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June 11th, 2006, 03:45 PM
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Estação Sé do metrô de SP lotada no sentido Itaquera, às 18h30 da última terça
Acréscimo de 200 mil passageiros por dia supera a expectativa projetada; técnicos apontam vantagens e desvantagens
Companhia já prevê saltar da 5ª para a 3ª posição entre os sistemas mais ocupados do mundo; linha 3-vermelha saturada é preocupação
ALENCAR IZIDORO
DA REPORTAGEM LOCAL
Na estação Anhangabaú do metrô, Daniela Romão, 29, espera a passagem de até quatro composições superlotadas para conseguir se encaixar -com bastante aperto- na próxima.
Na estação Sé, Fernanda Berton, 30, fica atordoada. "A gente é arremessada para fora. É preciso ser forte e segurar bem", diz, em relação à multidão que sobe, desce e leva todo mundo que estiver na frente.
As amigas são usuárias da linha 3-vermelha do metrô de São Paulo, antiga leste-oeste, que liga as estações Barra Funda e Corinthians-Itaquera. Elas sentem na pele a superlotação dentro dos vagões, agravada nos primeiros meses deste ano.
Só em maio foram transportados 207 mil passageiros extras a cada dia em relação ao mesmo período de 2005. É um número próximo da população de São Carlos (a 231 km de SP).
Dentre as explicações para a alta expressiva da demanda, a principal é a integração do bilhete único dos ônibus na rede sobre trilhos, com uma tarifa de R$ 3, iniciada de forma parcial em dezembro e concluída no metrô paulista no mês passado.
Os técnicos da empresa esperavam que esse benefício -um desconto de R$ 1,10 em relação aos preços individuais-, quando já estivesse consolidado, levaria a um aumento de 4,7% na quantidade total de usuários.
Mas, embora a integração do bilhete não seja a única razão (a situação da economia também influencia), a alta de 10,05% em abril e 8,3% em maio superou de longe a previsão inicial.
A principal preocupação se dá na linha 3-vermelha, saturada há alguns anos e com um intervalo entre os trens que já está praticamente no limite.
Somente ela ganhou 70 mil usuários adicionais por dia. Nos horários mais apertados, seus vagões têm mais de oito passageiros por m2 -contra um limite considerado "suportável" de até seis por m2.
"De tão apertado já fiquei preso dentro do vagão, sem conseguir descer na estação", reclama Claudio Quadrini, 40.
3º do mundo
O Metrô de São Paulo, em 2006, deve saltar da quinta para a terceira posição no mundo entre os sistemas sobre trilhos com a maior proporção de passageiros transportados em relação ao tamanho da rede, diz Renato Viegas, diretor de planejamento e expansão dos Transportes Metropolitanos.
Ficará atrás de Moscou e de Tóquio, onde guardas espremem os passageiros com um bastão para que a porta feche.
A situação da rede paulista entre as mais ocupadas é influenciada por seu tamanho -são só 60 km, contra mais de 300 km em Londres, Paris ou Nova York, por exemplo.
Mas a média de São Paulo também é diluída pela linha 5-lilás (Capão Redondo-Largo 13), ainda considerada ociosa, com baixa ocupação. Já as outras -principalmente a 1 e a 3 - têm alto grau de uso.
Tendência
O crescimento da quantidade de passageiros se deu conforme a entrada das linhas no bilhete integrado. A tarifa de R$ 3 começou pela linha 2-verde, no final de dezembro. Em abril, atingiu todas as estações da superlotada linha 3-vermelha.
Em janeiro, a demanda subiu 1,69% em relação ao mesmo mês de 2005, em fevereiro, 4,17%, em março, 6,53%, em abril, 10,05%, em maio, 8,3%.
A tendência prossegue nos próximos meses porque a adesão ao bilhete ainda crescerá.
De março a maio, houve um salto de 170 mil para 450 mil na quantidade de passageiros que, diariamente, pagam a passagem com bilhete único -dos quais 77% fazem integração com os ônibus, por R$ 3. "Ainda crescerá, mas num ritmo menor do que até agora", avalia Frederico Bussinger, secretário municipal dos Transportes.
O crescimento expressivo na demanda de passageiros tem vantagens e desvantagens citadas por especialistas do setor.
