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May 3rd, 2006, 07:29 PM
O perigo circula por aqui
As 15 linhas que sofrem mais assaltos na Cidade
BRUNO TAVARES e
JOSÉ DACAUAZILIQUÁ
Por segurança, o motorista do ônibus pára e pede aos passageiros que desçam cinco paradas antes do ponto final. Feito isso, o cobrador muda o letreiro da posição "Jardim da Conquista" para "Reservado" e apaga todas as luzes. O coletivo segue assim até o seu destino, um cruzamento deserto e mal-iluminado do Jardim Iguatemi, extremo Leste da Capital. A tática, adotada nos últimos meses, é uma das muitas utilizadas pelos funcionários das 15 linhas mais assaltadas da Cidade.
A pedido do JT, o Sindicato dos Motoristas e Cobradores mapeou os itinerários mais visados pelos ladrões. Embora os alvos preferenciais sejam os ônibus, passageiros tornaram-se vítimas indiretas dos criminosos. Se há pouco dinheiro no caixa, eles promovem arrastões entre os usuários, levando celulares e carteiras. Existe ainda o risco de ocorrer um tiroteio e alguém ser atingido por uma bala perdida.
Mas o que realmente afeta os passageiros dessas 15 linhas é a outra forma encontrada pelos funcionários de se prevenir dos assaltos. Ao se aproximar das paradas mais perigosas, o motorista faz uma avaliação visual de quem está no ponto. Se houver alguém suspeito, o coletivo ignora o sinal dos demais e segue viagem. "Sofremos mais à noite e nos finais de semana, quando o intervalo dos ônibus é maior e os pontos têm menos passageiros", comenta o vendedor Ricardo Gomes, passageiro da linha 8594 (Praça Ramos-Cidade D'Abril).
Os funcionários que fazem esse itinerário dizem que o pior trecho da viagem é o da Avenida Raimundo Pereira de Magalhães, no Cantagalo, Zona Oeste. Depois das 21h, eles evitam essas paradas. "Quando alguém vai descer, paramos antes do ponto. Se ninguém der sinal, passamos reto", conta um motorista da Viação Santa Brígida.
Ao perceberam a estratégia, os criminosos começaram a embarcar nas paradas mais próximas do Centro. Na semana passada, segundo relato de um cobrador da linha 8548 (Praça do Correio-Jardim dos Cunhas), quatro homens subiram no ponto em frente ao Shopping West Plaza e só anunciaram o assalto na Avenida Deputado Cantídio Sampaio, o ponto crítico da linha.
Mas de acordo com Geraldo Diniz, diretor jurídico do sindicato, o extremo da Zona Leste é hoje a região mais problemática. A maioria dos assaltos acontece no Terminal Metalúrgicos, em Cidade Tiradentes. O caso mais recente ocorreu na madrugada de domingo, com um veículo da Viação Himalaia, que faz a linha 3781 (Cidade Tiradentes-Metrô Penha). O ladrão embarcou pouco antes do ponto final, anunciou o assalto e levou R$ 158.
"Já tivemos casos em que os bandidos chegaram ao ponto final à noite e roubaram cinco carros (coletivos) de uma só vez", relata um cobrador da Viação Himalaia. "Eles estouram até os cofres."
As quadrilhas sabem o momento certo de atacar. No sentido Centro/bairro, os ladrões costumam roubar os cobradores. No caminho inverso, a ação é direcionada aos passageiros, pois há pouco dinheiro na gaveta. Para evitar que sejam surpreendidos pela polícia, os bandidos preferem agir à noite.
Bilhete único diminui os roubos
Crédito eletrônico reduz dinheiro circulante nos ônibus e derruba crimes
Desde a adoção do bilhete único, em maio de 2004, o número de assaltos a ônibus da Capital caiu drasticamente. Só no mês de maio de 2003, segundo estatística apresentada pela SPTrans - a empresa que administra do sistema de transporte coletivo do Município -, foram registrados 1.230 casos. No mesmo período de 2005, houve um total de 368 assaltos - uma queda de quase 70%.
Como a cobrança da tarifa passou a ser feita por meio de créditos eletrônicos, o volume de dinheiro nos caixas dos ônibus diminuiu, fazendo com que os assaltos a coletivos se tornassem menos atraentes para os criminosos.
A SPTrans lembra que, em caso de roubo ou perda do cartão magnético, os passageiros podem solicitar uma segunda via e reaver os créditos perdidos.
A Secretaria Municipal dos Transportes (SMT), pasta a qual está subordinada a SPTrans, não confirmou a relação das linhas mais assaltadas apresentada pelo Sindicato dos Motoristas e Cobradores ao JT, mas prometeu que realizará um levantamento sobre o problema apresentado na reportagem.
