Salvemos a Casa Saloia - Page 2 - SkyscraperCity
 

forums map | news magazine | posting guidelines

Go Back   SkyscraperCity > European Forums > Fórum Português > Arquitectura e Urbanismo > Portugal > Projectos


Global Announcement

As a general reminder, please respect others and respect copyrights. Go here to familiarize yourself with our posting policy.


Reply

 
Thread Tools
Old October 13th, 2017, 10:08 PM   #21
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

Reabilitação “amiga do Património”
Vítor Cóias
GECoRPA
Luís Mateus
Monumenta



I

“A VELHA CONSTRUÇÃO

Depois de uma década de crescimento explosivo do parque habitacional, Portugal vê-se hoje a braços com um stock de casas devolutas que se aproxima do milhão, das quais várias centenas de milhar são novas. Embora tarde, e em resultado da crise que se agudizou a partir 2007, a febre construtora que dominou Portugal dos anos oitenta até meados de 2000 está a passar.(...)

Por outro lado, os excessos da construção e o deficiente ordenamento do território
exerceram um enorme impacto sobre o património natural. O "território artificializado”, isto é, o solo que foi irreversivelmente ocupado com novas urbanizações, vias de comunicação e outras infra-estruturas, aumentou cerca de 700 km2entre 1985 e 2000, uma área equivalente a quase nove vezes a do concelho de Lisboa. Este efeito é particularmente atentatório da sustentabilidade quando incide sobre as regiões costeiras, que constituem o mais rico dos ecossistemas em termos de número e variedade de plantas e animais e desempenham um papel crucial na qualidade de vida das populações. Entre 1990 e 2000, Portugal registou o desenvolvimento mais rápido do "muro mediterrânico" (o domínio da orla costeira da Europa, pelo cimento e pelo betão).
(..)

Finalmente, o País acordou do pesadelo e volta-se agora para a reabilitação do edificado, como alternativa à construção nova. Mas eis que uma nova ameaça se prefigura: mercê da pressão política dos promotores/construtores e do facilitismo da regulação do sector, o País arrisca-se a descobrir, dentro de outros dez anos, que a reabilitação em que investiu é de
duvidosa eficácia, de reduzida durabilidade e, frequentemente, lesiva do valor cultural do edificado antigo e dos centros históricos."
(...).

Fonte : Reabilitação “amiga do Património”
http://www.gecorpa.pt/documentos.asp...ções+e+Artigos

Last edited by CMartin; October 22nd, 2017 at 12:49 PM.
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Sponsored Links
Advertisement
 
Old October 13th, 2017, 10:34 PM   #22
Barragon
Barra for Friends
 
Barragon's Avatar
 
Join Date: Dec 2004
Location: Barreiro
Posts: 141,894
Likes (Received): 15950

Muito obrigado!
__________________
::: Portuguese Forum :::

Tocha :: Mira :: Vagos :: Ílhavo :: Praia da Barra :: Curia :: Anadia :: Oliveira do Bairro :: Águeda

Fat people are harder to kidnap
Barragon no está en línea   Reply With Quote
Old October 13th, 2017, 11:02 PM   #23
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

Obrigada também Barragon.
Este fórum...é mesmo o que eu procurava!

Last edited by CMartin; October 13th, 2017 at 11:28 PM.
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Sponsored Links
Advertisement
 
Old October 15th, 2017, 12:49 PM   #24
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

Reabilitação “amiga do Património”
Vítor Cóias
GECoRPA
Luís Mateus
Monumenta


II


"REABILITAÇÃO: O QUE É?

O conceito de reabilitação surge, normalmente, ligado ao de aptidão ou de desempenho. Com base no Decreto-Lei n.º 307/2009, o Regime Jurídico da Reabilitação Urbana, "reabilitação de um edifício” pode ser definida como uma intervenção destinada a conferir adequadas características de desempenho e de segurança funcional, estrutural e construtiva ou a conceder-lhe novas aptidões funcionais, com vista a permitir novos usos ou o mesmo uso com padrões de desempenho mais elevados. Em cada caso concreto há vantagem em caracterizar a intervenção de reabilitação de um edifício ou conjunto de edifícios através de três atributos:
• Âmbito;
• Natureza;
• Grau.
Por âmbito entende-se a abrangência da intervenção; a natureza tem que ver com as suas características essenciais; finalmente, o grau distingue as intervenções ligeiras das profundas.

A reabilitação de um edifício antigo pode, quanto ao âmbito, abranger a totalidade do edifício ou apenas uma parte; quanto à natureza, visar apenas o aspecto exterior do edifício ou ter como objectivo a sua estrutura; e, quanto ao grau, envolver apenas a substituição de elementos degradados ou a total renovação e reforço. Dentro do conceito genérico de “reabilitação de um edifício” cabem, portanto, intervenções que podem diferir muito umas das outras e colocar exigências de capacidade técnica muito diversas."
(...).



Fonte de imagem : Minha
Fonte de texto : Reabilitação “amiga do Património”
http://www.gecorpa.pt/documentos.asp...ções+e+Artigos
__________________

mckeenan liked this post

Last edited by CMartin; October 22nd, 2017 at 12:49 PM.
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Old October 22nd, 2017, 12:45 PM   #25
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

Reabilitação “amiga do Património”
Vítor Cóias
GECoRPA
Luís Mateus
Monumenta

III



O PRINCÍPIO DA INTERVENÇÃO MÍNIMA

Foram os trabalhos de Camillo Boito (1836-1914) que puseram em evidência a importância de minimizar a intervenção nos edifícios históricos. De então para cá o princípio da
intervenção mínima aparece consignado nas principais normas internacionais sobre conservação e restauro, como as Cartas de Veneza e de Cracóvia, ou ainda, mais recentemente, para as intervenções de natureza construtiva e estrutural, nas recomendações do ISCARSAH (ICOMOS, 2004). Mas o princípio da intervenção mínima não resulta apenas da necessidade de salvaguardar o valor histórico e artístico dum edifício. Ele apresenta-se hoje como um corolário de um princípio muito mais geral, cuja importância para a sociedade é hoje universalmente reconhecida: o da sustentabilidade, entendida como o regime que permitiria a existência por tempo indefinido da espécie humana sobre o planeta, possibilitando uma vida digna, segura e produtiva a todos os humanos, em equilíbrio com a natureza e em respeito dos direitos individuais universalmente aceites e dos valores culturais locais. Da transposição deste desiderato para a área da construção, resulta que, uma vez o País dotado de um parque edificado suficiente e de uma infra-estrutura adequada, a construção nova deve tender para zero, ou seja, limitar-se à substituição das construções que chegam ao limite das possibilidades de reabilitação. Além disso, e com acuidade crescente à medida que o seu peso no conjunto da construção aumenta, as intervenções de reabilitação devem respeitar os requisitos da sustentabilidade. Os arquitectos e os engenheiros devem procurar reduzir ao mínimo a intervenção, seja o edifício existente histórico ou não, por considerações económicas, sociais e ambientais:
a) Considerações económicas: o custo da elevação dos padrões de desempenho de um edifício existente é geralmente superior ao custo de um acréscimo equivalente num edifício em projecto;
b) Considerações sociais: as intervenções “pesadas” perturbam os ocupantes (ou obrigam, mesmo, ao seu realojamento), limitam a utilização do edifício e originam menos-valias em termos patrimoniais;
c) Considerações ambientais: os resíduos produzidos e os materiais e a energia consumida são tanto maiores quanto mais intrusiva é a intervenção.
Em consequência, o objectivo de “intervenção mínima”, fazendo quanto possível uso dos materiais, instalações e sistemas já existentes, é válido para a maior parte das intervenções de reabilitação de edifícios, quer os que constituem Património, quer os destinados a usos e ocupações correntes. Constata-se, por outro lado, que uma intervenção “amiga do Património” é também “amiga do Ambiente”, ou seja, inscreve-se, por inerência, nos objectivos da sustentabilidade.
O princípio da intervenção mínima é aplicável em intervenções em qualquer das partes constituintes do edifício: a envolvente (a vizinhança próxima do edifício), o envelope (a “pele” do edifício), os interiores, a estrutura e fundações (a parte do edifício que resiste às forças que sobre ele actuam) e as instalações e sistemas (as redes de abastecimento, esgotos, elevadores, sistemas de AVAC, etc.).