O principal ponto negativo é que os passageiros viajam mais desconfortáveis e a imagem do metrô, que tem a aprovação de 90% dos usuários, tende a cair. Essa situação também eleva os riscos de problemas na operação e inclusive de acidentes.
O lado positivo é que a alta da demanda indica uma melhoria da mobilidade da população e que mais gente está usufruindo do investimento público -embora com menos qualidade.
Esse aspecto se destaca principalmente fora dos horários de pico e em linhas como a 5-lilás, que reduziu sua ociosidade com uma alta de 23% do total de usuários no mês passado.
Passageiros buscarão alternativas por conta própria, afirma técnico do Estado
DA REPORTAGEM LOCAL
Renato Viegas, diretor de planejamento e expansão da Secretaria dos Transportes Metropolitanos, afirma acreditar que haverá um "ajuste natural" da demanda na linha 3-vermelha do metrô de São Paulo.
"Há um limite físico em que os próprios passageiros buscam outras alternativas por conta própria", afirma Viegas, para quem a população migrará para os trens e para os ônibus quando achar que as filas e a superlotação na rede metroviária não valem mais a pena.
"Por enquanto ainda dá para absorver. Vamos ver como a demanda se comporta nos próximos meses", diz ele, ressaltando que os problemas de desconforto estão concentrados nos horários de pico da linha 3-vermelha (Barra Funda-Corinthians-Itaquera) e um pouco na 1-azul (Jabaquara-Tucuruvi). No restante, a alta dos passageiros é tida como positiva.
A superlotação da linha 3-vermelha é a que mais preocupa porque não há soluções simples no curto prazo. O intervalo entre os trens, próximo de 90 segundos, é um dos menores do mundo e, até por motivos de segurança, não tem como sofrer alguma redução significativa.
Uma opção que trouxe algum alívio nos anos 90 foi a criação do Expresso Leste, linha de trem que tem parte do trajeto semelhante ao da linha 3.
O prolongamento do futuro Fura-Fila -rebatizado de Expresso Cidade Tiradentes- até a zona leste também é citado como uma alternativa, mas que não fica pronta antes de 2008.
A solução definitiva é a ampliação da rede do metrô, com a realização de projetos existentes -como a extensão da linha 2-verde ao Tatuapé e da linha 5-lilás até a Chácara Klabin.
Há técnicos que chegam a defender a redução do desconto da tarifa integrada de R$ 3 para controlar a demanda.
Analistas temem perda de qualidade, mas celebram uso de linhas "mortas"
DA REPORTAGEM LOCAL
Especialistas citam aspectos positivos e negativos do crescimento da demanda do metrô, mas defendem a integração do bilhete único e cobram a expansão da rede sobre trilhos.
O principal problema citado é a superlotação e as situações de desconforto -até mesmo de assédio sexual nos vagões.
"A qualidade é um paradigma do metrô. O pânico dos metroviários sempre foi a queda no nível de avaliação dos usuários e da imagem", afirma Arnaldo Luís dos Santos Pereira, que é especialista em transporte.
Com a imagem do metrô afetada, a população fica mais descrente com as opções de transporte coletivo, algo que estimula a utilização dos carros.
"Para a qualidade não cair, é preciso investir em mais linhas", defende Manoel da Silva Ferreira Filho, que é presidente da Associação dos Engenheiros e Arquitetos do Metrô.
O principal fator positivo citado é a redução da ociosidade em algumas linhas e horários.
"Em termos de conforto é melhor que não haja tanta lotação. Mas foi feito um investimento público que está sendo bastante utilizado, algo que é muito bom", diz Peter Alouche, engenheiro e consultor em transporte que trabalhou 35 anos no Metrô e deixou a companhia no mês passado.
Para ele, a superlotação dos vagões por conta do bilhete único integrado "é um desconforto, mas não é tão dramático diante do benefício" -tarifa de R$ 3, desconto de R$ 1,10.
"É uma tristeza ver um metrô vazio. Chorava quando via a linha 5", diz Alouche, que defende um melhor planejamento da viagem pelos usuários. "Muitas vezes é só esperar passar um ou dois trens. Ou então postergar ou adiantar a saída de casa em meia hora. Isso também acontece em outros lugares do mundo", afirma.
