Pedrocn
June 25th, 2007, 10:52 PM
Fonte:
Folha de São Paulo
25/6/2007
Finalmente foram retomadas as obras do Rodoanel. Trata-se de uma boa notícia, mas, paradoxalmente, demonstra a letargia dos responsáveis pela infra-estrutura brasileira. Podemos afirmar isso ante a expansão tímida do PIB. Nesse sentido, é motivo de alívio o "espetáculo do crescimento" ficar restrito ao mundo virtual dos palanques. Caso contrário, seria o caos terrestre.
O Rodoanel vai oferecer tamanhos benefícios que é difícil entender por que ainda não foi concluído. A demora já transformou uma solução robusta em mais uma medida paliativa, já que, a cada ano, os resultados pretendidos pela idéia original se reduzem. O projeto consolidou-se como obra viável em 1992, mas só saiu do papel seis anos depois, com o início das obras do trecho oeste, que tem hoje 32 km em funcionamento.
Agora, com a retomada do trabalho, as autoridades pretendem entregar em 2011 o trecho sul, de 61,4 km, com uma defasagem de 19 anos em relação às informações que subsidiaram a idéia.
No total, o Rodoanel prevê 170 km de rodovia. Faltariam ainda 93,4 km, pouco mais da metade, quilometragem que a administração pública promete concluir em mais quatro anos -no que é difícil de acreditar.
Dizer quando a obra será totalmente concluída é coisa para videntes. Mas, com base na construção da primeira metade, é possível arriscar que a inauguração se dará praticamente meio século depois de seu planejamento. Algo como se Lula materializasse o sonho de Juscelino e, finalmente, concluísse a nova capital no Planalto Central no final do mandato.
Nesse caso, o descompasso temporal é mais grave por envolver uma fatia da economia em completa ebulição. Segundo o Sindicato das Transportadoras do ABC, as empresas de logística e transportes instaladas na região estão apresentando, anualmente, crescimento médio de 30% e aumento no volume de carga transportada de 20% a 25%.
Mesmo que haja adequações nas obras do Rodoanel, não é possível seguir esse ritmo. Essa conclusão, obviamente, não deve desestimular a construção do Rodoanel, já que cada quilômetro seu será importante. O trecho oeste, por exemplo, diminuiu em 30% o trânsito de veículos de carga nas marginais Tietê e Pinheiros. O trecho sul vai aliviar a Bandeirantes e diminuir em horas o trajeto de caminhões até o porto de Santos.
Esses são apenas alguns dos muitos benefícios do Rodoanel. Mas sua obra deve ser contextualizada diante das novas necessidades para não se tornar obsoleta antes de concluída. Para atualizar os projetos de infra-estrutura de transporte na região, é necessário desenvolver uma estratégia de diversificação de modais para escoamento da produção.
No Estado de São Paulo, 93% do transporte de cargas é realizado pelas rodovias, sistema que está saturado e, mesmo que continue recebendo investimentos, não atenderá às exigências crescentes de demanda.
Além disso, quando se trata de cargas, há alternativas mais interessantes, como um vagão, que suporta o equivalente a três caminhões de 35 toneladas. Trata-se de transporte mais barato, seguro e sem impactos no trânsito e no meio-ambiente. A construção do Ferroanel também é uma solução óbvia. Serão 150 km de trilhos para facilitar o escoamento de mercadorias da região mais produtiva do país.
Mais ainda, chegou o momento de encarar o enorme potencial da hidrovia Paraná-Tietê. Uma embarcação é capaz de transportar até mil contêineres por um preço infinitamente menor. É preciso, porém, tornar esse trecho fluvial eficientemente transitável e construir estrutura de embarque e desembarque intermodal.
Porém, todo esse planejamento esbarra na questão do financiamento. É preciso afastar as resistências e assumir que a solução se encontra na iniciativa privada, já que a estrutura pública não oferece poder de investimento, agilidade ou capacidade de gestão para construir a infra-estrutura que sustentará o desenvolvimento. As empresas privadas têm mais recursos e competência técnica para realizar os projetos e, em tempos de Operação Navalha, é bom lembrar que sua participação na execução das obras impede ralações promíscuas entre setor público e fornecedores.
A solução é acelerar as PPPs, pois não há contra-indicações nessas parcerias, desde que o poder público realize bons contratos e prestigie as agências reguladoras. No momento, esse é o único caminho para que bons projetos de infra-estrutura existentes saiam do papel e para impedir que iniciativas auspiciosas, como o Rodoanel, se concretizem apenas quando já estão ultrapassadas.
ANTÔNIO WROBLESKI , 54, doutor em finanças pela Fundação Getúlio Vargas, é presidente da Ryder Logística para o Brasil.
