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O urbanista Lúcio Costa não tinha nenhum interesse em participar do concurso que definiria o projeto da nova capital, porque estava desmotivado (poucos anos antes sua esposa, dona Leleta, havia morrido em um acidente de carro). De volta de uma viagem aos Estados Unidos, caminhando pelo convés do navio, teve um estalo:

- Naquele instante surgiu a idéia de traçar os eixos se cruzando. Aquela idéia toda fervia na minha cabeça, e depois de ir à prancheta só tive o trabalho de desenvolvê-la em um texto claro, objetivo, o que não era difícil para mim.

- Como conseguiu tempo para se inscrever se faltavam apenas 60 dias para encerrar o prazo? (Fazendo um gesto de suspiro, alívio, desses de alguém que enfrenta algum tipo de sufoco):

- Olha, foi na enésima hora, quando os funcionários já estavam lacrando o guichê de recepção dos trabalhos e as minhas duas filhas foram inscrever o projeto. Eu fiquei no carro...

- Há quem veja, naquele cruzamento de eixos, asas de avião, mas também uma cruz... (Fica meio irritado, de cara fechada, contrariado mesmo):

- Vou deixar definitivamente bem clara uma coisa. Não me considero ateu, mas não tem nada religioso no projeto. Todas as cidades têm um traçado em dois sentidos, norte e sul. É o caso de Nova York, por exemplo.

O resumo do texto em que apresentou seu projeto é o seguinte:

...JOSÉ BONIFÁCIO, EM 1823, propõe a transferência da Capital para Goiás e sugere o nome de BRASÍLIA.



Desejo inicialmente desculpar-me perante a direção da Companhia Urbanizadora e a Comissão Julgadora do Concurso pela apresentação sumária do partido aqui sugerido para a nova Capital, e também justificar-me.

Não pretendia competir e, na verdade, não concorro, - apenas me desvencilho de uma solução possível, que não foi procurada mas surgiu, por assim dizer, já pronta.

Compareço, não como técnico devidamente aparelhado, pois nem sequer disponho de escritório, mas como simples maquis do urbanismo, que não pretende prosseguir no desenvolvimento da idéia apresentada senão eventualmente, na qualidade de mero consultor. E se processo assim candidamente é porque me amparo num raciocínio igualmente simplório: se a sugestão é válida, estes dados, conquanto sumários na sua aparência, já serão suficientes, pois revelarão que, apesar da espontaneidade original, ela foi, depois, intensamente pensada e resolvida; se não o é, a exclusão se fará mais facilmente, e não terei perdido o meu tempo nem tomado o tempo de ninguém.

A liberação do acesso ao concurso reduziu de certo modo a consulta àquilo que de fato importa, ou seja, à concepção urbanística da cidade propriamente dita, porque esta não será, no caso, uma decorrência do planejamento regional, mas a causa dele: a sua fundação é que se dará no ensejo ao ulterior desenvolvimento planejado da região. Trata-se de um ato deliberado de posse, de um gesto de sentido ainda desbravador, nos moldes da tradição colonial. E o que se indaga é como no entender de cada concorrente uma tal cidade deve ser concebida.

Ela deve ser concebida não como simples organismo capaz de preencher satisfatoriamente e sem esforço as funções vitais próprias de uma cidade moderna qualquer, não apenas como urbs, mas como civitas, possuidora dos atributos inerentes a uma capital. E, para tanto, a condição primeira é achar-se o urbanista imbuído de uma certa dignidade e nobreza de intenção, porquanto dessa atitude fundamental decorrem a ordenação e o senso de conveniência e medida capazes de conferir ao conjunto projetado o desejável caráter monumental. Monumental não no sentido de ostentação, mas no sentido da expressão palpável, por assim dizer, consciente, daquilo que vale e significa. Cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao mesmo tempo cidade viva e aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual, capaz de tornar-se, com o tempo, além de centro de governo e administração, num foco de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do país.

Dito isto, vejamos como nasceu, se definiu e resolveu a presente solução:

1 - Nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz.

