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Lucio Costa
Legado do humanista


Hoje completam-se 10 anos de morte do arquiteto e urbanista que pensou, projetou e ajudou a concretizar Brasília

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Gizella Rodrigues - Da equipe do Correio
Lúcio Costi - Especial para o Correio

Lucio Costa revolucionou a arquitetura brasileira ao associá-la a conceitos de Política, Filosofia, Sociologia e Psicologia. Dessa forma, uniu o belo às necessidades da vida comunitária


“Desejo inicialmente desculpar-me perante a Direção da Companhia Urbanizadora e a Comissão Julgadora do Concurso pela apresentação sumária do partido aqui sugerido para a nova Capital e também justificar-me. Não pretendia competir e, na verdade, não concorro; apenas me desvencilho de uma solução possível, que não foi procurada, mas surgiu, por assim dizer, já pronta.”

O trecho reproduzido acima foi retirado do memorial descritivo do projeto de número 22, que acabou eleito vencedor pela comissão de jurados do concurso que escolheu o projeto da nova capital do país em 1957. As palavras foram ditas por Lucio Costa, que projetou uma cidade inteira a partir do simples desenho de duas linhas retas que se cruzavam em forma de uma cruz. Hoje, completam-se 10 anos da morte do homem que inventou Brasília. Às 9h de 13 de junho de 1998, o urbanista morreu aos 96 anos, em sua cobertura no Leblon, no Rio de Janeiro. E deixou um legado muito maior do que o conhecido pelos brasileiros e pelos próprios brasilienses.

Lucio Marçal Ferreira Ribeiro de Lima e Costa nasceu em Toulon, na França, mas veio para o Brasil aos 14 anos. Assim que pisou em terras brasileiras, foi matriculado na Escola de Belas Artes. Estudou arquitetura por influência do pai que queria ter um filho artista. Transformou-se em um gênio da arquitetura brasileira, quebrou paradigmas, mas nunca fez questão de exibicionismo. “Se tive alguma evidência, é apesar de mim e não por minha culpa”, disse certa vez.

Ao vencer o concurso para o pavilhão brasileiro da Feira Internacional de Nova Iorque, por exemplo, chamou o segundo colocado para desenvolver com ele o projeto, pois reconheceu que o trabalho não era inferior ao dele. Tratava-se do arquiteto Oscar Niemeyer, que mais tarde desenhou os edifícios da capital federal. A parceria com Niemeyer se repetiu na projeção da sede do Ministério da Educação no Rio de Janeiro. O edifício chamou a atenção do mundo com seus pilotis, reproduzidos mais tarde em Brasília. Pilotis que deveriam permanecer livres para que as pessoas pudessem circular à vontade entre os prédios.

Lucio Costa revolucionou a maneira de desenhar edifícios no Brasil. Foi o primeiro a associar arquitetura com ciências como Política, Filosofia, Sociologia e Psicologia. Criou, assim, o que os profissionais do ramo chamam de arquitetura humanista. O que, na prática, significa a ligação entre a beleza do prédio e a funcionalidade exigida pela comunidade que nele vive. “Até hoje, o modelo humanista de Lucio Costa é mal compreendido. Hoje copiamos modelos estrangeiros, damos mais valor a técnicas do que ao conteúdo humano”, afirma o professor de arquitetura e urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) Frederico Flósculo.

Sem arrogância
Em 1957, o reencontro de Lucio e Niemeyer resultou na concretização da nova capital. Os prédios projetados por Niemeyer, que veio a Brasília a convite de Lucio, acabaram tornando-se mais populares que o desenho urbano da cidade. Mas o urbanista nunca se importou de o nome do arquiteto estar mais associado a Brasília que o dele próprio. “Ele não era arrogante como muitos dos arquitetos contemporâneos”, conta Flósculo.

Em Brasília, Lucio Costa colocou em prática todos os seus ideais humanistas, libertários e de valorização da cultura brasileira. Fez uma cidade-parque ao emoldurar os prédios com uma faixa verde pensando em dar qualidade de vida à população. Inaugurou uma nova maneira de viver com superquadras, onde os moradores poderiam encontrar todos os serviços que precisavam a poucos metros de casa: padaria, barbearia, verdurão, mercado, salão de beleza, tudo deveria estar em uma das lojas do comércio local. Lazer e diversão também deveriam ficar perto das pessoas, mas separados do poder da Esplanada dos Ministérios ou do vai-e-vem da área central, voltada para o trabalho.

Apesar do esplendor da cidade que inventou, não assistiu à cerimônia de inauguração de Brasília, pois ainda estava abatido com a morte da esposa, Juliete Modesto Guimarães, a Leleta, que morrera num acidente de carro, que ele dirigia. “Há quem diga que os cuidados dele com o plano de Brasília, sem cruzamentos, têm relação direta com esse episódio”, diz o professor de Teoria e História da Arquitetura da Universidade de Brasília (UnB) José Carlos Coutinho.

