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Grande Entrevista
David Borges: ‘Sou dos que defendem o CAN’
Tem no Cunene o seu chão físico, embora se tenha feito jovem na Huila.
Quote:
Está em Luanda para o CAN e ouvimo-lo no Jango da Rádio 5. Os angolanos conhecemno da SIC Notícias mas poucos sabem da história de um dos homens que mais faz por Angola nas terras lusas.

O que faz um homem maconje, da Huila, por Luanda?
Há um reino de Maconje no Lubango, mas eu não sou um elemento do reino de Makonje … aquilo tem uma lógica associada, com o pagamento de quotas, e eu não estou nesse plano administriativo. Sou, claro, um antigo estudante do então Liceu Diogo Cão, depois Liceu Mandume, e agora Universidade e, portanto, sou contemporâneo de muitas pessoas que fazem, essas sim, administrativamente parte do reino de Maconje.
Não é um homem da Huila?
Sou um homem do Cunene. Eu nasci no Cunene, é o meu chão físico e sentimental. E depois vem, no plano do afecto, a Huila, porque foi lá que eu atravessei aquelas fases mais impressivas da nossa vida, que é a fase juvenil, a pré-adolescência, a adolescência … o início da idade adulta. Digamos que sou um homem do sul, já que o Cunene e a Huila são duas províncias ligadas.
A Huila que tem dado a Angola muitas pessoas para a comunicação social, há muito homem da rádio …
Eu acho que Angola toda deu. Eu acho que Angola criou uma escola de jornalismo, não apenas no plano da rádio, também no plano da escrita.
Não da televisão, porque a televisão surgiu em Angola mais tarde.
Estes homens que iniciam a tal escola, esses homens do jornalismo, alguns deles chegam depois a Portugal e dão cartas …
Nós tínhamos a noção, em Angola, de que a nossa rádio era pobre, e que a rádio em Portugal e na Europa era rica, que nós éramos fracos e eles eram poderosos. Tínhamos apenas uma escuta limitada em rádio de onda curta, portanto, o que recebíamos dava-nos a ideia de que eles estavam no primeiro mundo da rádio e nós estávamos no terceiro mundo da rádio.
Mas quando chegámos lá e começámos a integrar-nos nas dinâmicas da rádio descobrimos que era precisamente o contrário. Nós tínhamos uma rádio, muito mais avançada, já com uma influência forte brasileira, e que Portugal tinha uma rádio menos avançada, ainda que tivesse, claro, grandes profissionais e grandes programas. Mas a nossa facilidade de integração resultou do facto de termos uma escola muito rigorosa de rádio, de termos uma grande paixão pela rádio e de termos uma polivalência na rádio, que em Portugal eles não tinham. Digamos que em Portugal o homem da rádio fazia o seu papel. Se tinha de escrever notícias só escrevia notícias, se tinha que ler notícias só lia notícias, e nós, em Angola, fazíamos tudo. Redigíamos notícias, líamos as notícias, fazíamos rádio-teatro, fazíamos relatos, reportagens … e, portanto, estávamos mais capacitados para enfrentar aquilo que hoje veio, inevitavelmente, a acontecer no plano da rádio na Europa que foi a polivalência. Aquela função, a multifunção que impôs que o jornalista da rádio em Portugal se tornasse até, mais tarde, em “técnico” porque passamos a operar também em estúdios “autooperados”, sem a presença clássica do técnico e, portanto, nós estávamos, creio eu, mais bem preparados.
Haveria uma espécie de corporação …
um forma de agir dirigida, já que os profissionais idos de Angola e Moçambique acabaram por ter, quase todos, uma integração boa e destaque… Não foi boa, foi complicada…
Mas depois surgiram coisas como a TSF, a que esteve ligado …
Sim, como um dos fundadores.
E foi uma coisa completamente nova, em Portugal, e mudou quase tudo na rádio …
Sim. Como disse, nós sentimos estar muito bem capacitados quando chegámos lá e nos confrontamos com os homens da rádio de Portugal, e tínhamos uma visão muito mais aberta das coisas. Aliás, esta foi sempre uma característica de Angola, como país grande que é, há sempre uma noção de horizonte e de espaço muito maior que a noção de horizonte e de espaço em Portugal e, portanto, tínhamos a ousadia de pensar sempre muito mais largo que os portugueses e, por isso, impulsionamos a criação dessa rádio que foi uma pedrada no charco no meio radiofónico português … que fói a criação da TSF. E, a partir daí, de facto, houve um impulso fantástico na comunicação em Portugal. Foi a TSF que fez a rádio avançar muito depressa, pouco tempo depois, ou mais ou menos em simultâneo, surgiram dois jornais que também impulsionaram a imprensa fortemente, que foi o jornal Público e o jornal Independente … em Portugal havia já o jornal Expresso que era muito forte e, depois, um pouco mais tarde, também a própria televisão foi impulsionada com a criação da SIC, dirigida, ela também, por um homem de Angola, o Emídio Rangel, que já tinha estado na criação da TSF.