2 - Procurou-se depois a adaptação à topografia local, ao escoamento natural das águas, à melhor orientação, arqueando-se um dos eixos a fim de contê-lo no triângulo equilátero que define a área urbanizada.

3 - E houve o propósito de aplicar os princípios francos da técnica rodoviária - inclusive a eliminação dos cruzamentos - à técnica urbanística, conferindo-se ao eixo arqueado, correspondente às vias naturais de acesso, a função circulatória tronco, com pistas centrais de velocidade e pistas laterais para o tráfego local, e dispondo-se ao longo desse eixo o grosso dos setores residenciais.

4 - Como decorrência dessa concentração residencial, os centros cívico e administrativo, o setor cultural, o centro de diversões, o centro esportivo, o setor administrativo municipal, os quartéis, as zonas destinadas à armazenagem, ao abastecimento e às pequenas indústrias locais e, por fim, a estação ferroviária, foram-se naturalmente ordenando e dispondo ao longo do eixo transversal que passou assim a ser o eixo monumental do sistema. Lateralmente à intersecção dos dois eixos, mas participando funcionalmente e em termos de composição urbanística do eixo monumental, localizaram-se o setor bancário e comercial, o setor dos escritórios de empresas e profissões liberais, e ainda os amplos setores do varejo comercial.

5 - O cruzamento desse eixo monumental, de cota inferior, com o eixo rodoviário-residencial impôs a criação de uma grande plataforma liberta do tráfego que não se destine ao estacionamento ali, remanso onde se concentrou logicamente o centro de diversões da cidade, com os cinemas, os teatros, os restaurantes etc.

6 - O tráfego destinado aos demais setores prossegue, ordenado em mão única, na área térrea inferior coberta pela plataforma e entalada nos dois topos mas aberta nas faces maiores, área utilizada em grande parte para o estacionamento de veículos e onde se localizou a estação rodoviária interurbana, acessível aos passageiros pelo nível superior da plataforma. Apenas as pistas de velocidade mergulham, já então subterrâneas, na parte central desse piso inferior que se espraia até nivelar-se com a esplanada do setor dos ministérios.

7 - Desse modo e com a introdução de três trevos completos em cada ramo do eixo rodoviário e outras tantas passagens de nível inferior, o tráfego de automóveis e ônibus se processa tanto na parte central quanto nos setores residenciais sem qualquer cruzamento. Para o tráfego de caminhões estabeleceu-se um sistema secundário autônomo com cruzamentos sinalizados mas sem cruzamento ou interferência alguma com o sistema anterior, salvo acima do setor esportivo, e que acede aos edifícios do setor comercial ao nível do subsolo, contornando o centro cívico em cota inferior, com galerias de acesso previstas no terrapleno.

8 - Fixada assim a rede geral do tráfego automóvel, estabeleceram-se, tanto nos setores centrais como nos residenciais, tramas autônomas para o trânsito local dos pedestres a fim de garantir-lhes o uso livre do chão, sem contudo levar tal separação a extremos sistemáticos e anti-naturais.

9 - Veja-se agora como nesse arcabouço de circulação ordenada se integram e articulam os vários setores.

Destacam-se no conjunto os edifícios destinados aos poderes fundamentais que, sendo em número de três e autônomos, encontraram no triângulo equilátero, vinculado à arquitetura da mais remota antigüidade, a forma elementar apropriada para contê-los. Criou-se então um terrapleno triangular, com arrimo de pedra à vista, sobrelevado na campina circunvizinha a que se tem acesso pela própria rampa da auto-estrada que conduz à residência e ao aeroporto. Em cada ângulo dessa praça - Praça dos Três Poderes, poderia chamar-se - localizou- se uma das casas, ficando as do Governo e do Supremo Tribunal na base e a do Congresso no vértice, com frente igualmente para uma ampla esplanada disposta num segundo terrapleno, de forma retangular e nível mais alto, de acordo com a topografia local, igualmente arrimado de pedras em todo o seu perímetro.

