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Niemeyer e a Modernidade sem crise

3401 Views 15 Replies 12 Participants Last post by  RPFigueiredo
NIEMEYER E A MODERNIDADE SEM CRISE
NOVO PROJETO DO ARQUITETO EM MINAS GERAIS MOSTRA “JUVENTUDE DO BRASIL”,
AFIRMA ANA LUIZA NOBRE DO JORNAL O GLOBO

Nenhum arquiteto viveu tanto. Mas quem diria que um arquiteto moderno, aos 102 anos, ainda fosse provocar polêmica com dois projetos inaugurados quase simultaneamente: o Auditório de Ravello, na Itália, e a Cidade Administrativa Tancredo Neves, em Belo Horizonte?

O primeiro enfrentou oito ações judiciais ao inserir um descomunal olho de concreto numa cidade de pouco mais de 2 mil habitantes, onde "a última grande construção datava do século XI", como frisou o sociólogo Domenico Di Masi, maior entusiasta da obra. O segundo tem sido interpelado em função do custo, de suas motivações políticas e até da sua eficiência energética. Mas pouco Tem sido dito a respeito da sua arquitetura.

A Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves localiza-se à beira da Linha Verde, na região Norte de Belo Horizonte. A construção do complexo de 265 mil metros quadrados visou unificar a Administração Estadual e ao mesmo tempo induzir a expansão da cidade em direção ao Norte. Mas o empreendimento tem também fortes motivações políticas.

É uma obra indissociável da política carismática de Aécio Neves e de sua ambição política. Não deve surpreender a ninguém, então, que o neto de Tancredo Neves tenha buscado Oscar Niemeyer, o arquiteto que definiu simultaneamente a imagem de modernidade de Belo Horizonte e de Juscelino Kubitschek com a Pampulha e outras obras que marcam a paisagem urbana da capital mineira. E ainda tenha feito questão de inaugurar a obra no dia em que se completaram cem anos do nascimento do ex-presidenteTancredo.

O CONJUNTO É UM RESUMO DA OBRA DO ARQUITETO

O conjunto é composto de cinco edificações autônomas e pouco articuladas, do ponto de vista urbanístico, entre si e com o entorno. O que tampouco chega a ser motivo de surpresa, em se tratando de Niemeyer: mais uma vez, aposta- se na criação de um foco de atenção, antes que numa conexão mais estreita com o contexto. No caso, o edifício de maior apelo imagético abriga o gabinete do Governador e os demais se destinam às secretarias, auditório e centro de convivência. O Palácio do Governo filia-se a projetos anteriores de Niemeyer, em particular às sedes italianas da Mondadori e do grupo Fata, que por sua vez seguem, com alterações e ajustes, a solução da caixa de vidro envolvida por uma seqüência de arcos, iniciada em Brasília. Já as secretarias se acomodam em dois edifícios em curva, com 15 pavimentos cada. De certo modo encontra-se aí, portanto, uma espécie de resumo da obra do arquiteto. Dois de seus traços fundamentais, pelo menos, estão presentes: a forma livre e o vir tuosismo estrutural.

A liberdade concedida à forma se manifesta nas curvas dos dois edifícios administrativos que se rebatem um sobre o outro. Já a exploração extremada da técnica moderna se mostra no Palácio do Governo, que, com seus 146 metros de vão livre (o dobro do vão do Museu de Arte de São Paulo), é alardeado como o maior vão suspenso do mundo. Contando, como sempre, com a solidariedade de um grande engenheiro (José Carlos Sussekind), Niemeyer realizou aí uma estrutura que só pode ser medida pela sua ousadia: 30 cabos de aço mantém em suspenso uma caixa de vidro de quatro pavimentos. A solução não é uma novidade em si - embora distinta, a estrutura do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, por exemplo, também foi resolvida, na década de 1950, com uma sofisticada solução atirantada que liberou o solo e os espaços expositivos. Mas nem por isso a última realização de Niemeyer deixa de impressionar por seu vigor. Há, afinal, uma carga de juventude nesse projeto que contribui para a sua visibilidade, embora também denuncie um dos problemas cruciais para a produção projetual contemporânea no Brasil: de um modo geral, a arquitetura brasileira não viveu a crise do moderno. Na década de 1950, enquanto o pensamento arquitetônico e urbanístico mundial confrontava-se com a crise da modernidade, o Brasil construía Brasília. E no momento seguinte, quando a arquitetura começou a ser interrogada à luz da crítica pós-modernista, o Brasil vivia uma ditadura militar que bloqueava qualquer pensamento crítico. Esse quadro começaria a mudar com a abertura política, mas então o pós-modernismo acabaria se tornando uma espécie de chave mestra para a saída de um grande impasse: de um lado, a reverência à obra de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, de outro, a contestação própria de uma geração de arquitetos formados no período mais negro da ditadura militar (num processo protagonizado justamente por alguns arquitetos mineiros).

