, em Lisboa, em que se debateu a construção em altura.
\"Uma pessoa pode ter um terreno, mas não é proprietária do espaço até lá acima. Aquilo é nosso - ou antes, é da câmara. Por isso, lanço aqui o desafio: municipalize-se o espaço aéreo\", disse este socialista.
E exemplificou: \"O promotor diz: quero fazer aqui uma torre de 24 andares. E o município pode contrapor: vamos negociar, porque os 16 pisos acima do oitavo [altura que é permitida no PDM] ocupam espaço da câmara\".
A ideia fez sorrir vários participantes na tertúlia, a quem terá parecido não ter pés nem cabeça. No entanto, o tema tem que se lhe diga. E o arquitecto Álvaro Siza Vieira, autor do projecto das torres de Alcântara, que esteve na origem do debate ontem promovido pelos socialistas, lembrou que em Nova Iorque - onde abunda a construção em altura - o espaço aéreo é negociado entre vizinhos. O detentor de um lote compra ao vizinho os direitos a construir mais alto, o que impede aquele que o venda de construir no espaço aéreo que lhe pertencia.
Mas Siza, que no debate foi um muito respeitável bombo da festa, lembrou que, além do espaço físico, \"a arquitectura tem também um espaço simbólico. O mais forte faz mais alto\".
Bruno Soares, arquitecto que foi um dos autores do Plano Director Municipal em vigor, salientou que o PDM não impede a construção em altura, mas estabelece regras para as zonas históricas e consolidadas que conduzem à elaboração de planos, caso se queira construir acima dos 25 metros (oito andares).
No caso das torres projectadas para Alcântara, Bruno Soares não se manifestou contra, embora tenha destacado que fazê-lo \"na frente ribeirinha é muito delicado\". E considerou que naquela \"área-chave\" da capital deveria haver uma articulação entre os projectos que têm sido recentemente anunciados, para que se \"balanceassem as várias propostas\".
\"Não digo que pontualmente não possa haver edifícios altos a pontuar, mas isso tem de ser projectado em termos de estratégia da cidade e não em termos de estratégia do imobiliário. E cabe aos responsáveis municipais lançar essa discussão \", disse Bruno Soares.
A propósito da alegada \"necessidade de balancear as propostas\", Siza Vieira lançou uma interrogação: \"O que eu me pergunto é como. Não posso balançar com nada, porque quando apresentei a proposta não existia outra\", justificou, já que à data em que se tornou público o projecto de Alcântara ainda nem sequer era conhecida a torre de Norman Foster para a zona de Santos.
Ainda assim, Bruno Soares insistiu: \"Não estou de acordo que quem chegue primeiro marque o território\".
Mas Siza Vieira não esmoreceu: o que existe é \"medo da arquitectura e a tudo quanto cheire a arquitectura\", ainda que actualmente ela ocupe muito espaço nos jornais. \"Quando é medíocre não há nenhum sobressalto. Deve ser por isso que as periferias são tão terríveis\", acrescentou.
Para Helena Roseta, presidente da Ordem dos Arquitectos, \"o problema é que não há liderança municipal\". A deputada socialista achou que, com o debate, se \"destruíram preconceitos\" relativamente à construção em altura: E considerou que no caso das torres de Siza nem sequer se coloca o problema de cortar as vistas.
\"Quem está hoje na antiga fábrica da Sidul, o que vê do rio? Nada, porque ali não há vista de rio e a intervenção proposta não é para se perder, mas antes para se ganhar vista\" do Tejo, salientou.
Não se coloca igualmente uma questão de maior densidade pelo facto de se construir em altura, como explicou Siza Vieira. \"Com edifícios de oito pisos a densidade era a mesma.\"
\"Eu queria que Lisboa fosse aquilo que é\"
Outras intervenções pautaram-se pela melancolia de se perder a cidade que existe. António Sérgio Pessoa foi um dos socialistas que considerou que a inserção de torres na zona ribeirinha pode ser prejudicial à imagem de Lisboa, o que \"não é despiciendo, porque a grande valia das cidades é serem características\". \"Eu queria que Lisboa fosse aquilo que é\", acentuou.
Outra forma de ver manifestou a arquitecta Juliana Martins, que reivindicou espaço para a arquitectura contemporânea e salientou que, ao contrário do que afirmara Roseta, continua a haver vários preconceitos a enfrentar, alguns deles bem recentes.
\"Antes, fazer obra era bom. Agora tudo o que é construir é mau. Há mais preconceitos. Densificar é um deles. A densificação também pode ser bom e não está provado que as pessoas prefiram viver em sítios menos densificados\", disse.
Juliana Martins recordou a \"palavra mágica\" da moda: \"Calma, porque vai haver aqui um grande jardim\", dizem os promotores, como se isso tranquilizasse qualquer espírito.
\"Não se pode fazer tudo como se fazia há 100 anos, e nem tudo é para preservar na cidade. Também é importante fazer arquitectura contemporânea. É preciso fazer alguma coisa para que daqui a mil anos haja algo a preservar deste nosso tempo\", rematou.