Fonte : http://www.gecorpa.pt/documentos.asp...ções+e+Artigos

Last edited by CMartin; October 22nd, 2017 at 12:53 PM.
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Old October 28th, 2017, 06:26 PM   #26
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

"domingo, 12 de agosto de 2012
Mensagem para os Sintrenses (Projecto Cívico Sintra em Ruínas)
Amigos Sintrenses,

Dói imenso quando o nosso corpo está aberto em feridas e de dentro de nós jorra sangue vivo, dói demasiado, daquela dor que ultrapassa o inexprimivelmente humano, quando a habitação do nosso ser está minada com um mal encoberto que vai arruinando lentamente a vida. Assim acontece com a nossa querida Vila de Sintra e em geral com o concelho, totalmente corroída por edifícios e casas sozinhas, perdidas, abandonadas, mal tratadas, em ruínas. Por aqui e por ali estão e vão apodrecendo e levando ao mais triste e sorumbático cenário, ora esquecidas por proprietários em fim de vida ou sem vontade nem dinheiro para as recuperar, ora ignoradas pelos cidadãos que diariamente passam e pouco vão almejando mudar na sua ordinária paisagem, ora alheias ao poder local que na inércia dos seus esquemas de interlúdio e burocracias profissionais impossibilitam iniciativas importantes para o embelezamento do edificado sintrense.

Neste projecto cívico Sintra em Ruínas procurámos retratar um pouco da realidade diversa do problema da reabilitação do edificado urbano, histórico e rural evitando como muitos fazem falar ou escrever sem conhecer o terreno e a verdadeira realidade. Durante 7 meses, entre Janeiro e Julho de 2012, percorremos, fotografámos e publicámos as mais variadas casas e edifícios na Vila de Sintra e arredores. Acreditamos que o trabalho realizado é o suficiente para reflectirmos sobre o tema partindo do conhecimento da realidade e podendo de forma mais lúcida propor à sociedade soluções para corrigir o problema, seja ao cidadão, ao proprietário ou ao poder local.

Sejamos melhores cidadãos, lutemos por aquilo que vale a pena, a Vila e o Concelho de Sintra merecem.

Filipe de Fiúza

12-08-2012"

Fonte : http://sintraemruinas.blogspot.pt/?m=1





__________________
CMM
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Old October 28th, 2017, 06:30 PM   #27
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

Está melhor, mas ainda há muito a fazer por este País fora.
Mãos à obra Portugal ! Valorize-se.
__________________
CMM
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Old November 4th, 2017, 06:47 AM   #28
Cidade_Branca
Architect
 
Cidade_Branca's Avatar
 
Join Date: Jul 2004
Location: Lisboa
Posts: 12,300
Likes (Received): 3007

A Casa Saloia não é só na zona saloia?
Cidade_Branca no está en línea   Reply With Quote
Old November 4th, 2017, 01:19 PM   #29
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

Quote:
Originally Posted by Cidade_Branca View Post
A Casa Saloia não é só na zona saloia?
Acho que sim. Nessa perspectiva e dito assim, sim.

Mas a casa saloia é a arquitectura popular, logo abrange mais do que a zona saloia, a meu ver.
__________________
CMM
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Old November 4th, 2017, 01:20 PM   #30
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

No fundo a casa saloia (e a arquitectura popular) somos nós.
Por isso escolhi este título para o tópico. Talvez também no sentido etnológico (e - acrescento - etnológico/cultural).
E há muito a fazer pela casa saloia que somos nós.
__________________
CMM

Last edited by CMartin; November 4th, 2017 at 02:03 PM.
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Old November 5th, 2017, 01:04 AM   #31
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

Quote:
Originally Posted by CMartin View Post
No fundo a casa saloia (e a arquitectura popular) somos nós.
Por isso escolhi este título para o tópico. Talvez também no sentido etnológico (e - acrescento - etnológico/cultural).
E há muito a fazer pela casa saloia que somos nós.
"De nome “al-Andalus”, a Península Ibérica foi, outrora, povoada e governada por vários povos, que se cruzaram entre si, misturando culturas, costumes e conhecimentos, influenciado aquela que, atualmente, é um dos ex-libris de Portugal, a arquitetura. O Castelo de Silves, o Palácio Nacional de Sintra e a Igreja Matriz de Mértola são algumas das heranças deixadas por todas aquelas gerações.

Grande parte do território da atual Península Ibérica era dominada pelos visigodos. Após a morte do rei Vitiza, em 710, Rodrigo foi eleito o último rei visigodo da Hispânia.
No ano de 711, várias tropas oriundas do norte de África cruzaram o estreito de Gibraltar e venceram Rodrigo, na batalha de Guadalete.
Depois disto, o Reino Visigótico acaba. Esta conquista árabe recebeu o nome de Invasão Islâmica da Península Ibérica.

Origem da Península Ibérica
Nos séculos seguintes, os muçulmanos foram alargando as suas conquistas na península, apoderando-se do território a que chamaram “al-Andalus”, e que governaram durante quase oitocentos anos.
A partir daí, os muçulmanos foram ampliando as suas conquistas territoriais e, em consequência do domínio territorial e militar, veio também a influência cultural.
A invasão dos mouros fez misturar povos com culturas distintas, dando origem uma sociedade muito heterogénea.
Desde a invasão da Península Ibérica, os cristãos da região tentaram expulsar os muçulmanos e restituir o domínio no local.
Mas o processo de reconquista prolongou-se durante todo o período da Idade Média.
Após oitocentos anos de tentativas de reconquista, finalmente, no início da chamada Idade Moderna, os reis católicos, Fernando e Isabel, expulsaram definitivamente os muçulmanos e o Estado da Espanha foi unificado, em 1492.

A herança árabe
Apesar de expulsos, os vestígios materiais da longa permanência muçulmana ficam aquém das expectativas, principalmente porque a política cristã de reconquista foi a de “terra arrasada”.
Cada localidade retomada aos árabes era destruída e os objetos e construções eram queimados em fogueiras que ardiam durante dias.
Mas restaram alguns elementos que atestam este período da vida portuguesa, principalmente nas muralhas e castelos, bem como no traçado de ruelas e becos de algumas cidades do sul do país.

Arte islâmica
A Arte Islâmica desenvolveu-se em Portugal durante a presença muçulmana do país (712 - 1249).
O termo “arte islâmica” refere-se à unidade criativa de uma arte e uma arquitetura próprias de uma civilização de enorme extensão geográfica. Nos primeiros tempos do Islão surgiu uma arte rica e variada baseada na tradição clássica, na arte bizantina, persa e de outros povos orientais conquistados.

