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Old October 28th, 2009, 04:23 PM   #1
Pesquisadorbsb
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Arquiteto francês Philippe Panerai traça paralelos entre Brasília e Paris

O francês Philippe Panerai era garoto quando se encantou com fotografias de uma revista de arquitetura. O ano era 1947. As fotos registravam obras no Brasil que, à época, já havia surpreendido o mundo com o projeto da sede do então Ministério da Educação e Saúde Pública e o conjunto da Pampulha. Quarenta anos depois, o arquiteto e urbanista veio conhecer a mais vasta experimentação da arquitetura e do urbanismo modernos do planeta: Brasília. Desde então, o vencedor do Grande Prêmio de Urbanismo da França (1999), autor de obras e livros de arquitetura e urbanismo, veio à cidade mais de meia dúzia de vezes. Numa delas, em 1987, ficou um mês percorrendo o Plano Piloto e as cidades-satélites. O que não significa que ele seja um fervoroso admirador do projeto de Lucio Costa. Tem críticas e elas são severas. É um estudioso das cidades; conhecê-las e compará-las é um modo de aprender mais sobre elas. Convidado para o seminário Cidade Moderna e Contemporânea: Síntese e Paradoxo das Artes, ocorrido na semana passada, em Brasília, Panerai superpôs os mapas de Paris e do Plano Piloto para comparar a densidade demográfica da primeira com a da segunda. Em Paris, vivem mais de 2 milhões de habitantes. No Plano Piloto, pouco mais de 350 mil. Phillippe Panerai alertou os defensores ardorosos do tombamento para o risco de se engessar a cidade e com isso manter afastada a imensa população que vive nas cidades-satélites. Mas reconheceu que a especulação imobiliária na capital do país é “extremamente violenta” e que por isso flexibilizar o tombamento pode ser um risco.

Hannah Arendt (1906/1975) foi uma pensadora alemã, filha de uma família judia, perseguida por seu ativismo antissemita. Fugiu da Alemanha na ascensão do nazismo, passou algum tempo em Paris e depois partiu para os Estados Unidos onde se dedicou ao ensino universitário, às organizações judaicas e onde escreve seus livros, o mais importante deles A origem do totalitarismo.

Le Corbusier, pseudônimo do franco-suiíço Charles-Edouard Jeanneret-Gris (1887/1965), foi um dos mais importantes arquitetos do século 20. Formulou os princípios da arquitetura moderna e teve grande ligação com o Brasil e os brasileiros desde os anos 1930. Visitou Brasília na década de 1960.

Georges-Eugène Haussmann (1809/1891) foi o francês que renovou Paris entre 1852 e 1870. Abriu avenidas, criou parques públicos, ordenou o desenvolvimento da cidade, regulamentou o uso das fachadas dos edifícios, fez obras de saneamento. Sua reestruturação deu a Paris a forma atual.

» Entrevista

O senhor disse, em sua palestra no seminário Cidade Moderna e Contemporânea: Síntese e Paradoxo das Artes, que a forma da cidade de Paris e o modo como se estabelece o poder na França são coincidentes. A forma de Brasília também revela o modo de poder no Brasil?

A história da cidade de Paris representa de forma bastante clara a ideia que a França tem de si mesma e da ideia que a dirige. Um país extremamente centralizado, com um poder único, e bastante autoritário depois de muitos séculos. Desse ponto de vista, a organização da cidade de Paris é uma imagem da organização do país, um país extremamente centralizado. No caso de Brasília, é difícil de responder, por um lado porque a história de Brasília é curta, é uma história recente. A ideia de construção, o mito de Brasília, é muito anterior, mas a cidade real é recente. Não considero que a forma da cidade de Brasília coincida com a imagem do país. Tenho a impressão de que o Brasil não é um país centralizado. Trata-se de uma federação, o que é completamente diferente do que ocorre na França. Mesmo assim, há sem dúvida uma relação entre a forma alegórica, a forma do Plano Piloto, e a ideia que tiveram Lucio Costa, de um lado, e Juscelino Kubitschek de outro. Há uma correspondência entre a ideia que Lucio e Juscelino tinham do poder. Aquela época foi um momento em que a ideologia do movimento moderno se identificou com a ideologia política do progresso e isso conduz a ter a ideia que o poder tem que transformar a sociedade, crença um tanto ingênua que o poder poderá criar um homem novo.

