View Full Version : O Funchal "luxuoso" de Ventura Terra


MisterBlue
July 24th, 2006, 04:24 PM
in Diário de Noticias da Madeira, Suplemento Revista , 23 Julho 2006 por Teresa Florença

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O Funchal conheceu no início do século XX um dos primeiros planos de urbanismo. Foi concebido pelo arquitecto Ventura Terra, que pretendeu desafogar a cidade através da construção de avenidas, ruas e praças.

No início do século XX, o Funchal conheceu um dos primeiros planos de urbanismo. Concebido entre 1913-15 pelo arquitecto Miguel Ventura Terra, foi considerado "luxuoso" para a época pelas inovações que projectava e pelos custos que representava a sua execução. O seu maior promotor foi Fernão de Ornelas, enquanto presidente da Câmara do Funchal, cargo que ocupou entre 1935-1946.

«O documento ditou as directrizes do desenvolvimento urbanístico da cidade. Serviu de base para grande parte das obras realizadas até 1950. Sem ele não se consegue perceber muito do que está construído e o modo como se desenvolveu», diz a propósito Teresa Vasconcelos, autora de uma tese de Mestrado intitulada "O Plano de Ventura Terra e a modernização da cidade do Funchal - Primeira metade do século XX", recentemente apresentada na Universidade da Madeira e orientada pelo professor Rui Carita.

Os primeiros passos no sentido da concepção do plano são dados pela Câmara do Funchal em 1912, perante a necessidade de modernização do espaço urbano.
No início do século XX, conforme explica Teresa Vasconcelos o turismo era já uma base importante da economia madeirense, mas a cidade não possuía infra-estruturas que a projectassem para um turismo internacional, sobretudo o terapêutico que começou a ter algum desenvolvimento desde finais do século XIX.

«Considerava-se a Madeira uma estância de veraneio, sobretudo, pela qualidade do seu clima propício à cura das doenças pulmonares. O crescente número de visitantes estrangeiros, por vezes acompanhados de largas comitivas, conduziu, já no séc. XIX, à necessidade de repensar a cidade, onde prevaleciam ainda muitas características de um burgo medieval. Não havia saneamento básico, os esgotos desaguavam nas ribeiras, as ruas eram estreitas, tortuosas, mal calcetadas».

Perante este panorama, as entidades locais convidam Ventura Terra a vir à Madeira em Setembro de 1912. A escolha deste arquitecto para modernizar o Funchal não é alheia ao seu percurso académico e ao seu currículo que lhe conferia competência, salienta a investigadora.

Natural do Minho, onde nasceu em 1866, Ventura Terra estudou na Academia de Belas Artes do Porto e no início do século XX foi para Paris, como bolseiro do Governo. Ao regressar a Lisboa, vinte anos depois, ganha o concurso para a reconstrução do Convento de São Bento, actual Assembleia da República, o que o colocou entre os arquitectos mais conceituados da época.

Por outro lado - diz Teresa Vasconcelos - tudo indica existirem relações entre Ventura Terra e os deputados pela Madeira, Manuel Arriaga e Francisco Correia Herédia, visconde da Ribeira Brava, que o tinha conhecido em Paris.

«No dia anterior à chegada de Ventura Terra, a 12 de Fevereiro de 1913, tomou posse a nova comissão da Junta Geral do Funchal. Do novo elenco fazia parte Francisco Correia Herédia, que propôs, na primeira sessão, que se mandasse construir novos arruamentos na ilha, destacando-se do seu programa a construção de uma avenida no começo da Sé, que seguia pelo antigo passeio público, na altura Praça da República, e se prolongava em linha recta até a Ponte Monumental, precisamente um dos projectos que Ventura Terra viria a desenvolver. São várias as coincidências que demonstram a ligação», acrescenta.

A 13 de Fevereiro de 1913, Ventura Terra chega ao Funchal. Entrevistado pelo redactor principal do Heraldo da Madeira, o padre Fernando Augusto da Silva, explicou que a sua viagem à ilha se destinava a contactar com as particularidades existentes, quer nas suas belezas, quer nos seus problemas.

«Nessa altura terá mantido contactos com o eng. Adriano Augusto Trigo, então director das Obras Públicas da Madeira, de quem recebeu alguns levantamentos relativos à zona do Porto do Funchal e que inclui no plano. Quanto à cidade, comentava "ser bastante confusa, com ruas horrivelmente calcetadas, muito irregulares e acidentadas, uma cidade completamente destituída dos requisitos que faziam a formosura e a comodidade dos sistemas de viação das cidades modernas"».

