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A Bienal que hospeda estrangeiros criativos
Grande mostra começa em outubro, mas seu projeto de artistas residentes já está fervendo em três cidades brasileiras, onde visitantes do exterior criam suas obras com saudável antecedência

Camila Molina

Em São Paulo, pela primeira vez, a artista espanhola Lara Almárcegui voltou suas atenções para duas situações: os terrenos baldios espalhados pelos mais distintos bairros da cidade e as chamadas ocupações dos sem-teto de prédios e lugares desta metrópole-selva. "Nunca vi tanta riqueza e tanta pobreza juntas, isso é São Paulo, mas não estou aqui para fazer juízos", diz Lara, uma dos dez artistas estrangeiros convidados pela curadoria da 27ª Bienal de São Paulo para participar do programa de residência no Brasil como parte desta edição do evento. A grande mostra será aberta para o público em outubro, no prédio da Fundação Bienal de São Paulo, e nela estarão as obras que esse grupo de artistas desenvolverá a partir de suas experiências em três localidades brasileiras: São Paulo, Recife e Acre. No caso de Lara, ela escolheu a metrópole paulistana. E daquelas duas situações citadas acimas, optou por tratar em sua obra dos terrenos baldios da cidade, " espaços de possibilidades", como ela afirma.

No edifício Casa Lutetia, na Praça do Patriarca, Lara recebeu a reportagem numa espécie de loft em que está abrigada durante sua residência artística em São Paulo. Nascida em Zaragoza, mas vivendo em Roterdã, na Holanda, desde 1997, contou todo seu projeto. Além dela, a canadense Susan Turcot também adiantou o que vai exibir na mostra em outubro.

Ela estava instalada em outro andar do Lutetia, prédio que pertence à Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), parceira do programa de residências artísticas da 27ª Bienal. Segundo o presidente da Fundação Bienal, Manoel Pires da Costa, a Faap cede seu espaço para os artistas e ainda paga a vinda e estada dos residentes. "O orçamento desses gastos da Faap ainda não está fechado, mas será algo entre R$ 350 mil e R$ 400 mil", diz Pires da Costa. Susan esteve de passagem por São Paulo depois de ficar dois meses no Acre. O Estado da Região Norte, escolhido como um dos destaques da exposição para ser ícone de realidade distante dentro deste enorme País, também se tornou local de investigação artística para a eslovena Marjetica Potrc e para o colombiano Alberto Baraya, que neste momento está lá em Rio Branco e falou ao Estado por telefone. Os outros artistas selecionados para o programa de residências ou já estiveram de passagem por aqui ou chegarão a partir de junho.

Durante toda a semana passada, os freqüentadores do Parque do Ibirapuera tentavam entender por que uma mulher cavava um grande buraco na área próxima dos portões 5 e 7. "Primeiro era terra dura, depois terra roxa, argila e água a cada profundidade", conta Lara Almárcegui, que chegou a São Paulo sem nenhum projeto estabelecido. Fazer o buraco no Ibirapuera foi uma performance para conhecer o terreno do entorno do prédio onde ocorrerá a mostra. Ela vai exibir poucos registros dessa ação que não é o eixo principal de sua obra para a 27ª Bienal: um guia com uma seleção a partir de 40 terrenos baldios de São Paulo visitados por ela.

A partir de um mapa, Lara percorreu os mais diversos pontos da cidade. "Na Rua Augusta, encontrei um terreno maravilhoso", diz a artista que já realizou trabalhos do mesmo tipo em Amsterdã e Lund, na Suécia. Segundo Lara, terrenos baldios são espaços indefinidos e, portanto, de liberdade. "É uma visão positiva para lugares que são geralmente vistos de forma negativa, como depósitos de lixo. Quando era criança em Zaragoza, gostava de brincar nos terrenos baldios, que são lugares para a criatividade", completa Lara. Segundo ela, o guia terá fotos dos terrenos e curtos textos descritivos - serão editados 100 mil exemplares a serem distribuídos gratuitamente ou vendidos ao preço simbólico de R$ 1.

