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Old November 19th, 2009, 01:31 AM   #1
stephen kiss
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Sorocaba-SP - Sua história e o auge e decadência da indústria têxtil

http://www.ichs.ufop.br/perspectivas/anais/GT0403.htm
parte I
A MANCHESTER PAULISTA: IMAGENS HISTÓRICAS DE MODERNIDADE NO MUNICÍPIO DE SOROCABA NO INÍCIO DO SÉCULO XX

“A idéia de um progresso da humanidade na história é inseparável da idéia de sua marcha no interior de um tempo vazio e homogêneo. A crítica da idéia do progresso tem como pressuposto a crítica da idéia dessa marcha.”
(Walter Benjamin, 1940)
“Soberbo panorama! Bellissimo e pittoresco quadro animado pela vida do trabalho, sentindo-se o palpitar das almas felizes; ouvindo-se os pulmões de aço das machinas colossaes e o vozear dos pulmões fortes dos operarios de todas as idades, fallando e casquilhando sadiamente, alegres na faina laboriosa de todos os dias, do romper ao pôr do sol!”
(Almanach Illustrado de Sorocaba, 1914)



O presente trabalho faz parte da pesquisa em nível de mestrado sob orientação da Profa. Dra. Maria Carolina Bovério Galzerani na Faculdade de Educação – UNICAMP.

O objeto fundamental desta pesquisa é trazer à tona a construção histórica das imagens de modernidade no município de Sorocaba (a Manchester Paulista), presentes na mídia em geral, em materiais escolares e nas vozes de moradores, imagens engendradas desde o início do século XX na cidade.

Pretendo nesta comunicação discutir alguns resultados da pesquisa até o momento, destacando a concepção de modernidade que foi difundida através da imprensa na cidade no início do século passado, problematizando suas idéias a partir de um diálogo com os teóricos Walter Benjamin, E. P. Thompson, Michel Foucault e Peter Gay.

A difusão de idéias que tentavam relacionar imagens de modernidade capitalista à Sorocaba não significou uma tarefa fácil nos primeiros anos do século XX. A elite liberal buscou transformar a imagem de uma cidade de hábitos coloniais, marcados por atividades de origem mercantilista, conhecida no país (ao menos nas regiões Sudeste e Sul do Brasil) pelas suas feiras de muares, em uma cidade moderna, urbanizada, adequada ao avanço do capitalismo no Brasil, voltada para a atividade industrial com suas implicações mecânicas e maquínicas. Provavelmente, boa parte dos próprios moradores da cidade não associaram de imediato a idéia de cidade moderna, civilizada e industrial à Sorocaba, resistindo ao discurso da modernidade por algum motivo.

Sorocaba foi uma vila colonial portuguesa fundada por bandeirantes em 1654, que desde meados do século XVIII desenvolveu atividades relacionadas ao tropeirismo e às feiras de muares, abastecendo nesse período os mercados das áreas mineradores e regiões próximas. No século XIX, com o desenvolvimento do cultivo do café, as feiras de muares da cidade atenderam os mercados do Vale do Paraíba e, em menor escala, do Oeste Paulista. Com a implantação das ferrovias para escoar as safras de café, as tropas de muares perderam a primazia no transporte de carga no Sudeste, provocando a lenta agonia da feira em Sorocaba.