Para a resolução destes problemas Ventura Terra propunha uma melhor disposição do traçado da rede viária. Um dos seus principais objectivos era desafogar a cidade, facilitar o trânsito e efectuar várias ligações através da construção de grandes praças públicas. Defendia a construção de um casino junto ao cais para servir os turistas que entravam pelo Porto. Uma ampla praça, à entrada da cidade, receberia todo o movimento e funcionaria como espaço de recepção e reunião de turistas que então desembarcavam.

O arquitecto concebe várias e amplas avenidas, das quais se destacam a Avenida Marginal, com o nº1, actual Avenida do Mar e das Comunidades Madeirenses e a Avenida de Santa Luzia. Para construção desta última, «defendia a cobertura da ribeira e os grandes passeios resultariam da largura das actuais Rua 5 de Outubro e 31 de Janeiro. O objectivo era conduzir turistas desde a Avenida Marginal até uma praça que deveria localizar-se junto à Estação do Caminho de Ferro do Monte. A intenção era canalizar os turistas para os pontos turísticos de maior interesse. O plano previa também a construção da Avenida Leste e da Avenida de Oeste, mais tarde Avenida do Infante».

De entre as várias propostas Teresa Vasconcelos destaca a ideia de construir habitações na Zona Oeste para as classes mais abastadas. «Seguia uma linha de orientação sugerida desde os primeiros tempos da colonização, quando o capitão donatário se deslocou para a zona de Santa Catarina».

Ao nível das habitações a construir alertava a edilidade para que cuidasse de contratar profissionais devidamente qualificados. Sugeria a formação de uma corporação especial, a quem caberia ditar e fiscalizar as leis e normas às quais deveriam obedecer as novas construções. «Era o esboçar de algum controle urbanístico».

Ventura Terra sabia que o plano não podia ir para a frente de imediato. «Para melhor viabilizá-lo dividiu-o em três fases. Ao primeiro traçado fez corresponder aquilo que o Funchal permitia fazer, ao segundo correspondiam ruas largas e avenidas, era a transição para a terceira proposta, uma cidade a ser construída em 50/100 anos».

As obras começam em 1912, com a construção do primeiro troço da Avenida Arriaga, mesmo antes do plano definitivo ser entregue à Câmara do Funchal, o que só viria a acontecer em 1915.

«A Câmara do Funchal aprova o anteprojecto em 1914, no entanto, o presidente da comissão administrativa votou contra o seu prosseguimento, pois considerava-o demasiado luxuoso para uma cidade como o Funchal. Quando Ventura Terra chegou à Madeira o município não dispunha de fundos para pagar a sua viagem. Quem suportou parte dos encargos foi a Junta Agrícola, responsável pelas obras públicas na Madeira».

A Primeira Guerra Mundial interrompeu as obras. O plano só foi retomado em 1922 pela Comissão da Junta Geral, que o integrou no denominado "Plano de Melhoramentos", com alterações.

Dez anos mais tarde, em 1932, a Câmara e a Junta Geral do Funchal solicitam a Carlos Ramos, «antigo aluno de Ventura Terra, considerado um dos cinco maiores arquitectos portugueses da altura, uma nova proposta que se designa por "Plano de Urbanização para o Funchal 1931-1933". Em 1932, chega à Madeira outro arquitecto. É Edmundo Tavares e durante muito tempo é o único a residir na ilha. Várias obras edificadas na cidade são da sua responsabilidade.

«Ao analisarmos a proposta de Carlos Ramos verificam-se muitas achegas ao plano de Ventura Terra, nomeadamente em relação à Avenida Oeste. A Câmara delibera que ali apenas se construiriam "chalets" ou habitações e impõe normas. Carlos Ramos pede mesmo que as casas a construir na avenida tenham um projecto assinado por um arquitecto ou engenheiro, não podia ser por um desenhador.

Hoje é ainda possível ver na Avenida do Infante um conjunto de habitações que caracterizam a arquitectura dos anos 30/40, edificadas ao gosto do "português suave". Principalmente por questões economicistas utilizava-se um modelo, que neste caso privilegia a utilização de materiais da ilha, como a cantaria cinzenta. São comuns os alpendres e
os corpos torreados. É nessa altura que é construído o dispensário do Campo da Barca que segue também um modelo tipo. É idêntico a outros edificados no país».

Mas é sobretudo com a gestão de Fernão de Ornelas que o plano avança. A Avenida Marginal foi construída sem grandes alterações e a Avenida Oeste prolonga-se até à Ponte Monumental.