Características da arquitetura árabe
A originalidade das estruturas arquitetónicas e dos motivos ornamentais deram origem a uma arte própria, tipicamente muçulmana.
O arco em ferradura, de influência visigótica é a imagem de marca da civilização muçulmana em Portugal. A ornamentação é, sem dúvida, um dos aspetos que mais contribuiu para a unificação da arte islâmica.
A grande profusão de superfícies decoradas faz com que as estruturas fiquem parcialmente escondidas, num fenómeno preenchido de todos os espaços com decoração conhecido como horror ao vazio. A repetição de motivos - geométricos, cosmológicos, a caligrafia e motivos de origem vegetal estilizados - e a combinação de materiais e texturas originam um efeito tridimensional que confere aos edifícios uma certa aura de mistério e harmonia, para o que contribuem igualmente a luz e a presença de água.
Outros dos elementos decorativos mais característicos são os adornos em estuque trabalhado.
A rejeição de qualquer imagem figurativa (aniconismo) é também característica da arte islâmica. Deve-se ao receio da idolatria, ou seja, da veneração de imagens que simbolizassem seres do outro mundo.
Na arquitetura destacam-se os edifícios de carácter religioso, as mesquitas, cuja origem foi a casa do profeta Muhammad em Madina na atual Arábia Saudita. As primeiras estruturas de ordem religiosa apareceram depois da deslocação do centro do poder de Matina para Damasco e Jerusalém: a Cúpula do Rochedo, em Jerusalém, e também a Mesquita de Damasco.
Em Portugal, essa presença nota-se pelos monumentos como o Palácio Nacional de Sintra, o Castelo dos Mouros ou a Igreja Matriz de Mértola.
Na arquitetura islâmica foram adotadas várias soluções e técnicas construtivas para a resolução de problemas de ordem estrutural dos edifícios. Os arcos, nomeadamente os arcos de ferradura, ocupam um lugar importante. As arcadas com colunas com capitéis, por vezes ricamente trabalhados foram uma das soluções estruturais também utilizadas.
Foram poucos os arcos em ferradura que em Portugal resistiram até aos dias de hoje: na Porta da Vila de Faro, um dos acessos à Medina de Elvas, em quatro portas da Mesquita de Mértola encontramos ainda alguns desses arcos em muito bom estado de conservação.
Quanto aos capitéis, embora muitos tenham chegado aos nossos dias, apresentam-se fora do seu contexto inicial. As paredes de taipa foram também fundamentais como material de construção de muitas estruturas.
A taipa era por vezes intercalada com pilares de alvenaria. No caso das taipas mais pobres, o revestimento com cal era essencial para a longevidade da obra.(...).

Fonte : http://www.mundoportugues.org/article/view/63998

"Arquitectura saloia em Óbidos

Localizada em Óbidos, refere-se a presente imagem a uma casa implantada fora das suas muralhas.

Torreada, facilmente deixa transparecer as suas origens saloias. Como outras casas saloias, possui um corpo de dois pisos e quatro águas – a torre, justaposto a outro volume térreo. Parece que este estilo arquitectónico tem a sua génese nas tradições moçárabes, tendo resistido às inovações cristãs. Os volumes torreados, normalmente cúbicos, o que não acontece no presente caso, pelas suas proporções remetem para a «caaba», o «cubo sagrado» do islão, edifício religioso que é o objecto básico da peregrinação a Meca. A arquitectura saloia distribui-se sobretudo nos arredores de Lisboa, estando contudo presente noutras zonas da Estremadura.
Rafael Carvalho / Ago2008"

Fonte de texto e de imagem :
http://arquitecturadouro.blogspot.pt...bidos.html?m=1
__________________
CMM

Portucalense1986 liked this post

Last edited by CMartin; November 5th, 2017 at 01:21 AM.
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Old November 5th, 2017, 01:19 AM   #32
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

Quote:
Originally Posted by CMartin View Post
Acho que sim. Nessa perspectiva e dito assim, sim.

Mas a casa saloia é a arquitectura popular, logo abrange mais do que a zona saloia, a meu ver.
"TERRITÓRIO E CULTURA SALOIA:
A CONSTRUÇÃO DE (UMA) IDENTIDADE LOCAL?

Luis Vicente Baptista∗

Enredado no fenómeno da metropolização e na redefinição dos usos económicos, sociais e simbólicos dos espaços que estão ligados a esta problemática, o tema Saloios reemerge aparentemente de forma anacrónica e despropositada. Será que assim é? O que estará por trás da afirmação pública de uma cultura local tão antiga e afinal ainda actual, territorialmente a (re)definir? O que fará desta temática um importante requesito discursivo entre alguns interventores políticos e culturais dos concelhos fronteiriços de Lisboa?

Tais questões parecem-nos relevantes, tanto mais que a discussão que nos últimos anos foi lançada em torno das competências e dos deveres do Estado, da participação generalizada dos interventores locais, privados e públicos, e dos efeitos práticos da globalização nas cidades, que se querem competitivas, ganha um lugar de destaque nas preocupações das Ciências Sociais.

É pois neste cenário que somos levados a pegar no polémico tema da cultura saloia que, embora refriado pela reconfiguração física e populacional dos arredores, graças à instalação das formas mais visíveis de cidade nos campos em redor, ainda hoje remete para fortíssimas emoções na representação de Uns e Outros.
A disputa entre próximos, Alfacinhas (os de Lisboa) e Saloios (os dos arredores), está presente no imaginário colectivo nacional sobretudo devido às imagens produzidas na capital portuguesa a propósito dos arrabaldinos.
Por ora, com base em algumas fontes literárias e documentais, procuramos estabelecer um conjunto de interrogações que se pretendem pertinentes para uma futura análise.
De que modos se reconvertem construções sociais mais ou menos duradoiras, como é o caso do saloio representado literariamente até momento recente? Como se estabelecem as condições que favorecem a coexistência de apropriações contraditórias, eventualmente de sentido oposto e referentes a tempos distintos?
Através de que formas se produzem e se fazem difundir as imagens daquilo que é saloio? Em que circunstâncias se efectiva esta duplicidade de entendimentos de uma mesma matéria de análise e − diríamos mais − de uma mesma matéria de análise que se modifica e amplifica "territórios e populações imaginários" distintos?

A construção do fenótipo e a marcação do território
Muitos são os testemunhos e as descrições mais ou menos literários que percorrem autores lisboetas, ou que escrevem sobre Lisboa, acerca dos saloios e das suas características. Um deles, porém,
é particularmente significativo devido à contundência da argumentação e à pessoa do seu autor. Raúl Proença, figura democrática de referência da I República traça, no seu Guia de Portugal, de 1924, (1º volume: Lisboa e Arredores), um perfil do saloio que não deixa dúvidas. Os argumentos levam-nos à convicção de estarmos perante uma raça menor. Tomemos apenas uma passagem desse texto:
Quando Afonso Henriques tomou posse de Lisboa, consentiu-se ao mouro que refluísse para os subúrbios da cidade, e ele aí se estabeleceu, entregue ao cultivo das hortas, com a água a escorrer da nora generosa. É desta população consentida, mourisca e subalterna, que deriva o mais da gente que habita os contornos de Lisboa − o saloio de tez morena, pele tisnada, olhos e cabelos negros ou castanhos, membros secos, tipo sem finuras de raça e beleza plástica de linhas, tão afastado da gente bela e robusta do Norte, como o berbere dum dos melhores rebentos da gente circassiana (1924: 464).
Fisicamente está definido: distingue-se do cristão vencedor. Territorialmente está delimitado: o saloio, raça tolerada, vive desterrado nos arredores. Não acarreta por isso qualquer ousadia afirmar que as terras envolventes da capital estão associadas a uma condição mais que periférica, desafortunada.
Tal convicção, a de estarmos perante uma raça distinta, não é exclusiva de Raúl Proença. Nogueira de Brito escreve no Boletim da Junta da Província da Estremadura um artigo intitulado "Os Saloios. Raça tradicionalista e trabalhadora", datado de 1943, onde se podem ler extractos como o que se segue:
Essa raça curiosa, embora bisonha, êsse tipo acabado de hábitos severos e de reduzida expansão sentimental tem, afinal, sobre nós a grande e excelsa superioridade da sua admirável discrição, moeda que tão pouco corre entre citadinos e vilões (1943: 313). Tamanho elogio mal disfarça a substância do que é elogiado.