Lutando para se desvencilhar da imagem de centro comercial de muares surgida em meados do século XVIII, alguns grupos da elite comercial, industrial e intelectualizada da cidade estavam interessados na produção de uma “nova” imagem, que está relacionada com os projetos de modernização do país, buscando explorar símbolos que representam as idéias de novas tecnologias, de civilização e de progresso no período. Grupos da elite liberal, a partir de seus interesses econômicos e tentando acompanhar os esforços “renovadores” da república, indicam o sentido da idéia de progresso associada ao crescimento do parque industrial têxtil. Na opinião desses grupos, graças a força do “povo” sorocabano empreendedor, a cidade deixou o atraso das feiras de muares, que acabaram definitivamente em 1897, para produzir tecidos e transportá-los pelas linhas da Estrada de Ferro Sorocabana. Os novos caminhos de ferro abertos na região desde a década de 1870 com a inauguração da Sorocabana, foram sedimentados com o desenvolvimento da produção têxtil industrial na cidade. Contando com uma produção de algodão herbáceo na região, inicialmente exportado para a Europa e EUA, o empresariado local pode investir na indústria têxtil sem se preocupar com o fornecimento da matéria-prima. A mão-de-obra também não foi problema. A cidade recebia, como boa parte do estado de São Paulo, grupos de imigrantes que se ocupavam profissionalmente de atividades agrícolas, industriais e comerciais. Dentro do projeto de desenvolvimento do país, a cidade se mostrava integrada, ou até melhor, à frente segundo a versão da imprensa e de outros progressistas sorocabanos. Essa elite ostentava dois grandes símbolos da modernidade na época, as estradas de ferro com suas locomotivas e os edifícios industriais, repletos de máquinas que produziam, além dos tecidos, os sons e fumaças que encantavam os defensores da modernidade na cidade.

O recorte temporal privilegiado neste trabalho é a década que vai de 1904 a 1914 com o início da Primeira Guerra, período significativo, onde a imprensa local faz as primeiras referências à cidade moderna, a Manchester Paulista, “portadora” de novos benefícios para todos os seus habitantes e para o desenvolvimento do país. Com o avanço do sistema capitalista, o discurso da modernidade começa a sofrer algumas variações importantes entre os órgãos da imprensa local.

A denominação progressista surgiu no início do século XX, mais precisamente em 1904, quando Alfredo Maia intitula a cidade como a Manchester Paulista, época em que a cidade contava com quatro fábricas têxteis de grande porte (Paulo da Silva, 2000). Segundo seus construtores e posteriores defensores da Manchester Paulista, Sorocaba mostrava sinais de um salto qualitativo na sua produção econômica, em suas relações sociais e no destaque político e cultural de seus moradores.

Entre as fontes já consultadas em minha pesquisa, trouxe para esta comunicação um texto do “Almanach Illustrado de Sorocaba” para 1914, por acreditar ser um fragmento que trás importantes características do discurso de modernidade capitalista que envolvia o imaginário burguês local e nacional da época. Além de trazer informações que procuram confirmar a idéia de Manchester Paulista, esse almanaque apresenta em suas páginas fotos com os seguintes temas, da paisagem urbana com seus prédios industriais, de seus trabalhadores e das imponentes chaminés soltando o fumaça negra. Estes temas procuravam demonstrar a atividade fabril, com a intenção de corroborar na construção da imagem de cidade moderna/capitalista. Quer dizer, como um veículo de comunicação dinâmico para a época, o almanaque desenvolvia as idéias nos textos e confirmava as mesmas com fotografias, instrumentos imagéticos que poderiam alcançar até o grande público não alfabetizado, ou mesmo as pessoas não familiarizadas com a língua e escrita portuguesa. No início do século XX, Sorocaba é uma cidade onde se encontra, como em todo o estado de São Paulo, uma quantidade considerável de trabalhadores nacionais e imigrantes, além das figuras excluídas, que auxiliaram o desenvolvimento das atividades econômicas realizadas em diferentes áreas do município. Esses agentes históricos também eram alvos do discurso progressista da imprensa da cidade, na tentativa de moldá-los como seres economicamente na sua utilidade máxima, mas politicamente dóceis.

