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Old June 7th, 2006, 02:51 PM   #1
Danzin
Danielz - xdanielz
 
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Desmonte do Minhocão

Desculpe se já postaram, ou se é coisa velha, sei lá... leia quem quiser.


Sem disposição da indústria imobiliária, o Minhocão de São Paulo vai ficar como está

Dependerá, em última instância, do mercado imobiliário a concretização - ou não - da polêmica proposta que começa a ganhar terreno em São Paulo, a da desmontagem do Elevado Costa e Silva, o desajeitado e quilométrico Minhocão. Já é consenso que só os investimentos privados poderão ajudar a prefeitura a bancar o enorme custo da remoção e substituição do elevado (por túneis, por exemplo). Não há recursos em caixa para tanto.

Construído pelo ex-prefeito Paulo Maluf em 1969, no auge do período militar, o equipamento, que contorna o Centro da cidade na direção leste-oeste, é considerado hoje o principal obstáculo para a revitalização das regiões da avenida São João, Santa Cecília, Campos Elíseos e Água Branca.

A avenida, que é quase totalmente recoberta pelo elevado, foi uma das mais sofisticadas de São Paulo até os anos 1970, quando abrigava, no estilo dos bulevares europeus, a maioria dos cinemas importantes e restaurantes de luxo da cidade. Depois da construção do Minhocão, mergulhou na decadência.

O ex-prefeito José Serra lançou, no último mês de fevereiro, um concurso de idéias para arquitetos e urbanistas com o objetivo de retirar elementos para dar uma nova utilização para a área. Serão três os projetos vencedores, com o prêmio máximo estabelecido em R$ 30 mil.

"Não damos garantia nenhuma de que algum dos projetos será adotado", avisa o arquiteto José Geraldo Martins de Oliveira, chefe da assessoria técnica de operações urbanas da Sempla (Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo), que coordena o concurso. "Queremos principalmente abrir um debate na cidade sobre o que fazer com o Minhocão."

Aparentemente, a intenção da prefeitura é de articular o projeto de reurbanização da área - que pode incluir a desmontagem do elevado - a uma possível operação urbana, mecanismo segundo o qual os empreendedores imobiliários adquirem o direito de construir acima dos limites da Lei de Zoneamento se investirem em programas urbanísticos ou viários estabelecidos pela prefeitura.

No caso de a proposta de desmontagem do Minhocão prevalecer, a contrapartida deverá ser, certamente, voltada para investimentos em alternativas viárias.

Embora consensualmente tido como inadequado do ponto de vista urbanístico, o elevado sempre cumpriu um importante papel no trânsito de São Paulo. A cidade é estruturada, em termos de circulação, em avenidas perimetrais que partem do Centro para todas as direções, já que não conta com uma quantidade suficiente de vias radiais (os "anéis" mal ultrapassam os limites do Centro da cidade).

O Minhocão é a única via perimetral paulistana que segue no sentido leste-oeste na modalidade expressa (sem cruzamentos na maior parte do trecho) e livre de trânsito pesado - ônibus e caminhões não podem circular por ali. É uma via de concentração do transporte individual. Passam hoje pelo elevado, todos os dias, cerca de 60 mil veículos. Terá de ser substituído, sob o risco de sua eliminação sobrecarregar várias outras vias na cidade.


Estrangulamento

Para o arquiteto e urbanista Michel Gorski, que no ano passado chegou a mandar para o ex-prefeito José Serra um projeto propondo a derrubada do Minhocão, tirar esse equipamento da São João poderia dar à cidade uma chance de repensar o seu sistema de tráfego. "Hoje, todos os veículos têm de passar pelo Centro. É um formato que estrangula a cidade", critica.

Gorski acredita que os investimentos em opções viárias seriam facilmente cobertos pelos benefícios que a derrubada do Minhocão trariam para São Paulo. "O anúncio da demolição teria impacto semelhante ao de uma nova linha de metrô", aposta, explicando que a região da São João foi a única na cidade cujos imóveis não se valorizaram depois de receber estações do metrô, na década de 1980, justamente por causa do Minhocão.

