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arquitetura sustentável

Crítico de arquitetura do "The New York Times" explica por que os europeus estão muitas pranchetas à frente dos americanos na construção de prédios em harmonia com o ambiente


por Nicolai Ouroussoff, do "New York Times"

O centro de operações da Agência Nacional do Meio Ambiente, em Dessau, na Alemanha, ocupa um prédio nos limites de um gasômetro abandonado. Dessau, um centro de produção de munição durante a Segunda Guerra, foi destruída pelos ataques dos aliados. Durante os 50 anos seguintes, as fábricas da Alemanha Oriental saturaram o solo com lixo químico e industrial. Ainda assim, tanto o prédio da agência quanto a sua localidade podem ser definidos como a expressão de uma Europa nova e ecologicamente sensível.

Projetado por um jovem escritório baseado em Berlim, o Sauerbruch Hutton, o prédio é enaltecido como um dos mais eficientes do mundo, mesmo sem fazer da sustentabilidade uma bandeira. Com quatro andares, a construção envolve um grande pátio interior que é refrigerado e aquecido por um sistema de tubos subterrâneo. Aberturas no telhado de vidro permitem que o ar quente saia e que uma brisa ocasional passe pelos jardins do pátio. Seu estilo é cuidadosamente ligado ao ambiente que o cerca: o verde reflete um parque vizinho; o vermelho, as fachadas de tijolo de um galpão industrial; o azul, o céu.

Depois de mais de uma década de linhas rígidas, a Europa fez da arquitetura verde uma realidade do dia-a-dia. Na Alemanha e na Holanda, principalmente, uma nova geração de arquitetos expandiu a definição de design sustentável para além de painéis solares e telhados de grama. Como Matthias Sauerbruch me explicou: "Os projetos ecoamigáveis que você viu nos anos 70, com painéis solares e materiais recicláveis, eram muito auto-centrados. Nós chamamos isso de arquitetura Birkenstock. Agora nós não precisamos mais fazer isso. A tecnologia básica é mais bem aceita."

Nos Estados Unidos, os arquitetos não podem fazer essa afirmação com a mesma confiança. Apesar da atenção que a mídia despeja nas chamadas "questões verdes", o governo federal ainda não estabeleceu padrões universais eficientes para edifícios. De acordo com algumas estimativas, os prédios americanos consomem quase a mesma quantidade de energia que a indústria e o sistema de transporte juntos. Um prédio comum nos EUA usa cerca de um terço a mais de energia do que seu correspondente alemão.

Linhagem verde
Nem sempre o país foi tão atrasado; muito da arquitetura americana mais celebrada veio de uma linhagem verde. Frank Lloyd Wright, Rudolf Schindler e Richard Neutra procuraram criar uma relação mais fluida entre espaços internos e externos, entre o homem e a natureza. No auge da Guerra Fria, arquitetos-engenheiros, como Buckminster Füller, imaginaram manobrar os imensos recursos do complexo industrial e militar americano para criar um mundo mais ecológico e equilibrado. Os domos geodésicos de Füller (estruturas em forma de casca que se sustentam sem colunas), que ele esperava um dia abrigar toda a humanidade, eram baratos, leves e resistiam a condições climáticas extremas. No fim dos anos 60 e durante os anos 70, o "Whole Earth Catalog" (enciclopédia alternativa editada por Stewart Brand), com sua ética do faça-você-mesmo, encorajou toda uma geração a abandonar as tradicionais estruturas de grelha.

Nos anos 80, o sonho verde desapareceu de alguma forma. Diante de clientes coorporativos e governamentais que viam pouco retorno financeiro no

design sustentável, arquitetos americanos passaram a ignorarar as questões ecológicas.