Há particularidades … a TSF é uma rádio jornal, dedicada, praticamente, apenas às notícias, e em Angola temos uma rádio dedicada exclusivamente ao desporto … faz ainda sentido a existência de rádios “temáticas”?
Faz sentido, aliás há muito tempo que fez sentido, sobretudo nos Estados Unidos da América onde existem rádios segmentadas de todo o tipo, há rádios só desportivas, há rádios só de notícias, há rádios só de desportos motorizados, há rádios só de economia … e, portanto, a Portugal chegou a ideia atrasada, com o nascimento da TSF, e tão atrasada que foi numa surpresa absoluta a forma como a TSF se lançou. No plano de Angola, eu creio que é inevitável também esse caminho, que será seguido, porque hoje, de facto, há, para além da globalidade de uma massa ouvinte, estamos a falar apenas de rádio, podemos falar de televisão … há, depois dessa enorme massa de ouvintes, grupos que têm interesses muito específicos.
Grupos que se interessam muito por desporto, há grupos que se interessam muito por economia … há os que se interessam muito por desportos motorizados, só para falar de algumas áreas e, portanto, inevitavelmente acontecerá também, sobretudo num país grande como é este. Acontecerá, creio, essa dinâmica de criação de rádios segmentadas dirigidas para um alvo específico, dando aquilo que o alvo pretende receber e ganhando em troca a motivação promocional que desse nicho de mercado irá resultar.
A rádio 5, creio que é um projecto absolutamente bem sucedido, aliás, creio que é um fenómeno de rádio em Angola, é ouvida de Cabinda ao Cunene, e há uma ligação muito forte à Rádio 5. De desporto, em Portugal, gostamos todos, é uma área que atravessa toda a sociedade, tocando todas as pessoas e, portanto, faz sentido. Se calhar não faz sentido não haver uma rádio desportiva em Portugal.
Está ligado à RDP África?
Não. Já estive…
Mas esteve ligado ao seu surgimento …
Sim, estive na fundação da TSF e depois criei a RDP África. Estive lá dez anos, o projecto esgotou-se …
Porquê, deixou de ser interessante comunicar com a comunidade africana em Portugal, opu deixou de ser interessante comunicar para África?
É preciso estar em Portugal para sentir a avidez comunicacional que as comunidades africanas residentes em Portugal tinham e têm. É também interessante projectar a experiência colhida no plano da emissão para África, para Moçambique, S. Tomé e Príncipe, Guiné Bissau e Cabo Verde.
Porque havia como que um circuito de dois sentidos, nós levávamos para os países de origem as dinâmicas das comunidades residentes em Portugal e trazíamos para as comunidades as dinâmicas dos seus países de origem.
Isso era fantástico e continua ser fantástico. O problema é que houve o momento em que se poderia dar o passo em frente e não foi dado, por não haver grande interesse.

“… um dos dramas de Portugal é a sociedade portuguesa muito afastada de uma realidade que sabe que existe mas com a qual não convive…” Isso significa o quê?
Sublinho, nem da administração da RDP, a RTP agora é a junção da rádio e televisão, nem, num plano mais extremo, da própria estrutura governativa portuguesa e, julgo, posso dizer também, por desinteresse das próprias nações africanas. Porque nós podemos imaginar, pode parecer um bocado confuso, uma utopia, mas podemos imaginar uma RDP África e também uma RTP África, se quiséssemos, neste plano: a criação, em Portugal, nas comunidades residentes, de rádios comunitárias, rádios das próprias comunidades, se quiser uma rádio da comunidade cabo-verdiana, uma rádio da comunidade angolana, uma da guineense, etc., e ser possível criar um triângulo comunicacional, isto é, as dinâmicas comunitárias levadas as suas rádios das comunidades, captadas pela RDP África, podiam levar as suas dinâmicas para África e fazer o sentido inverso … trazer de África as dinâmicas dos países africanos e transferi-las imediatamente para as rádios comunitárias. Imagine termos uma festa cabo-verdiana que uma rádio comunitária cabo-verdiana faria, que a RDP África retransmitiria e que seria captada em Cabo Verde.
Poder-se-ia criar assim uma ligação muito íntima entre a comunidade e o país de origem. O contrário também é verdade, imaginemos um importante discurso do Presidente de Cabo Verde que seria transmitido pela RDP África e retransmitido pela rádio comunitária cabo-verdiana. Podia-se criar aqui uma rede comunicacional que aprofundaria muito as relações entre os que estão fora e os que estão dentro e, numa perspectiva mais larga, poderia também desenvolver-se uma situação mais próxima dos próprios ouvintes portugueses, que um dos dramas de Portugal é a sociedade portuguesa muito afastada de uma realidade que sabe que existe mas com a qual não convive, que é a realidade das comunidades africanas que estão em Portugal.
