View Full Version : A Contemporaneidade da Arquitetura | Por Ruy Ohtake


gutooo
January 27th, 2008, 09:09 PM
INDEPENDÊNCIA ENTRE A FORMA EXTERNA E O ESPAÇO INTERNO

O arquiteto dinamarquês Jorn Utzon, significativo representante da primeira geração dos arquitetos contemporâneos, os quais procuravam consolidar as tendências escultóricas na arquitetura. Utzon venceu o concurso de projeto para a Ópera de Sidney (1957), unindo de maneira inovadora duas intenções separadas: o exterior com as emblemáticas abóbadas acopladas e o espaço interno que não acompanha a forma externa. Esse conceito aplicado à linda solução plástica, abriu um dos caminhos para a arquitetura contemporânea que se confirmou a partir da década 80, com formas surpreendentes criadas pelos arquitetos que hoje compõem a nata da contemporaneidade.

A CRÍTICA E O ENSINO DA ARQUITETURA

Sem receio, considero importante tanto os críticos como os professores de arquitetura manterem estreitos contatos com as concepções contemporâneas. Tenho dúvidas sobre o chamado distanciamento histórico. Percebo que nas escolas e na crítica de arquitetura de hoje, não poucas vezes, o cultivo das emoções é colocado em segundo plano. Tornou-se mais difícil sentir do que pensar.

O BENEFÍCIO DOS GRANDES EVENTOS NAS METRÓPOLES

Os Jogos Olímpicos de 1992, realizados em Barcelona, possibilitaram ao governo local, provavelmente na mais sábia decisão urbanística européia, desenhar uma nova fisionomia à velha Barcelona, cidade até então conhecida pelo seu bairro gótico, pelas quadras urbanísticas chanfradas e pátios internos projetados por Cerdá no século 19 e pelo grandioso acervo de Gaudí construído há um século. Ao enterrar a estrada de ferro, a cidade se abriu para o Mediterrâneo, permitindo desfrute de toda a população, tornando-a um dos setores mais movimentados da cidade. E, até hoje a municipalidade continua estendendo o plano urbanístico, e aportando obras de Jean Nouvel (Torre Agbar), Toyo Ito (Centro de Convenções), Herzog & De Meuron (Fórum), Norman Foster (Torre da Antena de TV), Arata Isozaki (Ginásio de Esportes), Richard Meier (Museu de Arte Contemporânea), entre outros arquitetos.

Essa conquista urbanística e as significativas obras contemporâneas, somadas à sua rica história, fazem hoje de Barcelona uma das cidades mais sedutoras do mundo. Na via Ortogonal, estamos colaborando, com o norte-americano Vito Aconcci, com o escritório Cloud 9 no projeto do Hotel H+R. Há alguns meses, estava eu jantando no restaurante em São Paulo, quando aí entrou Pedro Moreira Salles, que me saudou em alta voz: ''''Ruy, cheguei ontem de Nova York e vi no MoMA seu bonito projeto do hotel em Barcelona. Quando ficará pronto?''''

A IMATERIALIDADE

A riqueza conceitual da arquitetura contemporânea tem percorrido os mais inovadores pensamentos. A discussão da imaterialidade, sem dúvida iniciada pelas artes visuais, tem propiciado à indústria da construção incessantes pesquisas e soluções para atender às mais variadas propostas dos arquitetos. Ao provocar uma sensação diferente do conhecido conceito de leveza, a imaterialidade busca ''''sumir'''' com a estrutura, misturando-a com outros elementos verticais ou quase verticais. Toyo Ito tem uma interessante experiência na obra da Mediateca de Nagoya e Herzog & De Meuron, no projeto ''''ninho'''' (Estádio Olímpico de Pequim), ao desenhar o emaranhado de peças metálicas.

Ao projetar, em São Paulo, a Via Elevada com 8,5 km de extensão, conectando os Terminais Parque D. Pedro II e Sacomã, propusemos à via elevada uma linha poética sobre a cidade. E, no Terminal Centro com malhas metálicas, que compostas à estrutura, permitem à mesma ''''flutuar''''. Acredito que as recentes membranas translúcidas de resina ETFE venham instigar os arquitetos a formas cada vez mais audaciosas, pois esse material é moldável.

O BRASIL

Dentro das dificuldades e desafios que o País tem, sempre cabe a formulação de projetos contemporâneos. Oscar Niemeyer, um dos mais importantes arquitetos do mundo, figura carismática comprovada pela celebração mundial na comemoração dos seus 100 anos de idade, já em 1943 rompia com os dogmas convencionais do modernismo ao desenhar a Capela de Pampulha com quatro abóbadas de diferentes dimensões e variadas alturas. Começava, então, a assombrar o mundo, e prossegue até hoje com o leve apoio central do MAC Niterói, do inovador Museu de Curitiba e do cativante Centro Cultural de Goiânia, entre mais de 500 obras que a América, a Europa e o Brasil têm o privilégio de sediar.