O senhor disse, no Seminário Cidade Moderna e Contemporânea, que a chegada da estrada de ferro a Paris mudou a relação da cidade com as distâncias. Nesse sentido, um transporte público eficiente e rápido reduziria o caráter segregador de Brasília?
Há duas questões na questão. A estrada de ferro mudou a relação das cidades com as grandes distâncias. A outra questão é o transporte dentro da cidade. Paris oferece um sistema bastante eficiente de tranporte público na escala metropolitana, afinal nós começamos isso em 1837. Contudo, mesmo que haja essa tradição em Paris, o sistema de transporte na escala do conjunto da aglomeração é insuficiente e segregador. Mesmo também com todo o a parato, ele é segregador e de uma maneira extremamente evidente.

O senhor poderia explicar melhor?
Se estamos no interior de Paris tem-se o metrô e o RER, que é o metrô rápido, o metrô regional. Essa rede tem pelo menos 20 estações, onde se pode tomar o metrô daquela única estação e escolher três linhas diferentes, Uma vez que você sai de Paris, que passa a para fora da avenida periférica, quando já está no subúrbio, você tem apenas seis estações onde existe a opção de três linhas. Na pequena Paris, onde existem pelo menos 20 estações com o cruzamento de três linhas, há 2 milhões de habitantes. Na Paris metropolitana, há um número muito reduzido de estações para 7 milhões de habitantes. Portanto, temos em Paris um sistema muito menos segregador que o nosso e que no entanto ainda é extremamente segregador. Em Brasília a verdadeira questão é saber quando se partirá para uma segunda linha, onde ela vai se cruzar com a primeira. Essa escolha vai mostrar qual imagem que o poder técnico-político faz da hierarquia da cidade. Se for esperto, ele vai decidir fazer o cruzamento na Rodoviária e no centro de Taguatinga. Se a terceira linha cortar as duas primeiras em dois pontos completamente diferentes, quer dizer que se está induzindo uma zindo uma cidade com muitos centros.

A saída para viabilidade das cidades contemporâneas é ter muitos centros?
Quando a cidade é pequena, ela tem um centro que as pessoas vivem a distância relativamente pequena desse centro. Quando a cidade cresce, há duas opções: ou se tem uma organização extremamente segregadora ou então se tem uma organização da cidade que oferece a todos os habitantes uma centralidade que esteja perto delas. A boa política para uma cidade, a partir de certo tamanho, é que ela tenha muitos centro, que não serão idênticos entre si.

O senhor disse no seminário que o projeto de Le Corbusier para Paris não avançou muito além do projeto de Hausmann. Oprojeto de Lucio Costa para Brasília avançou em que, ou não avançou, em relação à ideia que se tinha à época de cidade?

O pensamento de Corbusier sobre Paris é idêntico ao de Hausmann. Corbusier coloca as mesmas questões de Hausmann, de modernizar a cidade lá onde ela está mais congestionada e lá onde está justamente o seu centro histórico. A única diferença é que na época de Corbusier já havia o automóvel. Ele tem a ideia de ampliar, de facilitar a circulação, de dar uma aparência unitária à cidade, mas tudo isso ele propôs para o centro da pequena Paris. Nenhum deles, nem Corbusier nem Hausmann tinha a consciência da grande dimensão. Lucio Costa está numa situação muito diferente. Ele teve três meses para pensar e desenhar uma cidade que seria a capital do país num terreno no qual havia uma população muito baixa, ou seja, tinha muito pouca coisa com que contar. E deu certo. Era um desafio e ele ganhou. Uma boa poarte dos proejtos são de engenharia, e que propõe um sistema viário. Um outro conjunto de projetos são de arquitetos que propõem um princípio. E desse o mais surpreendente é o de Rino Levi. O de Lucio Costa que é um projeto forte porque é um projeto monumental. É um projeto que diz o Brasil é um grande país e sua capital tem de ser monumental. O que é curioso é que o sistema monumental de Lucio Costa é o sistema monumental clássico. Ele tem noção da grande dimensão do terreno, e no seu monumentalidade utiliza a composição clássica. A grande força de Lucio é que ele tem um projeto unitário, monumental e inteligível. Sobre essa base monumental, a partir desse princípio, ele propõe outros elementos, como a setorização que é uma ideia típica do movimento moderno, e que tanto quanto ele saiba , quanto ele conhece, é o único exemplo em que a setorização tenha sido aplicada numa escala tamanha. Mas, na maneira com que ele faz o detalhe da cidade, há muita coisa que é sem dúvida uma ruptura com a experiência que se tinha do que é viver na cidade, do que é circular na cidade, mas mesmo assim ainda é um projeto inteligível.