Mas buscando essa proximidade acaba por ser referenciado como um dos homens que mais defendeu a “promoção” da imagem de Angola, fundamentalmente, em Portugal
“Sou um homem do Cunene. Eu nasci no Cunene, é o meu chão físico e sentimental.”
Sim, por ser angolano, mas enquanto director da RDP África eu procurava projectar as cinco comunidades e os cinco países africanos de língua portuguesa. Digamos que eu era angolano fora da RDP África e tinha de ser, obrigatoriamente, angolano, moçambicano, santomense, cabo-verdiano e guineense dentro da RDP África. Mas o que se pode dizer é que eu desenvolvi um papel que as elites africanas deveriam ter desenvolvido e deveriam estar a desenvolver em Portugal. Falando com toda a franqueza, faz muito pouco sentido que eu, representante da minoria africana, sendo branco, tivesse a ousadia de liderar movimentos que têm de ser traduzidos pela maioria negra. Isto é, as elites negras africanas em Portugal é que deveriam puxar o comboio. Eu iria nele sempre …
Mas contou com pessoas como o Ismael Mateus, o José vieira …
Sim, eu tentei dar à RDP África um rosto multi-nacional, com a presença de jornalistas dos cinco países africanos, mais Portugal, e tentei, evidentemente, colocar dentro da RDP África profissionais africanos que acidentalmente estavam em Portugal, de passagem, em formação… de forma a acentuar essa ligação. Foi muito mais confortável para mim ter a Paula Simons e o Ismael Mateus dentro da RDP África porque eu sabia que eles tinham um aporte angolano muito forte, que eu, há muitos anos fora de Angola, não poderia levar.
Faz muita diferença ser um africano branco ou um africano negro …
Para mim não faz, mas temos de ser realistas. No mundo em que vivemos hoje, não tenhamos ilusões, as coisas ainda estão muito marcadas. Eu bato-me e bati-me em Portugal pela necessidade de Portugal começar a introduzir nas suas componentes de poder gente que representasse aquela que é uma fatia importante da sociedade portuguesa hoje. Não sei exactamente quantos são, mas talvez dez por cento da população que reside em Portugal é africana. E essa representação não existe, não temos deputados negros na Assembleia da República, não temos líderes autárquicos que representem as suas próprias comunidades. Repare que a Amadora que é um município fortemente africano, sobretudo cabo-verdiano, não tem esse rosto … eu acho que isso é importante, para começarmos a misturar muito as cores, para que se dilua a diferença das cores. Estamos a assistir esse fenómeno nos Estados Unidos … à medida em que há mais mistura nos Estados Unidos, mais facilmente as dinâmicas da sociedade americana funcionam, até ao ponto de finalmente haver um presidente negro nos Estados Unidos da América, o que é uma coisa impensável ainda na Europa, ou impensável em África porque as situações são semelhantes.
Encontra gente com que trabalhou em Portugal em Angola …
É com muito prazer que sei que o José Vieira está a liderar a Rádio Mais, que o Guilherme Galiano está a dirigir a área de programas da TV Zimbo, o Ismael … não é que a RDP África tenha produzido esses profissionais, porque eles já eram grandes profissionais
E perde-los na RDP África?
Eles perderam-me a mim primeiro, eu fui o primeiro a sair, ainda lá ficaram o Zé Vieira e o Guilherme Galiano que saíram depois.
É um homem muito ligado aos desportos também
Também
E este CAN?
Eu tenho uma dupla perspectiva para este CAN e tenho tentado traduzi-la. Eu sou dos que defendem a realização do CAN, sei que há vozes críticas, consideram que há outras prioridades, e lembro-me que em Portugal também haviam outras prioridades quando se realizou a Expo, 98 e depois, durante a Expo toda a gente se encantou, e hoje toda a gente se deslumbra com a recuperação de toda aquela zona de Lisboa. Lembro-me que as pessoas eram muito críticas com a construção do centro cultural de Belém, porque havia outras prioridades, e hoje os portugueses se orgulham do CCB e vão para lá em massa. Alguns portugueses também foram críticos do Euro 2004 mas depois deslumbraram-se com o Euro … só que não estão hoje muito satisfeitos porque alguns dos estádios não era necessário construir…
Estão às moscas…
Estão às moscas … e eu acho que no plano do CAN, por exemplo, não seria muito necessário o estádio da Tundavala no Lubango …
Já havia e se poderia recuperar o da Nossa Senhora do Monte?