Curiosamente ainda em 1980, mas em clara adaptação aos novos tempos, Guilherme Felgueiras, no mesmo Boletim, retoma a questão fenotípica intitulando o seu artigo "Os Saloios. Grupo étnico de Lisboa suburbana". É significativa a reconversão terminológica, que pretende atenuar o preconceito
agora corrente face à ideia de raça, mas é sobretudo importante a persistência da convicção de estarmos perante um grupo populacional etnicamente distinto. E este é um ponto de partida a que não nos podemos furtar. Há uma espécie de mito fundador da condição de saloio, associado a uma particularidade genética, que apesar das reconversões posteriores estará ainda presente mesmo que só
por efeito dedutivo.
A verdade permanece indiscutível mesmo entre os autores que apreciam e defendem as qualidades dos saloios. João Paulo Freire, por exemplo, no seu livro publicado em 1948, O Saloio: Sua Origem e Seu Carácter: Fisiologia, Psicologia, Etnografia parece fundamentalmente ter o intuito de rebater os
defeitos antepostos ao saloio mais que discutir a verdade rácica.
A atitude de defesa do saloio faz-se tendo por base a sua importância para o citadino. Os argumentos rácicos de Raúl Proença não são rebatidos por João Paulo Freire, este antes reenvia a apreciação do "duvidoso carácter" do saloio para os denunciantes, os alfacinhas.
Retomemos aliás as afirmações de quem caracteriza o saloio, Raúl Proença:
Psicologicamente, caracteriza-o (o saloio) o espírito de rotina, a curteza de vistas, a avareza levada à sordidez, e essa sistemática atitude de desconfiança que, sob o nome de esperteza saloia, tomou foros de proverbial, e foi filão aproveitado por muita veia cómica nos teatros de Lisboa (1924: 464).
E de seguida a argumentação de João Paulo Freire que, a propósito do saloio, afirma: Fatalista, sim. Como um árabe manhoso, por defesa. Desconfiado, pelo muito que, desde séculos, o têm explorado, roubado, maltratado. É a desconfiança da vítima diante do carrasco. É a habitual desconfiança de todos aqueles que vivem à mercê do assalto, da emboscada, da verdadeira, da autêntica velhacaria dos outros, que lhe chamam a ele velhaco.

Irisalva Moita vem, num registo bem posterior, no texto El Pueblo de Lisboa, estabelecer um discurso de equilíbrio entre as visões conflituantes: Pelas suas qualidades de trabalho e honestidade nos negócios foi sempre uma população bem conceituada, não obstante, pela sua extrema simplicidade, nem sempre isenta de uma certa 'esperteza saloia', serem objecto, frequentemente, da burla alfacinha (1980: 12).

A ideia recorrente de que o saloio é o descendente do árabe, do sarraceno, do mouro, estabelece uma condição que, amansada, ou não, pelas boas intenções dos discursos que proclamam a tolerância da população portuguesa, dá forma e sentido ao reforço da fronteira social, assim etnicamente sustentada, entre o aldeão e o citadino. Contudo a fragilidade deste pressuposto não podia ser maior.

No mesmo texto, El Pueblo de Lisboa, quando a autora descreve os alfacinhas − falamos aqui dos próprios citadinos −, encontramos com frequência referências que dão substância a falar de um povo miscenizado, o que pouca abona em termos de uma pureza racial portuguesa ou europeia face aos
aparentemente diferentes norte africanos. Veja-se a descrição feita da mulher alfacinha "que recusava a mostrar-se com a cabeça descoberta" (Moita, 1980: 11), assinale-se "a influência do sangue negro nos alfacinhas" (Moita, 1980: 10), tudo parecendo encaminhar-se para enunciar as características de
uma cultura mediterrânica, específica devido aos cruzamentos da experiência marítima, hierarquizada nos lugares, mas não na definição rácica das suas gentes.

Será que no saloio são reconhecidos os "defeitos", que são dos portugueses, mediterrânicos envergonhados, que não se querem admitir enquanto tal de forma a não prejudicar a "gesta nacional"?
O argumento rácico serve aliás para estipular limites civilizacionais nos usos do próprio património natural. O exemplo do "horror à árvore" é típico. Diz Raúl Proença:
O seu horror à árvore, tão rácico, não pouco tem contribuído para despoetizar grandes zonas da terra em que se fixou, dando a certos retalhos arrabaldinos esse aspecto escalvado, marroquino e carrancudo, que tanto confrange o homem do Norte, afeito às prodigalidades duma natureza luxuriante (...). Mudou tão pouco este berbere da Ibéria, que ainda hoje é às hortas que ele dá os esmeros de cultura (1924: 464).
Em reacção a esta denúncia, João Paulo Freire vai desenvolver uma justificação que reforça essa espécie de fixação colectiva na menoridade do saloio e da qual participam os seus próprios defensores.
Sustenta Freire: De facto o saloio não tem amor à árvore. Mas talvez possa explicar este horror à árvore. O saloio é o homem da terra. A terra é o seu tesoiro, o seu Banco, o seu cofre. E o saloio sente-se na obrigação de defender ao máximo a produção da sua terra, que é afinal o seu pão e o seu celeiro. Ora a árvore é o ladrão desse pão e desse celeiro. Uma árvore de grande porte, rouba à terra, pelo menos, uma circunferência de dois metros de raio. Se uma terra de dois ou três hectares tiver uma dúzia de árvores calcule o leitor quantos metros quadrados de terra são roubados ao cultivo normal. Daqui, quanto a mim, o horror do saloio à árvore, que afinal não é horror, mas defesa. Desta defesaveio fatalmente o seu desamor a todas as árvores, inclusive às árvores de fruto, quando não em pomares de exploração. Porque nestas, se não as ama, pelo menos defende-as, porque lhe dão interesse (1943: 242).
Se nos distanciarmos da emotividade da discussão, o que fica desta transcrição é sobretudo a imagem negativa do camponês, no seu geral, possuído de um arcaísmo nas formas de conceber a racionalidade, quer económica, quer espacial, mais do que propriamente um evidente traço étnico.
Tal imagem, se tomarmos em consideração as palavras de Irisalva Moita acerca da população alfacinha que "depreciava os trabalhos braçais que relegava para a população adventícia e se reservava para ocupar os cargos públicos inferiores, sendo também dotado para alguns trabalhos de artesanato
tradicional" (1980: 11), pode nos levar ainda mais longe.

Podemos inclusivamente colocar a hipótese de o saloio funcionar então como um estereótipo ligado à actividade, e logo à população, a evitar. E isto na medida em que estamos a falar de uma
sociedade em que o trabalho da terra se associa a um labor particularmente árduo e de uma população da cidade, grande parte dela chegada dos campos, que deliberamente se afastou, em muitos casos fugiu, do trabalho agrícola pouco compensador. "Um moiro de trabalho" é provavelmente um tipo de
expressão que tem algo a ver com esta concepção do trabalho braçal, do qual todos aqueles que puderam fugir o fizeram, refugiando-se sobretudo no trabalho do sector terciário tradicional.

O cenário das transformações urbanas, políticas e culturais
O discurso classificatório que ao longo de várias décadas foi sendo feito pelos autores com pretensões etnográficas acerca de algumas populações das proximidades da cidade de Lisboa, muito
corrente no século XIX e nas primeiras décadas do XX, assente em características fenotípicas estereotipadas, concorre de forma decisiva para que cheguem ao nosso tempo aspectos desta "depreciação" corrente entre os citadinos face aos arrabaldinos. Não sendo invulgar, tal fenómeno ganha um particular interesse quando, num contexto contemporâneo de transformação rápida das
imediações da cidade tornada metrópole, a partir da depreciação aparentemente construída pelos da cidade se chega a uma tentativa de construção identitária pelos de fora da cidade.
Esta identidade em construção vê-se consubstanciada na produção de discursos e na acumulação de iniciativas que pretendem revelar o que parecia até aí ocultado: o valor cultural e o sentimento de pertença territorial da dita população "saloia". A explicação para tal fenómeno está provavelmente
ligada à emergência do novo poder autárquico, a partir do 25 de Abril de 1974, e ganha sentido por comparação destes lugares ditos saloios com os outros locais dos arredores dominados fisicamente pela cidade, hoje estendidos bem para lá dos antigos limites administrativos do concelho de Lisboa.

