Barragon
September 11th, 2008, 01:41 PM
Rua Rosa Araújo, em Lisboa, vai começar a crescer um bocadinho em direcção ao céu
"A câmara quer acabar com esta rua?", questionou Helena Roseta. "Recuso-me a assumir o papel de tutor de estética", disse vereador do Urbanismo
Uns dizem que é da modernização que nasce a luz, outros que será a sentença de morte da transversal da Avenida da Liberdade. No meio de muita polémica, a Câmara de Lisboa aprovou ontem a junção de três edifícios da Rua Rosa Araújo para fazer um hotel, que crescerá para além da altura original dos imóveis, aos quais serão acrescentados novos pisos.
Da autoria do arquitecto Frederico Valsassina, o hotel de quatro estrelas do grupo Porto Bay destina-se a uma zona próxima da avenida. Ao mesmo tempo que aprovou este projecto, a autarquia chumbou dois outros para a mesma rua. Um deles tem por objectivo transformar um pequeno anexo do palacete da Fundação Medeiros e Almeida, da autoria do arquitecto Ventura Terra, colocando-lhe em cima vários andares.
O outro prevê o emparcelamento de mais três prédios e a substituição de um quarto por uma construção nova, em vidro, para fazer surgir um único imóvel de seis pisos de escritórios e comércio num quarteirão que faz esquina com a avenida, o chamado quarteirão do Banco Espírito Santo.
Contestados por movimentos cívicos e por todas as forças da oposição camarária, os três projectos estiveram todos para ser chumbados, apesar dos elogios que lhes foram feitos pelo vereador do Urbanismo, o arquitecto Manuel Salgado, que se mostrava satisfeito por os serviços camarários terem convencido os promotores imobiliários a baixar a volumetria inicialmente prevista e recordava que o Instituto do Património Arquitectónico se tinha pronunciado a favor das transformações.
Património ou economia?
Algo que que não impediu a vereadora independente Helena Roseta, do movimento Cidadãos por Lisboa, de perguntar à maioria socialista se era sua intenção "acabar com a Rua Rosa Araújo", ao aprovar tais intervenções. "Com esta intervenção, a casa desenhada por Ventura Terra vai desaparecer sob uma coisa incaracterística", observou. "Trata-se de uma opção errada para esta zona da cidade. Estamos a descaracterizar a rua e a valorizar brutalmente este património" do ponto de vista económico, acrescentou.
"Não é o ideal", comentou também o aliado dos socialistas na autarquia, o vereador eleito pelo Bloco de Esquerda José Sá Fernandes, outro dos que votaram contra as três transformações. Já os sociais-democratas abstiveram-se, alegando que, sendo o problema meramente estético, caberia ao vereador do urbanismo pronunciar-se sobre este aspecto. Manuel Salgado não gostou do que ouviu: "Recuso-me a assumir o papel de tutor de estética nesta câmara". Mais tarde haveria de dizer que "não se pode conservar tudo em formol" e que há vários edifícios classificados na Baixa que rompem com o estilo pombalino. Ou seja: nem tudo o que destoa é necessariamente mau.
E no que à harmonia da Rosa Araújo diz respeito dificilmente podia ter ontem acontecido pior, como reconheceu o arquitecto: se por um lado o hotel acabou, surpreendentemente, por ser aprovado com os seus novos pisos a crescer um pouco em direcção ao céu - graças ao inesperado voto favorável de um dos vereadores de Carmona Rodrigues, Pedro Feist, que assim ajudou os socialistas nas suas intenções -, os outros dois projectos foram chumbados, ou seja, mantêm-se os antigos edifícios até decisão em contrário.
O trabalho de Valsassina prevê "a manutenção das fachadas principais do conjunto e a ampliação com desenho e linguagem contemporânea de três a quatro pisos, sendo os primeiros recuados".
Pedro Feist, que chumbou os outros dois empreendimentos, justificou o seu voto favorável em relação ao hotel com o facto de já conhecer o projecto há muito tempo e por lhe agradar. Mas mostrou-se confiante que as restantes transformações venham a ver a luz do dia, após os promotores alterarem os projectos.