«Toda a baixa está em obras. Fernão de Ornelas tenta implementar a construção de habitações na Zona Oeste o mais rapidamente possível. Após a abertura do primeiro troço a edilidade deliberou que os proprietários tinham um ano para construir. Foram concedidas algumas regalias nesse sentido, nomeadamente isenções fiscais».

A ideia de tapar as ribeiras, retomada por Carlos Ramos, é abandonada em 1936 e é a partir dessa altura que é lançada a plantação das buganvílias, «uma alternativa que consideramos mais correcta e que acabou por se tornar num dos cartazes turísticos que a cidade deve proteger. Fernão de Ornelas pede aos proprietários de casas junto aos caminhos e estradas que plantem flores. Notamos uma preocupação urbanística», diz Teresa Vasconcelos.

Ventura Terra previu também uma área para instalar as repartições públicas. Situava-se no actual Edifício do Governo Regional. «A ideia é recuperada por Fernão de Ornelas que adapta a Antiga Misericórdia do Funchal a Palácio da Junta Geral. Parte da restruturação foi efectuada por Raul Lino, outro conhecido arquitecto da época, a convite da referida instituição. As obras suscitaram acesa polémica. Em causa estava o prolongamento da Avenida Zarco, a direito, até ao Largo da Igrejinha, o que acabou por se concretizar».

Fernão de Ornelas avança também com a construção, a Oeste, do Bairro da Ajuda, e a Leste com o Bairro de São Gonçalo. No caso das obras relativas à Praça do Município, refere mesmo que segue o plano de Ventura Terra.

Segundo explica Teresa Vasconcelos, a ideia principal da dissertação foi constatar de que modo e em que etapas o plano foi executado. «No geral, o que verificamos é que o avanço tem a ver com a força de Fernão de Ornelas».

A Segunda Guerra Mundial veio de algum modo interromper os trabalhos. As obras atrasaram pela falta de dinheiro, encarecimento e inexistência de materiais de construção, atrasos nos pagamentos, «um conjunto de situações que interferiram, mas que foram sendo ultrapassadas».

O plano, na perspectiva da investigadora, desenvolve uma proposta de modernização da cidade que serviu de base para o que foi efectuado posteriormente. «O que se fez depois foi esmiuçar, detalhar com planos de pormenor. Trata-se de um documento importante para o entendimento do Funchal de hoje. Naturalmente que integra também algumas propostas que tiveram que ser abandonadas. Por exemplo, projectava a ampliação da Praça da República, actual Largo da Restauração, sacrificando os baluartes da Fortaleza de São Lourenço... Esquecia a importância histórica», afirma Teresa Vasconcelos.

Bilhete de Identidade

Nome: Teresa Vasconcelos
Idade: 41 anos
Naturalidade: Santo António
Percurso académico e profissional: Licenciatura em Artes Plásticas Pintura pelo Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira, em 1990. Frequência até ao 4º ano da Licenciatura em Design / Projectação Gráfica no referido instituto. Mestrado em História e Cultura das Regiões, subordinado ao tema " O Plano de Ventura Terra e a modernização da cidade do Funchal - Primeira metade do século XX", pela Universidade da Madeira, concluído em 2006. Iniciou a sua actividade docente em 1985. Desde 2000 lecciona na Escola Básica do 2.º e 3º ciclos dos Louros. Foi recentemente colocada na Escola Secundária Jaime Moniz.



Teresa Florença

Arpels
July 24th, 2006, 05:43 PM
a ideia de tapar as ribeiras é boa mas perigosa, se vem uma chuva torrencial la vão as ribeiras galgar as margen e destruir td!!

Daniel_Portugal
July 24th, 2006, 05:49 PM
eita!! texto muito grande! :|

Barragon
July 24th, 2006, 06:09 PM
Pois as ribeiras estão sujeitas a enchentes.

De facto ainda bem que certos projectos foram abandonados, porque hoje em dia não teriamos certas partes da história... mas agora pergunto... quanto é que se perdeu?

Arpels
July 24th, 2006, 06:54 PM
perderam-se algumas coisas como o pilar de banger e as portas do mar por exemplo :yes:

JohnnyMass
July 24th, 2006, 11:44 PM
eita!! texto muito grande! :|
mas completamente pertinente e muitíssimo interessante. leste? se calhar aprendias alguma coisa nova sobre o urbanismo português.

TeKnO_Lx
July 25th, 2006, 02:09 AM
( mas isso interessa pra ke, inda se fossem discotecas ou cafés ou bares, ou TONELADAS DE TURISTAS )
:rofl:

JohnnyMass
July 25th, 2006, 02:19 AM
Ó Miguel!!!:hilarious

Arpels
July 25th, 2006, 10:46 AM
opa :hilarious