Filipe_Golias
October 4th, 2005, 10:16 PM
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Souto Moura sustenta que os políticos devem definir exactamente o que pretendem com as obras que encomendam. E não atirem depois as culpas aos arquitectos. Lamenta ainda que o mérito do Metro do Porto tenha sido ofuscado pela sua instrumentalização política.
“Há uma cultura covarde na política”
Autor de quase todas as estações subterrâneas do Metro do Porto – à excepção da de São Bento, desenhada por Álvaro Siza Vieira –, o arquitecto Eduardo Souto Moura lamenta que “as pessoas não tenham percebido a importância” deste projecto metropolitano para a cidade. Na sua opinião, o metro tem o mérito de unir o centro à periferia e, dessa forma, anunciar- se como um agente dinamizador de um Porto que cada vez mais dá sinais de cansaço económico e desertificação social. A incompreensão deve-se, acredita Souto Moura, ao facto de os jornais privilegiarem o embrulho político dos factos, descurando o que eles realmente representam para a dinâmica urbana.
Nesta entrevista, inicialmente centrada no empreendimento Burgo (ver notícia ao lado), Souto Moura acaba por falar não só das polémicas do metro, mas também das relações entre política e arquitectura. Custa ao autor do premiado projecto do Estádio do Braga que autarcas e governantes tenham dificuldade em definir aquilo que pretendem de uma obra – “os políticos têm de parar de dizer ‘nim’” –, criando assim um ciclo de “desgaste” e de atribuição de “culpas ao arquitecto”.
PÚBLICO – A Torre do Burgo, um empreendimento de luxo para escritórios, está quase pronta. É curioso como fala desta sua mais recente obra com modéstia, reduzindo a sua criação à escolha das fachadas em alumínio.
SOUTO MOURA – A beleza é isso. São essas coisas comuns e banais. Depois, são os outros que dão a beleza. Tudo aquilo que é bonito é muito simples. Não tenho vocação para fazer as coisas muito bonitas. Faço o que tenho a fazer e preocupome que não fique feio. Pois tenho essa responsabilidade. Mas a beleza colectiva é uma coisa complicada. Neste país, o que é a beleza colectiva? Todos dizem mal de tudo. Basta ver o que aconteceu com o metro do Porto. Após 12 anos de trabalho, toda a gente diz mal.
Já experimentou andar nas ruas para ouvir o que as pessoas – os verdadeiros utentes – pensam do metro?
Não sei. O [número de clientes por dia no] metro passou de 25 mil pessoas para 85 mil [com a inauguração da Linha Amarela] e a notícia que saiu no jornal tinha meia página. Não queria palmas nem que falassem do arquitecto, apenas que compreendessem a revolução que o projecto representa. Aconteceu no Porto uma coisa espantosa e as pessoas não perceberam. E não perceberam por interesses políticos.
Acha que o metro do Porto está a ser instrumentalizado pelas eleições autárquicas?
Completamente. Investiram-se milhões de euros. Ninguém fala do assunto. Falam do Francisco Assis e falam do Ferreira Torres. É miopia. Ninguém percebeu a importância do metro.
Se calhar, os utentes perceberam, porque o metro pode ter alterado os seus percursos diários. O que está em causa não é a mediatização e o aproveitamento político?
Claro, mas isso é triste. Inauguraram-se mais 11 estações. De um dia para o outro, mais de 30 mil pessoas mudam a sua vida. A cidade mudou. E a Baixa vai mudar. O metro é um êxito. Custa-me que a pessoas não entendam. Transplantámos três plátanos do Marquês para a Praça Velásquez [nas Antas]. Quando isso acontece, há várias páginas de jornal a falar do “crime”. Abre-se a estação e não sai nem uma linha. Foram dez anos de trabalho, mudanças de engenheiros, até que se conseguiu uma solução para não cortar as árvores. Pedi ajuda ao Siza [Vieira]. Precisávamos de colocar ali vinte escadas – sim, porque é muito bonito não cortar as árvores, mas é preciso pensar na segurança da estação, senão, há ali um incêndio e as pessoas morrem queimadas porque não conseguiram sair da estação. Nós conseguimos [a solução]. Eu não quero palmas, mas irrita-me o barulho que se faz antes e o silêncio que vem depois. Várias estações de metro foram feitas ao longo de mais de uma década com muito esforço. Morreu gente. Casas caíram. Houve muito sacrifício de trabalhadores. Depois, não há uma reportagem de fundo a mostrar como estas obras revolucionam a relação da periferia com a cidade.