Ao longo dessa esplanada, extenso gramado destinado a pedestres, a paradas e a desfiles, foram dispostos os ministérios e autarquias. Os das Relações Exteriores e Justiça ocupando os cantos inferiores, contíguos ao edifício do Congresso e com enquadramento condigno aos ministérios militares, constituindo uma praça autônoma, e os demais ordenados em seqüência - todos com área privativa de estacionamento -, sendo o último o da Educação, a fim de ficar vizinho do setor cultural, tratado à maneira de parque para melhor ambientação dos museus, da biblioteca, do planetário, das academias, dos institutos, etc.

A Catedral ficou igualmente localizada nessa esplanada, mas numa praça autônoma disposta lateralmente, não só por questão de protocolo, uma vez que a Igreja é separada do Estado, como por uma questão de escala.

10 - Lateralmente ao setor central de diversões, e articulados a ele, encontram-se dois grandes núcleos destinados exclusivamente ao comércio e dois setores distintos, o bancário-comercial e o dos escritórios para profissões liberais, representações e empresas, onde foram localizados, respectivamente, o Banco do Brasil e a sede dos Correios e Telégrafos.

No setor de bancos previram-se três blocos altos e quatro de menor altura, ligados entre si por extensa ala térrea com sobreloja de modo a permitir intercomunicação coberta e amplo espaço para instalação de agências bancárias, agências de empresas, cafés, restaurantes, etc. Em cada núcleo comercial, propõe-se uma seqüência ordenada de blocos baixos e alongados e um maior, de igual altura dos anteriores, todos interligados por um amplo corpo térreo com lojas, sobrelojas e galerias. Dois braços elevados da pista de contorno permitem, também aqui, acesso franco aos pedestres.

11 - Percorrido assim de ponta a ponta esse eixo dito monumental, vê-se que a fluência e unidade do traçado, desde a praça do Governo até à praça Municipal, não exclui a variedade, e cada setor, por assim dizer, vale por si como organismo plasticamente autônomo na composição do conjunto.

12 - Quanto ao problema residencial, ocorreu a solução de criar-se uma seqüência contínua de grandes quadras dispostas, em ordem dupla ou singela, de ambos os lados da faixa rodoviária, e emolduradas por uma larga cinta densamente arborizada, prevalecendo em cada quadra determinada espécie vegetal, com chão gramado e uma cortina suplementar intermitente de arbustos e folhagens.

Dentro das “superquadras”, os blocos residenciais podem dispor-se da maneira mais variada, obedecendo porém a dois princípios: gabarito máximo uniforme, talvez seis pavimentos e pilotis, e separação do tráfego de veículos do trânsito de pedestres.

O mercadinho, os açougues, as vendas, quitandas, casas de ferragens, etc, na primeira metade da faixa correspondentes ao acesso de serviço; as barbearias, cabeleireiros, modistas, confeitarias etc., na primeira seção da faixa de acesso privativa dos automóveis, onde se encontram igualmente os postos de serviço para venda de gasolina.

13 - A gradação social poderá ser dosada facilmente atribuindo-se maior valor a determinadas quadras como, por exemplo, às quadras singelas contíguas ao setor das embaixadas, setor que se estende de ambos os lados do eixo principal paralelamente ao eixo rodoviário, com alameda de acesso autônomo e via de serviço para o tráfego de caminhões comum às quadras residenciais.

Seja como for, as diferenças de padrão de uma quadra a outra serão neutralizadas pelo próprio agenciamento urbanístico proposto, e não serão de natureza a afetar o conforto social a que todos têm direito. Elas decorrerão apenas de uma maior ou menor densidade, do maior ou menor espaço atribuído a cada indivíduo e a cada família, da escolha dos materiais e do grau e requinte do acabamento.

14 - Previram-se igualmente setores ilhados, cercados de arvoredos e de campo, destinados a loteamento para casas individuais, sugerindo-se uma disposição dentada em cremalheira, para que as casas construídas nos lotes de topo se destaquem na paisagem, afastadas umas das outras, disposição que ainda permite acesso autônomo de serviço para todos os lotes. E admitiu-se igualmente a construção eventual de casas avulsas isoladas de alto padrão arquitetônico - o que não implica tamanho - estabelecendo-se porém como regra, nestes casos, o afastamento mínimo de um quilômetro de casa a casa, o que acentuará o caráter excepcional de tais concessões.