Na direção oposta, a União Européia e os governos do velho continente desempenharam um papel maior no planejamento e no controle das construções. O esforço para o desenvolvimento de uma arquitetura sustentável ganhou força. Na metade dos anos 90, toda nova construção européia tinha de se encaixar em exigências básicas de consumo de energia, e muitos arquitetos europeus começaram a considerar a sustentabilidade como um tema central em seu trabalho.

O padrão sustentável era claro na obra de arquitetos respeitados, como Norman Foster, cujo Banco do Comércio (Frankfurt, 1997) foi concebido como uma altiva torre high-tech de vidro e ferro pontuada por jardins abertos. Mas era ainda mais evidente na obra de arquitetos europeus que estavam apenas começando a praticar seu ofício e viram a sustentabilidade como uma responsabilidade moral básica.

Casa de morango
Alguns dos primeiros projetos dessa nova geração ecologicamente sintonizada tinham qualidade excepcional. Como o projeto residencial dos arquitetos Sarah Wigglesworth e Jeremy Till, construído com sacos de areia e fardos de palha empilhados, cobertos com morangos selvagens. Ou a Cidade dos Porcos do escritório MVRDV, um projeto urbano imaginário concebido como uma série de enormes torres de concreto intercaladas com pilhas de jardins exuberantes que pareciam suspensas no ar.

Ainda havia o igualmente esquisito Edifício Minnaert, na Universidade de Utrecht, na Holanda, do escritório de Willem Jan Neutelings e Michel Riedijk, finalizado em 1997. Sua fachada de concreto, pintada com tinta spray, é apoiada em grandes letras de metal que formam o nome do prédio. Dentro do cavernoso hall principal, espécies de alcovas moldadas em paredes grossas são climatizadas, cada uma com seu próprio aquecedor. Neutelings se inspirou, diz ele, em modelos de braseiros de carvão usados para aquecer residências. Nesse mesmo projeto, grandes funis coletam água da chuva para um grande reservatório; no verão, essa água corre por canos no teto, resfriando o prédio.

O museu da Mercedes-Benz, do UNStudio, em Stuttgart, é outro exemplo. Dentro dele, rampas que se entrelaçam levam os visitantes do edifício de um andar para o outro. O museu é prova de como a chamada arquitetura verde mudou: seu átrio central é tanto um tour de force arquitetural como parte de um sofisticado sistema de ventilação.

Mais do que reciclar o ar usado, como prédios que dependem de velhos sistemas de ar-condicionado fazem, suas grossas paredes de concreto armazenam ar quente e frio, que servem para a climatização do átrio. Se o museu pegasse fogo, o sistema de ventilação criaria uma espécie de minitornado para expelir a fumaça.

Em um ambiente pastoral, a linda fachada de vidro moldado do Instituto de Som e Visão da Holanda, de Neutelings e Riedijk, esconde uma eficiente máquina ecológica. Construídos para abrigar arquivos de rádio e televisão holandeses, as galerias e escritórios do edifício são isolados de temperaturas extremas por uma fachada de painéis duplos de vidro. Os arquivos estão guardados em cavernas subterrâneas -a terra em volta é usada para esfriar as salas de armazenamento. O prédio é dividido em duas zonas climáticas, não só para economizar energia mas também para reforçar a experiência de dois ambientes diferentes: o mundo sombrio das cavernas subterrâneas, que os arquitetos batizaram de inferno, e o brilhante e iluminado mundo superior.

Neutelings é rápido em notar que a eficiência de uma construção pode ser medida não só por seus sistemas mecânicos mas também pela quantidade de energia usada durante seu tempo de vida. É necessário mais energia na construção de um edifício do que em qualquer outro estágio, então uma estrutura que dura cem anos usa muito menos energia do que uma que dura cinco, não importa o quão eficiente elas sejam. "Desse ponto de vista, as pirâmides são as construções mais sustentáveis da história", diz.