Folha de São Paulo
25/6/2007
Finalmente foram retomadas as obras do Rodoanel. Trata-se de uma boa notícia, mas, paradoxalmente, demonstra a letargia dos responsáveis pela infra-estrutura brasileira. Podemos afirmar isso ante a expansão tímida do PIB. Nesse sentido, é motivo de alívio o "espetáculo do crescimento" ficar restrito ao mundo virtual dos palanques. Caso contrário, seria o caos terrestre.
O Rodoanel vai oferecer tamanhos benefícios que é difícil entender por que ainda não foi concluído. A demora já transformou uma solução robusta em mais uma medida paliativa, já que, a cada ano, os resultados pretendidos pela idéia original se reduzem. O projeto consolidou-se como obra viável em 1992, mas só saiu do papel seis anos depois, com o início das obras do trecho oeste, que tem hoje 32 km em funcionamento.
Agora, com a retomada do trabalho, as autoridades pretendem entregar em 2011 o trecho sul, de 61,4 km, com uma defasagem de 19 anos em relação às informações que subsidiaram a idéia.
No total, o Rodoanel prevê 170 km de rodovia. Faltariam ainda 93,4 km, pouco mais da metade, quilometragem que a administração pública promete concluir em mais quatro anos -no que é difícil de acreditar.
Dizer quando a obra será totalmente concluída é coisa para videntes. Mas, com base na construção da primeira metade, é possível arriscar que a inauguração se dará praticamente meio século depois de seu planejamento. Algo como se Lula materializasse o sonho de Juscelino e, finalmente, concluísse a nova capital no Planalto Central no final do mandato.
Nesse caso, o descompasso temporal é mais grave por envolver uma fatia da economia em completa ebulição. Segundo o Sindicato das Transportadoras do ABC, as empresas de logística e transportes instaladas na região estão apresentando, anualmente, crescimento médio de 30% e aumento no volume de carga transportada de 20% a 25%.
Mesmo que haja adequações nas obras do Rodoanel, não é possível seguir esse ritmo. Essa conclusão, obviamente, não deve desestimular a construção do Rodoanel, já que cada quilômetro seu será importante. O trecho oeste, por exemplo, diminuiu em 30% o trânsito de veículos de carga nas marginais Tietê e Pinheiros. O trecho sul vai aliviar a Bandeirantes e diminuir em horas o trajeto de caminhões até o porto de Santos.
Esses são apenas alguns dos muitos benefícios do Rodoanel. Mas sua obra deve ser contextualizada diante das novas necessidades para não se tornar obsoleta antes de concluída. Para atualizar os projetos de infra-estrutura de transporte na região, é necessário desenvolver uma estratégia de diversificação de modais para escoamento da produção.
No Estado de São Paulo, 93% do transporte de cargas é realizado pelas rodovias, sistema que está saturado e, mesmo que continue recebendo investimentos, não atenderá às exigências crescentes de demanda.
Além disso, quando se trata de cargas, há alternativas mais interessantes, como um vagão, que suporta o equivalente a três caminhões de 35 toneladas. Trata-se de transporte mais barato, seguro e sem impactos no trânsito e no meio-ambiente. A construção do Ferroanel também é uma solução óbvia. Serão 150 km de trilhos para facilitar o escoamento de mercadorias da região mais produtiva do país.
Mais ainda, chegou o momento de encarar o enorme potencial da hidrovia Paraná-Tietê. Uma embarcação é capaz de transportar até mil contêineres por um preço infinitamente menor. É preciso, porém, tornar esse trecho fluvial eficientemente transitável e construir estrutura de embarque e desembarque intermodal.
Porém, todo esse planejamento esbarra na questão do financiamento. É preciso afastar as resistências e assumir que a solução se encontra na iniciativa privada, já que a estrutura pública não oferece poder de investimento, agilidade ou capacidade de gestão para construir a infra-estrutura que sustentará o desenvolvimento. As empresas privadas têm mais recursos e competência técnica para realizar os projetos e, em tempos de Operação Navalha, é bom lembrar que sua participação na execução das obras impede ralações promíscuas entre setor público e fornecedores.
A solução é acelerar as PPPs, pois não há contra-indicações nessas parcerias, desde que o poder público realize bons contratos e prestigie as agências reguladoras. No momento, esse é o único caminho para que bons projetos de infra-estrutura existentes saiam do papel e para impedir que iniciativas auspiciosas, como o Rodoanel, se concretizem apenas quando já estão ultrapassadas.
ANTÔNIO WROBLESKI , 54, doutor em finanças pela Fundação Getúlio Vargas, é presidente da Ryder Logística para o Brasil.