Preservar o legado que Lucio Costa deixou é um grande desafio. A cidade que nasceu livre de cruzamentos e semáforos está engarrafada. Os espaços deixados vazios e verdes propositalmente são ocupados. O comércio local transformou-se em regional e as lojas invadiram áreas públicas. “A Brasília atual se tornou algo bem diverso do imaginado”, ressalta o geógrafo Aldo Paviani. “Brasília, hoje, é cinco vezes maior do que foi pensada. A Brasília de hoje é uma totalidade de, ao menos, 30 outros núcleos”, explica.

Para Flósculo, a falha foi do urbanista. “Ele foi muito mais projetista do que planejador. O maior erro de Brasília foi o projeto não ter colocado o modo que a cidade se desenvolveria, o que causou um crescimento cheio de aberrações”, afirma. Para o superintendente regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Alfredo Gastal, o problema se deve à incompetência dos governos do DF. “Eles não foram capazes de perceber que a cidade tinha que crescer para fora e não concentrada no Plano Piloto. A cidade foi construída para ser capital do país e não de um estado”, defende.

Entrevista - Maria Elisa Costa
Ricardo Miranda
Da equipe do Correio
Ricardo Miranda/CB/D.A Press


“Uma pessoa com visão histórica.
Uma pessoa que crê no ser humano.
Uma pessoa que quer transmitir o seu saber.
Uma pessoa que confia completamente no Brasil.
Ou, como ele próprio se definiu numa entrevista: ‘Um homem bom’.”



O inédito Lucio Costa, meu pai, escrito pela arquiteta Maria Elisa Costa em 2002 e cujo trecho esta matéria toma emprestado, é uma tentativa vã, mas sincera, de classificar o inclassificável. Por isso, diz, tudo o que a aproxima do pai serve ao menos para matar a enorme saudade. Coordenadora da Casa de Lucio Costa, onde, com ajuda da Petrobras, pretende reunir todo o acervo do genial arquiteto, urbanista e pensador Lucio Costa, ela se surpreende todos os dias com documentos, desenhos, cartas e bilhetes que acha espalhados por, literalmente, todos os cantos do velho apartamento no Leblon, Zona Sul do Rio. Dez anos após a morte de Lucio, o vazio é preenchido assim, com quilos de memória, que vêm sendo recuperados, catalogados e digitalizados. Maria Elisa recebeu o Correio no Leblon para lembrar a vida e obra do pai genial cujo único rótulo possível talvez seja eterno.

Qual a maior herança deixada pelo seu pai?

Seu amor ao Brasil e a total e irrestrita confiança no país. Sua frase síntese para mim é: “O Brasil não será jamais um país medíocre”.

Lá se vão 10 anos da sua morte...

Lucio não é datado. Além de ter estado sempre presente em momentos decisivos da cultura brasileira, seu tipo de sensibilidade e inteligência e seu próprio jeito de ser seduzem quem se aproxima de seus escritos e entrevistas. O interesse por Brasília e pelo próprio Lucio no exterior tem sido crescente, como observamos pela procura à Casa de Lucio Costa. Brasília e Lucio continuam na moda.

Como sua obra influencia até hoje?

Digamos que Lucio foi quem deu início e estruturou a mudança da cara da arquitetura brasileira ocorrida entre os anos 30 e 60. Acho que os arquitetos de hoje deviam prestar mais atenção ao legado do Lucio Costa arquiteto — o Brasil só teria a ganhar...

Como foi a parceria com Oscar Niemeyer? Eles se entendiam bem sempre ou havia alguma discordância ou diferença?

Houve quatro interseções entre as trajetórias dos dois. Embora de temperamentos muito diferentes, sempre se entenderam bem e tiveram uma relação franca e aberta, como parceiros na defesa da arquitetura moderna brasileira.

Lucio venceu o concurso público para o Plano Piloto da Nova Capital, em 1957, quando já dispunha de uma sólida bagagem. O que foi Brasília para Lucio?

Quando apareceu o concurso para o Plano Piloto de Brasília, várias equipes o convidaram e ele não aceitou. Agora, a partir de um determinado momento ele se deu conta de que o Juscelino ia fazer mesmo. Acho que foi quando começou a obra do Alvorada. Aquilo passou a fermentar na cabeça dele. E ele não usou a possibilidade de fazer a capital do Brasil para demonstrar tese nenhuma. Ao contrário, quis usar a bagagem que possuía para ajudar a mudança a dar certo. Ele tinha que inventar um novo modo de convívio urbano, que fosse novo, mas que não assustasse as pessoas. A superquadra é uma coisa completamente inovadora, mas tem seis andares, que você sobe a pé sem morrer de cansado, e tem o comércio na rua, a quadra tem uma entrada só. Isso resgatou o convívio urbano de rua, que o Rio e a Zona Sul não tinham mais.