Estação Sé do metrô de SP lotada no sentido Itaquera, às 18h30 da última terça
Acréscimo de 200 mil passageiros por dia supera a expectativa projetada; técnicos apontam vantagens e desvantagens
Companhia já prevê saltar da 5ª para a 3ª posição entre os sistemas mais ocupados do mundo; linha 3-vermelha saturada é preocupação
ALENCAR IZIDORO
DA REPORTAGEM LOCAL
Na estação Anhangabaú do metrô, Daniela Romão, 29, espera a passagem de até quatro composições superlotadas para conseguir se encaixar -com bastante aperto- na próxima.
Na estação Sé, Fernanda Berton, 30, fica atordoada. "A gente é arremessada para fora. É preciso ser forte e segurar bem", diz, em relação à multidão que sobe, desce e leva todo mundo que estiver na frente.
As amigas são usuárias da linha 3-vermelha do metrô de São Paulo, antiga leste-oeste, que liga as estações Barra Funda e Corinthians-Itaquera. Elas sentem na pele a superlotação dentro dos vagões, agravada nos primeiros meses deste ano.
Só em maio foram transportados 207 mil passageiros extras a cada dia em relação ao mesmo período de 2005. É um número próximo da população de São Carlos (a 231 km de SP).
Dentre as explicações para a alta expressiva da demanda, a principal é a integração do bilhete único dos ônibus na rede sobre trilhos, com uma tarifa de R$ 3, iniciada de forma parcial em dezembro e concluída no metrô paulista no mês passado.
Os técnicos da empresa esperavam que esse benefício -um desconto de R$ 1,10 em relação aos preços individuais-, quando já estivesse consolidado, levaria a um aumento de 4,7% na quantidade total de usuários.
Mas, embora a integração do bilhete não seja a única razão (a situação da economia também influencia), a alta de 10,05% em abril e 8,3% em maio superou de longe a previsão inicial.
A principal preocupação se dá na linha 3-vermelha, saturada há alguns anos e com um intervalo entre os trens que já está praticamente no limite.
Somente ela ganhou 70 mil usuários adicionais por dia. Nos horários mais apertados, seus vagões têm mais de oito passageiros por m2 -contra um limite considerado "suportável" de até seis por m2.
"De tão apertado já fiquei preso dentro do vagão, sem conseguir descer na estação", reclama Claudio Quadrini, 40.
3º do mundo
O Metrô de São Paulo, em 2006, deve saltar da quinta para a terceira posição no mundo entre os sistemas sobre trilhos com a maior proporção de passageiros transportados em relação ao tamanho da rede, diz Renato Viegas, diretor de planejamento e expansão dos Transportes Metropolitanos.
Ficará atrás de Moscou e de Tóquio, onde guardas espremem os passageiros com um bastão para que a porta feche.
A situação da rede paulista entre as mais ocupadas é influenciada por seu tamanho -são só 60 km, contra mais de 300 km em Londres, Paris ou Nova York, por exemplo.
Mas a média de São Paulo também é diluída pela linha 5-lilás (Capão Redondo-Largo 13), ainda considerada ociosa, com baixa ocupação. Já as outras -principalmente a 1 e a 3 - têm alto grau de uso.
Tendência
O crescimento da quantidade de passageiros se deu conforme a entrada das linhas no bilhete integrado. A tarifa de R$ 3 começou pela linha 2-verde, no final de dezembro. Em abril, atingiu todas as estações da superlotada linha 3-vermelha.
Em janeiro, a demanda subiu 1,69% em relação ao mesmo mês de 2005, em fevereiro, 4,17%, em março, 6,53%, em abril, 10,05%, em maio, 8,3%.
A tendência prossegue nos próximos meses porque a adesão ao bilhete ainda crescerá.
De março a maio, houve um salto de 170 mil para 450 mil na quantidade de passageiros que, diariamente, pagam a passagem com bilhete único -dos quais 77% fazem integração com os ônibus, por R$ 3. "Ainda crescerá, mas num ritmo menor do que até agora", avalia Frederico Bussinger, secretário municipal dos Transportes.
O crescimento expressivo na demanda de passageiros tem vantagens e desvantagens citadas por especialistas do setor.