Com a reprodução de fotos, o almanaque completa o seu discurso escrito da Manchester Paulista. Tão importante quanto as fotos, são as palavras simples, as “tentadoras simplificações” (Peter Gay, 1988), que introduzem os conceitos de modernidade, industrialização, progresso e civilização aos leitores, incluindo entre eles os que sabiam ler e também os que sabiam ouvir. As idéias explicitadas por Camargo Cesar, autor do texto publicado no almanaque de 1914, trazem elementos fundamentais para entendermos as concepções de progresso, industrialização, capitalismo, trabalho, civilização e história que as produtores e/ou defensores da Manchester Paulista procuravam construir.

“Sorocaba Industrial” é o título do texto que Camargo Cesar escreveu para o almanaque publicado na cidade em 1914. Através dele, podemos verificar a preocupação do autor em confirmar as vantagens da industrialização, os inúmeros benefícios e alguns problemas decorrentes da concorrência capitalista para todos os países, ressaltando a capacidade do “povo” sorocabano em dominar estas “novas” técnicas de produção, contribuindo assim para o progresso de São Paulo e do Brasil. Sem muita modéstia, o autor exalta o papel da cidade no desenvolvimento do estado de São Paulo, segundo ele, o ponto máximo da expansão industrial brasileira. A exaltação do progresso de Sorocaba ultrapassava os limites da cidade para difundir a “qualidade” dos produtos locais em potenciais mercados consumidores.

As visões positivista e liberal dominam as idéias de construção da modernidade na cidade. Criam-se textos que reforçam a idéia de modernidade como verdade absoluta. Entre eles, o texto do jornalista/historiador sorocabano caminha rumo ao cientificismo histórico baseado na razão instrumental e na busca de ordem, progresso, civilização, entendidos como adestramento do indivíduo às regras sociais. Camargo Cesar observa a cidade por um ponto de vista onde ele acredita ser um espectador inatingível, neutro, totalmente objetivo, livre de julgamentos de valor, para entender e dirigir aos leitores de seus escritos o progresso de Sorocaba. Os olhares positivista e liberal pretendem, mais uma vez, implementar a ordem moderna, isto é, o desenvolvimento da indústria, da ciência, da técnica, não apenas no mundo da fábrica, mas além dela.

A problematização do discurso da Manchester Paulista não nos remete somente ao passado, aos interesses políticos, econômicos e sociais que contribuíram para a construção desse discurso no decorrer do século XX. Explicitar as contradições internas da Manchester Paulista é fundamental para se compreender ideais e representações que ainda fazem parte do “olhar burguês” sobre a sociedade. Esse olhar “superior, científico, verdadeiro, sempre voltado para o futuro, para o progresso social”, construiu esse imaginário da Manchester Paulista industrial, “empregadora”, “facilitadora de vidas” como também reafirmou a discriminação e o preconceito social, afastou os negros e muitas vezes os trabalhadores nacionais das tecelagens e de outros meios de convívio social, tecendo variadas relações sócio-culturais.
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Old November 19th, 2009, 01:32 AM   #2
stephen kiss
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parte II

AS “EVIDÊNCIAS” DA MANCHESTER PAULISTA E A SUA DECADÊNCIA



Durante a maior parte do século XX, os moradores de Sorocaba se relacionam com a mídia local reproduzindo a imagem moderna da Manchester Paulista. Rádios, jornais, revistas, almanaques entre outros meios de comunicação, “confirmavam” diariamente o progresso da cidade. Artigos publicados em jornais, jogos de futebol transmitidos ao vivo via rádio, fotos panorâmicas em revistas da cidade, isto é, vários suportes eram utilizados para reforçar o imaginário da cidade industrial. Na perspectiva dos produtores da modernidade capitalista, além da mídia, os moradores de Sorocaba poderiam observar através das paisagens urbanas, representadas por grandes construções fabris, edifícios de tijolos à vista, telhados ingleses e altas chaminés, a Manchester Paulista. Também chamava a atenção dos moradores as sirenes dessas indústrias, potentes ruídos que marcavam o tempo na cidade. Muitos moradores tinham as horas do dia “controladas” através de seus relógios e das próprias sirenes que determinavam os turnos de trabalho nas indústrias de tecelagem instaladas no município. Pensando nas sirenes, desde às 4h30 da manhã até 11h da noite era possível ouví-las nas regiões próximas às fábricas, escutar os inúmeros toques de entrada e saída dos operários durante o dia de trabalho.

