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from Belém-Pa
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Discussion Starter · #1 · (Edited)
Série sobre o centenário do declínio do ciclo da borracha na Amazônia.

O ciclo da borracha foi um momento econômico na história do Brasil que constituiu uma parte importante da história da economia e sociedade do país, estando relacionado com a extração e comercialização da borracha. Este ciclo teve o seu centro na região amazônica, proporcionando grande expansão da colonização, atraindo riqueza e causando transformações culturais e sociais, além de dar grande impulso às cidades de Manaus, Porto Velho e Belém, até hoje maiores centros e capitais de seus Estados, Amazonas, Rondônia e Pará, respectivamente. No mesmo período foi criado o Território Federal do Acre, atual Estado do Acre, cuja área foi adquirida da Bolívia por meio de uma compra por 2 milhões de libras esterlinas em 1903. O ciclo da borracha viveu seu auge entre 1879 a 1912, tendo depois experimentado uma sobrevida entre 1942 e 1945 durante a II Guerra Mundial (1939-1945).


Região da Amazônia, palco do ciclo da borracha. É visível parte do Brasil e da Bolívia, além dos rios Madeira, Mamoré e Guaporé, perto dos quais construiu-se a Estrada de Ferro Madeira Mamoré.


publicado no jornal Diário do Pará 24/06/2012



Os novos ricos de Manaus tornaram a cidade a capital mundial da venda de diamantes


Teatro Amazonas em Manaus, um dos luxuosos edifícios construídos com as fortunas da borracha.


Teatro da Paz em Belém, um dos símbolos do ciclo da borracha.


Projetos de uma ferrovia para escoar a produção da borracha

A idéia de construir uma ferrovia nas margens dos rios Madeira e Mamoré surgiu na Bolívia, em 1846. Como o país não tinha como escoar a produção de borracha por seu território, era necessário criar alguma alternativa que possibilitasse exportar a borracha através do Oceano Atlântico.

A idéia inicial optava pela via da navegação fluvial, subindo o rio Mamoré em território boliviano e depois pelo rio Madeira, no Brasil. Mas o percurso fluvial tinha grandes obstáculos: vinte cachoeiras impediam a navegação. E foi aí que cogitou-se a construção de uma estrada de ferro que cobrisse por terra o trecho problemático.

Em 1867, no Brasil, também visando encontrar algum meio que favorecesse o transporte da borracha, os engenheiros José e Francisco Keller organizaram uma grande expedição, explorando a região das cachoeiras do rio Madeira para delimitar o melhor traçado, visando também a instalação de uma ferrovia.

Embora a idéia da navegação fluvial fosse complicada, em 1869, o engenheiro estadunidense George Earl Church obteve do governo da Bolívia a concessão para criar e explorar uma empresa de navegação que ligasse os rios Mamoré e Madeira. Mas, não muito tempo depois, vendo as dificuldades reais desta empreitada, os planos foram definitivamente mudados para a construção de uma ferrovia.

As negociações avançam e, ainda em 1870, o mesmo Church recebe do governo brasileiro a permissão para construir então uma ferrovia ao longo das cachoeiras do Rio Madeira.


A Questão do Acre

Mas o exagero do extrativismo descontrolado da borracha estava em vias de provocar um conflito internacional. Os trabalhadores brasileiros cada vez mais adentravam nas florestas do território da Bolívia em busca de novas seringueiras para extrair o precioso látex, gerando conflitos e lutas por questões fronteiriças no final do século XIX, que exigiram inclusive a presença do exército, liderado pelo militar José Plácido de Castro.

A república brasileira, recém proclamada, tirava o máximo proveito das riquezas obtidas com a venda da borracha, mas a Questão do Acre (como estavam sendo conhecidos os conflitos fronteiriços por conta do extrativismo da borracha) preocupava.

Foi então a providencial e inteligente intervenção do diplomata Barão do Rio Branco e do embaixador Assis Brasil, em parte financiados pelos barões da borracha, que culminou na assinatura do Tratado de Petrópolis, assinado 17 de novembro de 1903 no governo do presidente Rodrigues Alves. Este tratado pôs fim à contenda com a Bolívia, garantindo o efetivo controle e a posse das terras e florestas do Acre por parte do Brasil.