15 - Evitou-se a localização dos bairros residenciais na orla da lagoa, a fim de preservá-la intata, tratada com bosques e campos de feição naturalista e rústica para os passeios e amenidades bucólicas de toda a população urbana. Apenas os clubes esportivos, os restaurantes, os lugares de recreio, os balneários e núcleos de pesca poderão chegar à beira d’água. O clube de Golf situou- se na extremidade leste, contíguo à Residência e ao hotel, ambos em construção, e o Yatch Club na enseada vizinha, entremeados por denso bosque que se estende até à margem da represa, bordejada nesse trecho pela alameda de contorno que intermitentemente se desprende da sua orla para embrenhar-se pelo campo que se pretende eventualmente florido e manchado de arvoredo.

17 - Resumindo, a solução apresentada é de fácil apreensão, pois se caracteriza pela simplicidade e clareza do risco original, o que não exclui, conforme se viu, a variedade no tratamento das partes, cada qual concebida segundo a natureza peculiar da respectiva função, resultando daí a harmonia de exigências de aparência contraditória. É assim eficiente, acolhedora e íntima. É ao mesmo tempo derramada e concisa, bucólica e urbana, lírica e funcional. E por ter o arcabouço tão claramente definido, é de fácil execução: dois eixos, dois terraplenos, uma plataforma, duas pistas largas num sentido, uma rodovia no outro. As instalações teriam sempre campo livre nas faixas verdes contíguas às pistas de rolamento. As quadras seriam apenas niveladas e paisagisticamente definidas, com as respectivas cintas plantadas de grama e desde logo arborizadas, mas sem calçamento de qualquer espécie, nem meios-fios. De uma parte, técnica rodoviária; de outra, técnica paisagística de parques e jardins.

Brasília, capital aérea e rodoviária; cidade parque. Sonho arqui-secular do Patriarca.

Fonte: http://www.brasiliaemdia.com.br/2008/4/18/Pagina4334.htm
 

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Gosto muito da idéia do traçado da Capital, junto com a arquitetura são únicos no Mundo. Visitei o Espaço Lúcio Costa no subsolo da Praça dos Três Poderes, e vendo a maquete atualizada do Plano Piloto percebemos o quanto é interessante essa simetria.
Poucas cidades possuem um traçado tão interessante. Que eu conheço de similar é só aquela península artificial em Dubai no formato de palmeira.
BH foi planejada, mas o que há de interessante é a geometria desafiando a geografia montanhosa. E só (o limite do plano - Av. do Contorno - parece a batata da Desciclopédia). Outras cidades planejadas também não possuem nada de mais no traçada além de planos geométricos.
 

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PAULOTAKIMOTO
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Muito legal:)

Apesar do urbanísmo feito naquela ópoca ser considerado, hoje, um equívoco; ele é muito respeitado e admirado pela ousadia, ideais, inovações e tals. O prórpio Lúcio Costa, segundo um professor que tive, um bom tempo depois de Brasília ter sido construida, afirmou em uma entrevista; "só esquecemos de projetar os usuários".

Aprendeu-se com esse modelo de urbanísmo(moderno), que essa simetria, essa vontade quase que divina de controlar através de eixos, setores, limites, usos, acessos e etcs, não funciona, pelo simples fato de que as pessoas são incontroláveis(no sentido literal da palavra). Não dá para regrar a vida e a forma como as pessoas irão interagir e se portar, através de um plano urbano, tal como esses projetos, também, idealizavam(e com a melhor das intenções, vale ressaltar).
 

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^^

Vou fazer um trabalho sobre isso, hehehehe

Mais especificamente sobre as relações positivismo/capitalismo/modernismo. Acho muito interessante a segmentação, as idéias de indivíduo tipo e a racionalização que são a base do modernismo, e como isso também é presente na filosofia e na organização social (da produção - abordagem completamente marxista hahhahaha) de uma época.