Abandonada a discussão acerca do duvidoso valor etnográfico do tema "saloios", eis que as transformações urbanas que envolvem a cidade de Lisboa permitem revisitar esta matéria aparentemente anacrónica sob um outro ângulo. A apropriação que os poderes municipais e eventualmente as elites locais fazem do mito saloio para afirmar uma identidade, algo forçada, face à
Lisboa hegemónica (Baptista, 1994: 53-77), que conquista os territórios municipais em redor pelo crescimento urbano descontrolado, é relevante para perceber a questão das identidades no contexto ora metropolitano.

O fenómeno a que assistimos desde os anos 50, de alargamento das áreas de residência dos que vivem na dependência do centro da actual metrópole, teve um efeito uniformizador nos campos em volta da cidade. Os antigos lugares fronteiriços a Lisboa foram tomados por formas de edificação e por
populações que introduziram dinâmicas alheias à vida nos arrabaldes de uma cidade tradicional.
Após uma primeira fase de transformação acrítica do seu espaço concelhio, nos anos 80 os dirigentes municipais encetam políticas de afirmação da sua especificidade cultural, "da sua tradição", visando ganhar relevância face à capital toda poderosa, o que será eventualmente resultado da introdução de uma nova lógica política a nível local concretizada a partir de 1976. O caso dos saloios é apenas um entre vários.
O que é curioso aqui é o facto da imagem do saloio parecer ser antes de mais uma construção lisboeta associada a uma população dos arrabaldes antigos da cidade de Lisboa, particularizada porque estabelecia com os da cidade relações de clara proximidade. Todavia, este arrabaldino não parece ser
visualmente assim tão distinto do estremenho, do ribatejano, ou do alentejano dos primeiros tempos do século. É a específica proximidade relacional ligada às actividades a que se dedicam estas populações que as colocam numa posição desvantajosa nas avaliações dos letrados que sobre elas
escrevem e que com elas convivem. A marca da coexistência com a cidade tradicional está aí bem visível na tipificação do campesino do subúrbio.
Ora, com a chegada maciça às terras saloias de populações de outras zonas do país e dos lisboetas afastados do centro da cidade, sobretudo a partir dos anos 50, estes lugares vão sendo introduzidos numa dinâmica de "cidade alargada" onde o eventual referente saloio, construído pela negativa a partir de Lisboa, vai perdendo sentido. Não é por acaso que o rasto do saloio logo se perde, dentro dos limites físicos da cidade, nas localidades transformadas nos anos 20, 30 e 40, por exemplo, no Campo Pequeno, e nos anos 50, 60 e 70 em Benfica, no Lumiar, em Carnide. Já fora desses limites o mesmo acontece, ao mesmo tempo e posteriormente, nos concelhos de Oeiras e da Amadora ou no recém constituido concelho de Odivelas.
O resultado parece-nos evidente. No cordão de concelhos que se densificaram em torno de Lisboa esta memória desaparece ou apenas tem referência mítica pré-urbana. E se bem que, como se constata nos textos da primeira trintena do século XX acerca das áreas da dita região saloia, estas áreas estejam
incluidas no que então se entendia como "universo saloio", a fronteira que define a especificidade saloia parece ser antes de tudo a própria frente urbanizadora que margina com os campos feitos modernamente espaços rurais.

Não é pois casual que os concelhos onde esta identidade é reclamada e alvo de redefinição sejam aqueles que não sendo contíguos à cidade de Lisboa, embora já afectados pela dinâmica do crescimento da cidade, ainda são detentores de paisagens, mais afastadas da capital, onde a reprodução destas imagens é ainda possível de re-encenar. Falamos concretamente dos municípios de Sintra, Loures e Mafra e em situação mais indefinida, entre a situação dos concelhos-cordão da cidade e os que se reclamam da tradição saloia, do de Cascais.
Não nos interessa, claro está, definir limites geográficos para uma realidade etnográfica ela própria questionável, mas antes analisar os contextos onde (e as formas como) as diversas entidades, grupos
ou individualidades reclamam esta identidade, quer pelo seu pitoresco, quer pelo seu potencial de "tradição aberta à inovação". É neste domínio que a noção de museificação dos campos enquanto estratégia urbana de fazer do "rural cena urbana secundária" (Chamboredon, 1985: 569) ganha pertinência.

É sabido que nas últimas décadas a "zona saloia" tem deliciado os lisboetas como área por excelência para instalação de "segundas residências" e como o crescimento urbano tem lançado para zonas cada vez mais distantes da cidade essas moradas. Seria interessante averiguar de que modo localidades mais distantes poderão estar actualmente a ser alvo de uma classificação a que eram anteriormente alheias. A hipótese que se coloca é a de a descoberta pelos lisboetas de populações com resquícios camponeses em regiões mais distantes, imaginemos por exemplo, Torres Vedras ou Caldas da Rainha, as colocar à sombra de novas classificações citadinas antes apenas apropriadas à zona saloia.

Postas estas questões, parece-nos essencial analisar a forma como se vai constituindo a política cultural dos concelhos que antes identificámos, no sentido da conservação/museificação, e logo como se efectiva a divulgação e a recriação do património tradicional-saloio. Em complemento, investiremos
na detecção e caracterização das marcas físicas e simbólicas da auto-definição dos autóctenes(?), seja no modo como as casas comerciais se anunciam ou como a imprensa local reflecte tal identidade.
Tal meta só ganha contudo consistência tendo em atenção as transformações por que as áreas em análise vêm passando nas últimas décadas e tendo presente a dinâmica metropolitana na qual se inserem as actuações dos autarcas e dos intervenientes locais que vêem no "turismo rural" um meio de
galvanizar a importância local no contexto da grande cidade e do país em profunda reconversão. A redefinição das actividades tradicionais, a racionalização da agricultura acompanhada da busca da autenticidade dos produtos tradicionais, o uso do campo como espaço lúdico por excelência, colocam
estes lugares como destinos de lazer prioritários dos que, na cidade e nos aglomerados envolventes, buscam para os "tempos livres" o espírito de um tempo e um modo de vida míticos porque efabuladamente mais próximos da natureza e da "vida natural".

A construção de uma identidade fronteiriça − entre o mito e a museificação
Traçada a linha de separação entre as condições que promoviam o discurso desqualificador do saloio, que domina até período recente, e o novo contexto urbano em que os arredores da cidade se reconhecem hoje, emerge nos anos 80 e 90 um discurso letrado de defesa de uma cultura e de um território saloio, se quisermos de uma causa saloia, que visa constituir uma traço de identificação dos
lugares saloios de maneira a fazer vingar um certo tipo de cultura local. Este traço identificador assenta na museificação de um passado laborioso das suas gentes e nas qualidades de uma vida saudável na actualidade, a que se ligam os "bons ares", a "boa comida", as "boas gentes".
Tal construção tende a ser defendida, inevitavelmente, em fóruns de discussão das culturas locais nos quais participam vários tipos de interventores que vão dos "estudiosos da terra", aos técnicos locais, aos activistas culturais. São exemplo deste tipo de iniciativas os encontros que ocorreram em
Sintra, levados a cabo pelo Instituto de Sintra (I Colóquio de Etnografia da Região Saloia, Sintra, 4 a 6 de Junho de 1987, cujas actas foram publicadas em 1993) e em Loures, pela Câmara Municipal de Loures (duas Jornadas sobre Cultura Saloia, que decorreram em 2 e 3 de Dezembro de 1994 e em 6 e 7
de Dezembro de 1996, publicadas respectivamente em 1996 e em 1998), assim como a relevância dada no Boletim Cultural da Câmara Municipal de Mafra ao tema.
Nas intervenções produzidas neste âmbito vamos encontrar vários registos de análise e de interpretação de um reavivado fenómeno saloio. Tanto surgem comunicações documentadas com a apresentação de "exemplares saloios", fotografados e inquiridos, homens e mulheres escolhidos segundo o preceito da conservação dos traços do saloio fenotípico tão em voga na primeira metade do século XX, como outras em que é patente o discurso distanciado acerca da terra saloia, em que toma lugar central a ideia do património a preservar, e em que o discurso do local, da resistência do sítio face à cidade agressora, se deixa antes classificar no âmbito da defesa da cultura tradicional.
No segundo caso, do discurso sobre a terra saloia, aparentemente mais manuseado por citadinos convertidos às belezas das terras pacatas, anuncia-se um novo momento da cultura local. Trata-se de um discurso que se enquadra em lógicas globais de rentabilização dos patrimónios culturais, de
museificação, de roteirização, de classificação, enfim, de promoção do lúdico.