O Brasil recebeu a posse definitiva da região em troca de terras de Mato Grosso, do pagamento de 2 milhões de libras esterlinas e do compromisso de construir uma ferrovia que superasse o trecho encachoeirado do rio Madeira e que possibilitasse o acesso das mercadorias bolivianas (sendo a borracha o principal), aos portos brasileiros do Atlântico (inicialmente Belém do Pará, na foz do rio Amazonas).

Devido a este episódio histórico, resolvido pacificamente, a capital do Acre recebeu o nome de Rio Branco e dois municípios deste Estado receberam nomes de outras duas importantes personagens: Assis Brasil e Plácido de Castro.

fonte com mais informações;
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciclo_da_borracha
 

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Discussion Starter · #2 ·
Não preciso dizer que esse foi o periodo mais importante da história da nossa região
Vou postando assim que sair as demais reportagens.

Enquanto isso comentem, contribuam com fotos que tenham haver com o periodo da borracha. De preferência comentem as fotos contando a história sobre elas, sobre os predios historicos, os costumes etc.

Vamos deixar aqui o registro para todos conhecerem mais sobre nossa história.
 

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Terra de ricas florestas
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Fabiano, tenho uma revista que possui uma ampla reportagem a respeito da Paris dos Trópicos ou Paris N'América. Assim que puder postarei tbm :D
 

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Norte do Brasil
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Eu pensava que o apelido Paris dos Trópicos era mais relacionado a Manaus, e Paris n'America a Belém.
Boa reportagem, demonstra que a falta de diversificação econômica e fatal...
 

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Discussion Starter · #5 ·
Eu pensava que o apelido Paris dos Trópicos era mais relacionado a Manaus, e Paris n'America a Belém.
Boa reportagem, demonstra que a falta de diversificação econômica e fatal...
É isso mesmo, a reportagem parece abordar amplamente as duas "Paris" cidade que serviu de modelo pra ambas tudo copiarem.
A proposito impressionante a questão dos diamantes em Manaus como maior consumo per capita do mundo, claramente mostrado na minissérie "Amazônia".
 

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Norte do Brasil
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Realmente e interessante... será que eles, além da ostentação, procuravam resguardar suas riquezas comprando pedras preciosas e metais nobres, como forma de manter o valor de mercado de seu patrimônio, tal qual se faz com o ouro hoje (que nem o Silvio Santos falava ao entregar seus prêmios?)

Uma coisa que me chama a atenção e que nao existe nenhuma menção hoje em dia das famílias dos barões da borracha, me parece que foram totalmente esquecidas... Nao existem descendentes, nada...

Falo isso pq aqui em Porto Velho, que nao participou ativamente desse período (foi uma cidade que nasceu como consequência do período, devido a EFMM), existem descendentes das famílias de caribenhos que aqui migraram para trabalhar na estrada de ferro. Por sinal, nos mais diversos setores da sociedade.
 

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Discussion Starter · #7 ·
Essa questão das familias dos barões já me veio à cabeça, sei que muitos desses barões se suicidaram ao se ver pobres da noite pro dia, é um fato veridico.
As familias foram se acabando, exemplo o barão Francisco Bolonha que diziam ser o homem mais rico do hemisfério sul. Parece que não deixou filho, sua esposa era carioca e com a morte dele ela foi embora pro RJ.

Deixou como marca o palacete que leva seu nome

foto Odilson Sa

Palacete da familia Pinho

foto Odilson Sa

Muitas dessas familias com o declinio da borracha foram embora mesmo.
 

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Belém - Pará
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Essa questão das familias dos barões já me veio à cabeça, sei que muitos desses barões se suicidaram ao se ver pobres da noite pro dia, é um fato veridico.
As familias foram se acabando, exemplo o barão Francisco Bolonha que diziam ser o homem mais rico do hemisfério sul. Parece que não deixou filho, sua esposa era carioca e com a morte dele ela foi embora pro RJ.