E também acho tudo isso um equívoco. :D
 

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O texto é muito interessante e esclarece muito bem porque BSB foi construída daquele jeito, mas os traçados urbanos que eu realmente admiro são os das regiões centrais de BHZ e GYN.
 

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^^ O de BH é tão sem graça... O lado peculiar é que o traçado cartesiano está sobre uma região de relevo bem acidentado - o que é raro de se ver (tanto que o restante da cidade não planejada é bem 'dadaísta'). Tanto que muitas cidades planas possuem um traçado geométrico semelhante. Talvez o diferencial sejam as avenidas perpendiculares aos quadradinhos...
 

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^^ O de BH é tão sem graça... O lado peculiar é que o traçado cartesiano está sobre uma região de relevo bem acidentado - o que é raro de se ver (tanto que o restante da cidade não planejada é bem 'dadaísta'). Tanto que muitas cidades planas possuem um traçado geométrico semelhante. Talvez o diferencial sejam as avenidas perpendiculares aos quadradinhos...
Permita-me discordar: eu considero aquele desenho perfeito. Aquelas esquinas em 45° e 90° são de babar :drool:, têm uma beleza que eu não vejo em nenhuma avenida central de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Não tem lugar mais propício que Belo Horizonte para falar da beleza de uma esquina. É uma cidade única nesse aspecto.

Veja este trecho de uma entrevista de Sylvio de Podestà: http://www.revistasagarana.com.br/revista26/entrevista.htm

"Então não existe, por exemplo, uma arquitetura típica mineira…

Esqueça esse tipo de pergunta. Não existe arquitetura mineira! Existe uma arquitetura feita em Minas. Tanto que a Pampulha é feita por Niemeyer que não é mineiro. Mas o fato é que aquele trabalho do Niemeyer só poderia ser construído ali na Pampulha, em Belo Horizonte , em Minas Gerais, naquele momento histórico, na escala do lugar e pelo tipo de cliente que se apresentou na época. Outro exemplo está na Praça Sete, naquele lindo prédio que era a sede do Banco da Lavoura, feito por um excelente arquiteto paulista, o Álvaro Vital Brasil — que também projetou um prédio em Anápolis (Goiás), apelidado de Lavourinha, onde hoje moram meus pais. Andando por Belo Horizonte percebe-se que a cidade recebeu diferentes arquitetos, pessoas que trouxeram a arquitetura para cá. Eu não consigo ver o Edifício Acaiaca (Luiz Pinto Coelho, 1943) na Avenida Paulista, só consigo vê-lo naquela esquina aberta, com os ângulos particularíssimos traçados por Aarão Reis. Talvez só exista em Montevidéu um traçado parecido, como diz Roberto Segre, arquiteto e professor “ítalo-cubano-carioca”. Esses ângulos são incríveis. Mesmo que a arquitetura ali naquela região seja em alguns momentos vagabunda — como, por exemplo, aquele prédio do Top Bar (Tamoios com Afonso Pena), todo de vidro, cheio de ar condicionado —, ela é dramática por causa do ângulo, do traçado urbano. E isso é muito peculiar em Belo Horizonte . Mas, a poucos metros dali existem também outras coisas geniais. O edifício Sulacap, outro exemplo, acho que feito em 1941 por um paulista, meio italiano, meio não sei o que, o Roberto Capello. O Sulacap abria uma perspectiva do olhar rumo ao viaduto de Santa Tereza e desvelava uma nova cidade que estava crescendo pela Floresta (bairro de BH) afora. Hoje, infelizmente, esta vista está tampada por um anexo ridículo que construíram lá e a gente não consegue demolir. Portanto, é preciso interpretar a arquitetura em função do seu olhar. Eu sou de (eu estou em) Minas, mas se eu estiver no Amazonas, vou fazer uma arquitetura para o Amazonas. Você vai sempre fazer a arquitetura do lugar em que você está. Se você está em Minas, você faz uma arquitetura para Minas. Se você está no Ceará, você faz uma arquitetura para o Ceará."

