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the mitty
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Tornou-se famoso por reproduzir à escala pontes, barragens e portos, ensaiados, por vezes, até à destruição total. Mas também experimenta alcatifas, caixilhos e motos. Os bastidores de um laboratório português de projecção mundial.
Rui Cardoso
23:45 Segunda-feira, 22 de Jun de 2009

Ver a futura ponte Chelas-Barreiro abanar com o vento ou a água do Vouga a jorrar de uma barragem ainda não construída são algumas das coisas que se fazem diariamente no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).

São 22 hectares de laboratórios e hangares, começados a desenhar no final dos anos 40 por Pardal Monteiro, entre a Av. do Brasil e a Segunda Circular, na zona norte de Lisboa. Por aqui passaram alguns dos maiores engenheiros portugueses, do séc. XX, de Laginha Serafim a Edgar Cardoso, de Ferry Borges a Manuel Rocha.

O LNEC está para a engenharia, como a Polícia Judiciária para a investigação criminal: quando as coisas aquecem, não se pode passar sem ele. Daqui saíram as equipas de investigação dos acidentes na Linha do Tua, bem como o relatório que convenceu o Governo a trocar a Ota por Alcochete. Mas no dia-a-dia desta instituição singular, que completou 60 anos em 2006, também se trata de coisas mais triviais. Pelo menos na aparência.

Medir o ruído de motos de duas e quatro rodas para efeitos de homologação. Ensaiar rebocos e argamassas. Incendiar paredes ou arrastar móveis sobre alcatifas.

Abrir e fechar uma janela milhares de vezes seguidas. Isto enquanto na porta ao lado se testa a ruptura de chapas de fibra de carbono mais resistentes que o aço ou se procura dar qualidades específicas a cimentos, trabalhando-os à escala microscópica.

E para que tudo isto bata certo e tenha certificação internacional, há um departamento de metrologia que faz com os diferentes aparelhos de medida o que os alcaides medievais faziam na porta do castelo com as unidades de comprimento: verifica a conformidade dos padrões.

Há departamentos, como o de Edifícios e Componentes, onde se testam, da forma mais inesperada, os materiais que melhor isolem do frio, calor e humidade. Grandão Lopes, aponta, no exterior, para o que parece ser uma série de casinhas de brincar, e que, na verdade, são ensaios de longa duração de rebocos, isolantes, etc. Tão longa que há lá ensaios de 1979...

Já no interior do pavilhão, uma plataforma com rodas, puxada por um guincho eléctrico, simula o efeito do arrastar de móveis sobre alcatifas. O seu colega João Viegas mostra uma porta envidraçada fantasma que se abre e fecha vezes sem conta para experimentar a resistência de caixilharias de alumínio e das respectivas fechaduras. Ou o dilúvio artificial que se abate sobre uma estrutura semelhante, simulando anos à chuva.

Estes incontáveis testes, tanto são feitos numa lógica de prestação de serviços como suportam programas de investigação aplicada. Uma relação entre prática e teoria que nos faz descobrir, por exemplo, que o brilho das tintas com que é pintada a sinalização no pavimento das estradas é dado por uma legião de pequenas esferas, visíveis mesmo sem microscópio.

Hoje, o LNEC faz um pouco de tudo. Mas nos anos 50, começou por afirmar-se com as barragens hidroeléctricas. Laginha Serafim e Manuel Rocha vão aos Estados Unidos aprender os ossos do ofício e depressa os projectistas portugueses substituem os franceses no Castelo de Bode (Zêzere) ou Venda Nova (Rabagão).

O ambiente de brinquedos para adultos

O Departamento de Barragens em Betão conserva esta memória. Pelo chão fora há modelos das mais diversas obras, incluindo Alqueva, a escalas como 1/300. Para cada projecto chegava a fazer-se meia-dúzia destas barragens-bebé de metro e meio de largura, onde o gesso substituía o betão.

Para simular a força da água, recorria-se ao mercúrio, 13 vezes mais denso. Os contentores deste metal líquido e tóxico e as calhas de onde eram suspensos lá continuam. O ambiente geral sugere alguma letargia, paralela à do sector, de resto só quebrada recentemente pelo programa de construção de dez novas barragens.