O estádio da Nossa Senhora do Monte tem um enquadramento fantástico, é dos estádios mais lindos que eu conheço, no enquadramento paisagístico, extremamente bonito e é um estádio amplo que poderia, como foi, receber cadeiras, ser aprimorado e transformar-se no Estádio do CAN.
E depois temos os campos do Ferrovia e o do Benfica que foram reabilitados, lindíssimos, que serviriam como campos de apoio. Portanto, dos quatro estádios, em minha opinião, talvez o do Lubango não faça sentido, porque depois há que pensar no aproveitamento dos estádios …. E como se está a passar em Portugal com os estádios de Aveiro, Coimbra e do Algarve, pode ser que a Huila encontre problemas por não conseguir rendibilizar aquele espaço e aquilo se transformar, gradualmente, num peso muito forte, porque manter um estádio daqueles que é muito bonito, e eu sinto-me orgulhoso pelo estádio da Tundavala, embora ache que não seria necessário no Lubango, em função das infra-estruturas que já havia, … manter aquele estádio vai custar muito e um dia poderão também pensar, o que é que nós fizemos? … Passando para o CAN, também sei que há angolanos críticos em relação ao CAN, mas daqui a uns tempos as pessoas vão lembrar-se da festa vivida durante o CAN e vão, se calhar, orgulhar-se da infra-estrutura que o CAN criou ou acelerou. Sem o CAN provavelmente não haveria já novos aeroportos, novas vias, não haveria o desenvolvimento de telecomunicações, as novas capacitações humanas que o CAN trouxe. Sou um defensor do CAN, acho que essa é a primeira vitória de Angola, a vitória das conquistas infra-estruturais, é o plano da projecção da sua imagem, Angola está a dizer ao mundo que tem capacidade organizativa e que pode realizar uma competição deste tipo com um elevado nível, e, num segundo plano, a equipa de futebol, essa será a segunda conquista se Angola vencer.
Como estamos a falar de futebol, em que todos os resultados são possíveis, eu tenho medo que, como aconteceu em Portugal, as pessoas foram inchando o seu ego à medida que Portugal caminhou e depois, quando chegou à final e perdeu com a Grécia, foi um murro no estômago e o país deprimiu-se muito. Eu temo que Angola, não ganhando, os angolanos se deprimam também muito. Temos de estar preparados …
Diz-se que se Portugal tivesse ganho o Euro provavelmente a crise portuguesa teria sido adiada ou menos acentuada
“… repare-se ainda agora no atentado de Cabinda, que foi um atentado terrorista, parece-me que é claro para todos, e deveria ser sublinhado como isso, e no entanto, houve algum destaque dado a entidades que reclamavam a autoria do atentado, acho isso absolutamente intolerável …”
É importante dizer que o que queremos é que a equipa ganhe, oxalá. Mas sendo o futebol o que é, pode também não ganhar, e temos de estar conscientes disso e conscientes daquilo que disse o poeta brasileiro Carlos Drumond de Andrade, depois daquela traumática eliminação do Brasil no mundial de 1982, que deprimiu profundamente o Brasil, e ele viu-se obrigado a escrever uma crónica a dizer que apesar da eliminação, o sol continuou a nascer no Brasil todos os dias. Também em Angola, se houver uma desilusão, o sol há-de continuar a nascer todos os dias.

Quando um dos países de língua portuguesa está em competição, acabamos por experimentar uma quase transferência de identidade: quando o Brasil joga torcemos pelo Brasil, quando é Portugal torcemos por Portugal, a grande maioria das pessoas … tem feedback de Portugal sobre este CAN?
Infelizmente é pouco o feedback, embora, por exemplo, a SIC Notícias tenha aberto, ainda na passada segunda feira, no programa “O Dia Seguinte”, um espaço de aproximadamente 15 minutos para a qualificação de Angola, em que eu tive o prazer de intervir… acho que não há é absorção ainda, e eu creio que no plano desportivo e em todas as áreas, os sucessos de um país têm de ser digeridos pelo conjunto de todos os países que têm essa ligação epidérmica. Eu bati-me, por exemplo, pela necessidade que a nossa comunidade de língua portuguesa absorvesse os sucessos que a Maria de Lurdes Mutola ia conseguindo para Moçambique, porque é muito mais agradável nós projectarmos não apenas as nossas reduzidas conquistas, de Portugal ou de Angola, ou de Moçambique e podermos junta-las todas, e aá podemos ter um assomo de orgulho comunitários, se juntarmos as medalhas do Brasil, de Angola, de Moçambique … dá sempre um volume maior … começar a digerir a necessidade de destacarmos os sucessos de cada um dos países. E assim como Angola celebrou e acompanhou com muito interesse o Euro 2004, eu gostaria que Portugal e o Brasil celebrassem mais o CAN de Angola. Infelizmente ainda estamos longe desse momento, mas aos poucos, eu creio o caminho será esse também.