Deixou como marca o palacete que leva seu nome

foto Odilson Sa

Palacete da familia Pinho

foto Odilson Sa

Muitas dessas familias com o declinio da borracha foram embora mesmo.

Muito bom, Guajará.

Só uma coisa, o ex-reitor da UFPA, Alex Fiúza de Mello é neto do Francisco Bolonha.
 

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Norte do Brasil
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Ah, ficou alguém...
Até a família Real brasileira, que foi deposta, tem um monte de descendentes...
 

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Belém - Pará
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Vejam a foto, leiam o texto: este bigodudo foi quem roubou a borracha brasileira — e acabou com a fabulosa prosperidade da Amazônia no século XIX


\VILÃO E HERÓI -- O aventureiro ingles Wickham, o Cavaleiro britânico que levou a Amazônia à falência (Foto: Dedoc)

O PIRATA AMAZÔNICO

Um jornalista americano narra as aventuras e desventuras do inglês que traficou para seu país sementes de seringueira e pôs fim ao ciclo da borracha no Brasil.

Era início da estação seca de 1876. O chamado verão amazônico, quando o transatlântico SS Amazonas fundeou em uma enseada de águas turquesa no Rio Tapajós, em frente à Vila de Boim, no Pará.

O vapor da companhia inglesa Inman Line ancorou em uma área remota da selva. Sem porto, para receber uma carga secreta. Foram embarcadas em centenas de cestos de palha 70.000 sementes de Hevea brasiliensis, a seringueira.

A operação em um vilarejo escondido na floresta foi coordenada pelo inglês Henry Wickham (1846-1928) – um aventureiro que, depois de mais de uma década de desditas pela Amazônia, foi contratado pela Coroa para traficar as sementes do Brasil.



Essa história é contada em O Ladrão no Fim do Mundo (tradução de Saulo Adriano; Objetiva; 458 páginas; 49,90 reais), do jornalista americano Joe Jackson. O livro descreve como o sonho de Wickham de imitar os grandes exploradores foi usado para perpetrar a mais bem-sucedida e a mais danosa ação de biopirataria já registrada em solo brasileiro.

O roubo de Wickham viria a encerrar uma fase próspera da economia do Norte brasileiro, o chamado ciclo da borracha. No momento em que ele surripiou as sementes, o Brasil respondia por 95% da produção global de látex, matéria-prima da borracha, e as metrópoles amazônicas do fim do século XIX, Belém e Manaus, viviam sua belle époque.



Da riqueza à decadência

Em 1896, a capital do Amazonas se tornou a segunda cidade brasileira a possuir uma rede pública de iluminação elétrica. No mesmo ano, começaram a circular pelas ruas os primeiros bondes elétricos.

Em 1878, os belenenses inauguravam o Teatro da Paz. Dezoito anos depois, Manaus ganhava o Teatro Amazonas. As duas casas se transformaram nos símbolos do fausto em que viviam os amazônidas. Companhias europeias de ópera desconhecidas dos cariocas e paulistas se apresentavam nos palcos da floresta.

Mas as sementes roubadas por Wickham e levadas para o Jardim Botânico de Londres germinaram. Transportadas para as paragens tropicais abrangidas pelo império britânico – o Ceilão (atual Sri Lanka) e a Malásia -, as plantas vingaram, e 2.000 mudas deram origem ao primeiro seringal fora dos limites da inóspita Floresta Amazônica.

Silenciosamente, dava-se início ao fim da riqueza do vale amazônico.

Wickham recebeu 700 libras pelo trabalho (em valores atualizados, cerca de 158.000 reais).

Restariam ao Brasil mais trinta anos de domínio do mercado da borracha: foi esse o tempo necessário para que as árvores atingissem a maturidade no Extremo Oriente. Ultrapassado esse período de maturação. O látex produzido de forma intensiva nos seringais ingleses invadiu o mercado.