Público
"A câmara quer acabar com esta rua?", questionou Helena Roseta. "Recuso-me a assumir o papel de tutor de estética", disse vereador do Urbanismo
Uns dizem que é da modernização que nasce a luz, outros que será a sentença de morte da transversal da Avenida da Liberdade. No meio de muita polémica, a Câmara de Lisboa aprovou ontem a junção de três edifícios da Rua Rosa Araújo para fazer um hotel, que crescerá para além da altura original dos imóveis, aos quais serão acrescentados novos pisos.
Da autoria do arquitecto Frederico Valsassina, o hotel de quatro estrelas do grupo Porto Bay destina-se a uma zona próxima da avenida. Ao mesmo tempo que aprovou este projecto, a autarquia chumbou dois outros para a mesma rua. Um deles tem por objectivo transformar um pequeno anexo do palacete da Fundação Medeiros e Almeida, da autoria do arquitecto Ventura Terra, colocando-lhe em cima vários andares.
O outro prevê o emparcelamento de mais três prédios e a substituição de um quarto por uma construção nova, em vidro, para fazer surgir um único imóvel de seis pisos de escritórios e comércio num quarteirão que faz esquina com a avenida, o chamado quarteirão do Banco Espírito Santo.
Contestados por movimentos cívicos e por todas as forças da oposição camarária, os três projectos estiveram todos para ser chumbados, apesar dos elogios que lhes foram feitos pelo vereador do Urbanismo, o arquitecto Manuel Salgado, que se mostrava satisfeito por os serviços camarários terem convencido os promotores imobiliários a baixar a volumetria inicialmente prevista e recordava que o Instituto do Património Arquitectónico se tinha pronunciado a favor das transformações.
Património ou economia?
Algo que que não impediu a vereadora independente Helena Roseta, do movimento Cidadãos por Lisboa, de perguntar à maioria socialista se era sua intenção "acabar com a Rua Rosa Araújo", ao aprovar tais intervenções. "Com esta intervenção, a casa desenhada por Ventura Terra vai desaparecer sob uma coisa incaracterística", observou. "Trata-se de uma opção errada para esta zona da cidade. Estamos a descaracterizar a rua e a valorizar brutalmente este património" do ponto de vista económico, acrescentou.
"Não é o ideal", comentou também o aliado dos socialistas na autarquia, o vereador eleito pelo Bloco de Esquerda José Sá Fernandes, outro dos que votaram contra as três transformações. Já os sociais-democratas abstiveram-se, alegando que, sendo o problema meramente estético, caberia ao vereador do urbanismo pronunciar-se sobre este aspecto. Manuel Salgado não gostou do que ouviu: "Recuso-me a assumir o papel de tutor de estética nesta câmara". Mais tarde haveria de dizer que "não se pode conservar tudo em formol" e que há vários edifícios classificados na Baixa que rompem com o estilo pombalino. Ou seja: nem tudo o que destoa é necessariamente mau.
E no que à harmonia da Rosa Araújo diz respeito dificilmente podia ter ontem acontecido pior, como reconheceu o arquitecto: se por um lado o hotel acabou, surpreendentemente, por ser aprovado com os seus novos pisos a crescer um pouco em direcção ao céu - graças ao inesperado voto favorável de um dos vereadores de Carmona Rodrigues, Pedro Feist, que assim ajudou os socialistas nas suas intenções -, os outros dois projectos foram chumbados, ou seja, mantêm-se os antigos edifícios até decisão em contrário.
O trabalho de Valsassina prevê "a manutenção das fachadas principais do conjunto e a ampliação com desenho e linguagem contemporânea de três a quatro pisos, sendo os primeiros recuados".
Pedro Feist, que chumbou os outros dois empreendimentos, justificou o seu voto favorável em relação ao hotel com o facto de já conhecer o projecto há muito tempo e por lhe agradar. Mas mostrou-se confiante que as restantes transformações venham a ver a luz do dia, após os promotores alterarem os projectos.
Público