O tempo da cidade era o tempo regido pelas indústrias e suas sirenes, indústrias do setor têxtil que dominavam a paisagem com suas chaminés e construções características e, o som da cidade, com as sirenes. Assim, as fábricas Santa Maria, Santo Antônio, Estamparia, Santa Rosália e Votorantim (as maiores da cidade) anunciavam suas trocas de turno, horários de refeição, etc., não só para seus operários, mas também para todos aqueles que estivessem em suas cercanias.

Se na Idade Média o tempo “era ritmado pelos sinos” das igrejas, segundo Jacques Le Goff (1983), em Sorocaba, a população urbana de grande parte do século XX se acostumou a medir o tempo com a ajuda das sirenes das fábricas. O tempo canônico da Idade Média regulou o homem medieval junto às igrejas. O tempo capitalista industrial era determinado em Sorocaba (como em outras cidades fabris) pelas indústrias que se instalaram a partir do final do século XIX.

Com isso, gerações de moradores acabaram se acostumando a observar o tempo não só através dos apitos dos trens, a exemplo de parte das cidades do interior paulista, mas também pelas sirenes dessas indústrias. Mesmo os habitantes que não trabalhavam nesses estabelecimentos industriais tinham o seu tempo “controlado” pelas sirenes. Porém, quando algumas fábricas deixaram de emitir os sons inconfundíveis de suas sirenes, boa parte da população sorocabana perdeu uma importante referência de tempo no seu cotidiano. Tanto os relógios de pulso como os de parede eram, sem dúvida, fundamentais para a observação das horas, mas parte significativa da população confirmava a precisão de seus relógios com o som das sirenes.

Marca determinante de um período da história da cidade, as indústrias têxteis foram a fonte para a sobrevivência econômica de inúmeras famílias e ponto de referência de tempo para habitantes em geral. Mas esse setor econômico industrial da cidade de Sorocaba não conseguiu acompanhar o ritmo de crescimento dos concorrentes em outras regiões do país.

Nas décadas de 70, 80 e 90 do século XX, a cidade, que era acostumada a “ouvir as horas”, sentiu a falta, uma após a outra, de “suas” sirenes, de seus relógios sonoros. Nesse período, o parque industrial têxtil de Sorocaba foi perdendo mercados dentro e fora do país. Com isso, as indústrias têxteis, que foram o carro-chefe do crescimento sócio-econômico da cidade na primeira metade do século XX, devido à concorrência e alegando a falta de recursos, não investiram mais em novas técnicas de produção e acabaram perdendo ainda mais espaço nos seus antigos mercados consumidores. Cada vez mais despreparadas para a concorrência de mercado, essas indústrias diminuíram gradativamente sua produção, fecharam postos de trabalho e terminaram encerrando suas atividades nos últimos 20 anos.

Com o fechamento dessas unidades industriais, não só postos de trabalho foram fechados, como perderam-se algumas das referências que faziam parte do imaginário da cidade. Muitos trabalhadores dessas fábricas mudaram de atividade ou de cidade para encontrar novos empregos, porém, todos os que viveram ou continuaram vivendo em Sorocaba não ouviram mais as sirenes “avisando” que estava na hora de acordar, de sair para o trabalho, de almoçar ou de voltar para casa. As rádios deixaram gradativamente de transmitir as idéias sobre a cidade industrial têxtil. Os jornais, como a mídia em geral, buscaram se adaptar ao novo contexto sócio-econômico de Sorocaba e deixando de reproduzir a idéia de Manchester Paulista.