Poder-se-ia pensar que, com os progressos da computação, estas maquetas cairiam em desuso. Carlos Pina, responsável deste sector e vice-presidente do LNEC explica por que razão não é assim. "Os processos de rotura de uma barragem não são lineares. Para estudar, por exemplo, o risco de uma falha sísmica em Alqueva trabalhámos à escala e partimos do modelo físico para o matemático."

Uma representação da barragem, fendilhada em diversos pontos, mostra que o colapso só se daria em caso de deslizamentos à superfície da ordem dos três metros. Até 30 cm a obra aguentaria sem problemas.

Mas uma barragem não é só a estrutura de betão que represa a albufeira. No Departamento de Hidráulica estudam-se os surpreendentes movimentos da água, quando se escoa pelas comportas ou galerias. O ambiente é o de brinquedos para adultos: reproduções de rios e respectivas margens do tamanho de meio campo de ténis, onde só falta passarem comboios eléctricos da Marklin...

A escala é da ordem de 1/50. Começam por se desenhar as curvas de nível no chão, depois levantadas para a respectiva cota e materializadas através de varões de ferro, dobrados, com o traçado correspondente. O enchimento faz-se com areia, depois coberta com cimento. São, pelo menos, dois meses de trabalho.

Uma vez concluídos os estudos, destroem-se os modelos. À entrada, Sónia Fonseca, que nos acompanha nesta visita, aponta para montes de entulho e explica: "Não é desleixo. São de modelos antigos e hão-de voltar a servir."

Dentro do pavilhão cheira a rio, o que não admira, pois há levadas a correr por tudo quando é sítio. "É claro que toda esta água é reciclada e até recuperamos a da chuva, senão não havia dinheiro que pagasse à EPAL", explica João Rocha, responsável deste sector.

A pedido do Expresso, a água vai jorrar de barragens ainda não construídas, como Ribeiradio (Vouga). Quando o descarregador de cheia é aberto, forma-se um espectacular arco parabólico, o chamado "salto de esqui", para evitar a erosão excessiva do leito do rio. Para obter este resultado foi preciso experimentar vezes sem conta.

O modelo do novo descarregador de cheia da barragem de Paradela (Gerês) foi modificado 18 vezes até se obter o jorro pretendido. Guilhermino Lisboa, que trabalha, há décadas, neste departamento, aponta para um traço branco na margem direita do Cávado virtual: "Aquela linha era a do projecto original. Como vê, não vai ser preciso escavar tanto. Só o que se vai poupar dá para pagar o modelo..."

Gulliver no reino de Liliput

Atravessando uma rua de terra batida entra-se num hangar ainda maior, dedicado à hidráulica marítima. Deixamos de nos sentir no Museu do Brinquedo para passarmos a ser Gulliver no reino de Liliput. Os modelos cabem, praticamente, num campo de andebol e percorremo-los sobre passadiços, vendo, em baixo e à volta, quebra-mares e cais da altura de um passeio, batidos por ondas 'oceânicas' geradas artificialmente e que mal nos molhariam as canelas.

Falta a jóia da coroa, o modelo da praia brasileira de Ipanema, cujos problemas de erosão o LNEC conseguiu resolver, nos anos 60, sem recurso à construção de esporões. "Não havia espaço para a conservar, mas, aqui, nesta fotografia, vê-se bem a obra", aponta, com orgulho, o chefe deste serviço, Marques Rita.

No topo norte do edifício, o seu colega Gabriel Silva debate-se com o embasamento do quebra-mar do futuro porto de Palmeira, na ilha cabo-verdiana do Sal, a construir por um consórcio português. À quarta tentativa, a solução parece promissora. "As pedreiras locais não fornecem blocos suficientemente grandes. Teremos que ir para cubos de betão de 6,5 toneladas como estes, representados à escala. Isto para este mar. Se fosse para Sines teriam de ser dez vezes maiores"...

Pelos vistos, neste laboratório, além da água, lida-se com os outros três elementos primordiais. Há quem só se preocupe com a terra, sobretudo quando treme.

É o caso de Ema Coelho, responsável pela Engenharia Sísmica. De uma espécie de varanda interior do último andar do laboratório mostra-nos as várias plataformas que simulam tremores de terra. Mini-edifícios, construídos à escala, reproduzem estruturas de betão ou de alvenaria, à espera de uma valente sacudidela.