CRITICAR NIEMEYER AINDA É UMA TAREFA DIFÍCIL

Pode-se então culpar Niemeyer por certo imobilismo da arquitetura no Brasil? Não.
Se a arquitetura brasileira permaneceu alheia à crise do moderno, foi porque ficou entre uma prática capitalista predatória e uma reflexão teórica pobre na qual se expressou desta vez pela via da esquerda, uma tônica populista e autoritária continuamente reeditada no Brasil.
Será um erro contratar Niemeyer hoje? Também não.

Nenhum arquiteto brasileiro tem visibilidade sequer comparável à sua (basta lembrar a inauguração recente do hospital Sarah Kubitschek, no Rio, anunciada pela imprensa local sem qualquer menção à arquitetura e/ou ao responsável pelo projeto, arquiteto João Filgueiras Lima, dito Lelé). E compreende-se facilmente porque os maiores arquitetos do mundo todo, quando vêm ao Rio, não só querem conhecer Niemeyer pessoalmente como mostram uma excitação quase infantil ao deixar seu escritório com um autógrafo, uma foto e se possível um croqui (cena que se repetiu, só nos últimos anos, com Zaha Hadid, Frank Gehry, Steven Holl, Christian de Portzamparc e Frei Otto). No fundo, então, o que impressiona mesmo é a escassez de cultura arquitetônica no Brasil hoje. E isso, não obstante as qualidades intrínsecas a certa produção contemporânea, dentro da qual podem ser incluídos tanto Lelé quanto Angelo Bucci. Pelo jeito, não bastou a exemplaridade da produção das décadas de 1940 e 1950, que se irradiou a partir do Rio de Janeiro, mas não tardou a brotar em Minas Gerais (além de Belo Horizonte, também em Cataguases, Diamantina, Ouro Preto). Tampouco foi suficiente a admirável longevidade dos grandes mestres da arquitetura moderna no Brasil (Lucio Costa, por exemplo, morreu perfeitamente lúcido aos 96 anos). Na verdade, diferentemente da França, por exemplo, onde a arquitetura foi forçada a reorientar-se após a morte de Le Corbusier, no Brasil a presença atuante dos grandes mestres modernos em pleno final do século XX acabou se tornando, para muitos, uma ameaça a qualquer tentativa de emancipação. E ao contrário do que pode sugerir a quantidade de publicações e eventos suscitados pela comemoração recente do centenário de Niemeyer, ainda há uma grande dificuldade de abordar criticamente a sua obra.

GRAMÁTICA NIEMEYERIANA COMO MARCA COMERCIALIZÁVEL

Chegamos a um ponto, no entanto, em que é difícil não se perguntar se alguns projetos que têm sido divulgados como sendo de Niemeyer são de fato seus. O próprio complexo mineiro já foi acusado de ter saído das suas gavetas. Não que, por princípio, isso seja condenável em arquitetura (considere-se, por exemplo, as semelhanças entre o Edifício Bacardi e a Galeria Nacional de Berlim, de Mies van der Rohe). Mas é difícil acreditar que, aos 102 anos, Niemeyer ainda esteja em condições de confiar a gênese da forma ao gestual pelo qual sua arquitetura se definiu em seus melhores momentos. Não raro, os traços que temos visto mostram características substancialmente distintas de seu procedimento projetual. E ainda que as maquetes possam ajudar, é difícil acreditar que a esta altura ele esteja disposto a rever sua concepção de arquitetura como criação individual, definida por meio de um risco fluente e decidido. O que em todo caso faz pensar na simplicidade da gramática niemeyerian a e sua exploração - já no limite da saturação - como uma marca facilmente identificável e comercializável.

