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on the road
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Semana passada implantaram aqui na minha universidade, na Holanda, uma unidade de uma cia. de car-sharing. Eu já conhecia o conceito dos EUA e da Itália, mas desta vez eles se instalaram a 200m da minha casa (eu moro em frente ao campus) e eu fui um dos convidados para testar o sistema deles.

A ideia básica de car-sharing é um sistema que em carros podem ser "alugados" por curtos ou curtíssimos períodos para quem não faz uso dos mesmos de forma constante, por tarifas que já englobam absolutamente todos os custos relacionados ao uso do carro. Em contrapartida, a pessoa não precisaria ter carro, ou a família ter um segundo carro e por aí vai, sem perder acesso à mobilidade inigualável proporcionada pelo carro.

O ARGUMENTO
A lógica empresarial, operacional e financeira básica é a seguinte (não digo que concordo ou discordo, só repasso argumento das empresas): em geral, um automóvel de passeio fica parado (estacionado) parte considerável do tempo. Em uma metrópole como São Paulo, é comum ser usado em 15% do total de tempo e permanecer parado 85% (o equivalente a um uso médio em circulação de 4 horas por dia), mas na média dos países desenvolvidos o tempo total do carro em uso não ultrapassa 8 a 11%.

Pela sua natureza, o carro tem um componente de depreciação fortíssimo baseado em tempo, ou seja, um carro com 1.000km rodados e 10 anos de circulação, memso que impecável, terá um valor reduzido, há componentes sujeitos a danos/corrosão/exaustão por tempo e exposição a elementos e por aí vai. Assim, haveria uma perda econômica do valor de uso durante o tempo em que o carro permanece parado, sem uso, estacionado na garagem, na rua ou em outro local. Todavia, custos como seguro, taxas de licenciamento e impostos sobre o carro incidem 100% do tempo.

Outro proposição dos que propõe e investem no modelo é o de que a propriedade de um veículo específico diminui a flexibilidade, dado que em determinados deslocamentos um veículo de pequeno porte para ser usado por 1 pessoa é mais adequado, mas para outros (passeio com a família no domingo) uma mini-van, caminhonete ou veículo de maior porte é mais adequado. Entretanto, com a propriedade de um carro ou dois por família, é necessário fazer "compromissos" entre diferentes necessidades e o resultado seria a propriedade sub-ótima de um carro que tenta atender de forma apenas razoável às diferentes necessidades dos seus donos.

No longo prazo, alega-se que essas características levam as montadoras a produzirem carros competitivos no momento da venda, e prestarem menos atenção em itens como o custo de manutençào ao longo da vida do automóvel, considerando-se como pessoas compram carros de passeio individuais, de forma geral (foco no preço e desempenho, não tão preocupadas com custos que virão depois).

Por fim, um argumento (que eu desconsidero, no meu caso particular) é o de que car-sharing ajudaria a reduzir desperdícios e o uso excessivo de estacionamentos, por manter carros circulando a maior - e nào e a menor - parte do tempo.

COMO FUNCIONA
As maiores cias. de car-sharing operam todas de forma parecida:

- pagamento de taxas de inscrição/assinatura (baixas, aqui o valor é de € 9,95/mês)
- tarifa por tempo (aqui varia de € 1,00 a € 2,50 por hora, com pacotes do tipo € 9,00 por 10 horas durante a noite até o dia seguinte)
- tarifa por distância (aqui, € 0,16/km)

Todos os custos (incluído o combustível) estão inclusos, exceto pedágios, onde existirem.

Para reservar um carro, em geral há uma central telefônica, um site e em alguns casos serviço de SMS. Em certos projetos, vc não precisa de prévia reserva se houver carros estacionados lá.

Então, vc se dirige a um estacionamento, usa um smartcard ou smartkey para liberar o carro e fazer o log in (eles são ligeiramente adaptados para funcionar assim), entra, liga e usa como um carro normal. Ao devolver, vc simplesmente faz o log off ao sair e está tudo pronto. A ideia é espalhar os estacionamentos (fixos) dos carros em pontos bem variados e dispersos na cidade, de forma que mais pessoas possam ter um ponto de coleta/retorno próximas dos locais onde moram ou trabalham. Raramente há funcionários controlando esse processo de retirada e devolução dos carros, é tudo automático.

Os motoristas que os dirigem precisam de abastecê-los antes de devolver se o combustível estiver baixo, e isso em geral é feito com o próprio smartcard que costuma funcionar como um cartão-combustível ou seu equivalente em outros países. Em último caso, o motorista abastece, anexa o recibo em uma pasta/envelope, e é reembolsado por ter abastecido.

As formas de reserva variam: alguns serviços cobram bem mais caro por reservas open-end, em que vc não fixa um horário máximo de devolução, em outras isso não ocorre.

Em geral, caso haja algo errado com o carro devido ao motorista anterior (sujeira, danos), o usuário liga para uma central de atendimento e eles resolvem a questão de forma remota ou enviam alguém para inspecionar o carro e o motorista usa outro carro.

No fim do mês vc recebe uma fatura para pagar pelo que usou nos diferentes veículos.



Particularmente, eu não deixaria de ter um carro próprio porque eu gosto de dirigir mesmo quando não preciso, é a melhor forma que eu tenho de gastar tempo livre - dirigir por aí -. Mas a proposta, de forma geral, parece ter algum potencial, não o que as cias. dizem, de serem capazes de tirar muitos e muitos carros estacionados das ruas, mas de ser um serviço complementar para situações específicas e públicos específicos.