Num outro plano, sente-se em Angola, talvez pela exiguidade do mercado, ou por outro tipo de sentimentos, que podem ser legítimos, uma reacção, também epidérmica, quando se fala de profissionais vindos de Portugal para trabalhar em Angola. Há pessoas que reagem mal, julga que há alguma zanga que nega algum carinho para os que saíram e querem voltar, ou é um sinal de que os angolanos, em alguns planos, querem ficar orgulhosamente sós?
Eu percebo … e quero dizer já que eu não venho para Angola, vou vindo a Angola.
Está de parte a hipótese de vir para Angola?
Não, definitivamente. Não, porque tenho família e não posso trazer a família toda para cá, a minha mulher tem uma profissão estável em Portugal, a minha filha tem uma profissão estável em Portugal e, portanto, eu sozinho não venho, com a família não sendo possível, isso está bem interiorizado em mim. E também aos sessenta anos nunca seria uma ameaça para ninguém. Compreendo algumas reacções … por isso vou vindo à medida que me vão pedindo para vir, se não me pedirem para vir eu não venho, venho apenas de férias.
Mas se me pedirem eu aceito e venho transmitir alguma da experiência que tenho. Mas percebo que o fenómeno não é só no campo do jornalismo, mas em todos os campos. As pessoas que atravessaram um período extremamente difícil em Angola ficaram, confrontaram-se com todas as dificuldades do mundo, e quando o país começou a ser estável a expectativa deles é que essa presença, essa continuidade também fosse premiada de alguma maneira. E podem sentir que as pessoas que bazaram daqui, por circunstâncias várias, e que depois vendo Angola estabilizada rapidamente retornam, constituem uma injusta concorrência, eu posso perceber isso. Mas é preciso pensar um pouco o que vai ser esse país, eu sinto e sei que tudo está centrado em Luanda. É para Luanda que as pessoas vêm, porque, se calhar, há essa ideia de que é em Luanda onde está o dinheiro, é em Luanda onde está o emprego, o futuro.
Mas Angola tem 18 províncias, e eu sou do sul, sinto que há um espaço de crescimento necessário naquelas províncias. O Bié, por exemplo, é do tamanho de Portugal e terá 500 mil habitantes, no Bié tudo está por fazer.
Se formos para o Kuando kubango é o mesmo, Moxico, Zaire, Uige, lundas… a faixa litoral, mais o Lubango e mais o Huambo estão a desenvolver-se, mas há províncias onde as coisas não se estão a desenvolver. Se eu tivesse 40 anos, por hipótese, e me convidassem para vir para Angola, eu gostaria de fazer um trabalho fora de uma destas províncias, não gostaria de vir para Luanda, porque sinto que a parte mais estimulante para a reconstrução do país está fora de Luanda. Como é que se vai para o Kuando kubango, para o Moxico? que tipo de condições existem? Que tipo de apoios, o que vai lá encontrar? … estamos a falar na área da comunicação social e eu acho que isso é o que se tem de começar a pensar. Antes do CAN andei por Luanda, Cabinda Benguela e Lubango, tive contactos com jornalistas e sinto que se Luanda tem dificuldades no plano do jornalismo, e não estou a falar do entusiasmo e da paixão, da capacidade de trabalho, do potencial, estou a falar de aprimorar as coisas, de melhorar os gestos técnicos, de melhorar a língua, de melhorar a comunicação, Luanda tem problemas, mas, depois, a medida que nos afastamos deste centro os problemas vão crescendo, vão-se multiplicando. A situação é menos positiva em Cabinda, Lubango e Benguela, agora não imagino o que será no resto das províncias que eu não citei. O problema não é ter medo dos angolanos que regressam, o problema é pensar o que é que esses angolanos que regressam podem fazer. Porque nem tudo pode estar a acontecer em Luanda ao mesmo tempo, nem em Luanda podem desaguar todas as pessoas que querem vir ganhar dinheiro, ou ter um emprego, um futuro. Acho que o futuro…

Mas têm o direito de regressar a casa
Sim mas a casa maior é Angola. A minha casa pequena ou é no Lubango ou é no Cunene…
Portanto, na pele de fazendeiro …
Não, não. Quando eu assumi a minha condição de homem da comunicação, homem da rádio, é para toda a vida, como o casamento. Eu vindo para Angola, viria para trabalhar na minha área, até porque não tenho jeito para fazer negócios. Mas vindo para a minha área, eu sou franco, gostaria de desenvolver o meu trabalho não em Luanda, mas, sobretudo, no Lubango ou em Ondjiva, que são os meus espaços, e onde eu sinto que as carências são maiores e onde eu poderia, eventualmente, ser mais útil.
Essa é a reflexão que vai ter de se fazer porque o país precisa de crescer harmoniosamente. Já antes da independência Angola era Luanda e a capital a Mutamba, depois da independência, se calhar acentuou-se ainda mais essa imagem.