Não nos podemos esquecer de que a inauguração da Linha Amarela, considerada a linha das linhas, foi agendada para o dia 17 de Setembro – ou seja, a apenas 22 dias das eleições autárquicas. Esta data não foi inocente.
Mas há um facto que não é político: uma nova linha foi inaugurada. O Porto é uma cidade que está a perder importância. E agora o metro vem ligar a periferia ao centro. O Porto ficou ligado a Gaia. Isto é uma coisa histórica. Gastou-se muito dinheiro para recuperar a Ponte de D. Luís I. Quem vive em Gaia pode chegar ao centro do Porto em alguns minutos. É a primeira vez que isso acontece. Os órgãos de comunicação não passaram essa mensagem. E não vejo por que é que o Governo PS não valoriza este feito. O resvalar dos dinheiros é uma coisa política. Ninguém fala que o metro é o promotor da requalificação urbana.
Há a ideia de que obras desnecessáriasforam feitas à boleia do metro. E o discurso de Mário Lino, ministro das Obras Públicas e dos Transportes, sobre a viabilidade financeira do projecto parece estar ligado a isso.
Mas isto é um discurso político. Há um contrato, feito durante a própria gestão socialista, que diz que 25 por cento do orçamento deve ser aplicado na requalificação urbana. Há uma ideia míope de que o metro são só dois carris. Só que,para instalar os carris, é preciso mudar tudo, casa a casa. E foi isso que se fez. Isto é um golpe político. Quando as pessoas criticam o metro da Boavista, esquecem que esse projecto é do PS. O metro na avenida não foi inventado por Rui Rio, mas sim por Fernando Gomes.
Houve, contudo, a estranha coincidência das obras na Avenida da Boavista com o Grande Prémio Histórico...
Não se mudou nada na Boavista para fazer o circuito de automóveis. É demagógico dizer que se gastou muito dinheiro para fazer uma prova de carros. A avenida principal do Porto foi requalificada e está preparada para receber o metro. Tem árvores, está com bons passeios, boa iluminação e bom alcatrão. Toda a gente diz mal, mas há uma covardia em não indicar uma solução viável. As pessoas têm de perceber que o metro da Boavista não é para servir as pessoas que moram na Boavista. O metro é para fazer fluir as pessoas que chegam da periferia à Senhora da Hora. Antes de estar completo, o metro já não dá vazão aos passageiros. Mas depois as pessoas vêm dizer que o metro ali não faz sentido porque os ricos não entram nas carruagens. Ainda bem. Porque, se entrarem, as composições já estão entupidas. Nunca vi um desenho de uma alternativa viável da Senhora da Hora e o centro. Se isto é uma estupidez, sugiram algo melhor.
Gasta mais tempo com as politiquices à volta do projecto do que propriamente com a arquitectura?
Eu só trabalho realmente ao sábado e ao domingo. A semana inteira é para os papéis, as reuniões, os dinheiros. Isso também acontece lá fora. Não gosto de dizer que tudo o que é nosso é mau e dos outros é bom. Mas é preciso dizer que as regras no estrangeiro são mais claras. E assim posso dizer se aceito ou não. Aqui as coisas são turvas. E isso é desgastante. Mas a verdade é que prefiro trabalhar aqui.
Explique melhor o que é preciso mudar.
Os políticos têm de parar de dizer “nim”. Ou sim ou não. Não sabem dizer se querem um prédio de 10 ou de 20 pisos. Um projecto pressupõe várias fases, mas a primeira delas é o programa preliminar – ou seja, determinar exactamente aquilo que o cliente quer. Os políticos dizem que querem um museu e mais nada. Não especificam se é para isto ou para aquilo.
Quais são as consequências desse vazio programático?
O desgaste. Em Portugal, trabalha-se sempre no limite. Refazem-se as coisas várias vezes. Os projectos são entregues na véspera. E, quando as coisas correm mal, a culpa é do arquitecto. Não há um político que diga isto ficou assim porque eu não soube dizer o que queria. Que assuma a culpa. Dizem que, afinal, queriam um museu para pintura e não para escultura. Há uma cultura covarde na política.