O senhor superpôs a grande escala de Brasília à grande escala de Paris. E elas coincidem no tamanho. Há uma explicação para essa coincidência?

Pensar cidades exige comparação, então temos de estar sempre comparando. No caso, pegar alguma coisa que a gente conhece muito bem com algo que não se conhece muito bem. Conheço Paris extremamente bem, mas não conheço Brasília tão bem quanto conheço Paris. Jogar uma cidade em cima da outra na mesma escala é um modo de conhecer melhor Brasília pelo que ele conhece de Paris. Utilizo uma ideia que não é minha e, se não estou enganado é de Hannah Arendt. Ela diz que para compreender, no sentido forte da palavra, é preciso ter o conhecimento e a ele se somar a experiência. Com esses dois se chega à compreensão. Pra ela, a compreensão não pode ser apenas intelectual, tem que ser também física, vivida. Ao juntar as duas imagens, eu estava numa uma experiência que fiz de caminhar em Paris. De ir a pé da Praça da Bastilha ao Champs Elysee. Em termos de Paris, é uma grande distância. Na esperiência dessa caminhada, eu superpus os dois mapas para ver o que seria uma caminhada em Brasília. Acho que ir de uma ponta a outra da Asa Sul à Asa Norte não é uma caminhada fácil. É adequada para um esportista. Há mais a perceber nessa superposição de Paris e Brasília: A pequena Paris em todo o seu contorno tem pouco mais de 2,5 milhões de habitantes. Ou seja, dentro desse contorno de Paris, que é mais ou menos o equivalente ao contorno do Plano Piloto. O que quer dizer que dentro desse contorno do Plano Piloto nós poderíamos ter colocado toda a população das cidades-satélites.

Mas os vazios do Plano Piloto são uma preciosidade de Lucio Costa. Ele compôs com os vazios…

Seria muito pretensioso dizer está tudo errado, que nós devíamos é meter tudo mundo dentro do Plano Piloto, porque assim teríamos uma densidade mais forte de habitantes, teríamos distâncias menores e uma circulação mais simples. Mas, de qualquer modo, essa imagem [a superposição de mapas] nos obriga a considerar a posição do terreno ainda não ocupado. Uma coisa que considero muito curiosa: Brasília tem grandes parques, mas o entorno deles não é aproveitado para ser ocupado com habitação… Criamos um espaço que tem certo número de qualidades, mas não é um espaço que a gente oferece de maneira cotidiana aos habitantes. Não se aproveita desse parque, as pessoas não conseguem usufruir deles. A ausência de um estatuto para esses terrenos vazio permite que ao cabo se construa pequenas coisas aqui e acolá. Ou seja, não é mais um espaço natural e tampouco é a cidade central.

O que para muitos é a ocupação desordenada de Brasília, para o senhor parece ser a transformação de Brasília numa cidade de verdade…

Sem dúvida, Brasília está num processo de se tornar uma cidade verdadeira. Se a minha memória é boa, hoje a aglomeração de Brasília é a sexta do país [é a quarta, em número de habitantes na região metropolitana]. A quantidade de habitantes não é tudo numa cidade, mas de qualquer modo, quando não temos habitantes não temos cidade. O que quer dizer que se a população de Brasília a coloca entre as grandes cidades do país isso quer dizer isso quer dizer que foi um sucesso que a decisão de construir uma capital no centro do país. Disso não há a menor dúvida. Estou esperando o momento, e esse vai ser um indicador muito interessante, em que os voos internacionais passem a ser, por exemplo, Paris-Brasília com conexão em São Paulo. Nova York-Brasília, com conexão no Rio de Janeiro.