Como exemplo desse declínio do setor industrial têxtil em Sorocaba verificado pela imprensa recentemente, há uma reportagem de um jornal da cidade que afirma:
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Old November 19th, 2009, 01:33 AM   #3
stephen kiss
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parte final

“Indústria Teba fecha fábrica na cidade e encerra ciclo histórico”



“A diretoria do Grupo Braspérola, proprietária da indústria Tecidos Barbéro (Teba), confirmou ontem que fechará a fábrica instalada no bairro Parada do Alto. A unidade local foi fundada há 52 anos pela família Barbéro e emprega no momento 405 trabalhadores. A direção da empresa alega estar tendo prejuízos sucessivos e que no Espírito Santo os incentivos fiscais são bem maiores, sobretudo em relação ao ICMS.

O fechamento da Teba representa o fim do ciclo da indústria têxtil local, pois é a única tecelagem em funcionamento em Sorocaba. Décadas atrás, a cidade era conhecida nacionalmente por “Mancheter Paulista” em razão do grande número de tecelagens que chegou a possuir. O próprio processo de industrialização do município, no final do século passado, teve origem com a instalação das indústrias têxteis, que dominaram a economia local até a década de 60.

Os maquinários da Teba serão transferidos para Vitória, Espírito Santo, onde está a matriz do Grupo Braspérola, maior produtor nacional de linho.”[1]



“O fim do ciclo da indústria têxtil” anunciado pelo jornal sorocabano Cruzeiro do Sul apresenta aos leitores da reportagem uma concepção da história sócio-econômica da cidade. Observamos, através da reportagem, a existência de um passado industrial têxtil que surgiu no final do século XIX e que deixou de ser a base econômica de muitas famílias de Sorocaba a partir da década de 1960, quando da implantação de outros ramos industriais na cidade (autopeças, siderurgia, fios e cabos, etc.), e que até 1999, deixa de existir por completo, com o fechamento da última grande unidade industrial têxtil do município.

Sem trabalhar com as diferenças ou semelhanças sociais, econômicas e tecnológicas entre Manchester (inglesa) e Sorocaba, não explicitando quando e porque essas cidades se aproximaram historicamente, a reportagem deixa dúvidas para o leitor sobre a comparação. O atual leitor não consegue identificar os objetivos, os elementos que contribuíram para que Sorocaba fosse chamada de Manchester Paulista. Seria essa denominação uma honra ou uma crítica? Para as elites que procuraram construir a concepção industrial da cidade no início do século XX, a denominação era uma gloriosa vitória para uma cidade que buscava a modernização de sua sociedade em um Brasil preocupado com o futuro.

Analisando os números do desenvolvimento econômico de Sorocaba no século XX, notamos uma lenta agonia das indústrias têxteis na cidade. Mas, enquanto as tecelagens perderam sua importância no decorrer do século XX, a difusão da imagem de Manchester Paulista continuou acontecendo, principalmente através da imprensa (jornais e rádios) e até mesmo nas escolas locais, entre as décadas de 1960 e 1980.

Dentro dessa perspectiva, a incompatibilidade entre o declínio do setor industrial têxtil e a manutenção do discurso progressista baseado na imagem da Manchester Paulista é evidente. Além de trabalhar historicamente com conceitos unidimensionais, lineares, excludentes, a versão progressista da história da cidade ocultou informações que poderiam “desconfirmar”[2] o conhecimento histórico que privilegiava a hierarquização do saber.



DOCUMENTOS E MEMÓRIAS LOCAIS



Os documentos produzidos para conceber a modernidade capitalista de Sorocaba devem ser lidos a contrapêlo (Walter Benjamin, 1985), com o objetivo de observarmos elementos históricos que nos revelam o olhar do homem comum da cidade, que experimentou variadas relações sócio-culturais, as quais não estão presentes no interior da visão totalizante da elite. Ao relacionarmos o processo de construção da representação histórica da cidade, em sua perspectiva elitista, com as memórias coletivas da população sorocabana, partimos para uma discussão da história local onde a versão “oficial” será questionada, abrindo espaço para versões plurais que podem aparecer no trajeto da pesquisa.