É claro que o restante da cidade é "dadaísta" (by Desciclopédia), mas nisto não difere da absoluta maioria das cidades brasileiras. Uma pena que simplesmente não expandiram o plano original...:(
 

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Realmente, as esquinas de BH em 45° e os prédios fininhos nas pontas são bem particulares, e muitos bem bonitos :eek:kay: Mas se não fosse a idéia de 'inserir' avenidas perpendiculares às ruas, seria um traçado bem comum em cidades planas (por exemplo, no Triângulo Mineiro).
O que não gosto foi a descaracterização do plano original, sobretudo a redução do Parque Municipal a uns 20% e troca de nomes de logradouros.
Para detonar de vez, o Governo Estadual resolve mudar a sua sede para um lugar 'nada a ver' com o projeto original da cidade.
Ah, dadaísta by Desciclopédia :D

 

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Lucio Costa? Aquele que se vendeu aos militares? Que fez de tudo para por abaixo o Monroe?

Como dizem "Se Brasilia prestasse o niemeyer tava morando lá"
 

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Lucio Costa? Aquele que se vendeu aos militares? Que fez de tudo para por abaixo o Monroe?

Como dizem "Se Brasilia prestasse o niemeyer tava morando lá"
Quem fez de tudo para derrubar o palácio Monroe não foi Lúcio Costa (que também defendia a demolição), mas sim Roberto Marinho que se utilizava do jornal O Globo para defender diariamente a demolição do palácio. . .
 

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Lucio Costa? Aquele que se vendeu aos militares? Que fez de tudo para por abaixo o Monroe?

Como dizem "Se Brasilia prestasse o niemeyer tava morando lá"

Comentário infeliz..... quem falou que Brasília não presta!? Se o veinho não quer morar por aqui, porblema é dele.... Cuidado com o que diz, meu jovem! :)
 

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Interessante o paralelo com BH.
Ainda penso que os "problemas" de ambas deve-se mais a uma falta de instituições fortes, ou a um sentimento de respeito as instituições do que falhas de concepção.

Ambas cidades foram desde o início deturpadas e tiveram seus planos corrompidos, alterações muito além das adaptações orçamentárias ou por razões geográficas.
O brasileiro ainda não aprendeu a respeitar instituições e o traçado e regras de ocupação urbanas é uma das mais importantes. De tal modo que ao mais leve mudar dos ventos destroem e modificam tudo carecendo as cidades de identidade e lógica. O que por fim acarrate a depredação e o uso racional dos meios.

Um exemplo.
As pessoas criticam a suposta rigidez de uso dos setores do Lúcio Costa. Não há nada de tão rígido assim, pelo contrário, ele soube mesclar muito bem as diferentes atividades da cidade. Por outro lado nas capitais ditas não planejadas, há muito mais segmentação do comércio e dos setores.
Em Fortaleza, por exemplo, há ruas inteiras dedicadas quese que exclusivamente a óticas, ferragens, materiais elétricos, aviamentos, oficinas... e por acaso vêm isso como positivo. Para não falar na segmentação entre comércio e residência muito mais severo que o projeto de Brasília. Nas quadras residenciais do Meireles só há edifícios de apartamentos e mais nada, nas quadras do centro apenas grandes lojas varejistas... Resultado domingos desérticos no centro da cidade e trânsito caótico nos quarteirões da Aldeota e Meireles, pois ir as comprar significa tirar o carro da garagem.
 

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Interessante o paralelo com BH.
Ainda penso que os "problemas" de ambas deve-se mais a uma falta de instituições fortes, ou a um sentimento de respeito as instituições do que falhas de concepção.

Ambas cidades foram desde o início deturpadas e tiveram seus planos corrompidos, alterações muito além das adaptações orçamentárias ou por razões geográficas.
O brasileiro ainda não aprendeu a respeitar instituições e o traçado e regras de ocupação urbanas é uma das mais importantes. De tal modo que ao mais leve mudar dos ventos destroem e modificam tudo carecendo as cidades de identidade e lógica. O que por fim acarrate a depredação e o uso racional dos meios.

