View Full Version : Migrações e essencialidades urbanas


Pesquisadorbsb
February 14th, 2008, 11:55 PM
Ao longo do tempo, o meio urbano brasileiro tornou-se de correntes migratórias internas e internacionais. Na atualidade, constata-se que se foi o tempo em que portugueses, italianos, alemães, poloneses e outros demandavam às Américas em busca de terras para se estabelecerem.

Acabaram igualmente as migrações de japoneses para o meio rural. Hoje, menos exuberante, as correntes migratórias são de outra qualidade, técnicos ou operários experientes que buscam países em que possam ter qualidade de vida ou expandir o próprio negócio.

No caso brasileiro, em linhas gerais, tivemos algumas correntes migratórias nos anos de 1950 e 60, quando se povoava o oeste de Santa Catarina, do Paraná e o sul de Mato Grosso. Correntes nordestinas fugiam da seca procurando o Sudeste, sobretudo São Paulo.

A grande maioria dos migrantes acabou cunhando as correntes do tipo rural-urbano. A exceção foram as migrações atraídas pelas facilidades de trabalho para construir Brasília, que erguida por migrantes nordestinos e dos arredores mineiros e goianos. Essas correntes praticamente inauguraram as migrações rural-urbanas.

Nos anos de 1970 e 1980, o esvaziamento dos campos se completa e as grandes cidades passam a acolher migrantes de todos os quadrantes do Brasil. Consolida-se, como resultado, um quadro migratório urbano-urbano, e o Brasil passa a ter mais população vivendo nas cidades do que no meio rural, tendência que se iniciava nos anos 1950 e 1960.

No caso de Brasília, como se referiu, inicia-se a quebra do padrão migratório e, sem ser explícita, a meta tinha respaldo da Marcha para o Oeste, do governo Vargas. Com Brasília, desloca-se a fronteira do povoamento litorâneo para o interior, primordialmente para Goiás, Mato Grosso, Rondônia, Acre e o sul do Pará.

Mas Brasília, além do marco arquitetônico-urbanístico propagandeado aos quatro ventos, ensejou outro tipo de povoamento.

Na era JK, protegeu-se o Plano Piloto em implantação e elegeu-se um modelo polinucleado com assim denominadas as “Cidades Satélites”. Em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, a periferização urbana foi um processo “espontâneo”, em Brasília, o movimento foi pensado, planejado e implantado com auspícios governamentais. A transferência de favelados e operários para os núcleos projetados, como Taguatinga, Gama, Sobradinho e outros, visavam proteger o Plano Piloto de “deturpações”, quais sejam a de ser circundado de barracos de empresas construtoras e casebres dos operários da construção civil e do baixo escalão de funcionários do governo em instalação.

Com o passar dos anos, e já são 48 anos desde a inauguração, procurou-se aperfeiçoar as essencialidades urbanas: água tratada, vias pavimentadas, esgotamento sanitário e das águas pluviais, habitações, iluminação pública e privada, educação, novos postos de trabalho, saúde pública.

Algumas dessas essencialidades exigem ações de governo, outras, do setor privado, outras ainda, da colaboração do poder público e de empresas privadas. Logicamente, o antigo imigrante, tendo fincado raízes e, por vezes, com família aumentada, não assiste passivamente ao desenrolar dos acontecimentos.

No passado, as más condições urbanas deflagraram protestos depois da inauguração da capital. Com isso, surge o Núcleo Bandeirante, que, por anos, foi o empório comercial e de serviços enquanto se construíam os edifícios na área central.

Aos 48 anos, o aglomerado urbano pode ter se disseminado no território do DF, mas a maior parte dos núcleos possui esgoto, água tratada, escolas, postos de saúde e meios de comunicação (telefonia).

Mas há lacunas a preencher, como na geração de postos de trabalho nos respectivos locais de moradia, melhoramento no transporte coletivo com soluções para o estrangulamento do trafego por excesso de automóveis.

Um projeto de instalação de veiculo leve sobre trilhos (VLT) e de aumento da frota de ônibus e microônibus sinaliza para o futuro com menos automóveis particulares circulando na cidade, dentro de um modelo centralizador.

Além disso, há reformar as escolas, dotá-las de meios modernos de ensino-aprendizagem e aumentar a capacitação e o número de professores. Possibilitar o aperfeiçoamento dos mestres para o nobre oficio de educar.

Igualmente, o governo, deve aumentar o número de hospitais públicos e reformar os antigos, aumentando também o número de médicos e enfermeiros, renovando o equipamento técnico necessário para exames.

Capacitar os postos de saúde e melhorar a vigilância no combate a doenças endêmicas, como se notou por ocasião do surto de febre amarela.

E, como a cidade não é uma só, pois inclui, no aglomerado (bairros), um conjunto externo de cidades vizinhas (entorno), forma-se uma área metropolitana. Ela vai apresentar um desafio para que as essencialidades cheguem a todos os que, de uma certa forma ou de outra, dependem do aglomerado do DF para trabalhar, buscar educação, saúde e lazer.

A não serem atendidas as demandas, corre-se o risco de deterioração urbana, cenário para toda sorte de violência, como se evidencia no que a mídia nos traz no cotidianamente: mortes violentas, assaltos e crimes de natureza e origem variada.

Autor: Aldo Paviani (Geógrafo e Pesquisador Associado a UNB)
Fonte: Correio Braziliense edição 14/02/2008