Para o sindicato patronal (SPUrbanuss), os assaltos a coletivos são um problema de segurança pública. Ainda de acordo com a entidade que representa as empresas, sempre que ocorrem assaltos aos cobradores as viações comunicam as autoridades policiais e a SPTrans.
Embora também não confirmem quais as linhas mais visadas pelos criminosos, as empresas do setor admitem que estudam soluções para coibir os assaltos nessas e em outras linhas da Cidade.
No braço, a marca da violência
Motorista foi baleado há quatro anos na Zona Leste e, depois, sofreu outros três assaltos
O motorista Alberto (nome fictício) carrega no braço esquerdo as marcas de um assalto sofrido há 4 anos em uma linha de ônibus da Zona Leste da Cidade. Para forçar o cobrador a entregar o dinheiro do caixa, um dos criminosos ordenou ao comparsa que atirasse em Alberto. "O cara não teve dúvida: puxou o gatilho e disparou sem dó", lembra o motorista, que hoje trabalha em um dos itinerários apontados pelo Sindicato dos Motoristas e Cobradores como um dos mais perigosos da Cidade.
O projétil atravessou o braço de Alberto. Depois disso, ele ainda foi vítima de outros três assaltos. "Na rua a gente está sujeito a tudo. É preciso ter jogo de cintura para escapar dos bandidos", comenta. O motorista admite que, à noite, evita parar nos pontos habitualmente perigosos. Sempre que avista um suspeito - geralmente rapazes jovens, com idades entre 15 e 20 anos, vestindo jaqueta e usando boné ou touca -, ele ignora a parada.
"Sei que estou prejudicando pessoas honestas, que estão indo trabalhar ou voltando para a casa. Mas é a única forma de evitar assaltos", argumenta Alberto. Os motoristas flagrados desrespeitando a solicitação de parada dos passageiros ficam sujeitos a punições por parte das empresas. As viações também podem ser multadas pela SPTrans, a empresa que administra o transporte público da Capital.
Com medo de serem baleados durante os assaltos, motoristas resolveram desligar o sistema conhecido como "anjo da guarda", instalado na maioria dos veículos novos. O dispositivo evita que os motoristas circulem com as portas abertas mas, com isso, desrespeitam o principal mandamento dos ladrões. "Depois de anunciarem o assalto, eles mandam a gente circular bem devagar e com as portas abertas. Mas, com o 'anjo da guarda', isso é impossível", diz Alberto. "Só que ninguém vai explicar isso ao bandido, certo? O jeito foi desligar o sistema", completa o motorista.
As 15 linhas que sofrem mais assaltos na Cidade
BRUNO TAVARES e
JOSÉ DACAUAZILIQUÁ
Por segurança, o motorista do ônibus pára e pede aos passageiros que desçam cinco paradas antes do ponto final. Feito isso, o cobrador muda o letreiro da posição "Jardim da Conquista" para "Reservado" e apaga todas as luzes. O coletivo segue assim até o seu destino, um cruzamento deserto e mal-iluminado do Jardim Iguatemi, extremo Leste da Capital. A tática, adotada nos últimos meses, é uma das muitas utilizadas pelos funcionários das 15 linhas mais assaltadas da Cidade.
A pedido do JT, o Sindicato dos Motoristas e Cobradores mapeou os itinerários mais visados pelos ladrões. Embora os alvos preferenciais sejam os ônibus, passageiros tornaram-se vítimas indiretas dos criminosos. Se há pouco dinheiro no caixa, eles promovem arrastões entre os usuários, levando celulares e carteiras. Existe ainda o risco de ocorrer um tiroteio e alguém ser atingido por uma bala perdida.
Mas o que realmente afeta os passageiros dessas 15 linhas é a outra forma encontrada pelos funcionários de se prevenir dos assaltos. Ao se aproximar das paradas mais perigosas, o motorista faz uma avaliação visual de quem está no ponto. Se houver alguém suspeito, o coletivo ignora o sinal dos demais e segue viagem. "Sofremos mais à noite e nos finais de semana, quando o intervalo dos ônibus é maior e os pontos têm menos passageiros", comenta o vendedor Ricardo Gomes, passageiro da linha 8594 (Praça Ramos-Cidade D'Abril).
Os funcionários que fazem esse itinerário dizem que o pior trecho da viagem é o da Avenida Raimundo Pereira de Magalhães, no Cantagalo, Zona Oeste. Depois das 21h, eles evitam essas paradas. "Quando alguém vai descer, paramos antes do ponto. Se ninguém der sinal, passamos reto", conta um motorista da Viação Santa Brígida.
Ao perceberam a estratégia, os criminosos começaram a embarcar nas paradas mais próximas do Centro. Na semana passada, segundo relato de um cobrador da linha 8548 (Praça do Correio-Jardim dos Cunhas), quatro homens subiram no ponto em frente ao Shopping West Plaza e só anunciaram o assalto na Avenida Deputado Cantídio Sampaio, o ponto crítico da linha.