Quando abordo o conceito de “cultura” imbricado no universo social, não pretendo dividir minha abordagem em dois blocos distintos, que definem a cultura erudita como a única responsável pela representação da Manchester Paulista, versus a cultura popular, que trabalha as representações dos homens comuns como incapazes de se colocarem frente à força do pensamento elitista. Esta posição me parece unidimensional, maniqueísta, limitadora. Mesmo existindo uma clara diferença entre o modo de ver, pensar e agir dos grupos sociais acima citados, acredito, como Thompson, que:



“uma cultura é também um conjunto de diferentes recursos, em que há sempre uma troca entre o escrito e o oral, o dominante e o subordinado, a aldeia e a metrópole; é uma arena de elementos conflitivos, que somente sobre uma pressão imperiosa – por exemplo, o nacionalismo, a consciência de classe ou a ortodoxia religiosa predominante – assume a forma de “sistema”. E na verdade, o próprio termo “cultura”, com sua invocação confortável de um consenso, pode distrair nossa atenção das contradições sociais e culturais, das fraturas e oposições existentes dentro do conjunto.”[3]



Não posso analisar a construção da representação histórica de Sorocaba como uma luta desigual entre uma classe (política e economicamente) dominante que impôs sua versão histórica e uma outra classe, de trabalhadores desqualificados, sem condições para impedir uma dominação em todas as esferas da sociedade, inclusive no campo cultural. Estamos tratando de uma relação cultural dinâmica, dialética, ora de aproximação e confronto ao mesmo tempo, de incessante movimento entre um grupo que pretende manter sua posição sócio-política e suas idéias como “verdadeiras” e outro interessado em sobreviver não só econômica, mas culturalmente.

Pensando nos conceitos de “verdade” e “poder”, considero, como Foucault, que a pesquisa entrará em uma área de combate histórico.



“Há um combate “pela verdade” ou, ao menos, “em torno da verdade” – entendendo-se, mais uma vez, que por verdade não quero dizer “o conjunto das coisas verdadeiras a descobrir ou fazer aceitar”, mas o “conjunto das regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder”; entendendo-se também que não se trata de um combate “em favor” da verdade, mas em torno do estatuto da verdade e do papel econômico-político que ela desempenha.”[4]



A “verdade” estabelecida pela história “oficial” está ligada à modernidade, ao mundo capitalista industrial, ao desenvolvimento urbano, ao progresso tecnológico (nesse sentido, a evolução social e econômica de Sorocaba parece se adequar aos projetos e interesses daqueles que buscam identificar a cidade como Manchester Paulista). Essa visão histórica tradicional não identifica e valoriza a “experiência” do “outro”. Ela ressalta a importância dos grandes homens, dos fatos que “mudaram o rumo da história da cidade”, a ausência dos conflitos sociais. O progresso, segundo a mesma versão, chegou à cidade e foi irresistível, irreversível.

Mas a concepção de progresso que certos sorocabanos pregavam era preocupante, como afirma Thompson:



“Porque o “progresso” é um conceito sem significado ou pior, quando imputado como atributo ao passado (e essas atribuições podem ser denunciadas, com razão, como “historicistas”), que só pode adquirir significado a partir de uma determinada posição no presente, uma posição de valor em busca de sua própria genealogia.”[5]



Desvalorizando o sujeito histórico, as “minorias” e suas produções de conhecimento, a versão “oficial” sobre a história da cidade seguiu uma linha liberal/evolucionista/positivista que valorizou o progresso científico, técnico e acabou hierarquizando as relações dos saberes. Essa versão imputou adjetivos menores para o passado e privilegiou a acepção dominante de modernidade, desqualificando o homem e suas relações sócio-culturais.