DO ACRE

Desde 16 de março instalada no Acre, Susan Turcot sabia que não queria tratar do "clichê do reflorestamento da Amazônia". Chegou lá no Norte despida de visões idealizadas sobre a vida na floresta - aliás, descobriu que muitos dos moradores de lá nunca foram à floresta porque são raros os transportes e um taxista pode pedir R$ 200 por uma corrida até lá. "Rio Branco é uma cidade normal", diz ela, emendando que o que chama a atenção é a falta de dinheiro do povo em contradição com a "cultura muito própria e poderosa" de seus habitantes.

Artista ligada ao desenho, foram nesse gênero as primeiras obras que realizou para seu projeto: todos eles funcionam como uma espécie de "reportagem subjetiva" de suas experiências locais e serão também exibidos na Bienal. Um ritual que mistura influências africanas, indígenas e cristãs ao mesmo tempo; queimadas; mitos indígenas; e paisagem: todos esses pontos aparecem nos seus desenhos em preto-e-branco, mas o trabalho de Susan vai para além da representação. Culturas diferentes; migrações em busca de trabalho no Norte; um território tão grande e por isso mesmo com problemas de demarcações; pobreza e, ao mesmo tempo, "milhões de reais para a construção de uma estrada até o Oceano Pacífico"; várias queimadas no mesmo dia registradas por satélite pelo Ibama e apenas três helicópteros para tentar percorrer o extenso perímetro tomado pelo fogo: são tantos os paradoxos e esse foi o tema a que Susan se prendeu.

Além de desenhos, ela apresentará uma grande escultura que ficará pendurada no teto com três plataformas suspensas, cada uma delas representando uma camada desse universo distante. O tecido será o material principal nessa obra, ele que vai moldando cada estrutura - "nas comunidades fora da cidade, as pessoas estão enredadas na floresta. Já a cidade rasga essa rede com a floresta", diz a artista.

Já o colombiano Alberto Baraya concentra seu projeto nas plantas e árvores da região amazônica no Acre. Desde 2002 o artista vem realizando trabalhos que são herbários de plantas artificiais. Mas o diferencial do herbário que exibirá na Bienal será uma árvore de borracha em escala natural que realizará durante seus dois meses de estada em Rio Branco. A árvore vai ser transportada depois para São Paulo. "Espero começar a fazê-la esta semana", diz Baraya - segundo suas pesquisas, uma seringueira pode ter entre 12 e 25 metros de altura e ele já tem algumas candidatas a modelo de sua grande escultura. "É a criação de uma árvore artificial, que se reproduz de si mesma, de seu próprio leite, de seu próprio sangue", diz o artista. Para ele, a história do ciclo da borracha e dos seringueiros está implícita nessa ambiciosa obra.

OUTROS RESIDENTES

No começo de junho, chegam a São Paulo mais dois artistas, a mexicana Minerva Cuervas, que participará nos dias 9 e 10 do seminário internacional Reconstrução, organizado por Cristina Freire, uma das quatro co-curadoras da 27ª Bienal - a curadoria-geral é de Lisette Lagnado; e o italiano Francesco Jodice, interessado em realizar um documentário sobre a metrópole. Ao mesmo tempo, o africano Meschac Gaba chegará ao Brasil na segunda quinzena do mês para seguir sua pesquisa no Recife, baseada na história do ciclo de açúcar.

Como diz o co-curador da mostra, Adriano Pedrosa, outro residente que já tem seu projeto estabelecido é o austríaco Florian Punhõsl. Interessado em arquitetura, ele já esteve em São Paulo e decidiu realizar trabalho de videoanimação sobre a Casa Modernista, feita pelo arquiteto Gregori Warchavchik, na Vila Mariana.

A lista geral de todos os participantes da 27ª Bienal, sob o tema Como Viver Junto, será anunciada no fim de junho. Além dos artistas que exibirão no Pavilhão da Bienal, estarão englobados na lista outros oito que serão escolhidos para apenas participar do livro especial sobre esta edição e ainda os que vão estar na seção de filmes - como diz Pires da Costa, a parceria com a Cinemateca não ocorrerá mais e já foi firmada outra com o Cine Bombril, no Conjunto Nacional.
 
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