Um exemplo.
As pessoas criticam a suposta rigidez de uso dos setores do Lúcio Costa. Não há nada de tão rígido assim, pelo contrário, ele soube mesclar muito bem as diferentes atividades da cidade. Por outro lado nas capitais ditas não planejadas, há muito mais segmentação do comércio e dos setores.
Em Fortaleza, por exemplo, há ruas inteiras dedicadas quese que exclusivamente a óticas, ferragens, materiais elétricos, aviamentos, oficinas... e por acaso vêm isso como positivo. Para não falar na segmentação entre comércio e residência muito mais severo que o projeto de Brasília. Nas quadras residenciais do Meireles só há edifícios de apartamentos e mais nada, nas quadras do centro apenas grandes lojas varejistas... Resultado domingos desérticos no centro da cidade e trânsito caótico nos quarteirões da Aldeota e Meireles, pois ir as comprar significa tirar o carro da garagem.
Essa rigidez não estava no projeto original do Lucio Costa, foi feito pela equipe da Novacap que sugeriu algumas alterações (o titio Oscar deu os seus palpites...). Como curiosidade aqui vai alguns desenhos das concorrentes do Projeto do Lucio Costa: http://www.geocities.com/~augusto_areal/projetos.htm

O problema do Projeto de BH é que foi feito por um engenhiro e não por um urbanista e ele fez um projeto totalmente inadequado para o local, não foram consideradas o relevo nem nada, pois se considerou que a "tecnologia" adequaria o relevo ao projeto. dai foi bem natural que o projeto tenha sido totalmente desvirtuado, não foi falta de respeito e sim falha de projeto.
 

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No caso de BH o terreno por si só não era razão, depois veio a ocupação descontrolado, isso sim foi mais nocivo. O planejamento não é um desenho fotográfico de como a cidade deve ser, mas sim um conjunto de sugestões e padrões a serem seguidos como forma de ordernar o desenvolvimento. E é a esse arcabouço de regras que costumamos desprezar.
 

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No caso de BH o terreno por si só não era razão, depois veio a ocupação descontrolado, isso sim foi mais nocivo. O planejamento não é um desenho fotográfico de como a cidade deve ser, mas sim um conjunto de sugestões e padrões a serem seguidos como forma de ordernar o desenvolvimento. E é a esse arcabouço de regras que costumamos desprezar.
Discordo, acho que em BH houve falha de projeto sim. Ruas em malha ortogonal exigem topografia plana pra serem adequadas, e aquelas avenidas em malha a 45° são um pepino no quesito trânsito, ao cruzarem com a malha secundária.
 

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Discordo, acho que em BH houve falha de projeto sim. Ruas em malha ortogonal exigem topografia plana pra serem adequadas, e aquelas avenidas em malha a 45° são um pepino no quesito trânsito, ao cruzarem com a malha secundária.
Sim, aí são outros quinhentos, BH é inspirada na reforma do Napoleão III em Paris, que também tem um trânsito caótico. Me refiro a ocupação do solo.
E Paris resolvel o em parte os problema com centenas de km de metrô.
 

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Quando Napoleao inventou um tracado novo para Paris nao se pensava em cidades com carros. Carros nao existiam nos seculos 18-19!!!! Paris nao foi pensada para carros. Repetir a mesma ideia dois seculos e meio depois, com varias revolucoes concluidas (alem da francesa, a industrial e a tecnologica) numa Belo Horizonte montanhosa e na qual ja se anunciava a era dos automoveis (Henry Ford ja estava trabalhando...) eh sinal de atraso. As esquinas de BH podem ser dramaticamente belas (e sao) mas que o transito eh um horror, isso eh! Orientar-se enquanto dirige? Um tormento.

Mateus esta certo: os cruzamentos da malha 45 com os da ortogonal so poderiam ser melhores se nao existissem. Mas aloem de estarem la, ainda sao numerisissimos. Pior do que um erro, eh um erro repetido ad absurdum.
 
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