Não é despropositado falar da importância das populações citadinas que converteram estes espaços em lugares de recreio, de fim-de-semana e de férias, nem do significado que tem um número crescente de profissionais urbanos que se instalaram com carácter de permanência nestes sítios outrora distantes
da capital. Estes residentes constituem-se como agentes interessados na construção de uma imagem purificada das terras saloias e também como produtores de discursos que, transpostos no quotidiano da
cidade, vêm contribuir para a reavaliação da ideia dos arredores inóspitos.
Há ainda que lembrar o papel dos autarcas naturalmente sempre ciosos de encontrar causas locais capazes de estimular o investimento no concelho e implicitamente de promover a sua própria imagem enquanto agentes dinâmicos, que lhes é conferida através da obra realizada.
Ora é face à cidade dominante que os decisores e as elites dos lugares em redor promovem a definição de territórios de pertença, para novos e velhos autóctones, padrões de convivialidade e exemplos de "qualidade de vida". A afirmação de uma identidade fronteiriça aplica-se aqui no sentido de uma inclusão na dinâmica metropolitana de Lisboa embora condicional, com deliberadas cambiantes de auto-exclusão.
A fronteira corresponde à frente urbana que, circunstancial mas deliberadamente na visão destes interventores, está áquem dos territórios preservados e a preservar relativamente à dinâmica massificadora da cidade alargada. Deste modo, os lugares saloios constituir-se-iam como bastiões a defender, resistindo à avalanche edificadora e garantindo essa mais-valia de consistirem nos primeiros
sítios que, apesar de admitidos numa lógica global de metrópole, estão libertos das amarras do betão e das tensões urbanas.

Fonte : Território e cultura saloia - Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação ...
PDFwww.gepac.gov.pt › obs-n-6-3-pdf
__________________
CMM

Last edited by CMartin; November 5th, 2017 at 01:52 AM.
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Old November 5th, 2017, 01:25 PM   #33
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

"saloio | adj. s. m. | adj.

sa·loi·o |ôi|
(árabe vulgar sahroi, habitante do deserto)
adjectivo e substantivo masculino
1. [Portugal] Que ou quem é dos arredores de Lisboa, a norte do rio Tejo (ex.: zona saloia; antigamente, muitos saloios vinham a Lisboa vender os seus produtos agrícolas).
2. Que ou quem trabalha ou vive no campo. = CAMPONÊS
3. [Depreciativo] Que ou quem é grosseiro, revela falta de educação, de civilidade ou de bom gosto. = PAROLO, RÚSTICO
4. [Depreciativo] Que ou quem age de forma desonesta. = FINÓRIO, MANHOSO, VELHACO
adjectivo
5. Diz-se de uma qualidade de pão fabricado nos arredores de Lisboa.
Plural: saloios |ôi|."

"saloio", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/saloio [consultado em 05-11-2017].
__________________
CMM
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Old November 12th, 2017, 12:28 AM   #34
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

Etnologia
O Português

"O Português é um misto de sonhador e de homem de acção, ou, melhor, é um sonhador activo, a que não falta certo fundo prático e realista. A actividade portuguesa não tem raízes na vontade fria, mas alimenta-se da imaginação, do sonho, porque o Português é mais idealista, emotivo e imaginativo do que homem de reflexão. Compartilha com o Espanhol o desprezo fidalgo pelo interesse mesquinho, pelo utilitarismo puro e pelo conforto, assim como o gosto paradoxal pela ostentação de riqueza e pelo luxo. Mas não tem, como aquele, um forte ideal abstracto, nem acentuada tendência mística. O Português é, sobretudo, profundamente humano, sensível, amoroso e bondoso, sem ser fraco. Não gosta de fazer sofrer e evita conflitos, mas, ferido no seu orgulho, pode ser violento e cruel. A religiosidade apresenta o mesmo fundo humano peculiar ao Português. Não tem o carácter abstracto, místico ou trágico próprio da espanhola, mas possui uma forte crença no milagre e nas soluções milagrosas.

Há no Português uma enorme capacidade de adaptação a todas as coisas, ideias e seres, sem que isso implique perda de carácter. Foi esta faceta que lhe permitiu manter sempre a atitude de tolerância e que imprimiu à colonização portuguesa um carácter especial inconfundível: assimilação por adaptação. O Português tem vivo sentimento da natureza e um fundo poético e contemplativo estático diferente do dos outros povos latinos. Falta-lhe também a exuberância e a alegria espontânea e ruidosa dos povos mediterrâneos. É mais inibido que os outros meridionais pelo grande sentimento do ridículo e medo da opinião alheia. É, como os Espanhóis, fortemente individualista, mas possui grande fundo de solidariedade humana. O Português não tem muito humor, mas um forte espírito crítico e trocista e uma ironia pungente.

A mentalidade complexa que resulta da combinação de factores diferentes e, às vezes, opostos dá lugar a um estado de alma sui generis que o Português denomina saudade. Esta saudade é um estranho sentimento de ansiedade que parece resultar da combinação de três tipos mentais distintos: o lírico sonhador - mais aparentado com o temperamento céltico -, o fáustico de tipo germânico e o fatalístico de tipo oriental. Por isso, a saudade é umas vezes um sentimento poético de fundo amoroso ou religioso, que pode tomar a forma panteísta de dissolução na natureza, ou se compraz na repetição obstinada das mesmas imagens ou sentimentos. Outras vezes é a ânsia permanente da distância, de outros mundos, de outras vidas. A saudade é então a força activa, a obstinação que leva à realização das maiores empresas; é a saudade fáustica. Porém, nas épocas de abatimento e de desgraça, a saudade toma uma forma especial, em que o espírito se alimenta morbidamente das glórias passadas e cai no fatalismo de tipo oriental, que tem como expressão magnífica o fado, canção citadina, cujo nome provém do étimo latino fatu (destino, fadário, fatalidade).

Este temperamento paradoxal explica os períodos de grande apogeu e de grande decadência da história portuguesa. Ao contrário do que muitos disseram, o Português não degenerou; as virtudes e os defeitos mantiveram-se os mesmos através dos séculos, simplesmente as suas reacções é que variam conforme as circunstâncias históricas. No momento em que o Português é chamado a desempenhar qualquer papel importante, põe em jogo todas as suas qualidades de acção, abnegação, sacrifício e coragem e cumpre como poucos. Mas se o chamam a desempenhar um papel medíocre, que não satisfaz a sua imaginação, esmorece e só caminha na medida em que a conservação da existência o impele. Não sabe viver sem sonho e sem glória.

Esta maneira de ser torna particularmente difícil a tarefa dos governantes, sobretudo em períodos históricos em que as circunstâncias não permitem desempenhar uma acção que lhes agrade e desencadeie as energias.