Mas de acordo com Geraldo Diniz, diretor jurídico do sindicato, o extremo da Zona Leste é hoje a região mais problemática. A maioria dos assaltos acontece no Terminal Metalúrgicos, em Cidade Tiradentes. O caso mais recente ocorreu na madrugada de domingo, com um veículo da Viação Himalaia, que faz a linha 3781 (Cidade Tiradentes-Metrô Penha). O ladrão embarcou pouco antes do ponto final, anunciou o assalto e levou R$ 158.
"Já tivemos casos em que os bandidos chegaram ao ponto final à noite e roubaram cinco carros (coletivos) de uma só vez", relata um cobrador da Viação Himalaia. "Eles estouram até os cofres."
As quadrilhas sabem o momento certo de atacar. No sentido Centro/bairro, os ladrões costumam roubar os cobradores. No caminho inverso, a ação é direcionada aos passageiros, pois há pouco dinheiro na gaveta. Para evitar que sejam surpreendidos pela polícia, os bandidos preferem agir à noite.
Bilhete único diminui os roubos
Crédito eletrônico reduz dinheiro circulante nos ônibus e derruba crimes
Desde a adoção do bilhete único, em maio de 2004, o número de assaltos a ônibus da Capital caiu drasticamente. Só no mês de maio de 2003, segundo estatística apresentada pela SPTrans - a empresa que administra do sistema de transporte coletivo do Município -, foram registrados 1.230 casos. No mesmo período de 2005, houve um total de 368 assaltos - uma queda de quase 70%.
Como a cobrança da tarifa passou a ser feita por meio de créditos eletrônicos, o volume de dinheiro nos caixas dos ônibus diminuiu, fazendo com que os assaltos a coletivos se tornassem menos atraentes para os criminosos.
A SPTrans lembra que, em caso de roubo ou perda do cartão magnético, os passageiros podem solicitar uma segunda via e reaver os créditos perdidos.
A Secretaria Municipal dos Transportes (SMT), pasta a qual está subordinada a SPTrans, não confirmou a relação das linhas mais assaltadas apresentada pelo Sindicato dos Motoristas e Cobradores ao JT, mas prometeu que realizará um levantamento sobre o problema apresentado na reportagem.
Para o sindicato patronal (SPUrbanuss), os assaltos a coletivos são um problema de segurança pública. Ainda de acordo com a entidade que representa as empresas, sempre que ocorrem assaltos aos cobradores as viações comunicam as autoridades policiais e a SPTrans.
Embora também não confirmem quais as linhas mais visadas pelos criminosos, as empresas do setor admitem que estudam soluções para coibir os assaltos nessas e em outras linhas da Cidade.
No braço, a marca da violência
Motorista foi baleado há quatro anos na Zona Leste e, depois, sofreu outros três assaltos
O motorista Alberto (nome fictício) carrega no braço esquerdo as marcas de um assalto sofrido há 4 anos em uma linha de ônibus da Zona Leste da Cidade. Para forçar o cobrador a entregar o dinheiro do caixa, um dos criminosos ordenou ao comparsa que atirasse em Alberto. "O cara não teve dúvida: puxou o gatilho e disparou sem dó", lembra o motorista, que hoje trabalha em um dos itinerários apontados pelo Sindicato dos Motoristas e Cobradores como um dos mais perigosos da Cidade.
O projétil atravessou o braço de Alberto. Depois disso, ele ainda foi vítima de outros três assaltos. "Na rua a gente está sujeito a tudo. É preciso ter jogo de cintura para escapar dos bandidos", comenta. O motorista admite que, à noite, evita parar nos pontos habitualmente perigosos. Sempre que avista um suspeito - geralmente rapazes jovens, com idades entre 15 e 20 anos, vestindo jaqueta e usando boné ou touca -, ele ignora a parada.
"Sei que estou prejudicando pessoas honestas, que estão indo trabalhar ou voltando para a casa. Mas é a única forma de evitar assaltos", argumenta Alberto. Os motoristas flagrados desrespeitando a solicitação de parada dos passageiros ficam sujeitos a punições por parte das empresas. As viações também podem ser multadas pela SPTrans, a empresa que administra o transporte público da Capital.
Com medo de serem baleados durante os assaltos, motoristas resolveram desligar o sistema conhecido como "anjo da guarda", instalado na maioria dos veículos novos. O dispositivo evita que os motoristas circulem com as portas abertas mas, com isso, desrespeitam o principal mandamento dos ladrões. "Depois de anunciarem o assalto, eles mandam a gente circular bem devagar e com as portas abertas. Mas, com o 'anjo da guarda', isso é impossível", diz Alberto. "Só que ninguém vai explicar isso ao bandido, certo? O jeito foi desligar o sistema", completa o motorista.