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Ser paraense é atitude!
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Finalmente tou na primeira página!! ahsuahsaushsuahsu
foi tão rápido o carapanã II..
:dance:
 

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\,,/
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^^

Eu acho que alguém sugeriu para postar as noticías referente ao Ação Metrópole no thread próprio que alguém criou em Transportes! Ficaria até melhor concentrar as informações das obras lá! xD
 

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A história em cena no Theatro da Paz

Às vésperas da celebração dos 120 anos da República no Brasil, é preciso chamar a atenção ao fato de que Belém guarda uma das primeiras representações artísticas sobre o imaginário republicano do País. Trata-se do telão Alegoria da República, a pintura que encerra o palco do Teatro da Paz. Também chamada de pano de boca, a peça é considerada a “parede flutuante” de uma sala de espetáculos. A inauguração do telão do Teatro da Paz ocorreu em 15 de agosto de 1890, na temporada lírica empresariada pelo maestro José Cândido da Gama Malcher, sendo uma das atrações da homenagem à Adesão do Pará à Independência.

Tão ou mais importante quanto constatar esse fato é saber que a autoria dessa pintura, atribuída ao artista francês Eugène Carpezat, é, na verdade, de um brasileiro: o pernambucano Chrispim do Amaral. O artista chegou a Belém em 1876, integrando a Empresa Vicente, de Vicente Pontes de Oliveira, e se estabeleceu como cenógrafo, ator, músico, jornalista, caricaturista, chargista e professor de Desenho.

Nascido em Olinda, em 1858, Amaral tornou-se requisitado nas praças do Pará e do Amazonas entre as décadas de 1870 e 1890. Apesar de não ser o único cenógrafo em Belém, conseguiu sobressair-se com versatilidade, humor e savoir-vivre, que eram sua marca. Além de confeccionar os cenários mirabolantes da Empresa Vicente, arrendatária do Teatro da Paz, pintava paisagens de fundo para o estúdio Photographia Sul-Americana, de Mello & Guedes.

Amaral editou no Pará os humorísticos O Estafeta, em 1878, e A Semana Ilustrada, entre 1887 e 1888. Neste mesmo ano foi estudar pintura em Roma, graças a uma bolsa do governo provincial, passando por Paris, onde conheceu os cenógrafos da Ópera de Paris, entre eles Eugène Carpezat. Com a bolsa suspensa em 1889, teve de retornar ao Pará. Em 1893 foi contratado pelo governador Eduardo Ribeiro para executar a ornamentação e instalação de todo o mobiliário do Teatro Amazonas, em Manaus. Essa decoração incluía a pintura do pano de boca, o encontro das águas dos rios Negro e Amazonas. O pintor Domenico de Angelis também trabalhou nessa obra por indicação de Amaral, a quem conhecera em 1881, quando das obras de pintura da Catedral de Belém. Em 1899, novamente na França, foi condenado a três anos de prisão por ter publicado uma charge no Le Rire, ridicularizando a Rainha Vitória. Mas conseguiu se livrar da pena, voltando ao Brasil. No Rio de Janeiro, fundou e dirigiu a revista O Malho. Morreu na capital fluminense em 1911, vítima de uremia.

A autoria de Amaral sobre o telão do Teatro da Paz há muito vinha sendo apontada pelo historiador paraense Vicente Salles, concordando com o historiador baiano Clarival do Prado Valladares. Salles apostava nos aspectos da pintura, na representação dos elementos brasileiros e na informação de que o artista havia sido o responsável pelas primeiras pinturas artísticas da sala de espetáculos do teatro: a do pano de boca e a do plafond (teto), esta substituída pela obra de Domenico de Angelis – que pode ser vista ainda hoje. O historiador, que escreveu biografia inédita sobre o brasileiro, precisava, no entanto, de uma documentação mais evidente sobre o vínculo de Amaral ao telão.

PESQUISA

Há 12 anos pesquisando as primeiras décadas da história do Teatro da Paz, tive acesso à documentação que trata da contratação de Chrispim do Amaral para a confecção da cenografia da casa. Os Ofícios da Administração do Teatro da Paz, organizados nos anos de 1990, pertencem ao Arquivo Público do Estado do Pará (Apep) e mostram tanto o diálogo do artista com o governo provincial quanto a aprovação de seu contrato pelo governo provisório republicano. Um percurso que, com os percalços da burocracia e uma evidente resistência ao nome do pintor, começa em 1886 e se encerra em 1890.

