O caso Livorno - SkyscraperCity
 

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Old February 16th, 2006, 01:03 AM   #1
Jorge
www.preservasp.org.br
 
Join Date: Feb 2006
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Posts: 434
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O caso Livorno

Oi gente, estou publicando este texto que eu escrevi sobre o casarão do Livorno. Acho que é do interesse de todos, não só de quem vive em São Paulo, porque afinal este fórum se tornou com certeza o maior fórum sobre urbanismo em língua portuguesa, e a questão do patrimônio arquitetônico é fundamental para o urbanismo e a paisagem urbana. O movimento pela reconstrução do Livorno, como vocês sabem, já começou a todo vapor e quem quiser participar basta se inscrever na lista de discusões Preservasp - http://br.groups.yahoo.com/group/preservasp/

A idéia é estimular cada forista a criar ou participar de movimentos semelhantes em sua cidade onde quer que esse tipo de problema esteja ocorrendo (o que creio ser o caso de praticamente todas as cidades brasileiras).

Jorge
(a partir de agora não vou usar o meu login antigo - JorgeRubies).

O caso Livorno - mais uma agressão contra a cidade de São Paulo



(fotos do Gabriel)

Quando eu era garoto, lá pelo início dos anos 80, sempre que voltávamos da praia passávamos obrigatoriamente em frente ao Restaurante Livorno, que ficava na Rua Vergueiro – há quase 150 anos rota de ligação entre a cidade de São Paulo e a Baixada Santista. Sempre tive vontade de entrar ali para jantarmos, o que nunca aconteceu - coisa de que me arrependo agora – pois nunca mais terei a oportunidade de conhecer o casarão do Livorno. Foi quase totalmente demolido no final do ano passado, sobrando apenas algumas paredes.

O Casarão ou Castelinho do Livorno, como era popularmente conhecido, era um enorme e maciço palácio em estilo florentino, do início do século XX, que pertenceu à família de Carlos Petit, pioneiro do bairro de Vila Mariana. Para nós, representava o fim da viagem à praia, uma imensa sentinela postada na entrada do coração da cidade – logo depois, começava a Avenida Paulista, então no auge de sua pujança e esplendor. Para os moradores de Vila Mariana, era bem mais. Era o símbolo, o marco visual e histórico, a referência do bairro. Onde Vila Mariana começou. E as milhares de pessoas que não são do bairro, mas que circulam todos os dias pela região mal notavam a sua presença, mas agora notam a sua ausência. E a lamentam.

Como esse absurdo pôde acontecer? O assassinato do Livorno é um ato de agressão e de vandalismo gratuito contra a cidade de São Paulo. Não faz nenhum sentido, seja do ponto de vista da cidade, seja dos proprietários. A cidade está cheia de terrenos baldios e imóveis sem relevância histórica e arquitetônica alguma – 99,9% dos terrenos da cidade se enquadram nesta situação, inclusive na própria região da Rua Vergueiro. Por que então se investir justamente contra esses 0,1% de imóveis que mereciam e deveriam ser preservados (e o caso do Livorno, infelizmente, é apenas um entre vários)?

Para os proprietários, hoje em dia a preservação de imóveis históricos cada vez menos assume o caráter de um ônus e vai se tornando cada vez mais interessante e compensadora, inclusive do ponto de vista financeiro. Diversos mecanismos: benefícios fiscais, leis de incentivo à cultura, transferência do potencial construtivo, vêm sendo criados com este fim. No caso específico do Livorno, existe outro agravante: o terreno é tão grande que comportaria perfeitamente um empreendimento imobiliário sem que houvesse necessidade de sacrificar o casarão, solução adotada, por exemplo, na Casa das Rosas, na Avenida Paulista.

Não há portanto lógica nenhuma em seu sacrifício, exceto a lógica do capitalismo mais selvagem e perverso, pela qual o proprietário tem direito absoluto de fazer o que quiser com sua propriedade. Um proprietário de quadros de Van Gogh poderia estipular em seu testamento que pretende ser enterrado com eles, um proprietário de uma espécie animal ameaçada de extinção poderia matá-la sem motivo algum, e se levarmos essa lógica às últimas conseqüências, o eventual proprietário do Coliseu ou das pirâmides do Egito poderia simplesmente derrubá-los para construir qualquer coisa em seu lugar – isso, é claro, depois de devidamente privatizados.