A discussão sobre o destino do Minhocão surge em um momento em que a prefeitura desenvolve um projeto de revitalização urbana na região da Cracolândia, próxima das estações ferroviárias da Luz e Júlio Prestes. É uma região localizada na área central, mas relativamente distante da São João.

O plano prevê a transformação de pelo menos dez quarteirões da Cracolândia - hoje em estado de extrema decadência urbana - em um pólo de serviços e de alta tecnologia, a exemplo do que fez a cidade do Recife na sua deteriorada região portuária, transformada no chamado Porto Digital.

O projeto da Cracolândia poderá servir para a prefeitura medir o interesse dos empreendedores em investirem no Centro, e balizar o alcance da intervenção na área do Minhocão.

A posição da Associação Viva o Centro, a principal das ongs (organizações não-governamentais) que atuam por melhorias na região central, é de, no entanto, deixar o Minhocão de pé (com imediatos melhoramentos pontuais na área) e induzir o setor imobiliário a despender as energias na recuperação da área da Cracolândia.

"Reurbanizar o perímetro da São João a partir da derrubada do Minhocão sairia caríssimo para São Paulo", adverte o arquiteto Marco Antonio Ramos de Almeida, diretor superintendente da entidade. "Seria necessário investir não só em alternativas viárias, mas também em desapropriações."

Almeida diz que um projeto parecido vem sendo desenvolvido em Boston, Estados Unidos, e foi orçado em US$ 15 bilhões. "É um projeto de reurbanização de grandíssimo porte, a maior obra hoje em andamento nos Estados Unidos. São Paulo é uma cidade pobre e tem outras prioridades."

É esta também a opinião de Romeu Chap-Chap, presidente do Secovi-SP (Sindicato da Habitação), a entidade das empresas imobiliárias de São Paulo. Chap-Chap vai além. Para ele, não há a menor garantia de que a derrubada do Minhocão vá garantir o interesse da indústria imobiliária pela área da São João.

"As avenidas São Luís e Rio Branco também são bulevares no estilo da São João, e entraram em decadência sem terem um Minhocão passando por cima", lembra. Ele também é favorável à priorização da Cracolândia como pólo de investimentos imobiliários na região central, mas alerta que a prefeitura terá de cumprir a parte dela, investindo forte em desapropriações, infra-estrutura e arruamento. "Caso contrário, a indústria imobiliária não vai se aventurar a construir ali."

Também contrário à desmontagem do Minhocão, o arquiteto e urbanista Jorge Wilhem, que foi secretário de planejamento na gestão da prefeita Marta Suplicy (2001-2005), acha que há várias outras áreas no Centro da cidade em condições melhores para receber investimentos imobiliários do que a da São João, "que é totalmente consolidada".

"A Barra Funda, por exemplo, e as áreas lindeiras às ferrovias, estão até hoje semivazias", diz Wilhem. "Há projetos de ocupação dessas áreas na própria prefeitura. Seria muito mais racional investir nelas."


Revitalização


Com ou sem Minhocão, a Operação Urbana Centro dá os primeiros passos para recuperar as regiões centrais, como a Cracolândia e o Anhangabaú
Embora tenha contribuído para a deterioração de parte significativa do Centro, a construção do Minhocão fez parte de um plano muito mais abrangente de "desconcentração" da cidade, entre o final da década de 1960 e o começo da década de 70, e que teve o apoio quase unânime dos paulistanos.

Avenidas importantes - como 23 de Maio, Brigadeiro Faria Lima e Marginal Pinheiros - foram abertas na direção Sul-Sudoeste, de modo a induzir a criação de novos pólos de comércio e serviços naquelas áreas.

Na época, São Paulo já tinha mais de cinco milhões de habitantes e sofria os efeitos do crescimento populacional e econômico desordenados. Por concentrar praticamente tudo o que havia na cidade nas áreas bancária, comercial e de serviços, o Centro foi a região mais afetada. Os congestionamentos de veículos e pedestres eram diários e imensos mesmo para os padrões atuais. E o metrô não tinha ainda sido implantado.