Mais barata que a borracha “selvagem” produzida à base da seiva extraída de árvores nativas espalhadas pela floresta, a produção intensiva dos ingleses arruinou a economia gomífera brasileira. A debacle da Amazônia foi rápida. Em 1928, a região atendia a apenas 2,3% do consumo mundial. Os investimentos e as empresas seringalistas se mudaram para a Ásia, e o desemprego tomou conta das cidades antes prósperas.

Responsável pela ascensão da indústria da borracha, Wickham chegou à velhice no esquecimento. Tentou encontrar a riqueza na Inglaterra e na Papua-Nova Guiné, mas se afundou em dívidas ao apostar em empreendimentos fracassados.

Viveu amargurado pela falta de reconhecimento por seu feito. Somente em 1911, aos 65 anos, ganhou da Associação Inglesa dos Plantadores de Borracha 1.000 libras como prêmio. Também naquele ano, viajou para o Ceilão, onde viu a plantação de seringueiras resultante de seu roubo.


Morreu pobre, e, então, a Amazônia já estava mergulhada na miséria

Na fotografia acima, Wickham aparece apoiado em uma das árvores que brotaram de “suas sementes”.

O gigante de quase 30 metros de altura produziu 168 quilos de borracha entre 1909 e 1913. 

O reconhecimento oficial só veio aos 74 anos, quando Wickham recebeu o título de Cavaleiro do Império Britânico.

No ano de sua morte, em 1928, ele era um homem pobre, e a Amazônia já se encontrava mergulhada na miséria.

Hoje. Um século depois de a Inglaterra quebrar o monopólio brasileiro da borracha, a região ainda se debate na tentativa de se reerguer. Wickham não poderia tê-lo calculado, mas seu ato condenaria ao atraso uma das mais exuberantes regiões do planeta.

(Resenha de Leonardo Coutinho publicada na edição impressa de VEJA)

http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/tag/ciclo-da-borracha/
 

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from Belém-Pa
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Discussion Starter · #13 ·
"a mais bem-sucedida e a mais danosa ação de biopirataria já registrada em solo brasileiro"'

ingleses sempre foram piratas, não é nenhuma novidade. patrocinadores dos corsários que saqueavam os Espanhois e demais nações.

houve falta de uma politica séria na borracha, e perdemos.

Esse periodo rico que acabou em 1920, teria durado pelo menos até a 2º guerra mundial quando houve o 2º ciclo da borracha para patrocinar a guerra.

Muito boa Matéria Felix, valeu!
 

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Manaus, Amazonas, Brasil
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Eu pensava que o apelido Paris dos Trópicos era mais relacionado a Manaus, e Paris n'America a Belém.
Boa reportagem, demonstra que a falta de diversificação econômica e fatal...
Eu também, Rondon. Na época em que eu era estudante do ensino médio, havia uma disciplina chamada História do Amazonas, em que aprendíamos que Manaus era conhecida pela alcunha de "Paris dos Trópicos", no período em que foram feitas importantes obras da cidade (período de 1890 a 1920): Teatro Amazonas, Palácio Rio Negro, Abertura da Avenida Eduardo Ribeiro, Ponte (de ferro) Benjamim Constant, Mercado Adolpho Lisboa (cópia do Les Halles, de Paris), Palácio da Justiça, Faculdade de Direito do Amazonas etc.
No entanto, pouco importa se o título era aplicável somente a Manaus ou também a Belém. O mais importante é o legado sensacional que o período áureo da borracha deixou tanto para Manaus e Belém. As duas metrópoles tiveram o privilégio de serem duas das mais desenvolvidas cidades brasileiras naquele período, rivalizando com as mais importantes cidades do sul-sudeste e nordeste...
Ah, não escondo minha preferência pelos teatros municipais de Manaus e Belém: Teatro Amazonas e Theatro da Paz, que são as mais preciosas joias arquitetônicas daquele período. :D
 

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Norte do Brasil
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Verdade, o período da borracha trouxe uma infra-estrutura muito grande para essas cidades na época.
Muito boa essa reportagem da Veja, li ela quando saiu na revista.
 