Mas apesar da influência que os comunicadores angolanos têm em Portugal, ciclicamente temos arrufos com entidades estatais ou governativas angolanas. Os que é que se passa, é Portugal que deixou de saber ler a Angola de hoje, ou é essa Angola, essa África que já não aceita leituras francas ou enviesadas feitas de fora? Esta Angola particularmente.
Eu acho que Portugal precisa de voltar a conhecer África
De actualizar-se?
“O problema dos especialistas é que são especialistas de leituras de jornais, e eu não quero ofender essas pessoas, parto do princípio que fazem análises de boa fé, mas para escrever sobre um país, eu acho que a responsabilidade de escrever sobre um país é tremenda.”
De se actualizar, em todos os países africanos, embora Cabo Verde menos, porque o turismo tem levado muitos portugueses para Cabo Verde … em relação a Angola há um fenómeno especial, eu sinto que Angola e Portugal são tão próximos que inevitavelmente têm de ter arrufos, é como dois irmãos que se amam e às vezes se odeiam. E eu não quero centrar culpas, penso que pode haver culpas dos dois lados.
Situando-me no meio em que vivo, que é o de Portugal, eu sinto que tem havido um problema grande, isto é, a imagem projectada de Angola em Portugal foi sempre uma imagem negativa, por causa da guerra e por causa das consequências da guerra. As imagens que passavam na televisão ou eram imagens de conflito, ou imagens de zonas destruídas pela guerra, ou eram imagens de populações em fuga, ou de populações traumatizadas, ou de crianças abandonadas, crianças com moscas a volta e ranho no nariz, crianças a viver em esgotos a céu aberto … essas foram sempre as imagens que foram transmitidas. E, apesar de tentar confrontar as pessoas com a inevitabilidade de outras imagens de Angola, porque Angola apesar das suas crises continuou a produzir coisas, continuou a ter escritores que escreviam, a ter músicos que faziam música, continuou a ter professores que davam aulas, continuou a ter investigadores que investigavam … tudo isso não é de agora, mesmo nos mais pesados tempos de guerra Angola continuou a produzir isso mas nunca houve uma imagem clara dessa Angola em Portugal. E mesmo os produtos que chegam a Portugal … os livros ainda têm uma entrada razoável, embora limitada, mas no plano da música, por exemplo, não é possível ouvir uma música angolana na rádio pública portuguesa, o que eu acho que é uma coisa absolutamente inacreditável. E também na rádio privada.
Mas enquanto a rádio privada tem a sua capacidade de opção, eu acho que a rádio pública deveria ter como uma das suas obrigações promover a cultura da comunidade dos países de língua portuguesa, o que significaria também dar espaço à música de cada um dos países. O que temos é uma cooperação portuguesa influenciada, para Angola, pelas imagens da televisão, e pela ausência absoluta de referências angolanas, ou africanas, no plano da rádio, ou nos jornais, ou iniciativas produzidas por entidades que quisessem promover esse melhor conhecimento. Quando estava na RDP África produzíamos coisas pequeninas no mês de Maio, mês de África … fazíamos coisas pequenas nos jardins de Belém, porque não tínhamos capacidade para fazer coisas maiores, e os portugueses surpreendiam-se e iam perguntando o que é aquilo? Aquilo é uma múcua, aquilo é um disco de Angola … as pessoas interessavam-se e não conheciam. Há um desconhecimento gerado por uma comunicação social mais virada para o que é mau, o que acontece de mal … repare-se ainda agora no atentado de Cabinda, que foi um atentado terrorista, parece-me que é claro para todos, e deveria ser sublinhado como isso, e no entanto, houve algum destaque dado a entidades que reclamavam a autoria do atentado, acho isso absolutamente intolerável …
Mas isso é um traço que marca a comunicação social portuguesa, ou ocidental, se olharmos para os noticiários portugueses normalmente os destaques vão para assuntos “negativos”, quer ocorram em Portugal, quer fora … há os escândalos políticos, os apitos dourados … isso pode dizer-se que não é apenas em relação a Angola
Não, é essa a lógica, mas o que eu quero dizer é que temos uma proximidade que nos deveria obrigar a olhar com mais afecto, com mais atenção para as coisas que os nossos países vão produzindo. Há pouco falei do desporto, da necessidade de dar mais destaque no Brasil, em Portugal e em Angola, das conquistas olímpicas de Maria de Lurdes Mutola, mas podemos falar de mil outras coisas.
Deveríamos estar atentos às nossas realizações e as nossas capacidades, e não estamos, e esse é um problema.
Mas se eu ainda tolero que no plano da comunicação social privada isso se faça, porque as opções são claramente privadas, a questão é que temos uma estrutura em Portugal, de serviço público, que se chama RTP, estou a falar da rádio e da televisão, que têm uma responsabilidade maior e essa responsabilidade não é assumida por entrar a RTP em lógicas concorrenciais com as entidades privadas que vão na mesma linha.