Essa lógica se revelou tão deletéria que há muito tempo foi repudiada nos países mais desenvolvidos, inclusive no próprio templo do capitalismo, os Estados Unidos, que com o mesmo zelo com que se aplicavam em destruir seu patrimônio arquitetônico em nome do direito de propriedade, décadas atrás, hoje se dedicam a preservá-lo. E não se trata de mero apego ao passado, saudosismo ou culto do belo pelo belo. Existem razões práticas bastante claras e evidentes para tanto, bastando citar apenas três, entre várias: 1 - hoje em dia, está consolidada a idéia de que a paisagem urbana é elemento fundamental da qualidade de vida dos moradores das cidades, influenciando decisivamente o seu bem-estar psicológico, sendo que o patrimônio arquitetônico é parte essencial dessa paisagem 2 – o patrimônio histórico e arquitetônico tem relação direta com a auto-estima dos habitantes de determinado local; basta ver como nas cidades históricas, os moradores têm muito mais orgulho do lugar onde vivem, a sensação de identidade e coesão da comunidade é mais intensa, e a identificação com o lugar em que vivem, o empenho em defendê-lo e lutar pelo seu progresso também é maior. 3 – O patrimônio histórico e arquitetônico tem se revelado uma excepcional fonte de renda para as comunidades, através do TURISMO. As cidades no mundo inteiro que dispõem de um patrimônio construído considerável (o que é o caso de inúmeras cidades brasileiras), e se esforçam para conservá-lo, divulgá-lo e torná-lo acessível aos visitantes (o que é o caso de pouquíssimas cidades brasileiras), são justamente aquelas que atraem mais turistas – o que significa mais renda, mais empregos e mais desenvolvimento, coisas que têm sido tão escassas no Brasil quanto o interesse na preservação do nosso patrimônio cultural. Não é a toa que os profissionais do turismo vêm ocupando a vanguarda da causa preservacionista, tentando preencher um enorme vazio que teoricamente deveria ser ocupado pelo Estado.

Por incrível que pareça, São Paulo conta com nada menos com três órgãos estatais responsáveis pela proteção do patrimônio histórico e arquitetônico da cidade, nos níveis federal, estadual e municipal – respectivamente, Iphan, Condephaat e Conpresp, que (sobretudo o Conpresp) já tombaram algumas centenas de imóveis, principalmente na região central da cidade. Porém, espalhados pelos diversos bairros, ainda há várias centenas de imóveis sem qualquer tipo de proteção legal, pouco conhecidos da maioria dos paulistanos mas de grande significado para a população de cada um desses bairros; além desses, há também aqueles situados em vias de grande circulação, que eu chamo de corredores paisagísticos, e que portanto constituem referências para um número muito maior de pessoas, que circulam diariamente por esses corredores, como as Avenidas Rebouças, Nove de Julho, Pacaembu, Ibirapuera, Pais de Barros, D. Pedro I, Sena Madureira e o próprio corredor Vergueiro/Domingos de Morais, entre outras.

Imóveis como esses estão sendo derrubados todos os dias, uma perda irreparável para a cidade sem maiores conseqüências que as lamentações dos vizinhos que conviveram com eles durante décadas, mas que será terrivelmente sentida no futuro. O Iphan e o Condephaat só têm interesse em preservar os imóveis que consideram possuir importância nacional ou estadual - ou seja, do ponto de vista deles, quase nada - e relegam a questão ao Conpresp, que desde a sua criação sofre de crônicos problemas estruturais e da falta de atenção da Prefeitura, e onde os empecilhos burocráticos para que os cidadãos apresentem suas demandas são enormes. Eu mesmo tentei pedir o tombamento de um imóvel em meu bairro, mas não consegui obter um dos vários documentos exigidos para a abertura do procedimento (a segunda via do IPTU, que segundo me informaram na Secretaria das Finanças, só pode ser solicitada pelo proprietário - que, caso viesse a saber de minha intenção, provavelmente iria demolir seu imóvel no dia seguinte). O que fazer? Vamos ter que assistir impotentes à destruição de nossa memória e de nosso patrimônio arquitetônico, que com uma rapidez assustadora está transformando São Paulo numa cidade sem história, sem passado, e sem a riquíssima diversidade da arquitetura da primeira metade do século XX?