Souto Moura sustenta que os políticos devem definir exactamente o que pretendem com as obras que encomendam. E não atirem depois as culpas aos arquitectos. Lamenta ainda que o mérito do Metro do Porto tenha sido ofuscado pela sua instrumentalização política.
“Há uma cultura covarde na política”
Autor de quase todas as estações subterrâneas do Metro do Porto – à excepção da de São Bento, desenhada por Álvaro Siza Vieira –, o arquitecto Eduardo Souto Moura lamenta que “as pessoas não tenham percebido a importância” deste projecto metropolitano para a cidade. Na sua opinião, o metro tem o mérito de unir o centro à periferia e, dessa forma, anunciar- se como um agente dinamizador de um Porto que cada vez mais dá sinais de cansaço económico e desertificação social. A incompreensão deve-se, acredita Souto Moura, ao facto de os jornais privilegiarem o embrulho político dos factos, descurando o que eles realmente representam para a dinâmica urbana.
Nesta entrevista, inicialmente centrada no empreendimento Burgo (ver notícia ao lado), Souto Moura acaba por falar não só das polémicas do metro, mas também das relações entre política e arquitectura. Custa ao autor do premiado projecto do Estádio do Braga que autarcas e governantes tenham dificuldade em definir aquilo que pretendem de uma obra – “os políticos têm de parar de dizer ‘nim’” –, criando assim um ciclo de “desgaste” e de atribuição de “culpas ao arquitecto”.
PÚBLICO – A Torre do Burgo, um empreendimento de luxo para escritórios, está quase pronta. É curioso como fala desta sua mais recente obra com modéstia, reduzindo a sua criação à escolha das fachadas em alumínio.
SOUTO MOURA – A beleza é isso. São essas coisas comuns e banais. Depois, são os outros que dão a beleza. Tudo aquilo que é bonito é muito simples. Não tenho vocação para fazer as coisas muito bonitas. Faço o que tenho a fazer e preocupome que não fique feio. Pois tenho essa responsabilidade. Mas a beleza colectiva é uma coisa complicada. Neste país, o que é a beleza colectiva? Todos dizem mal de tudo. Basta ver o que aconteceu com o metro do Porto. Após 12 anos de trabalho, toda a gente diz mal.
Já experimentou andar nas ruas para ouvir o que as pessoas – os verdadeiros utentes – pensam do metro?
Não sei. O [número de clientes por dia no] metro passou de 25 mil pessoas para 85 mil [com a inauguração da Linha Amarela] e a notícia que saiu no jornal tinha meia página. Não queria palmas nem que falassem do arquitecto, apenas que compreendessem a revolução que o projecto representa. Aconteceu no Porto uma coisa espantosa e as pessoas não perceberam. E não perceberam por interesses políticos.
Acha que o metro do Porto está a ser instrumentalizado pelas eleições autárquicas?
Completamente. Investiram-se milhões de euros. Ninguém fala do assunto. Falam do Francisco Assis e falam do Ferreira Torres. É miopia. Ninguém percebeu a importância do metro.
Se calhar, os utentes perceberam, porque o metro pode ter alterado os seus percursos diários. O que está em causa não é a mediatização e o aproveitamento político?
Claro, mas isso é triste. Inauguraram-se mais 11 estações. De um dia para o outro, mais de 30 mil pessoas mudam a sua vida. A cidade mudou. E a Baixa vai mudar. O metro é um êxito. Custa-me que a pessoas não entendam. Transplantámos três plátanos do Marquês para a Praça Velásquez [nas Antas]. Quando isso acontece, há várias páginas de jornal a falar do “crime”. Abre-se a estação e não sai nem uma linha. Foram dez anos de trabalho, mudanças de engenheiros, até que se conseguiu uma solução para não cortar as árvores. Pedi ajuda ao Siza [Vieira]. Precisávamos de colocar ali vinte escadas – sim, porque é muito bonito não cortar as árvores, mas é preciso pensar na segurança da estação, senão, há ali um incêndio e as pessoas morrem queimadas porque não conseguiram sair da estação. Nós conseguimos [a solução]. Eu não quero palmas, mas irrita-me o barulho que se faz antes e o silêncio que vem depois. Várias estações de metro foram feitas ao longo de mais de uma década com muito esforço. Morreu gente. Casas caíram. Houve muito sacrifício de trabalhadores. Depois, não há uma reportagem de fundo a mostrar como estas obras revolucionam a relação da periferia com a cidade.