Nas épocas extraordinárias, quando acontecimentos históricos puseram à prova o valor do povo, ou lhe abriram perspectivas novas, que o encheram de esperança, então brotaram por si, naturalmente, as melhores obras do seu génio. Porém, nos períodos de estagnamento nasce a apatia do espírito, a relutância contra a mediania, a crítica acerba contra o que não está àquela altura a que se aspira, ou cai-se na saudade negativa, espécie de profunda melancolia.

Percorrendo a história, podemos facilmente verificar como estas características apontadas se repetem em diferentes épocas, explicando certas acções e demonstrando a constância de alguns elementos fundamentais da cultura portuguesa.

Em todas as épocas se verifica o temperamento expansivo e dinâmico do Português. Sem ir à cultura dolménica, desde as épocas mais remotas, nos tempos em que a actividade era a guerra, os Lusitanos foram a expressão mais acabada da luta permanente e sem tréguas, que se prolongou pela Idade Média nas lutas da Reconquista contra os Mouros, para se transformar, finalmente, nas viagens de descobrimentos e de colonização. É também sintomático os Portugueses terem participado em grande parte das guerras europeias, mesmo quando não tinham interesses directamente ligados a tais conflitos. Até a série de revoluções fratricidas do século XIX e princípios do século XX provam o fundo de permanente inquietação e actividade. Porém, essa actividade traz sempre consigo um cunho de ideal. Quase nunca se verifica a acção precedida de cálculo interesseiro e frio. Embora não lhe falte, por vezes, um fundo prático e utilitário, o grande móbil é sempre de tipo ideal. Nas lutas da Reconquista não se procura só reaver o solo que os Muçulmanos tinham conquistado: lutava-se por um ideal religioso e expulsava-se o inimigo da Fé. A grande empresa marítima visa, é certo, a descoberta do caminho da índia e os negócios das especiarias, mas, além de se pretender dilatar o Império, pretende-se dilatar a Fé. A última ideia justificava a primeira, e não o inverso. Nunca soubemos separar o sonho da realidade, ao contrário do Inglês, que procede friamente, orientado pelo seu sentido prático. A maior desgraça da nossa história, a infeliz campanha de Alcácer Quibir, em que desapareceu D. Sebastião com a elite militar do seu tempo, não passou dum grande sonho vivido, de trágicas consequências. Mas a história está cheia de curiosos episódios, como o do Magriço e o dos Doze de Inglaterra, que vão defender em torneio umas damas ultrajadas por cavaleiros ingleses, a comprovar o fundo de sonhador activo do Português. Além disso, o desprezo pelo interesse mesquinho e o gosto pela ostentação e pelo luxo nunca nos permitiram o aproveitamento eficaz das grandes fontes de riqueza exploradas. Os tesouros passavam pelas nossas mãos e iam-se acumular nos povos mais práticos e bem dotados para capitalizar, como os Holandeses e os Ingleses. Soubemos traficar, mas faltou-nos sempre o sentido capitalista. No século XVI, quando Lisboa era o grande império do mundo, sob o brilho do luxo já se ocultava a miséria. Gil Vicente descreve os fidalgos cobertos de rendas e brocados, com a sua corte de lacaios, mas sem dinheiro para comer. O gosto pelas jóias, pela pompa, pelo luxo, é uma constante da nossa cultura. Desde as estações proto-históricas do Noroeste, tão ricas em magníficos exemplares de jóias de ouro, e, depois, nos períodos áureos, de que podemos citar a embaixada de Tristão da Cunha ao papa e as magnificências do reinado de D. João V, até aos nossos dias, tudo confirma o gosto pela ostentação e pelo espavento. Contudo, poucos povos têm menos necessidade de conforto do que o português. Ao contrário dos povos burgueses do Norte e Centro da Europa, o nosso luxo não é um requinte que resulte do conforto, é-lhe quase que oposto; é mero produto da imaginação, e não dos sentidos. Ainda hoje temos as camas mais duras da Europa, e as ruas estão repletas de automóveis de luxo. São poucas as casas ricas com aquecimento e muitas delas não têm uma sala de estar. Mas essas mesmas casas têm salas de visitas ou até salões de baile cheios de porcelanas da Índia e da China. As pessoas modestas, cujas casas são despidas do mínimo conforto, andam nas ruas vestidas com elegância ou com luxo. Um pequeno empregado do comércio, de pouca ilustração e educação, faz mais figura na rua do que um intelectual alemão ou suíço, de boa família e com recursos. Da mesma maneira, qualquer empregadita, que mal ganha para se alimentar, anda vestida impecavelmente e pela última moda. É tal a importância que se atribui ao exterior que, mesmo no Verão e no campo, as pessoas da classe média não se atrevem a tirar o casaco e a gravata. Só nos últimos anos, por influência do cinema e do desporto, isso vai sucedendo. Mas não se concebe que, por exemplo, um estudante universitário aparecesse nas ruas de calção.

Outra constante da cultura portuguesa é o profundo sentimento humano, que assenta no temperamento afectivo, amoroso e bondoso. Para o Português o coração é a medida de todas as coisas.

O sentimento amoroso é muito forte em todas as classes sociais e, fora o aspecto grosseiro, que se compraz em anedotas eróticas, são inúmeros os exemplos de grande e profunda dedicação, acompanhada de gestos de verdadeiro sacrifício. Não só a história como a literatura nos dão a prova irrefutável da permanência desta característica através dos tempos. O exemplo mais curioso foi a grande paixão de D. Pedro por D. Inês de Castro, que nem a morte conseguiu extinguir e que ainda hoje serve de motivo poético e impressiona as sensibilidades. Na literatura basta lembrar a poesia medieval, tão sentida e original, em que com frequência se canta o amor da mulher pelo homem. A lírica de Camões, esse grande amoroso, dá-nos exemplos da mais bela e mais repassada emoção. As cartas de Soror Mariana Alcoforado, palpitantes de paixão veemente, os sonetos de Florbela Espanca, as poesias de João de Deus e muitos outros, sem esquecer a riquíssima poesia popular, particularmente impregnada de sentimento amoroso, são outras tantas afirmações desta constante da alma portuguesa.

Mas, além de forma puramente amorosa, a afectividade portuguesa revela-se em relação aos parentes, aos amigos e aos vizinhos. O Português não gosta de ver sofrer e desagradam-lhe os fins demasiado trágicos. Daí talvez a pobreza do género dramática da nossa literatura e as soluções felizes que Gil Vicente soube dar a casos de traição conjugal, que em Lope de Vega ou Calderón acabam em vingança sangrenta. Ainda hoje o público gosta dos filmes de happy ending. Outro aspecto curioso dessa característica são as touradas portuguesas, em que o touro não morre e vem embolado, para não ferir os cavalos nem matar os homens. O espectáculo perdeu a intensidade dramática que tem em Espanha, mas ganhou em beleza, pela valorização do toureio, e mantém a nota viril da coragem física com as pegas, em que os homens medem forças com o touro, que é dominado a pulso. Cabe aqui acrescentar que em Portugal não existe a pena de morte, certamente como consequência dessa maneira de ser.

Como representantes do sentimento humano na literatura, temos, por exemplo, Augusto Gil, João de Deus, Júlio Dinis, Trindade Coelho e António Nobre. É este sentimento que explica muitas atitudes desconhecidas noutros países e tão frequentes em Portugal, como a do filho a quem oferecem uma boa situação no estrangeiro e que renuncia por ver umas lágrimas nos olhos da mãe; prefere arruinar as suas esperanças à ideia de a fazer sofrer. É também ele que determina um sem-número de casamentos injustificáveis, em que o homem se sacrifica para evitar o desgosto a uma rapariga com quem namorou algum tempo. Quando vê o sofrimento que provoca a ideia do rompimento, decide-se a casar e aguentar toda a vida uma situação que não foi determinada pela íntima necessidade.