Durante algum tempo moderou debates na RDP África, e voltando ao conhecimento mútuo entre os países, encontramos em Portugal pessoal tituladas de especialistas em assuntos africanos, porque estiveram num país africano por dois ou três anos, mas não encontramos entre as comunidades africanas, por exemplo, pessoas que lá tenham vivido vinte anos, que tenham lá estudado, que se lhes reconheça o rótulo de especialista em estudos europeus … isso marca a forma como as comunidades olham uma para a outra?
Eu acho é que praticamente não se olham, isso é dos grandes dramas da sociedade portuguesa, não sei se é um drama também aqui em Angola, não vivo cá, venho de férias de um ou dois meses, não dá para perceber isso. Mas em Portugal há esse problema, as comunidades não se olham. Há um dia em que em Lisboa nós vemos África irromper nas ruas, é o dia das visitas de parentes. Sábado, em princípio não se trabalha, e o que podemos perceber, se tivermos um olhar mais atento, é uma grande circulação de pessoas de raiz africana nos movimentos pela cidade para se visitarem entre si. Digamos que é o único dia em que Lisboa parece uma cidade multi-étnica, para usar uma expressão politicamente correcta. Nos outros dias não, nos outros dias não há esse cruzamento intenso de africanos e portugueses.
Depois a separação é sempre grande relativamente aos locais onde as pessoas vivem. Eu tentei, na Cova da Moura, um bairro sempre falado pelas piores razões, mas em frente ao bairro há gente portuguesa que lá vive, e eu tentei acções naquela fronteira que misturassem aquelas pessoas levando a parte portuguesa para o interior da Cova da Moura e os da Cova da Moura para a parte portuguesa, mas para isso é sempre preciso um parceiro e a RDP África fez isso muitas vezes, mas fazia-o para a comunidade africana da Cova da Moura, era preciso ter um parceiro como a Antena 1, um canal português (da rádio estatal). Se eles se associassem a nós teríamos uma Antena 1 a transmitir para o lado português e a RDP África para todas as comunidades africanas … e não era preciso fazer 24 horas por dia, programas regulares de uma ou duas horas serviriam muito bem para esse processo de conhecimento.
As pessoas quando vão para a noite africana de Lisboa gostam, se se confrontam com uma comida africana gostam, se contactam com pessoas africanas gostam … no fundo o que se deve fazer é transferir por alguns momentos a cultura, a comida, as discotecas africanas para o contexto da sociedade portuguesa, mas isso não é feito por falta de comparência de entidades que têm responsabilidades e eu nem sequer ponho à margem a responsabilidade das próprias embaixadas africanas que eu acho que poderiam fazer muito mais. Acho que a RDP África fez mais em dez anos pela relação entre as comunidades africanas residentes em Portugal e os seus países de origem do que as próprias embaixadas.
O seu trabalho leva-o a lidar com muitas pessoas … acha que as pessoas que fazem opinião têm sido suficientemente justas, tanto em Angola como em Portugal, em relação aos dois países … Ou são mais apaixonadas que justas?
“… também sei que há angolanos críticos em relação ao CAN, mas daqui a uns tempos as pessoas vão lembrarse da festa vivida durante o CAN e vão, se calhar, orgulhar-se da infra-estrutura que o CAN criou ou acelerou…”
Há uma paixão, um fenómeno qualquer que faz com que as pessoas se sintam mortificadas com o sucesso dos angolanos … se descobrisse isso talvez em vez de nos zangarmos mais vezes poderíamos tentar perceber melhor o que é que se passa de um lado e do outro, porquê que essa relação às vezes se complica. Vou dar um pequeno exemplo do que pode ser feito: a minha filha tem trinta anos, nunca tinha vindo a Angola, apesar das minhas várias tentativas, porque vivia muito condicionada pela realidade angolana que chegava a Portugal. Quando eu vinha a Angola e levava cassetes de vídeo e lhe mostrava, ela acusava-me de ser parcial, por só filmar coisas bonitas em Angola e de não filmar as coisas más. E eu dizia-lhe que as coisas más já as tinha na televisão, que não estava a negar as coisas más que a televisão apresentava, mas que estava a mostrar-lhe as coisas boas que a televisão não mostra e deveria mostrar. Em 2005 ela veio comigo e com a mãe dela, tivemos uma experiência desagradável em Luanda, apanhamos um táxi sem ar condicionado, em pleno Janeiro, com trânsito caótico, no meio da vertigem angolana que ela não conhecia, aquilo começou mal … mas depois, ao chegar ao Lubango, começou a correr bem e na passagem por Luanda, no regresso, já correu melhor. Ela encontrou-se com Angola e criou amizades em Angola ao ponto de querer vir de novo.