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In Obedientia Veritatis
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^^ Essa reportagem saiu na VEJA, só de ler dá uma raiva desse inglês que levou sementes de seringueiras daqui.
Imagina uma nova São Paulo do tamanho da Amazônia, cheia de estradas, infra estrutura e bem mais povoada. Perdemos tudo isso.

:evil: Ahh se existisse máquina do tempo.
 

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R.I.P. Niki
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Interessante a reportagem, só acho que deram uma bela exagerada ao dizer que Belém era a cidade mais desenvolvida do Brasil em 1912. Sem dúvida era uma das três ou quatro mais desenvolidas do país (atrás do Rio e SP, e brigando de igual pra igual com Salvador), mas nem de longe era mais desenvolvida que o Rio, por exemplo.

Pra se ter uma idéia, a população das maiores cidades do país em 1910 era esta:

1. Rio de Janeiro - 870.475
2. São Paulo - 346.410
3. Salvador - 318.931
4. Belém - 270.728
5. Recife - 193.429

É possível que Belém fosse até mais desenvolvida que Salvador, mesmo tendo uma população menor, pois a diferença não era tão grande. Mas acho pouco provável que fosse mais desenvolvida que São Paulo e muito menos o Rio.

Agora, o impacto do fim do ciclo da borracha em Belém pode ser medido inclusive através dos números populacionais da cidade.

1910: 270.728
1920: 236.402
1940: 206.331
1950: 254.949
1960: 402.170

Ou seja, a partir dos anos 10, Belém entrou num processo de declínio populacional do qual só se recuperou nos anos 50 (mais de quatro décadas depois).
 

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from Belém-Pa
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Discussion Starter · #19 ·
Não há exageros, a cidade tinha luz elétrica, bonde, saneamento chegava em boa parte da cidade, infraestrutura de predios publicos e lazer como grande Theatro só chegaram ao RJ e SP muitos anos depois. Se sabe muito bem que o que vinha da Europa chegava primeiros em Belém e Manaus naquela época.
 

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Norte do Brasil
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Uma coisa interessante... se fala muito que o que derrubou o Ciclo da Borracha na Amazônia foi a biopirataria inglesa, como mencionado na reportagem...
Mas o tiro de misericórdia foi a invenção alemã da borracha sintética...

Alemanha
Uma pequena história da borracha sintética

Em 1909, o alemão Fritz Hofmann sintetizou pela primeira vez um produto natural em laboratório. Hoje existente em 100 formas distintas, a borracha sintética se tornou indispensável a partir da Segunda Guerra Mundial.

Durante muito tempo, a história da borracha foi cem por cento natural: na América do Sul cresciam árvores que liberavam uma seiva leitosa, quando se cortava sua casca. Os nativos chamavam essas plantas ca-hu-chu – algo como "madeira que chora". Eles deixavam secar o látex viscoso e com ele produziam tubos, vasilhas, roupas impermeáveis e figuras de culto. Além de bolas flexíveis para vários tipos de jogos.

Os primeiros relatos europeus sobre a borracha (Kautschuk em alemão, caoutchouc em francês) e os estranhos jogos de bola dos ameríndios datam do início do século 16. Durante longo tempo se procurou um emprego útil para esse material sui generis. Entretanto, além de borrachas de apagar e capas de chuva, nada mais ocorria aos europeus. Sobretudo porque no calor a borracha natural começava a colar, e no frio, ficava quebradiça.

Isso mudou em 1839, quando o norte-americano Charles Goodyear inventou o processo da vulcanização. Sua borracha era termicamente mais resistente, mais elástica e mantinha a forma. Ainda assim, segundo Robert Schuster, diretor do Instituto de Tecnologia da Borracha em Hannover, a utilidade do material não ia muito além de botas impermeáveis, bolsas de água quente e capas de chuva "contra o tempo de Londres. Não tinha muita graça".

Riqueza amazônica

O próximo capítulo relevante nesta história vem com a invenção do automóvel, por volta de 1880. "Essa combinação, automóveis e rodas pneumáticas, tornou a borracha um material realmente estratégico", aponta Schuster.