Óculos de sol para escritório
Até agora, os Estados Unidos não têm leis federais que garantam um nível mínimo de sustentabilidade em novas construções -ou que estimulem uma abordagem arquitetônica sintonizada com modelos ecológicos. As diretrizes da LEED (Leadership in Energy and Environmental Design, espécie de selo de construção sustentável), que foram criadas pelo Conselho de Construção Verde dos Estados Unidos, um grupo sem fins lucrativos fundado em 1993, são um programa voluntário que já tem mais de uma década. Apesar de adotadas por uma série de agências governamentais, tiveram pouco efeito na maioria das construções comerciais ou residenciais. Na maior parte dos casos, a decisão de fazer uma construção eficiente ainda fica com o cliente.

Além disso, as diretrizes levam com freqüência a uma idéia reduzida de sustentabilidade. "Na Europa, os modelos normalmente têm a ver com idéias organizacionais mais amplas", disse Thom Mayne, o fundador do escritório de arquitetura Morphosis, de Los Angeles. "Consumo de energia, organização do local de trabalho e urbanismo são fatores interligados, para os europeus. Nos EUA, você vai ticando itens: estacionamento para bicicletas, unidades de ar-condicionado de alta eficiência etc. É tudo muito limitado."

Stefan Behnisch, arquiteto considerado líder na pesquisa sustentável e que trabalhou tanto na Europa como nos EUA, concorda. "O problema é que essas idéias se tornam clichês", diz. "Elas não permitem nada interessante e novo e rejeitam a verdadeira invenção."

Arquitetos que escolhem ser inventivos descobrem constantemente que um leve desvio da norma encontra resistência feroz. Mayne relata como alguns funcionários do governo, em um prédio projetado por ele em São Francisco, zombavam da idéia de um escritório com janelas que podiam ser abertas e fechadas: eles achavam que pássaros fariam ninhos em suas mesas enquanto estivessem fora, nos fins de semana.

Os blogueiros, enquanto isso, diziam que burocratas do governo estavam tendo de usar óculos de sol no ambiente de trabalho por causa da quantidade de luz natural.

Os Estados Unidos ainda vão alcançar a impressionante "consciência verde" européia? Mark Wigley, decano da escola de arquitetura da Columbia, tem notado uma enorme mudança no olhar de estudantes de arquitetura sobre abordagens relacionadas à sustentabilidade. "Eles estão acostumados a absorver informações de 15 direções diferentes ao mesmo tempo e estão interessados em um ponto de vista ecológico radical."

Ao mesmo tempo, Wigley admite que arquitetos não podem fazer nada sem que seus clientes os autorizem. "Meu palpite é que, se tivermos uma mudança nos EUA, ela não será conduzida por políticos ou arquitetos, mas por construtoras", diz. "Estamos num momento em que as construtoras podem ganhar vantagens significativas com a redução do uso de energia. Pela primeira vez, você tem clientes dispostos a pagar por isso. Eu acho que é exatamente o grupo associado à ganância e à ineficiência que vai apontar o caminho para o futuro."



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Texto publicado originalmente na "The New York Times Magazine"

http://www1.folha.uol.com.br/revista/rf0107200713.htm
 

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Feliz Natal
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já já isso vira moda... aqui no Brasil já começa haver uma preocupação quanto a esse assunto... Mas vale lembrar que o conforto ambiental era uma forte realidade em boa parte das obras do modernismo brasileiro
 

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ontogeny recapitulates...
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já já isso vira moda... aqui no Brasil já começa haver uma preocupação quanto a esse assunto... Mas vale lembrar que o conforto ambiental era uma forte realidade em boa parte das obras do modernismo brasileiro
Pois é.. mas, se num passado distante, os arquitetos brasileiros tivessem essa preocupação, não teríamos metrópoles cinzentas e concretonas.. :eek:hno:
 

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Feliz Natal
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Pois é.. mas, se num passado distante, os arquitetos brasileiros tivessem essa preocupação, não teríamos metrópoles cinzentas e concretonas.. :eek:hno:
as nossas metropoles cinzentas são assim por falta de manutenção e de planejamento! E concreto em toda metrópole tem de sobra....
 