Com tais paradigmas metodológicos, analiso a pluralidade das produções culturais, relativas à história de Sorocaba, e com a inserção da dimensão cultural no social, compreendendo a relação entre as diversas produções, os diversos saberes, como um cenário de embates, de lutas.

Buscando reverter a tendência de concepções históricas limitadoras, proponho a utilização de documentos da história local em sala de aula, no trabalho com alunos dos ensinos fundamental e médio. Para produzir conhecimento histórico a partir do trabalho em sala de aula, a história local se apresenta como um caminho importante para análises mais amplas. Como Marcos A. da Silva[6] e outros historiadores já nos alertaram em relação aos preconceitos que envolvem a história local nos meios acadêmico e escolar, acredito ser possível desmitificar teorias e conceitos universalizantes através da elaboração de trabalhos históricos locais. Assim, a história local pode ser utilizada não apenas para situar o aluno no seu tempo e espaço, mas também para destruir visões homogeneizadoras que se propagam com as versões históricas gerais[7].

Para o estudo histórico ganhar fôlego, o trabalho com as memórias locais enriqueceria as análises com o aproveitamento das “experiências vividas”[8]. Fazendo uso do termo benjaminiano, a valorização das experiências pessoais em relação a uma especificidade social, é fundamental para a tessitura de uma análise histórica ampla, que ouviria vozes esquecidas, apagadas, dissonantes das versões generalizadoras. A recuperação de memórias locais (sejam elas individuais ou coletivas), abriria perspectivas para singularidades históricas muitas vezes descartadas pela história tradicional.

Observando a especificidade de Sorocaba, apresento uma proposta de ensino de história voltada para a recuperação das “experiências vividas” neste município, tendo como hipótese para a discussão em sala de aula a idéia de modernidade, veiculada na cidade desde o início do século XX por setores sociais que proclamaram seu avanço através da denominação Manchester Paulista.

Entendendo que sinais do passado estão imbricados na “realidade” sócio-cultural até hoje, considero importante que os alunos possam questionar o discurso da Manchester Paulista, relacionando suas idéias fundamentais com a “realidade” vivida por eles. Esse trabalho de reflexão histórica pode trazer à tona alguns processos que não estão claros na história da cidade, ou por falta de estudos daquele determinado momento ou por falta de vontade política em esclarecer tal período. Problematizando o passado, os alunos terão condições de compreender melhor as relações políticas e sociais que foram desencadeadas na transição do centro urbano comercial, artesanal e agrícola para o industrial têxtil.

Questionar os documentos em relação à modernidade sorocabana no início do século XX pode revelar como esse discurso foi introduzido, como ele ganhou espaço, quais grupos o defenderam, quais grupos o repudiaram, como a Manchester Paulista resistiu ao tempo, aos inimigos, às transformações tecnológicas e econômicas, quais as permanências desse discurso, passados quase cem anos de seu surgimento.

Colocando à prova o conjunto de informações de origem institucional, jornalística, publicitária, política sobre a indústria na cidade, os alunos poderiam confrontá-las com as levantadas na pesquisa de campo. Na prática de pesquisa, os alunos, organizados em grupos para a pesquisa de campo, procurariam levantar documentos locais e as memórias de pessoas que vivem na cidade para cruzar as “evidências” encontradas durante o trabalho de busca. Com base em documentos escritos, iconográficos, arquitetônicos, orais, etc. levantados, os alunos poderiam resignificar a história da cidade com suas percepções, num processo mediado pelo professor que estaria acompanhando os alunos em suas análises e construções históricas, produzindo novos saberes sobre o município em que residem.