Entre os principais beneficiados pelo aumento da demanda foram os chamados "barões da borracha" do Brasil, único lugar onde cresciam seringueiras, na época. Isso resultou em riqueza incomensurável para os detentores do monopólio, culminando com a majestosa casa de ópera de Manaus, em plena selva amazônica.

Essa dependência incomodava os países industrializados. Até que um inglês conseguiu contrabandear para fora do Brasil 70 mil sementes da seringueira. Assim, no princípio do século 20, as árvores da borracha passaram a ser cultivadas em grande estilo nas colônias inglesas no Sudeste Asiático, onde até hoje se concentram os maiores produtores de látex.

Borracha-metil e Buna

O monopólio brasileiro fora rompido. Contudo, permanecia a dependência de umas poucas fontes, além de grandes oscilações de preço e qualidade. Foi quando o fabricante de tintas alemão Friedrich Bayer, de Elberfeld, começou a se perguntar: será possível substituir o extrato da seringueira por uma alternativa artificial? E prometeu um prêmio em dinheiro ao químico de sua fábrica que encontrasse a solução.

Após anos de experimentos, Fritz Hofmann desenvolveu, em 1909, a borracha-metil. Segundo Robert Schuster, era a primeira vez que se imitava em laboratório um produto natural. E não é de espantar que isso ocorresse na Alemanha, acrescenta, uma vez que o país "se tornara campeão na química desde meados do século 19".

Porém, o processo desenvolvido pelo químico da futura fábrica Bayer era trabalhoso demais para fabricação em grande escala; somente a síntese exigia semanas. Apenas no fim da década de 20 o químico Walter Bock chegou a uma alternativa melhor: o polibutadieno, uma combinação de butadieno e sódio, abreviada como "Buna".

Pneus para Hitler

Os nazistas, ao assumirem o poder na Alemanha em 1933, perceberam imediatamente o potencial do novo material. Adolf Hitler mandara construir autoestradas e a fábrica Volkswagen, e, para fornecer os pneus necessários, a borracha sintética passou a ser produzida em massa a partir de 1936.

Sem dúvida, tratou-se também de uma consideração estratégica, pois a produção do látex natural estava na mão de nações inimigas como a Inglaterra e a França. E para a guerra, a Alemanha precisava de muitos pneus, para os veículos militares, motocicletas e caminhões.

Os nazistas chegaram a construir uma fábrica de borracha até mesmo dentro do campo de extermínio de Auschwitz, a qual, no entanto, nunca chegou a ficar pronta. Sempre em nome da guerra, uma decisão do Congresso liberou mais tarde a patente do Buna para os Estados Unidos.

Desenvolvimento continua

A firma Lanxness, na cidade renana de Dormagen, é atualmente uma das maiores produtoras de borracha sintética do mundo. Criada em 2004, a partir do departamento de química do conglomerado Bayer, ela deve metade de seu faturamento ao material inventado há 100 anos.

Os pneus modernos contêm até 20 tipos diferentes de borracha, inclusive a natural. Os fabricantes protegem suas receitas próprias como segredos de Estado. Eles enfrentam o mesmo desafio técnico de sempre: os pneumáticos devem ser duradouros, porém aderir bem ao solo, para garantir a segurança. Além disso, a resistência à rotação deve ser mínima, o que se reflete também no consumo de combustível.

Hoje existem, ao todo, cerca de 100 variedades diferentes de borracha sintética, com características e empregos específicos. E o desenvolvimento desse produto está longe de se concluir: a cada ano, a Lanxness registra de 20 a 30 patentes só no setor de borracha. Fritz Hofmann, que morreu em 1956, estaria feliz.

Autor: Andreas Becker (av)
Revisão: Simone Lopes
http://www.dw.de/dw/article/0,,5069207,00.html

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Multinacional alemã comemorando os 100 anos da invenção da borracha sintética em São Paulo:
http://lanxess.com.br/eventos-lanxess/concerto-dos-100-anos/
 
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