Raramente o ensaio é levado até ao colapso, como sublinha a referida investigadora. "Evitamos quase sempre fazê-lo, quer por causa da poeirada quer por causa do risco de danos nas plataformas." Há muita informação interessante a recolher mas "é mais nos instantes que antecedem a destruição total".

Os seus antecessores, como Ferry Borges, fizeram interpretações pioneiras de sismos como o de Agadir (Marrocos), donde resultou, nos anos 60, um regulamento de construções dos mais avançados do mundo. Isso não quer dizer que "as construções portuguesas, estejam num estado magnífico". Desse ponto de vista, a visita à região italiana de L'Aquila, devastada a 16 de Abril deste ano, trouxe ensinamentos importantes.

"Houve edifícios de betão, muito semelhantes a algumas tipologias dos anos 70 que por cá abundam, onde a estrutura resistiu mas as paredes não estruturais colapsaram. Para além dos riscos de acidentes pessoais, há uma perda económica associada enorme." Outra observação local, esta exposta pela sua colega Luísa Sottomayor, é a de que, nos edifícios antigos de alvenaria, às vezes, pequenas obras de reforço aumentam imenso a resistência aos sismos. Este departamento elaborou um simulador de riscos sísmicos que permitiu, como o Expresso oportunamente referiu, transpor o abalo verificado em Itália para a região de Lisboa, de forma a antever cenários e preparar soluções.

Ema Coelho acha que se está a pedir aos engenheiros civis sol na eira e chuva no nabal. Edifícios resistentes a sismos mas energeticamente eficientes. Em Portugal e noutros países, ao adaptar prédios existentes à componente energética, está-se a optar "por soluções questionáveis do ponto de vista da engenharia sísmica, como é o caso de paredes isolantes exteriores que, em caso de abalo, tendem a destacar-se inteiras da fachada, com as consequências que se imaginam para peões e automóveis".

Até dentro do LNEC estes diferentes olhares se cruzam, explorando vertentes que podem ser contraditórias. Um bom isolante térmico pode ter problemas com o fogo. Júlio Sampaio expõe, diariamente, diferentes materiais à acção das chamas, tendo em vista situações de incêndio em edifícios. É ele que nos alerta que, por exemplo, o poliestireno expandido (que conhecemos das embalagens de "esferovite"), muito usado, entre nós, como isolante por ser fácil de aplicar, pode libertar fumos tóxicos. "Nalguns países europeus, como na Alemanha, já se restringe a sua utilização, optando-se pela lã de vidro e outros materiais."

No laboratório da aerodinâmica

Água, terra e fogo! Só falta o ar, ou seja, o laboratório de aerodinâmica. O túnel de vento, embora menor que os dos fabricantes de automóveis, já acolheu modelos reduzidos das mais mediáticas obras públicas, de estádios (Dragão e Leiria) a pontes (25 de Abril, Vasco da Gama). Foi assim que pudemos presenciar um troço da futura ponte Chelas-Barreiro a ser soprado por ventos de 190 km/h.

O resultado pareceu encorajador, tanto mais que, como disse Marques da Silva, responsável do sector, estas pontes tirantadas, muito sensíveis ao vento, são ensaiadas para suportar rajadas de mais de 250 km/h, durante dez minutos. "É claro que muito antes disso já a circulação teria sido cortada..."

Enquanto nos aponta, na maqueta da Ponte Vasco da Gama, o rebordo deflector de vento que dá estabilidade aerodinâmica à obra (algo que só se consegue ver na ponte real, observando a partir de baixo), Marques da Silva surpreende-nos com a maqueta seguinte: uma caravela portuguesa do séc. XVI. Eram ágeis a manobrar e rápidas, mas "não há representações pormenorizadas porque a sua construção era segredo de Estado". Ora, as réplicas que se têm construído "têm sido decepcionantes do ponto de vista da velocidade e da manobra". Há historiadores navais com outra versão do barco "e é o seu desempenho aerodinâmico que vamos aqui avaliar".

O desempenho do LNEC, tanto na vertente da investigação aplicada como da prestação de serviços, esse, resiste, há mais de 60 anos, a ventos e marés.
Texto publicado na Revista Única da edição do Expresso de 20 de Junho de 2009.
 

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Uma dúzia de anos disto..
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Excelente artigo!!:applause:
 
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