O principal ponto negativo é que os passageiros viajam mais desconfortáveis e a imagem do metrô, que tem a aprovação de 90% dos usuários, tende a cair. Essa situação também eleva os riscos de problemas na operação e inclusive de acidentes.
O lado positivo é que a alta da demanda indica uma melhoria da mobilidade da população e que mais gente está usufruindo do investimento público -embora com menos qualidade.
Esse aspecto se destaca principalmente fora dos horários de pico e em linhas como a 5-lilás, que reduziu sua ociosidade com uma alta de 23% do total de usuários no mês passado.
Passageiros buscarão alternativas por conta própria, afirma técnico do Estado
DA REPORTAGEM LOCAL
Renato Viegas, diretor de planejamento e expansão da Secretaria dos Transportes Metropolitanos, afirma acreditar que haverá um "ajuste natural" da demanda na linha 3-vermelha do metrô de São Paulo.
"Há um limite físico em que os próprios passageiros buscam outras alternativas por conta própria", afirma Viegas, para quem a população migrará para os trens e para os ônibus quando achar que as filas e a superlotação na rede metroviária não valem mais a pena.
"Por enquanto ainda dá para absorver. Vamos ver como a demanda se comporta nos próximos meses", diz ele, ressaltando que os problemas de desconforto estão concentrados nos horários de pico da linha 3-vermelha (Barra Funda-Corinthians-Itaquera) e um pouco na 1-azul (Jabaquara-Tucuruvi). No restante, a alta dos passageiros é tida como positiva.
A superlotação da linha 3-vermelha é a que mais preocupa porque não há soluções simples no curto prazo. O intervalo entre os trens, próximo de 90 segundos, é um dos menores do mundo e, até por motivos de segurança, não tem como sofrer alguma redução significativa.
Uma opção que trouxe algum alívio nos anos 90 foi a criação do Expresso Leste, linha de trem que tem parte do trajeto semelhante ao da linha 3.
O prolongamento do futuro Fura-Fila -rebatizado de Expresso Cidade Tiradentes- até a zona leste também é citado como uma alternativa, mas que não fica pronta antes de 2008.
A solução definitiva é a ampliação da rede do metrô, com a realização de projetos existentes -como a extensão da linha 2-verde ao Tatuapé e da linha 5-lilás até a Chácara Klabin.
Há técnicos que chegam a defender a redução do desconto da tarifa integrada de R$ 3 para controlar a demanda.
Analistas temem perda de qualidade, mas celebram uso de linhas "mortas"
DA REPORTAGEM LOCAL
Especialistas citam aspectos positivos e negativos do crescimento da demanda do metrô, mas defendem a integração do bilhete único e cobram a expansão da rede sobre trilhos.
O principal problema citado é a superlotação e as situações de desconforto -até mesmo de assédio sexual nos vagões.
"A qualidade é um paradigma do metrô. O pânico dos metroviários sempre foi a queda no nível de avaliação dos usuários e da imagem", afirma Arnaldo Luís dos Santos Pereira, que é especialista em transporte.
Com a imagem do metrô afetada, a população fica mais descrente com as opções de transporte coletivo, algo que estimula a utilização dos carros.
"Para a qualidade não cair, é preciso investir em mais linhas", defende Manoel da Silva Ferreira Filho, que é presidente da Associação dos Engenheiros e Arquitetos do Metrô.
O principal fator positivo citado é a redução da ociosidade em algumas linhas e horários.
"Em termos de conforto é melhor que não haja tanta lotação. Mas foi feito um investimento público que está sendo bastante utilizado, algo que é muito bom", diz Peter Alouche, engenheiro e consultor em transporte que trabalhou 35 anos no Metrô e deixou a companhia no mês passado.
Para ele, a superlotação dos vagões por conta do bilhete único integrado "é um desconforto, mas não é tão dramático diante do benefício" -tarifa de R$ 3, desconto de R$ 1,10.
"É uma tristeza ver um metrô vazio. Chorava quando via a linha 5", diz Alouche, que defende um melhor planejamento da viagem pelos usuários. "Muitas vezes é só esperar passar um ou dois trens. Ou então postergar ou adiantar a saída de casa em meia hora. Isso também acontece em outros lugares do mundo", afirma.