\"Municipalize-se o Espaço Aéreo\"
Por FERNANDA RIBEIRO
\"A municipalização do espaço aéreo acima do oitavo andar\" foi a proposta lançada anteontem pelo socialista António Brotas, na tertúlia promovida pelo PS, no Martinho da Arcada, em Lisboa, em que se debateu a construção em altura.
\"Uma pessoa pode ter um terreno, mas não é proprietária do espaço até lá acima. Aquilo é nosso - ou antes, é da câmara. Por isso, lanço aqui o desafio: municipalize-se o espaço aéreo\", disse este socialista.
E exemplificou: \"O promotor diz: quero fazer aqui uma torre de 24 andares. E o município pode contrapor: vamos negociar, porque os 16 pisos acima do oitavo [altura que é permitida no PDM] ocupam espaço da câmara\".
A ideia fez sorrir vários participantes na tertúlia, a quem terá parecido não ter pés nem cabeça. No entanto, o tema tem que se lhe diga. E o arquitecto Álvaro Siza Vieira, autor do projecto das torres de Alcântara, que esteve na origem do debate ontem promovido pelos socialistas, lembrou que em Nova Iorque - onde abunda a construção em altura - o espaço aéreo é negociado entre vizinhos. O detentor de um lote compra ao vizinho os direitos a construir mais alto, o que impede aquele que o venda de construir no espaço aéreo que lhe pertencia.
Mas Siza, que no debate foi um muito respeitável bombo da festa, lembrou que, além do espaço físico, \"a arquitectura tem também um espaço simbólico. O mais forte faz mais alto\".
Bruno Soares, arquitecto que foi um dos autores do Plano Director Municipal em vigor, salientou que o PDM não impede a construção em altura, mas estabelece regras para as zonas históricas e consolidadas que conduzem à elaboração de planos, caso se queira construir acima dos 25 metros (oito andares).
No caso das torres projectadas para Alcântara, Bruno Soares não se manifestou contra, embora tenha destacado que fazê-lo \"na frente ribeirinha é muito delicado\". E considerou que naquela \"área-chave\" da capital deveria haver uma articulação entre os projectos que têm sido recentemente anunciados, para que se \"balanceassem as várias propostas\".
\"Não digo que pontualmente não possa haver edifícios altos a pontuar, mas isso tem de ser projectado em termos de estratégia da cidade e não em termos de estratégia do imobiliário. E cabe aos responsáveis municipais lançar essa discussão \", disse Bruno Soares.
A propósito da alegada \"necessidade de balancear as propostas\", Siza Vieira lançou uma interrogação: \"O que eu me pergunto é como. Não posso balançar com nada, porque quando apresentei a proposta não existia outra\", justificou, já que à data em que se tornou público o projecto de Alcântara ainda nem sequer era conhecida a torre de Norman Foster para a zona de Santos.
Ainda assim, Bruno Soares insistiu: \"Não estou de acordo que quem chegue primeiro marque o território\".
Mas Siza Vieira não esmoreceu: o que existe é \"medo da arquitectura e a tudo quanto cheire a arquitectura\", ainda que actualmente ela ocupe muito espaço nos jornais. \"Quando é medíocre não há nenhum sobressalto. Deve ser por isso que as periferias são tão terríveis\", acrescentou.
Para Helena Roseta, presidente da Ordem dos Arquitectos, \"o problema é que não há liderança municipal\". A deputada socialista achou que, com o debate, se \"destruíram preconceitos\" relativamente à construção em altura: E considerou que no caso das torres de Siza nem sequer se coloca o problema de cortar as vistas.
\"Quem está hoje na antiga fábrica da Sidul, o que vê do rio? Nada, porque ali não há vista de rio e a intervenção proposta não é para se perder, mas antes para se ganhar vista\" do Tejo, salientou.
Não se coloca igualmente uma questão de maior densidade pelo facto de se construir em altura, como explicou Siza Vieira. \"Com edifícios de oito pisos a densidade era a mesma.\"
\"Eu queria que Lisboa fosse aquilo que é\"
Outras intervenções pautaram-se pela melancolia de se perder a cidade que existe. António Sérgio Pessoa foi um dos socialistas que considerou que a inserção de torres na zona ribeirinha pode ser prejudicial à imagem de Lisboa, o que \"não é despiciendo, porque a grande valia das cidades é serem características\". \"Eu queria que Lisboa fosse aquilo que é\", acentuou.
Outra forma de ver manifestou a arquitecta Juliana Martins, que reivindicou espaço para a arquitectura contemporânea e salientou que, ao contrário do que afirmara Roseta, continua a haver vários preconceitos a enfrentar, alguns deles bem recentes.
\"Antes, fazer obra era bom. Agora tudo o que é construir é mau. Há mais preconceitos. Densificar é um deles. A densificação também pode ser bom e não está provado que as pessoas prefiram viver em sítios menos densificados\", disse.
Juliana Martins recordou a \"palavra mágica\" da moda: \"Calma, porque vai haver aqui um grande jardim\", dizem os promotores, como se isso tranquilizasse qualquer espírito.
\"Não se pode fazer tudo como se fazia há 100 anos, e nem tudo é para preservar na cidade. Também é importante fazer arquitectura contemporânea. É preciso fazer alguma coisa para que daqui a mil anos haja algo a preservar deste nosso tempo\", rematou.