O senhor considera o tombamento de Brasília prejudicial ao conjunto da cidade, incluindo as cidades-satélites?

Quando eu soube, há muitos anos, que o Plano Piloto estava inteiramente tombado, fiquei apavorado com a ideia de patrimonialização de alguma coisa que estava incompleta, que ainda estava em processo de se construir. E fiquei horrorizado que a inscrição no patrimônio mundial não levava em conta de modo nenhum a preservação dos vestígios das construções dos pioneiros, das marcas dos processos de construção. Quando estive aqui pela primeira vez, em 1986, me lembro muito bem de que no Núcleo Bandeirante ainda havia muita casa de madeira, três ou quatro hotéis, havia um clube social , que já estava em péssimo estado. Ou seja, tudo isso que existia há 20 anos. Não se pensou em proteger esse patrimônio e hoje tudo isso já desapareceu. Na Vila Planalto, a igreja foi reconstruída [Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Pompéia], num projeto que não tem nada a ver com o que era a primeira igreja. O volume é o mesmo, mas perdeu-se o testemunho original. E ao mesmo tempo em que se reconstrói a igreja, todo o conjunto da Avenida dos Engenheiros está desaparecendo. Allesia de Biasi [arquiteta, professora da Escola de Arquitetura de Paris] ilembra que a palavra tombamento vem de tumba, ou seja, túmulo. Tenho medo que esse enfoque patrimonialista no fundo seja um embalsamento. Que há um grande risco de estarmos embalsamando o presente. Toda vez que se tenta criar uma imagem muito controlada da cidade, o resultado pode ser muito diferente daquele que deu origem a esse projeto. As intenções originais têm resultado contrário ao que se queria. Temos um pequeno exemplo na França. Em 1926, Le Corbusier construiu um pequeno conjunto de casas operárias, próximas à cidade de Bordeaux, num lugar que ficou conhecido como Pessac. Há 20 anos, as casinhas de baixa renda que ele havia construído ainda estavam bem visíveis. Mas, ao mesmo tempo, os habitantes haviam transformando imensamente esse conjunto, acrescentando coisa, construindo andares a mais. Depois foi criada uma associação para a preservação do conjunto de Pessac. Hoje em dia, a maior parte das casas foram colocadas na forma original, tiraram todos os acréscimos, e são habitadas obviamente por intelectuais com diplomas universitários e a população operária que ali vivia foi embora. Se entendi bem vai sair uma nova regra para permitir a extensão do comércio na Asa Sul. Se a intenção for guiar essa extensão que se faz necessária, é uma boa coisa. Se a regra tornar as obras muito caras, esse comércio da vida cotidiana das entrequadras vai ser substituído por agências bancárias. E ele irá todo para Taguatinga. Nós vamos ter náo só o esvaziamento do comércio cotidiano, como vamos ter um cenário urbano muito de acordo com que gostam os arquitetos, mas sem vida. Isso é um fenômeno que acontece em todos os lugares. Estou quase que totalmente seguro que vamos ver em breve em alguma parte das quadras 700 o retorno ao projeto original ou algo que dele se aproxime. Vamos ver algumas áreas neomodernas. E dentro dessas casas neomodernas, vamos encontrar a cadeira Barcelona, de 1929, de Mies van der Rohe, todos esses móveis icônicos domovimento moderno. Mas felizmente vai haver também redes porque estamos no Brasil.

O mercado imobiliário de Brasília é muito poderoso. A flexibilização do tombamento pode destruir o projeto de Lucio Costa, o senhor não concorda?

Do ponto de vista do tombamento, não tenho uma posição simples e segura por duas razões. A primeira razão é que vejo muito bem o perigo dessaa especulação extremamente violenta. A segunda razão é que já faz bastante tempo que admito que uma cidade é sempre cheia de contradições. O que me entedia, mais que tudo, são os puristas do patrimônio. Eles defendem o patrimônio como se não existissem contradições na cidade. O problema do urbanismo do movimento moderno é que é um urbanismo para uma sociedade sem contradições. E devemos nos lembrar ainda que uma sociedade sem contradições é o sono do totalitarismo.

Fonte: http://www.correiobraziliense.com.br...+E+PARIS.shtml
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