O que ele acharia de Brasília hoje?

Acho que repetiria o óbvio: “Brasília é capital do Brasil, não é capital da Suécia”... E o Plano Piloto está resistindo, apesar da incompreensão de muita gente que adoraria banalizar Brasília, subtrair do Plano Piloto sua singularidade. Às vezes, imagino se Brasília tivesse ocorrido, por exemplo, nos Estados Unidos ou no Canadá — aposto que estariam cuidando da “Brasília” de lá com o maior respeito. E nós aqui diríamos: ‘Só mesmo eles, os louros desenvolvidos do norte é que teriam a capacidade de fazer uma coisa tão extraordinária’. Quando, na verdade, só mesmo nós, os tropicais brasileiros ao sul do Equador é que tivemos a competência. Por que será que temos tanta dificuldade em dar valor a nós mesmos?


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O percurso

INFÂNCIA NO MUNDO
27 de fevereiro de 1902 — Nasce em Toulon, na França. É registrado no consulado brasileira em Marselha.
1909 — Seus pais, Joaquim Ribeiro da Costa e Alina Ferreira da Costa, ganham um lote no Leme. Moram um ano nesse endereço.
1910 — A família embarca para a Inglaterra.
1914 — Da Inglaterra, segue para Paris. Com a guerra, vai para a Suíça.

BELAS ARTES
1916 — Volta ao Brasil e é matriculado pelo pai na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro que queria ter um filho artista. Lucio prefere arquitetura.
1921/22 — Faz seu primeiro projeto: Casa Rodolfo Chambelland, no Rio de Janeiro, com a colaboração Evaristo de Sá.
1922 — Visita Diamantina (MG), viagem que lhe faz descobrir a verdadeira arquitetura colonial brasileira.
1929 — Casa-se com Julieta Guimarães, a Leleta.
1930 — É nomeado diretor da Escola Nacional de Belas Artes.
1931 — Dá novo rumo ao Salão Nacional de Belas Artes.
1936 — Chefia equipe de
arquitetos convidados para projetar o edifício-sede do recém-criado Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, a partir da doutrina de Le Corbusier.
1938 —Leva Oscar Niemeyer consigo para, juntos, desenharem o Pavilhão do Brasil para a New York World’s Fair de 1939 (Feira Mundial de Nova Iorque).
1948 — Projeta o conjunto de edifícios residenciais no Parque Guinle, no Rio de Janeiro, e usa pela primeira vez um traço que repetiu em Brasília: prédios seis andares sobre pilotis abertos. Projeta também Park Hotel em Friburgo, Rio.
1954 — Perde a mulher em um acidente de carro.

NOVA CAPITAL
1957 — Vence o concurso para a construção de Brasília.
1960 — É agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.
1969 — Cria o plano diretor para a reurbanização da Baixada de Jacarepaguá, que inclui a Barra da Tijuca, no Rio.
1976 — Participa da concorrência para a construção da nova capital da Nigéria. A proposta não é levada adiante.
1987 — Apresenta Brasília Revisitada, no qual pede que se respeitem as quatro escalas da concepção da cidade (monumental, residencial, gregária e bucólica).
1989 — Recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Brasília.
1998 – Conclui seu livro autobiográfico Lucio Costa, registro de uma vivência.
13 de junho de 1998 – Morre em sua casa, no Leblon, Rio de Janeiro.

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"Às vezes me espanto e me envaideço, quando penso: ‘Fui eu que planejei — que inventei — a nossa capital’, e acrescento, – é, deste pecado você não escapa!"

"Da proposta do Plano Piloto resultou a incorporação à cidade do imenso céu do planalto, como parte integrante e onipresente da própria concepção urbana — os vazios são por ele preenchidos, a cidade é deliberadamente aberta aos 360 graus do horizonte que a circunda."


"O plano de Brasília teve a expressa intenção de trazer até o centro urbano a fluência de tráfego própria, até então, das rodovias. O que permanece incompreensível é até hoje não existir — pelo menos na área urbana — um serviço de ônibus municipal impecável."


"Deixem Brasília crescer tal como foi concebida, como deve ser — derramada, serena, bela e única."


Lúcio Costa e Niemeyer:



Parque Guinle (RJ) - a semente da superquadra:



Projeto do Plano Piloto (desenho básico em apenas 3 croquis):



Eixo Monumental (leste-oeste):



Entorno de uma superquadra:


Fonte: Correio Braziliense, 13/06/2008.
 
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