View Full Version : História do Urbanismo | EPUCS


urbanrecycle
January 26th, 2008, 11:29 PM
Salvador surgiu e se desenvolveu precocemente na história nacional, o que implicava numa estrutura urbana bastante antiga em relação a outras cidades brasileiras de desenvolvimento mais recente. Ao mesmo tempo, desde a virada do século, a cidade apresentava crescimento moderado, como decorrência da decadência da atividade açucareira no Estado, cuja economia passava a depender crescentemente da exploração do cacau. O crescimento populacional não era muito expressivo: de 1900 a 1940 a população passou de 206.000 para 290.000 habitantes. Diga-se de passagem que foi essa combinação de riqueza no período colonial e estagnação no período subseqüente que – aliada a fatores geográficos, de recorte do litoral e topográficos – possibilitou a relativa preservação do importante acervo arquitetônico e urbanístico do Centro Histórico. Caso tivesse ocorrido, a continuidade do crescimento econômico em ritmo acelerado no final do século passado e início deste, teria fatalmente levado à substituição das edificações históricas.
O plano do EPUCS era extremamente ambicioso, detalhado e minucioso. Tinha influências do movimento da cidade-jardim, com ênfase nos aspectos físicos do uso e ocupação do solo, mas também considerava fatores econômicos e sociais em grande detalhe. Foi elaborada uma pesquisa de campo, por amostragem, cobrindo o município de Salvador. A abrangência e o detalhamento do trabalho eram assustadores, chegando a níveis que trabalhos mais recentes, como o PLANDURB e o EUST, não se aventuraram a pretender.
omente dez anos depois, em 1959, o arrojado sistema viário proposto no plano começou a ser implantado, com a criação da SURCAP – Superintendência de Urbanização da Capital. O tempo decorrido não deve ser visto de forma muito crítica, porque se tratava de um plano de longo prazo, a ser implantado em função do crescimento da cidade. Além disso, foi necessário que a estagnação econômica baiana fosse revertida, com a reaceleração decorrente da implantação da Refinaria Landulfo Alves, em Mataripe, para que houvesse condições que possibilitassem investimentos da magnitude requerida. Embora muitas críticas possam ser formuladas sobre a forma como se deu a implantação das avenidas de vale, particularmente no que toca à apropriação da valorização do solo urbano, a solução adotada seguiu, em suas grandes linhas, as propostas desenvolvidas no plano.
O plano é pioneiro em termos de composição interdisciplinar da equipe, concebendo a cidade como algo evolutivo, enfatizando a história e a morfologia do sítio como elementos chaves para corrigir as distorções e deformações observadas no meio social e econômico.
O modelo espacial é rádio-concêntrico, cujo centro principal volta-se para a Baía de Todos os Santos e polariza a vida urbana. A cidade-capital se articula à região do Recôncavo pelos meios tradicionais de transporte (fluvial, ferroviário e rodoviário). A preocupação com os aspectos sanitários e da infra-estrutura em rede é constante, ancorada em recomendações para a distribuição dos equipamentos de saúde, educação e habitação proletária. Toma os vales como eixos principais do sistema de vias bairro-centro (vias radiais) e bairro-bairro (vias concêntricas), articulados também pelas cumeadas, dedicadas sobretudo ao transporte coletivo (bonde). Antecipa as noções de escola-parque e escola-classe e trabalha as idéias de verde-contínuo nos vales, centros cívicos de bairro, bem como a legislação de zoneamento do solo urbano com funções bem definidas. Visava montar uma Enciclopédia da Cidade.
Embora nunca publicado na íntegra, a publicação acima referida busca sistematizar as principais análises, conclusões e proposições do plano. Além disso, o álbum de fotografias sobre os trabalhos originais do EPUCS, depositados na fundação Mário Leal Ferreira - Prefeitura Municipal do Salvador, constitui também excelente fonte de informações sobre ele. O acervo original do plano encontra-se, no momento, inacessível e profundamente deteriorado.