Todo cuidado é pouco, portanto, para tratar da Cidade Administrativa de Belo Horizonte. O projeto é a prova mais cabal de que Niemeyer não é só o último grande Mestre da arquitetura. Nem só o grande imortal da arquitetura brasileira. Niemeyer é a juventude espantosa, e às vezes assustadora, do Brasil.

ANA LUIZA NOBRE é professora de Arquitetura e Urbanismo da PUC - Rio,
Co-organizadora de "Um modo de ser moderno. Lucio Costa e a Crítica Contemporânea.

http://jogodopoder.wordpress.com/20...de-adminsitrativa-construida-por-aecio-neves/
http://www1.oglobodigital.com.br/flip/ somente para assinantes
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1 - 16 of 16 Posts
Texto fantástico. Quem acompanha meus posts acerca da obra de Niemeyer vai constatar este sentimento de amor e ódio que muitos arquitetos e estudantes têm dele.

Esta teórica escreveu, em belas e sucintas palavras, tudo o que eu defendo e repito há muito tempo no SSC. (até me deu orgulho, confesso, ver minhas frases reescritas sob uma clareza textual que muitas vezes não consigo atingir)




No mais, interpretando o texto dela e reafirmando minha teoria, a salvação para este impasse arquitetônico é, talvez, a morte já tardia do velhinho Niemeyer?
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Texto fantástico. Quem acompanha meus posts acerca da obra de Niemeyer vai constatar este sentimento de amor e ódio que muitos arquitetos e estudantes têm dele.

Esta teórica escreveu, em belas e sucintas palavras, tudo o que eu defendo e repito há muito tempo no SSC. (até me deu orgulho, confesso, ver minhas frases reescritas sob uma clareza textual que muitas vezes não consigo atingir)




No mais, interpretando o texto dela e reafirmando minha teoria, a salvação para este impasse arquitetônico é, talvez, a morte já tardia do velhinho Niemeyer?
Também tenho essa relação estranha com as obras dele, no meu caso acho que ta mais pra amor e reprovação, uma dicotomia que nao consigo entender, mas que não é ódio. :|

Acho que a morte dele nao seria a solução desse "impasse arquitetônico". Acho que daria inicio a um outro impasse, tao grande, tao complexo quanto esse... :cripes:
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^^ O que fazer com Niemeyer? Podar os dedos? Ele continuaria rabiscando com os cotocos de mão e seria lembrado eternamente como neo-aleijadinho.

Parece besteira o que eu disse - e de fato é, mas muitos acusam que um gênio, quando passa de seu auge e tende-se ao banal, perde sua importância. Vide Elvis, Michel Jackson, etc. Mas nem isto acontece com Niemeyer, ele continua up em respeito, mesmo que esteja down em atividade projetual.
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O "problema" não é so Niemeyer.TODA a produção arquitectonica brasileira está atrelada ao pensamento da Modernidade,e todos fazem referência ao passado glorioso de outrora.
Os arquitectos se esquecerem da cidade que existe hoje no Brasil,a cidade do século XXI e vivem sempre com as mesmas utopias e as mesmas amarras projectuais.
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^^ Apesar de eu gostar de muitos exemplares da arquitetura brasileira contemporânea, estou de TOTAL acordo. É exatamente isso. Aqui estamos, mais do que qualquer lugar do mundo, estacionados no modernismo corbusiano.
Danzin, favor postar a fonte do texto. Obrigado.
Belíssimo texto, conciso e bem articulado, de uma das personagens mais complecas da arquitetura mundial.

No entanto, o Auditório de Raviello não é um dos melhores exemplos dos devaneios niemeyerenses, é bastante bonito e até original.

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^^ Especialmente quando o projeto serve à administradores públicos ou privados que prezem pela qualidade da execução da obra e após, pela manutenção.