Essa e outras histórias compõem a dissertação de mestrado intitulada “Histórias invisíveis do Teatro da Paz: da construção à primeira reforma – Belém do Grão-Pará (1869-1890)”, de minha autoria. A

defesa ocorreu em junho deste ano, por meio do programa de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), sob a orientação de Estefânia Fraga.

Mostro, entre outros aspectos, que não foi tão fácil para o artista fazer valer seu nome e seu talento no momento em que o governo provincial pretendeu realizar a primeira grande reforma do Teatro da Paz, entre 1887 e 1890. Essa obra concluía a tumultuada e fraudulenta construção do teatro (1869-1874), sobretudo quanto ao embelezamento. Dar ao teatro a imagem de sua função de casa de ópera era o grande objetivo e, assim, a decoração era um dos itens primordiais. Por isso, entre os grandes melhoramentos estavam a decoração de toda a sala de espetáculos, incluindo a pintura do teto, a cargo de Domenico de Angelis e equipe, e o telão do palco, por Amaral. A reforma ainda atualizava o prédio em serviços essenciais, como a canalização de água e gás, e reforçava a estrutura do telhado.

Os primeiros passos da obra datam de 1886, e já nesta época Chrispim do Amaral foi procurado pelo governo provincial para apresentar uma proposta de “cenografia fundamental”, incluindo a confecção de dois panos de boca. O pintor até encaminhou um estudo de pano de boca: uma pintura em tom de vinho, com barra de motivos florais entremeada de douramentos. Esse estudo compunha a documentação organizada no Apep, mas desapareceu do conjunto, o que foi constatado por mim em 2005, quando quis fazer a reprodução fotográfica do material.

Um segundo orçamento foi proposto em agosto de 1889. Este foi autorizado ainda no governo provincial, mas, dadas as mudanças político-administrativas da passagem do Império para a República, foi ratificado apenas no final daquele ano, conforme mostram ofícios do então administrador do teatro, José Caetano da Gama e Silva, primo do maestro Gama Malcher. Ele escreveu aos membros do governo provisório, em dezembro: “Confirmando o meo officio de 26 de novembro[...], em que consultei se estava em vigor o contracto feito com Crispim do Amaral para a scenographia do Theatro, afim de, no cazo contrario, sem perda de tempo, poder esta administração tratar de annunciar nova arrematação perante o Thesouro do Estado, vem esta administração tratar agora de outras obras...”.

A reforma foi feita aos atropelos por falta de recursos e de planejamento. Enquanto isso, uma outra ação se desenrolava nos bastidores do poder. Chrispim do Amaral, apesar de ser citado com certa deferência nos documentos oficiais, não era exatamente o artista que o governo provincial queria para pintar o telão. Havia uma oposição ao seu nome entre os burocratas e o presidente de Província, numa clara indicação de que seria melhor mandar fazer a pintura na Corte ou na Europa, onde haveria artistas que o fariam “mais perfeito” e “por menor preço”.

Mas foram exatamente a burocracia e as incertezas daquele ano de 1889 que levaram à aprovação do projeto de Amaral. Já sob inspiração republicana, o telão foi confeccionado no ateliê Carpezat, em Paris. Em 1891, Amaral voltaria ao ateliê para refazer uma parte da cenografia que fora prejudicada pela infiltração das águas das chuvas no edifício.

VAIAS

A alegoria de Chrispim do Amaral é uma representação híbrida, reunindo elementos da República francesa de 1789 e de 1848. Sua Marianne convive com índios, negros, mestiços e elementos da mitologia greco-romana. Na inauguração, essa mistura provocou vaias entre os espectadores do teatro, que a consideraram pouco cívica. O historiador José Murilo de Carvalho destaca o fato de, à exceção de Décio Villares, poucos pintores brasileiros terem se interessado pelas representações femininas da República, apontando o baiano Manuel Lopes Rodrigues que, em 1896, produziu uma alegoria com elementos da Segunda República. Segundo ele, para ter essas referências, o pintor só poderia estar morando na Europa. Chrispim do Amaral, que não é citado por Carvalho, esteve na Europa antes do pintor baiano, portanto.

É preciso, no entanto, que novos pesquisadores, sobretudo do campo das artes, debrucem-se sobre essas pinturas do Teatro da Paz, que foram pouco estudadas até hoje. As obras de Domenico de Angelis e Chrispim do Amaral tanto quanto a história do teatro carregam invisibilidades e ocultamentos à espera do olhar perscrutador do presente.

* Este artigo é dedicado ao pesquisador paraense Vicente Salles

(Por Rose Silveira - Especial para o Diário do Pará)

http://www.diariodopara.com.br/noticiafullv2.php?idnot=59479
 
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