Contudo o Português não é fraco nem cobarde. Detesta as soluções trágicas e não é vingativo, mas o seu temperamento brioso leva-o com excessiva frequência a terríveis lutas sangrentas. Quando o ferem na sua sensibilidade e se sente ultrajado, ou perante um ponto de honra, é capaz de reacções de extraordinária violência. São testemunho disso os jornais diários, que relatam rixas tremendas entre amigos e vizinhos. Antigamente, e hoje mais raramente, pela repressão que o Estado tem criado, as lutas entre aldeias vizinhas tomavam aspectos de batalhas campais. Mas, tirando o crime passional, são raros os casos de homicídio perverso. Não se conhecem vampiros, como no Norte da Europa, nem os assassinos que cortam as mulheres aos pedaços e os queimam ou deitam aos rios, como em outros países sucede.

A própria religião tem o mesmo cunho humano, acolhedor e tranquilo. Não se erguem nas aldeias portuguesas essas igrejas enormes e solenes, tão características da paisagem espanhola, que na sua imponência apagam a nota humana. A igreja portuguesa, ora caiada e sorridente entre ramadas, ora singela e sóbria na pureza do granito, é simplesmente a casa do Senhor. É sempre um templo acolhedor, habitado por santos bons e humanos. Não se vêem os Cristos lívidos e torturados de Espanha. A sensibilidade portuguesa não suporta essa visão trágica e dolorosa.

A prova mais evidente deste sentimento humano e terreno da nossa religiosidade verifica-se na extraordinária expansão do estilo românico, com o seu arco singelo bem apoiado na terra, e na falta de assimilação do estilo gótico. Nunca sentimos esse profundo arroubo místico, essa ânsia de ascensão que caracteriza o gótico. O nosso espírito assimilou mal um estilo cuja expressão nos era estranha. Em todos os monumentos arquitectónicos caracteristicamente portugueses perdura uma certa espessura dos pilares, uma nítida tendência para a profundidade e para a horizontalidade, contrária à ânsia de verticalidade ascensional do gótico. O espírito português é avesso às grandes abstracções, às grandes ideias que ultrapassam o sentido humano. A prova disso está na falta de grandes filósofos e de grandes místicos. Nem compartilha do racionalismo mediterrâneo, da luminosidade greco-latina, nem da abstracção francesa, de grandes linhas puras, nem do arrebatamento místico espanhol. Em vez das grandes catedrais góticas da França e da Espanha, ou dos templos clássicos da Renascença italiana, que não sentia, o Português acabou por criar um estilo próprio, onde a sua religiosidade típica melhor se exprime: o manuelino.
(...).

O manuelino é, pela sua decoração, uma espécie de estilo barroco, razão por que Eugénio d'Ors diz que o barroco nasceu em Portugal. Contudo, no manuelino e, mais tarde, no nosso barroco falta por completo o movimento musical que se verifica noutros países, sobretudo na Áustria e nos arredores alpinos. Se o movimento é uma das características mais salientes do barroco, temos de ver que esse movimento toma entre nós uma feição especial que o afasta inteiramente do pais das valsas. É um movimento parado, uma espécie de imóvel «perpetuum mobile», como diz Santiago Kastner ao referir-se aos ostinati dos compositores portugueses ". De facto, a actividade portuguesa é de tipo flsico, embora seja determinada pela imaginação, mas há qualquer coisa de estático na emoção portuguesa. O fundo contemplativo da alma lusitana compraz-se na repetição ou na imobilidade da imagem.
(...).

Fonte : Por Jorge Dias (Etnólogo, 1907-1973)
Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa!

http://raizes.blogs.sapo.pt/3142.html
__________________
CMM

Last edited by CMartin; November 12th, 2017 at 12:47 AM.
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Old November 12th, 2017, 12:31 AM   #35
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45



Fonte da fotografia : Artur Pastor
https://www.google.pt/imgres?imgurl=...DK8_u0ExOr9JmM
__________________
CMM

Barragon liked this post
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Old November 12th, 2017, 12:40 AM   #36
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

__________________
CMM
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Old November 12th, 2017, 12:58 AM   #37
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

«A construção saloia, habitualmente com o seu lagar, fornos, adega, estábulos e curral, com as suas típicas coberturas de quatro águas, um peculiar sistema de aberturas, etc., reflecte sobretudo a actividade agrícola do homem saloio, que continua como os seus antepassados a ser o çahroi da época muçulmana, isto é, o trabalhador do campo.»

Sendo o saloio descendente do moçárabe, será da cultura arábica que herda muitos dos seus usos e costumes, inclusive a arquitectura, como se nota nas formas e proporções daquele que é o seu tecto habitual. Sobre isto, diz Maria Micaela Soares (in A Mudança na Cultura Saloia. Artigo inserto em Loures, Tradição e Mudança, vol. I, pág. 170. Loures, 1986):
«Imprimia o Saloio à sua habitação a robustez física e de carácter que o individualizaram. Sendo evidente que a casa saloia se insere no tipo de casa tradicional do Sul do País, ela possui um quê distintivo que logo a singulariza na Estremadura.»

Tal singularidade tem base ou raiz sagrada que, para ser compreendida devidamente, ter-se-á de recorrer à intenção do sentido da arquitectura árabe, distendendo-se do Algarve à Estremadura, passando os Alentejos (vd. Casas Portuguesas (Alguns apontamentos sobre o arquitecturar das Casas Simples), por Raul Lino. Lisboa, 1933).

Apesar deste ou aquele excesso destoante, a casa saloia, tal como a árabe, assentou originalmente sobre a raiz quadrada de dois (√2), portanto sobre uma planta quadrada, tendo a primeira no seu centro a casa de fora, ou da entrada, por onde se acedia às restantes divisões, enquanto a segunda fechava-se em torno de um claustro quadrado encerrando no seu centro um jardim ou uma fonte, ou ambas as coisas."

Fonte : https://cintraseupovo.blogspot.pt/20...loias.html?m=1
__________________
CMM
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Old November 12th, 2017, 01:04 AM   #38
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

Esta é a minha casa salóia, pela qual me apaixonei há 10 anos.
__________________
CMM
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Old November 12th, 2017, 02:58 PM   #39
ERVATUGA
- Take it easy -
 
ERVATUGA's Avatar
 
Join Date: Apr 2010
Location: Shéol
Posts: 66,338
Likes (Received): 20586

Quote:
Originally Posted by CMartin View Post


Fonte da fotografia : Artur Pastor
https://www.google.pt/imgres?imgurl=...DK8_u0ExOr9JmM
__________________
- Please, be Happy -
ERVATUGA no está en línea   Reply With Quote
Old November 12th, 2017, 09:41 PM   #40
CMartin
Registered User
 
CMartin's Avatar
 
Join Date: Oct 2017
Location: Cascais, Lisbon
Posts: 272
Likes (Received): 45

O que é isso Ervatuga ?
__________________
CMM
CMartin no está en línea   Reply With Quote
Sponsored Links
Advertisement
 


Reply

Thread Tools

Posting Rules
You may not post new threads
You may not post replies
You may not post attachments
You may not edit your posts

BB code is On
Smilies are On
[IMG] code is On
HTML code is Off



All times are GMT +2. The time now is 06:31 PM.


Powered by vBulletin® Version 3.8.11 Beta 4
Copyright ©2000 - 2019, vBulletin Solutions Inc.
vBulletin Security provided by vBSecurity v2.2.2 (Pro) - vBulletin Mods & Addons Copyright © 2019 DragonByte Technologies Ltd.
Feedback Buttons provided by Advanced Post Thanks / Like (Pro) - vBulletin Mods & Addons Copyright © 2019 DragonByte Technologies Ltd.

SkyscraperCity ☆ In Urbanity We trust ☆ about us