É preciso que a atual administração atente para a gravidade da situação, e promova o quanto antes o tombamento das centenas de imóveis com valor histórico, arquitetônico e paisagístico ainda não protegidos na cidade; que se concedam aos proprietários mais incentivos para que eles próprios tenham a iniciativa de pedir o tombamento de suas propriedades; que eles sejam estimulados a registrar cláusulas obrigando à conservação e preservação desses imóveis por seus sucessores, independente do instrumento de tombamento. E principalmente, que a sociedade exerça o papel que lhe cabe - que é o papel preponderante - na questão: organizem manifestações, circulem abaixo-assinados, criem ONGs, busquem doações para a recuperação de imóveis de importância em seu bairro, esclareçam os proprietários desses bens sobre a necessidade de preservá-los, enviem cartas de protesto para os órgãos de imprensa, cobrem do Poder Público a devida atenção ao problema, façam ouvir a sua voz e se tornem sujeitos ativos e protagônicos do movimento de defesa do nosso patrimônio cultural.

No início dos anos 70, durante a ditadura militar, houve um projeto para se transferir a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco de seu velho prédio para outro, moderno, a ser construído na Cidade Universitária. Houve até cerimônia de colocação da pedra fundamental do novo edifício – mas no dia seguinte ela amanheceu no Largo com um recado: “Quantas pedras forem colocadas, tantas arrancaremos”.

Defendo que o casarão do Livorno seja reconstruído tijolo por tijolo – sei que a reconstrução de bens históricos destruídos é condenada pelos especialistas na área de restauração, mas o caso do Livorno é a exceção que confirma a regra. Que seja reconstruído para servir como um basta, como um recado à especulação imobiliária desenfreada: quantos tijolos arrancarem, tantos recolocaremos. E caso não consigamos fazer a reconstrução, defendo um boicote ao que quer que se instale no local – seja um prédio de apartamentos ou de escritórios, uma loja, um posto de gasolina ou um estacionamento.

Será que o chavão de que o brasileiro não tem memória é mesmo verdade? Será que nós somos incapazes de aprender com o passado? Em 1982, quase todos os casarões da Avenida Paulista foram demolidos de uma só vez, na calada da noite, causando escândalo e comoção na população. A lição foi aprendida? Nos anos seguintes, os palacetes remanescentes continuaram a ser derrubados sem que se fizesse coisa alguma, a ponto de só sobrar um ou outro hoje em dia. A lição foi aprendida? Nos anos 90, foi a vez de os casarões de Higienópolis sofrerem um verdadeiro holocausto, novamente sem qualquer reação por parte da sociedade (e com a conivência do Poder Público). A lição foi aprendida? Mais recentemente, em 2004, uma ligeira valorização imobiliária da Avenida 9 de Julho levou a destruição de praticamente todos os seus casarões, alguns deles verdadeiras preciosidade do estilo neocolonial. É esse o legado que os paulistanos querem deixar para seus filhos e netos?

Tenho a convicção que as futuras gerações farão o pior julgamento possível a respeito de nós, paulistanos do início do século XXI. Ao contemplarem fotografias do Castelinho do Livorno, dirão: “mas como é possível que eles tenham permitido que uma preciosidade dessas fosse destruída? Será que eles eram tão ignorantes, tão brutos, tão insensíveis, a ponte de não perceber o enorme valor daquela construção, para o bairro e para a cidade?”

Na verdade, nós tínhamos plena consciência da importância do casarão do Livorno, como referência da paisagem urbana e marco do bairro de Vila Mariana. Só que o deixamos ser demolido por culpa de nossa negligência, nosso descaso, nosso marasmo, nossa passividade diante da especulação imobiliária que destrói coisas belas para fazer outras, horríveis. O que é ainda pior.
Jorge no está en línea   Reply With Quote
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Old February 17th, 2006, 07:38 AM   #2
Bruno BHZ
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Interessante o texto, especialmente a parte em que você conta como tentou pedir o tombamento de um imóvel e foi barrado pela burocracia que exigia um documento que apenas o proprietário tem (e, como vc mesmo disse, se tentar contactá-lo, é capaz dele demolir tudo de vez, com "medo" do tombamento). Não sabia também que Higienópolis sofre um "holocausto" em plena década de 90! Isso sim me chocou mesmo! A impressão que passa, especialmente nesse final com alguns casos, é que realmente não aprendemos mesmo.
__________________
=)
Bruno BHZ no está en línea   Reply With Quote
Old February 17th, 2006, 01:00 PM   #3
BrunoFoca
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Só uma coisa a justiça é passiva ela só age quando é convocada, então o imovel pode ser detonado que a justiça não tem nada haver com isso a sociedade é que tem que se mobilizar.
BrunoFoca no está en línea   Reply With Quote
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