Não nos podemos esquecer de que a inauguração da Linha Amarela, considerada a linha das linhas, foi agendada para o dia 17 de Setembro – ou seja, a apenas 22 dias das eleições autárquicas. Esta data não foi inocente.
Mas há um facto que não é político: uma nova linha foi inaugurada. O Porto é uma cidade que está a perder importância. E agora o metro vem ligar a periferia ao centro. O Porto ficou ligado a Gaia. Isto é uma coisa histórica. Gastou-se muito dinheiro para recuperar a Ponte de D. Luís I. Quem vive em Gaia pode chegar ao centro do Porto em alguns minutos. É a primeira vez que isso acontece. Os órgãos de comunicação não passaram essa mensagem. E não vejo por que é que o Governo PS não valoriza este feito. O resvalar dos dinheiros é uma coisa política. Ninguém fala que o metro é o promotor da requalificação urbana.
Há a ideia de que obras desnecessáriasforam feitas à boleia do metro. E o discurso de Mário Lino, ministro das Obras Públicas e dos Transportes, sobre a viabilidade financeira do projecto parece estar ligado a isso.
Mas isto é um discurso político. Há um contrato, feito durante a própria gestão socialista, que diz que 25 por cento do orçamento deve ser aplicado na requalificação urbana. Há uma ideia míope de que o metro são só dois carris. Só que,para instalar os carris, é preciso mudar tudo, casa a casa. E foi isso que se fez. Isto é um golpe político. Quando as pessoas criticam o metro da Boavista, esquecem que esse projecto é do PS. O metro na avenida não foi inventado por Rui Rio, mas sim por Fernando Gomes.
Houve, contudo, a estranha coincidência das obras na Avenida da Boavista com o Grande Prémio Histórico...
Não se mudou nada na Boavista para fazer o circuito de automóveis. É demagógico dizer que se gastou muito dinheiro para fazer uma prova de carros. A avenida principal do Porto foi requalificada e está preparada para receber o metro. Tem árvores, está com bons passeios, boa iluminação e bom alcatrão. Toda a gente diz mal, mas há uma covardia em não indicar uma solução viável. As pessoas têm de perceber que o metro da Boavista não é para servir as pessoas que moram na Boavista. O metro é para fazer fluir as pessoas que chegam da periferia à Senhora da Hora. Antes de estar completo, o metro já não dá vazão aos passageiros. Mas depois as pessoas vêm dizer que o metro ali não faz sentido porque os ricos não entram nas carruagens. Ainda bem. Porque, se entrarem, as composições já estão entupidas. Nunca vi um desenho de uma alternativa viável da Senhora da Hora e o centro. Se isto é uma estupidez, sugiram algo melhor.
Gasta mais tempo com as politiquices à volta do projecto do que propriamente com a arquitectura?
Eu só trabalho realmente ao sábado e ao domingo. A semana inteira é para os papéis, as reuniões, os dinheiros. Isso também acontece lá fora. Não gosto de dizer que tudo o que é nosso é mau e dos outros é bom. Mas é preciso dizer que as regras no estrangeiro são mais claras. E assim posso dizer se aceito ou não. Aqui as coisas são turvas. E isso é desgastante. Mas a verdade é que prefiro trabalhar aqui.
Explique melhor o que é preciso mudar.
Os políticos têm de parar de dizer “nim”. Ou sim ou não. Não sabem dizer se querem um prédio de 10 ou de 20 pisos. Um projecto pressupõe várias fases, mas a primeira delas é o programa preliminar – ou seja, determinar exactamente aquilo que o cliente quer. Os políticos dizem que querem um museu e mais nada. Não especificam se é para isto ou para aquilo.
Quais são as consequências desse vazio programático?
O desgaste. Em Portugal, trabalha-se sempre no limite. Refazem-se as coisas várias vezes. Os projectos são entregues na véspera. E, quando as coisas correm mal, a culpa é do arquitecto. Não há um político que diga isto ficou assim porque eu não soube dizer o que queria. Que assuma a culpa. Dizem que, afinal, queriam um museu para pintura e não para escultura. Há uma cultura covarde na política.