Procurando outros meios para motivar os integrantes da comunidade escolar, acredito que o estudo da história local, a recuperação de suas memórias coletivas e o trabalho com documentos históricos podem favorecer o processo de ensino e aprendizagem, construindo outras formas de relação social dentro e fora da escola. Professores e alunos trabalhando juntos, despertando novas sensibilidades, criando maiores vínculos políticos, sociais e culturais podem respeitar a multiplicidade de opiniões, as memórias coletivas e o “outro” sem anular as singularidades dos sujeitos históricos, tanto do presente quanto do passado.









REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIAS



ALMEIDA, Aluísio de. História de Sorocaba. Sorocaba: Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba, 1969.



BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I. Magia e técnica, arte e política; tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985.

BURKE, Peter (org.). A Escrita da história: novas perspectivas; tradução de Magda Lopes. São Paulo: Editora da UNESP, 1992.

CAMARGO Cesar, F. Sorocaba Industrial. In: “Almanach Illustrado de Sorocaba”. Sorocaba – SP: Gráfica XV de Novembro, 1914.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Michel Foucault; organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.



GALZERANI, Maria Carolina Bovério. O almanaque, a locomotiva da cidade moderna: Campinas, décadas de 1870 e 1880. Tese de Doutorado. Campinas - SP: Dep. de História, IFCH, UNICAMP, 1998.

GAY, Peter. A experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud: a educação dos sentidos. São Paulo: Cia. Das Letras, 1988.



GOUBERT, Pierre. História local. In: Revista História & Perspectiva. Nº 6. Uberlândia: Universidade Fed. de Uberlândia, Jan./Jun. 1992, pp. 45-57.

LE GOFF, Jacques. História e memória; tradução Bernardo Leitão. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1990. (Coleção Repertórios)



____________ A civilização do ocidente medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1983, Vol. I.



SAMUEL, Raphael. História local e história oral; tradução de Zena W. Eisenberg. In: Revista Brasileira de História. Vol. 9, nº 19. São Paulo: ANPUH/CNPq/Marco Zero, Set. 1989/Fev. 1990, pp. 219-243.

SILVA, Marcos A. da. A história e seus limites. In: Revista História & Perspectiva. Nº 6. Uberlândia: Universidade Fed. de Uberlândia, Jan./Jun. 1992, pp. 59-65.

___________(coord.). República em migalhas: história regional e local. São Paulo: CNPq/Marco Zero, 1990.



SILVA, Paulo Celso da. De novelo de linha à Manchester Paulista. Fábrica têxtil e cotidiano no começo do século XX em Sorocaba. Sorocaba, SP: LINC, 2000.



THOMPSON E. P. A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de Althusser; tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.



___________ Costumes em Comum; revisão técnica Antonio Negro, Cristina Meneguello, Paulo Fontes. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.



* Mestrando da Faculdade de Educação - UNICAMP

[1] Reportagem do jornal Cruzeiro do Sul, Sorocaba, 29/05/1999, p. C-2.

[2] Segundo E. P. Thompson, “o falso conhecimento histórico está, em geral, sujeito à desconfirmação.” Thompson utiliza essa idéia quando se refere ao “tribunal de recursos disciplinar”, à dialética do conhecimento histórico. Cf. THOMPSON, E. P. Intervalo: a lógica histórica In: A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de Althusser. Trad. de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1981, pp. 47-62.

[3] THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 17.

[4] FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Org. e trad. de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979, p. 13.

[5] THOMPSON, E. P. A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de Althusser. Rio de Janeiro: Zahar, 1981, p. 53.

[6] Para o aprofundamento do estudo da história local, além de Marcos Silva, consultei outros autores que estão citados na bibliografia desse trabalho.

[7]GOUBERT, Pierre. História local In: Revista História & Perspectiva, Nº 6, p. 51.

[8] A historiadora Maria Carolina Bovério Galzerani se inspira no filósofo Walter Benjamin para construir uma proposta de ensino de história fundada na valorização de memórias coletivas no estudo da história local. Entre seus trabalhos, destaco O Almanach, a locomotiva da cidade moderna.
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