Mas, ainda assim, não persistiria as críticas de que os projetos de ON geralmente ou sempre:

- ignoram completamente o clima geográfico;
- ignoram o conforto de quem o utiliza (priorizando impacto visual nessa relação);
- deixam de lado inclusive a finalidade do prédio. (Como a Biblioteca de Brasília, cuja estrutura não ajuda na conversação dos livros);
- passam longe de sustentabilidade e consciência ambiental (até onde isso é marca do modernismo?).
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^^ Lembrando que estas observações nunca caracterizam o modernismo. Muitos dos modernos eram absolutamente contrários às práticas citadas, embora sejam pertinentes a muitas obras de Oscar Niemeyer.
Belíssimo texto, conciso e bem articulado, de uma das personagens mais complecas da arquitetura mundial.

No entanto, o Auditório de Raviello não é um dos melhores exemplos dos devaneios niemeyerenses, é bastante bonito e até original.

Bonito ficou o contraste que deu do antigo com o moderno!:cheers:
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Niemeyer ja foi bom, um dia, a muito tempo atras...

Não que sua arquitetura tenha mudado, mas como todos sabem ele parou no tempo, num sonho de modernidade, onde os pensamentos e necessidades eram outros...

O dinheiro que foi gasto na Cidade Administrativa é absurdo, se ainda fosse alguma novidade, algum avanço importante (maior vão do mundo??? e dai, precisava disso??),

Enfim, preferia que tivessem construido uma ameba que iria ser igualmente desconfortavel, igualmente cara, igualmente despreocupada com as necessidades do local, mas pelo menos seria diferente...

Essas obras não desmerecem a contribuição dele para arquitetura, não somente pelas sua sobras e sim pela grande influencia dos projetos dele nos "grandes" arquitetos de hje em dia.

Mas o velhinho deveria parar, antes que faça algo que estrague a imagem dele..
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O "problema" não é so Niemeyer.TODA a produção arquitectonica brasileira está atrelada ao pensamento da Modernidade,e todos fazem referência ao passado glorioso de outrora.
Os arquitectos se esquecerem da cidade que existe hoje no Brasil,a cidade do século XXI e vivem sempre com as mesmas utopias e as mesmas amarras projectuais.
Acho que ligar nossa arquitetura atual, ao Niemeyer é uma bobagem muito grande, nada de relevante tem haver com sua arquitetura.
A arquitetura atual esta atrelada completamente a escola paulista brutalista, Os linetes e os Pauletes que ganham concursos a rodo pelo Brasil
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Niemeyer ja foi bom, um dia, a muito tempo atras...

Não que sua arquitetura tenha mudado, mas como todos sabem ele parou no tempo, num sonho de modernidade, onde os pensamentos e necessidades eram outros...

O dinheiro que foi gasto na Cidade Administrativa é absurdo, se ainda fosse alguma novidade, algum avanço importante (maior vão do mundo??? e dai, precisava disso??),

Enfim, preferia que tivessem construido uma ameba que iria ser igualmente desconfortavel, igualmente cara, igualmente despreocupada com as necessidades do local, mas pelo menos seria diferente...

Essas obras não desmerecem a contribuição dele para arquitetura, não somente pelas sua sobras e sim pela grande influencia dos projetos dele nos "grandes" arquitetos de hje em dia.

Mas o velhinho deveria parar, antes que faça algo que estrague a imagem dele..
Acontece que Niemeyer decidiu em mudar sua arquitetura há muito tempo..Aconteceu quando ele fez uma autocrítica, e projetou o Museu de Caracas, em 1955 (notem: pré-Brasília).
Nessa revisão pessoal de seu trabalho, ele deu uma simplificada geral na sua gramática, e é onde nós podemos notar a mudança de 'leveza' (Itamaraty) para 'simplicidade' (Museu Nacional - esse, tão simplificado que compromete programa e os cidadões de Brasília).

Por sorte, ele ainda conseguiu criar alguns de seus mais brilhantes trabalhos após isso, tais como os próprios palácios de Brasília. Acontece que, para criar um palácio, a simplificação dos elementos formais é realmente necessário! Quem conhece seu primeiro projeto para o palácio da alvorada deve concordar que, após a eliminação de balcões, marquises, rampas etc, o projeto ficou muito mais 'dignamente monumental'.
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Ta aí o primeiro projeto, até rejeitado po JK, que queria um ''palácio que fosse belo daqui a 100 anos!''
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