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Na nossa terra, onde o planejamento urbano foi esquecido desde os anos 50 e os padrões de edificação limitaram-se a dar mais por menos, tais conceitos ssão muito bem vindos.

Mas paralelo a melhoria das edificações precisamos urgentemente de uma ampla e profunda reforma urbana, que leve condições mínimas de dignidade a todos. Tais como, saneamento, água potável, arejamento em fim salubridade.
 

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arquiteto e urbanista
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Esse é uma das poucas opções que temos hoje, ou mudamos nosso modo de viver ou game over.

Saudades da arquitetura moderna quanto ao menos haviam propostas e discussões sobre arquitetura e planejamento urbano. Nos últimos anos os únicos interesses presentes são os comerciais. Quando há iniciativas para preservar a qualidade de vida nas cidades, há críticas e lobbies fortes contra essas propostas que "inibem investimentos e causam desemprego".
 

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Esse é uma das poucas opções que temos hoje, ou mudamos nosso modo de viver ou game over.

Saudades da arquitetura moderna quanto ao menos haviam propostas e discussões sobre arquitetura e planejamento urbano. Nos últimos anos os únicos interesses presentes são os comerciais. Quando há iniciativas para preservar a qualidade de vida nas cidades, há críticas e lobbies fortes contra essas propostas que "inibem investimentos e causam desemprego".
Sábia opinião...na verdade, é necessário que haja uma reação da sociedade contra os lobbies e discutir e forçar a adoção da solução alternativa. Pois as soluções alternativas também geram emprego. Falta gente de visão...
 

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Danielz - xdanielz
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A mente que a está se formando nas universidades ainda irá encontrar forte resistencia no mercado, disso nao tenham dúvidas, esse processo ainda mais se tratando de Brasil ainda vai levar muito tempo. O artigo é de muito boa qualidade, os edificios verdes sao fantasticos, mas a mente brasileira é pequena, limitada e ignorante demais para enxergar os beneficios disso e do que a arquitetura de uma forma geral pode trazer para suas vidas.
 

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o problema das faculdades de arquitetura hoje que o aluno não tem tesão pelo que faz e arquitetura tem que ter tesão, gozar com um projeto para inovar com atititudes que sejam esteticamente lindas ou doidas, pois este é o lugar de se enlouquecer, criar uma vão de 100 metros com apenas um pilar.... quanda dava aula e via um projeto igual aos que tem aqui na seção projetos riscava tudo e mandava tomar vergonha
 

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Danielz - xdanielz
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o problema das faculdades de arquitetura hoje que o aluno não tem tesão pelo que faz e arquitetura tem que ter tesão, gozar com um projeto para inovar com atititudes que sejam esteticamente lindas ou doidas, pois este é o lugar de se enlouquecer, criar uma vão de 100 metros com apenas um pilar.... quanda dava aula e via um projeto igual aos que tem aqui na seção projetos riscava tudo e mandava tomar vergonha
Concordo 100%
 

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o problema das faculdades de arquitetura hoje que o aluno não tem tesão pelo que faz e arquitetura tem que ter tesão, gozar com um projeto para inovar com atititudes que sejam esteticamente lindas ou doidas, pois este é o lugar de se enlouquecer, criar uma vão de 100 metros com apenas um pilar.... quanda dava aula e via um projeto igual aos que tem aqui na seção projetos riscava tudo e mandava tomar vergonha
Disse tudo!

Não só na arquitetura, mas em quase todas as 'universidades', se é que a maioria pode ser chamada assim, falta gosto pelo que se estuda.

Temos currículos velhos, desatualizados, sistemática medieval de ensino...
Todos parecem zumbis cursando por cursas, em busca daquela colocação que o pai ou o "peixe" tem para ele ou ainda pior correr atrás de um concurso público.
 
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