O desafio da arquitetura contemporânea é perceber as próximas décadas. Temos de criar oportunidades para realizá-la, pois são muito poucas as obras concretizadas de arquitetura contemporânea. O desafio já está colocado há algum tempo.

Ruy Ohtake é arquiteto com várias obras no exterior: Embaixada do Brasil em Tóquio; Hotel H+R em Barcelona, em colaboração com o escritório Cloud 9; Pavilhão São Paulo em Osaka; Estádio de Futebol de Guayaquil. No País destacam-se: Expresso Tiradentes; Instituto Tomie Ohtake; Hotel Unique; Hotel Renaissance.

Phobos
January 27th, 2008, 10:08 PM
É muito interessante o que ele diz.Este é dos poucos arquitectos contemporâneos do Brasil que tem tentado criar algo diferente e próprio,embora muitas vezes seja criticado por isso.
Esta frase em especial é muito boa.Antes todos os meus professores pensassem assim.Esta é para mim a base do projecto de arq. :

Percebo que nas escolas e na crítica de arquitetura de hoje, não poucas vezes, o cultivo das emoções é colocado em segundo plano. Tornou-se mais difícil sentir do que pensar.
:applause: :applause: :applause:

ambrosio
January 29th, 2008, 02:26 AM
Emblemática, respousando sobre as águas de Sydney, ícone de um país, a Opera House é um marco na arquitetura. Rompe com um passado em que a forma e função deveriam ser e estar intrinsecamente ligadas uma à outra. Pessoalmente gosto muito dessa obra. Ela passa a sensação de haver um sentido maior na criação de um prédio. A poética, a mimetização da natureza através de abóbodas que poderiam lembrar as conchas, a dramatização das formas, a ousadia... aí está o sentido do fazer arquitetônico ligado a questões que envolvem muito mais que um objeto ou local apenas para ser usado como uma casa de espetáculos. Fez-se uma obra de arte...

Um professor meu certa vez me disse: "Construir algo qualquer é fácil, fazer arquitetura não é fácil, fazer boa arquitetura é muito difícil." Eu sempre pensei muito sobre os significados dessa frase. Acho que é disso que se trata o texto de Ruy Otake, das novas formas de se pensar o espaço arquitetônico para a atualidade, pensando na arquitetura como algo que, acima de tudo, desperte no ser humano sentimentos.

Fazer boa arquitetura envolve diversas questões... envolve pesquisa, sensibilidade, trabalho, tempo, um olhar diferenciado sobre as coisas do cotidiano. Sempre envolveu isso. A contemporaneidade trouxe além de tudo isso, a busca pela forma arquitetônica que vá além... que emocione.

A arquitetura contemporânea explora muito a dimensão poética do espaço. Propõe emoções novas, desperta curiosidade, aflora sentimentos... realmente não é fácil equacionar tudo isso na composição de um projeto.

Temos um desafio e tanto pela frente...


O desafio da arquitetura contemporânea é perceber as próximas décadas. Temos de criar oportunidades para realizá-la, pois são muito poucas as obras concretizadas de arquitetura contemporânea. O desafio já está colocado há algum tempo.


Gostei muito desse texto, Gutooo! Valeu por ter postado!

Danzin
January 29th, 2008, 05:15 AM
Emblemática, respousando sobre as águas de Sydney, ícone de um país, a Opera House é um marco na arquitetura. Rompe com um passado em que a forma e função deveriam ser e estar intrinsecamente ligadas uma à outra. Pessoalmente gosto muito dessa obra. Ela passa a sensação de haver um sentido maior na criação de um prédio. A poética, a mimetização da natureza através de abóbodas que poderiam lembrar as conchas, a dramatização das formas, a ousadia... aí está o sentido do fazer arquitetônico ligado a questões que envolvem muito mais que um objeto ou local apenas para ser usado como uma casa de espetáculos. Fez-se uma obra de arte...

Um professor meu certa vez me disse: "Construir algo qualquer é fácil, fazer arquitetura não é fácil, fazer boa arquitetura é muito difícil." Eu sempre pensei muito sobre os significados dessa frase. Acho que é disso que se trata o texto de Ruy Otake, das novas formas de se pensar o espaço arquitetônico para a atualidade, pensando na arquitetura como algo que, acima de tudo, desperte no ser humano sentimentos.

Fazer boa arquitetura envolve diversas questões... envolve pesquisa, sensibilidade, trabalho, tempo, um olhar diferenciado sobre as coisas do cotidiano. Sempre envolveu isso. A contemporaneidade trouxe além de tudo isso, a busca pela forma arquitetônica que vá além... que emocione.

A arquitetura contemporânea explora muito a dimensão poética do espaço. Propõe emoções novas, desperta curiosidade, aflora sentimentos... realmente não é fácil equacionar tudo isso na composição de um projeto.

Temos um desafio e tanto pela frente...



Penso da mesma forma q vc.. Muito bom comentario, parabens... :okay: