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Aluga-se espaço.
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Na primeira pessoa

Um país sem ser em linha recta
Durante mais de dois anos, o jornalista Nuno Ferreira andou por caminhos escondidos e aldeias abandonadas de Portugal e descobriu um país que está a perder a memória. Por Marco Vaza


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Podia ter sido de bicicleta, mas eu não percebo nada de bicicletas. A pé, era mais de acordo com a minha personalidade. Gosto de fazer as coisas devagar, lentamente. Se fosse preciso, parava num sítio e ficava a conversar com as pessoas durante algum tempo. A pé, a abordagem das paisagens e das pessoas é completamente diferente. A partir de determinada altura, uma pessoa apaixona-se por isto e já não quer de outra forma. Não tinha descoberto muita coisa se não fosse a pé. E tinha de fazer isto sozinho. É o meu próprio ritmo, eu é que decido o que vou fazer a seguir, chegar a uma terra e decidir ficar ali, alterar o meu roteiro. Porque a ideia era encontrar o Portugal que não aparece na televisão, que só se vê quando há incêndios. O interior.



Já tinha a ideia há muitos anos. Quando era jornalista no PÚBLICO já falava nisso, mas uma pessoa que trabalha num jornal diário não dá. Comecei em Fevereiro de 2008, em Sagres, mas tive várias interrupções, e vou terminar amanhã, em Cevide, São Gregório, Melgaço. Só dias a andar não faço ideia quantos foram, nem sei quantos quilómetros andei. Também não fiz isto em linha recta, foram muitas curvas e contracurvas. No início, tinha medo de não conseguir. Depois, subi a minha primeira serra e vi que conseguia. Mas aqueles primeiros dois meses foram muito duros, apercebi-me que levava peso a mais na mochila. Não sei como consegui aguentar, mas descobri que tinha resistência física.



Comecei em plena crise e estou a acabar com a crise ainda maior. Comecei com o interior de Portugal a desertificar-se e acabei com ele ainda mais deserto. Sobretudo de Setúbal para cima, há grandes extensões de territórios vazias, zonas que vivem muito ao fim-de-semana, com as escapadelas do pessoal das cidades. Há uma grande diferença do país durante a semana e ao fim-de-semana, e por isso caminhava menos ao fim-de-semana. Apercebi-me muito disso no Alentejo, que se transformou numa quinta de lazer para as pessoas que vivem na cidade, principalmente em Lisboa. As pessoas do Porto e de Braga fazem o mesmo em relação ao Gerês. Em Coimbra fazem o mesmo com a Lousã.



Estou a caminhar num Portugal em crise e na ressaca do novo-riquismo dos anos 90 dos shoppings e das auto-estradas. No interior é onde mais se sente. É uma paisagem do abandonado, muitas aldeias, estações de comboio... Chego a encontrar aldeias com muitas casas mas onde não consigo encontrar ninguém. De Viseu para cima, está tudo para a Suíça, para França - Agosto é um mês atípico, é o mês em que vem toda a gente, é o mês dos casamentos, dos baptizados, das festas, dessas coisas todas, depois desaparece tudo.



São aldeias-fantasma com muitas casas em boas condições, muitas com piscina, e que só são utilizadas em Agosto. Até parecem desenvolvidas, mas não está lá ninguém. Onde tive a maior sensação de abandono foi em Bragança. Há zonas de Bragança e em Viseu que têm uma relação muito mais próxima com França do que com Portugal. Passei numa localidade no interior do distrito de Viseu em que todas as semanas há taxistas a levar pessoas a Paris ver os primos.



Desconfiados



Como fiz questão de andar em zonas muito remotas, sobretudo no planalto mirandês, as pessoas chegavam a ter medo de se aproximar de mim. Numa terra perto do Vimioso, alguém chegou a chamar a GNR. Era a pergunta que mais ouvia: "O que é que você veio aqui fazer?". Tive todo o tipo de reacções. Estranhavam menos no litoral e nas zonas perto da cidade, apesar de não ser muito vulgar ver alguém a andar a pé, de mochila, durante o Inverno. Nas zonas desertificadas as pessoas ficam mais desconfiadas. Um dos meus grandes desafios era que as pessoas percebessem que eu era jornalista.



A princípio, no interior do Algarve, custava-me um bocado, no interior do Algarve as pessoas são extremamente desconfiadas, custava-me aceitar isso. Dizia para mim próprio, estou a caminhar no meu próprio país e as pessoas parece que me estão a mandar embora. Fui ganhando um certo calo em relação a essas situações, em que entrava nos cafés das aldeias e ficava tudo em silêncio e a olhar para mim. Tinha de mostrar que era boa pessoa. Os copos facilitavam bastante....



Os mais velhos ficavam muito admirados por eu andar a pé, para eles é um símbolo de pobreza e miséria. Associam o andar a pé a vagabundagem. Para eles foi uma grande conquista poder andar de automóvel, terem uma motoreta.



Passei por todo o tipo de coisas, perguntavam-me se eu era peregrino, se andava à procura de trabalho... Mas nunca tive uma reacção de alguém se virar a mim com uma espingarda. Nunca andei de noite. Em Castro d"Aire, que é uma região um bocado bravia houve um fulano que me disse, "Ó pá, você vá cortar o cabelo!" Mas encontrei zonas muito hospitaleiras, em que as pessoas me convidavam para comer e ficar em casa delas.



As pessoas mais velhas - os contrabandistas, os agricultores, os poetas populares, os músicos - são aquelas que ainda mantêm a memória dos velhos tempos. São as mais ricas em histórias. Encontrei muitos velhos contrabandistas. Conheci um perto de Vinhais que também era passador, mas ele não queria falar muito disso - a imigração a salto ainda está na memória de muita gente. E há aquela história da aldeia de França, em que os passadores levavam lá as pessoas e diziam-lhes, "Olhe, está em França." E iam-se embora.



A malta nova quer é pegar no carro e ir até à vila mais próxima - o Algarve é o que está mais descaracterizado, as tradições estão quase mortas; no Alentejo ainda há muitas sociedades recreativas, que mantêm essa memória. Há regiões que dão pouco valor às suas tradições, há outras que dão mais. Em Mirando do Douro, no Minho, houve um ressurgimento da música popular. O povo era muito envergonhado, dizia que essas coisas eram parolas, mas, de um momento para o outro, a malta começou a gostar e a tocar gaitas de foles.



Perdido na montanha



Há um lado espiritual quando uma pessoa se encontra sozinha na montanha e eu atravessei quase todas as serras e fazia questão de as subir até ao cimo, estar ali e saber que está tudo lá em baixo, e que os problemas continuam. Não é por nada que as ermidas e os sítios de culto estão todos em lugares altos. Num dos últimos dias passei por um sítio, a seguir ao Soajo (no Gerês), Senhor da Paz, e aquilo era mesmo uma paz. Quando se desce, é um contraste terrível, sobretudo em zonas deprimidas, onde há muito desemprego e as pessoas estão chateadas.



Estava num estado de grande liberdade, fazia o que me apetecia. Tinha mais ou menos um percurso, mas não era. Tive muitas vezes frio e andei muito à chuva. Há estradas onde não há bermas, tinha de ir ali em cima do risco do branco sempre a olhar para os carros (nunca fui atropelado), as árvores tapam as placas, os caminhos estão mal sinalizados e perdi-me muitas vezes. Também, não levava GPS.



Um dia, no Marão, em que Portugal e Espanha jogaram no Mundial, fui bastante irresponsável. Subi ao topo da serra e, depois, decidi que queria descer para a zona de Mesão Frio. Meti-me por um trilho, o trilho acabou, comecei a descer a corta-mato e estava exausto e acercado de fragas por todo o lado, começou a cair a noite. Fiquei a noite inteira, até os bombeiros me irem lá buscar. Um deles ainda ficou lá, e teve de ser resgatado de helicóptero.



Aconteceu tanta coisa nesta viagem que é difícil escolher. A Zimbreira, zona de Mação, é daqueles daqueles sítios em que eu perguntei a mim próprio "o que é que eu vim aqui fazer" e as pessoas cumprimentavam-me com um "bom dia " desconfiado. Estava super-desanimado, não via ninguém, até que cheguei a um café pequenino que dizia "Zimbreira, aqui também é Portugal" e "O Sol quando nasce é para todos". Era um oásis de hospitalidade no meio daquela desolação. O dono era um tipo de 79 anos, o Rogério Portela, casado com uma mulher de 35 anos e com um filho de 12. Tinha uma história de vida incrível. Tinha vindo do ultramar e aquele foi o único sítio onde lhe arranjaram casa. A primeira mulher dele não queria viver ali porque aquilo era super-frio e lamacento no Inverno. Ele é que se recusou a abandonar aquelas pessoas da terra.



Em Ponte de Lima, conheci o Ti Henrique, de 80 anos, que é dono do último Poço da Morte em Portugal, que eu pensava que era aquele que havia na Feira Popular de Lisboa. A família não queria que ele lá andasse, mas ele, apesar da idade e dos parafusos na perna, não sai dali e continua a rodopiar na sua moto dentro daquele cone de madeira.



A minha ideia é fazer um livro disto. É a coisa óbvia, tenho muito material. Também houve ideias para fazer disto um documentário que não se concretizou. Começaram por ser crónicas no Expresso, depois passou a blogue, passei para o Facebook e este ano comecei a publicar as crónicas no site Café Portugal e a receber muitas mensagens de pessoas que me recomendavam sítios ou me convidavam a ir às suas aldeias. Já podia ter acabado antes, mas ainda tinha de ir a mais um sítio. A viagem acaba amanhã.



A partir de uma conversa com Nuno Ferreira e do blogue Portugal a pé (http://portugalape.blogspot.com)
 

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( ͠° ͟ʖ ͡°)
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(...)
E há aquela história da aldeia de França, em que os passadores levavam lá as pessoas e diziam-lhes, "Olhe, está em França." E iam-se embora.
(...)
Também já ouvi muito esta história... lol
 

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'tou na lua...
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Pura realidade de um país bicéfalo, que vive de modo umbilical e não para o seu todo...
 

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Miranda do Douro no Minho?!?! :D:D
 

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'tou na lua...
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Já estive a ler a reportagem online, impressionante... :)
Agora há também o livro sobre os outros que percorreram a N2 de sul a norte...
 
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