Por exemplo, nos EUA o Zipcar está se expandindo em várias universidades. O raciocínio (nos EUA a maior parte dos estudantes mora no campus) é que em geral alunos não precisam de carro todos os dias, e se tem um em geral nào é muito novo (=polui mais) e ocupa espaço de estacionamento. Então, com um sistema desse de car-sharing, os estudantes têm fácil acesso a carro quando precisam para visitar amigos fora do campus, ir a um show ou evento esportivo, passear em estações de ski econômicas no fim de semana, fazer comprar no Walmart, ir ao cinema sem precisar serem donos de um carro e pagar seguro, taxas mais altas pelo carro ser velho e poluente etc.. No fim das contas, para quem usa o carro não muito, de fato o custo sai mais barato com car-sharing, bem mais barato para quem só precisa de carro no fim-de-semana e mais 2 ou 3 viagens isoladas durante a semana, por exemplo. Várias unidades já fizeram parcerias.

Na Suíça, a Mobility já tem 1200 pontos de estacionamento de carros, o que é um número bem alto para um país pequeno como lá. Toda estação de trem de grande ou médio porte, e várias de menor porte, tem alguns carros (ou muitos carros) da Mobility.

Aqui na Holanda, essa cia. de car-sharing (www.studentcar.nl) com foco em estudantes, uma startup, está rapidamente se expandindo pelas universidades aqui. No meu caso, eu ganhei vários vouchers para testar, mas as inscirções regulares segundo o gerente local (um cara recém-saído da faculdade também) estão bem altas. Nem todo mundo gostou, uns ecochatos locais (sim, eles existem também no primeiro mundo) estão criticando a universidade por ter reservado vários espaços de estacionamento para o car-sharing, bem na entrada do boulevard universitário, alegando que isso vai incentivar os estudantes a usarem carro quando poderiam fazer comprar em um mercado mais próximo ao invés do shopping, ou simplesmente adiar viagens (que seriam feitas de bicicleta ou trem) se está nevando ou chovendo ao invés de pegar um carro. Mas o sucesso comercial da iniciativa é inegável, a frota já foi até aumentada em relação à previsão inicial.

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Tudo isso relatado, fica a minha questão aberta. Vocês acham que tal sistema teria chances de funcionar no Brasil? Teria mercado? Os brasileiros cuidariam do carro mesmo sabendo que não é seu (ex: limpando-o para o próximo usuário antes de devolvê-lo ao invés de deixar a sujeira lá...)?

Pensei em cenários como alguns carros desses em regiões cheias de prédio de classe média e média-alta, para o caso de famílias com filhos pequenos que poderiam ter então apenas um veiculo próprio, mais caro e potente, e usar car-sharing. Em áreas muito densamente povoadas com prédios altos, dá até para pensar em uma versão "tropicalizada" em que o motorista leva o carro até a porta da sua casa ou de lá busca se vc estiver se locomovendo a noite, evitando os perigos oferecidos pelas violentas ruas brasileiras.

Talvez dois carros desses na portaria de condomínios fechados possam facilitar a vida de quem mora lá com filhos adultos, por exemplo, que ainda não tem o cacife ($$) para comprar seu próprio carro à base de um por filho adulto.

Como no Brasil em geral quem mora dentro de câmpus universitário é quem tem renda insuficiente para morar em outro local (e provavelmente não tem renda mesmo para usar carros esporadicamente), acho mais complexo um sistema dar certo por lá como nos EUA.

Por fim, um sistema como esses seria uma ótima forma de, no caso de quem mora em SP, poder furar o dia do rodízio sem precisar comprar uma lata velha e deixá-la encostada para usar 1 ou 2 vezes na semana (e, com manutenção provavelmente deficiente, poluindo o equivalente a 10, 15 carros novos).
 

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Boa idéia, se existisse em São Paulo esse tipo de serviço eu com certeza ultilizaria. Pois não tenho carro próprio (Ainda) e muitas vezes preciso ir à locais onde o acesso pelo transporte público é muito ruim e/ou caro.
Com certeza isso não mudaria minha intenção de comprar um carro, mas enquanto não consigo realizar esse sonho, esse aluguel ajudaria muito.
 

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Eu uso o sistema de car-sharing aqui em Barcelona (http://www.avancar.es. Pra buscar amigos no aeroporto, ir ao Ikea, ou saídas pontuais a lugares inacessíveis por transporte público, o sistema é ótimo.
Já pra percursos maiores que 100km, fica em desvantagem respeito ao aluguel tradicional, p. ex.
Não sei se daria certo no Brasil, com a cultura que temos de "levar vantagem em tudo", pelo menos não nesse esquema europeu, além da insegurança por roubo, furtos, etc. Mas acho que em lugares como SP poderia ser uma boa alternativa à compra de um carro próprio, pra usos eventuais.
 

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deixa ver se eu entendi, ou foi ilusão da minha cabeça: você pode pegar o carro em vários lugares, e utiliza-os por um curto tempo? Good idea!
 

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bye Iguaçu, hi Tietê
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^^ Rent-a-car com hiper flexibilidade (de horário, de lugar para pegar e deixar o carro, sem burocracia adicional)? Eu acharia ótimo. Seria mais um bom argumento para não ter carro próprio. Pegar um destes para um passeio de final de semana, para uma compra mais volumosa, sem o aborrecimento de estacionamento, seguro, IPVA, aluguel encarecido por conta da vaga, preocupação com mecânica, lavagem...
 

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Não creio que seja uma solução que se torne muito difundida, mas certamente encontrará um nicho e espaço para prosperar nele, atendendo a segmentos específicos da população, especialmente porque, por uma série de razões (impostos, etc.) o aluguel sairia caro.
 

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Esse sistema ja eh velho aqui nos EUA e faz sucesso (acho que ja ate comentei sobre isso aqui no forum), acredito que faria sucesso em cidades grandes no Brasil tambem.
 
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