A posterior proibição de construção de novas garagens (para inibir o tráfego de automóveis), a instalação do Minhocão - cujo traçado, mas não o formato em elevado, constava do Plano de avenidas de 1929, de Prestes Maia - e a implantação dos calçadões em um amplo perímetro de ruas do Centro, no final da década de 1970, completariam o trabalho de "desmotorização" e descompressão da região.

O remédio acabou, no entanto, por quase matar o doente. Aos poucos, o Centro acabaria engessado economicamente e perderia população - a região responde, hoje, por apenas 8% dos empregos da cidade, e restam, nos 4,4 km2 do núcleo histórico original (os distritos Sé e República), não mais do que 65 mil moradores. Isso, apesar de o Centro contar com melhor infra-estrutura da cidade em água, luz, telefonia e até fibra ótica.

Projetos como a Operação Urbana Centro (que foi concentrada no Vale do Anhangabaú) e o da Cracolândia, assim como o da eventual revitalização da região da avenida São João, visam, principalmente, devolver ao Centro parte da pujança econômica e o papel de centralidade que já desempenhou em São Paulo. Por conta do progressivo "expichamento" na direção Sul¿Sudoeste, a cidade acabaria por entrar em um processo de deseconomia urbana.

Parte desse esforço tem sido bem-sucedido. Já foram para o Centro vários órgãos públicos municipais e estaduais, diversas universidades e centros culturais vêm sendo implantados em pontos de interesse turístico, como o prédio dos Correios e as estações da Luz e Júlio Prestes.

Os escritórios, no entanto, estão mais reticentes. "O problema é que quase todos os prédios do Centro são antigos, e precisariam de um pesado retrofit para se adequarem às necessidades dos escritórios de ponta", afirma Caio Sérgio Calfat Jacob, diretor da consultoria imobiliária CJ&N Real Estate. "Tampouco possuem suficientes áreas de estacionamento."

Para Jacob, no entanto, o uso da região como pólo universitário e de atividades tecnologicamente avançadas, como a de call centers, é plenamente viável e deve crescer, assim como o uso residencial. Embora também seja contrário à derrubada do Minhocão, ele não tem dúvidas que tal medida traria um impacto altamente positivo no segmento residencial na avenida São João e em todo o seu entorno, principalmente no bairro da Água Branca.


Retirada simples

Tecnicamente, a retirada do Minhocão seria uma operação bastante simples, embora demorada e logisticamente complicada. O equipamento, que no total tem 3,5 km de extensão - ele percorre, além da avenida São João, o "espaço aéreo" das avenidas General Olímpio da Silveira e Amaral Gurgel - foi inteiramente construído com blocos pré-moldados de concreto, e seria antes desmontado do que demolido.

O desmonte, no entanto, levaria pelo menos seis meses, segundo especialistas em obras de grande volume. Nesse ínterim, o caos no trânsito da cidade seria inevitável, caso já não vigorasse alguma alternativa de tráfego.

A retirada também não seria muito cara. Calcula-se que, se todas as grandes vigas do elevado pudessem ser reaproveitadas (em pontes e passarelas, por exemplo), o valor dificilmente ultrapassaria os R$ 80 milhões.

Há posições intermediárias entre o desmonte e a preservação do Minhocão que levam em conta essas dificuldades técnicas. O engenheiro e consultor Luiz Célio Botura acha, por exemplo, que o elevado deveria ser preservado em um primeiro momento, mas que duas ou três quadras ao longo do elevado deveriam ser reservadas para a imediata reciclagem urbana, dentro de algum tipo de parceria público-privada.

Uma faixa de 20 a 30 m poderia ser deixada de cada lado da via para permitir a criação de um novo sistema viário. "Em poucos anos estariam dadas as condições objetivas para a demolição do Minhocão", garante Botura, segundo quem outra opção de tráfego no sentido Leste-Oeste estaria no aproveitamento viário das áreas lindeiras às ferrovias que seguem esse trajeto.
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Last edited by Danzin; June 7th, 2006 at 03:05 PM.
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