Mas de uma pessoas desconfiada em relação a Angola, descobriu uma Angola que ela não conhecia, senão através do pai, mas que ela acusava de parcialidade. Movimentou-se bem em Angola, fomos ao Cunene, fomos ao Kipungo, porque quis parar na igreja, tirou fotografias, interrompeu uma aula de crianças que estudavam de baixo de uma árvore ao lado da igreja, ela interiorizou a sua própria condição de angolana filha de um angolano. Este processo pode reforçar o conhecimento e as pessoas ficam a gostar.
O problema dos especialistas é que são especialistas de leituras de jornais, e eu não quero ofender essas pessoas, parto do princípio que fazem análises de boa fé, mas para escrever sobre um país, eu acho que a responsabilidade de escrever sobre um país é tremenda, e é preciso sublinhar a essas pessoas um nome, de um europeu, já falecido, infelizmente, polaco chamado Ryszard Kapuscinski que sempre fez reportagens baseando-se nisso: eu, para ter a ousadia de escrever sobre a realidade de um povo tenho de viver no meio desse povo. E por isso, quando ele ia para as sete partidas do mundo alojava-se numa comunidade tão representativa quanto podia encontrar, andava em transportes públicos, corria riscos, mas dizia ele que só a partir dessa vivência é que se sentia com coragem para escrever sobre um povo.
As pessoas precisam de interiorizar isso. Não digo que venham e façam exactamente o mesmo, mas que venham com frequência e que procurem conhecer a realidade do país, porque um país não se conhece pela leitura e pelo estudo que se faz. Conhecese andando no país, falando com as pessoas, entrando nas comunidades, entrando nos mercados, falando com as kínguilas … só assim é que alguém pode ter a ousadia de ser especialista em assuntos africanos, porque essa especialidade é teórica, não é prática e nem eu me atrevo … por isso é que gostei muito de ter a trabalhar comigo a Paula Simons e o Ismael Mateus, porque eles levaram para a RDP África o conhecimento cheirado da realidade angolana, coisa que não sou capaz de fazer, nem me atrevo a isso, porque a minha vinda a Angola, embora frequente, é muito limitada no tempo e isso não me dá substrato para chegar a Portugal e falar em nome de Angola.
Procuro defender Angola em algumas situações e algumas não são nada fáceis, de facto.
Já se sentiu confrontado com alguma cobrança por estar na SIC e a SIC e as algumas entidades ou pessoas singulares angolanas andarem de costas viradas … já lhe atribuíram alguma culpa, mesmo por eventualmente não fazer por evitar certos “exageros”?
Não. E acho não o fariam porque é preciso separar as águas, a entidade das pessoas. a entidade SIC, SIC Notícias, é uma entidade respeitável que tem fundamentos muito respeitáveis, e que aliás, e penso que até gostaria de aprofundar relações com Angola. Não tenho dúvidas nenhumas de que a SIC Notícias gostaria de aprofundar relações com Angola e relações numa base de exploração de mercados, de negócios, isso não é mau. O problema é que há algumas pessoas que têm a tal visão de Angola que é colhida, não da realidade vivida, mas daquilo que lêem, ouvem, vêm … porque, voltamos ao princípio, pode ser tudo o que se diz, mas o problema é que não se diz aquilo que está no oposto do que se diz.
Tenho discussões violentas em Portugal, mesmo sobre o plano da corrupção, que em Portugal é obsessivo, e eu não nego a realidade da corrupção, porque em Portugal também há corrupção, como se tem visto até pelos últimos desenvolvimentos … mas costumo dizer que a corrupção é um fenómeno das pessoas e que há-de existir sempre e que nenhuma sociedade e nenhum país produziu elites ricas que não tenha sido, em boa parte, em algumas delas, apoiadas em bases ilícitas, ou até desumanas, nenhuma sociedade do mundo.
Basta recuar em Portugal ao tempo dos marqueses e dos duques, em que o rei oferecia terras e as pessoas que estavam nas terras, eles cobravam às pessoas as terras, enriqueciam, multiplicavam propriedades … todas as sociedades produziram elites ricas que não se podem considerar situações exemplares … e Portugal tem oito séculos de existência e ainda temos fenómenos de corrupção, e continuará a tê-lo, portanto não pode ousar pensar que Angola com trinta anos de independência tenha todos os seus problemas resolvidos. Acho que esse tipo de olhar para Angola é profundamente injusto, porque há uma parte de Angola que deveria merecer todo o respeito do mundo a essas pessoas, que tendem a meter tudo o que de mau Angola tem no conjunto da sociedade angolana, sem creditar também à sociedade angolana muito do mérito que ela tem nas conquistas que Angola vai tendo, sobretudo depois de alcançada a paz.
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