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the mitty
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Alfredo Cunhal podia viver dos rendimentos, mas preferiu ser latifundiário. Gosta de mexer na terra, trata a natureza com respeito e não trabalha para o lucro.
Cândida Santos Silva (texto) e Tiago Miranda (fotos)
21:20 Sexta-feira, 3 de Jul de 2009

É um dos maiores latifundiários do país, herdeiro de uma fortuna aplicada no BCP. Podia viver dos rendimentos, conduzir um carro topo de gama ou viver numa mansão na Quinta da Marinha. Alfredo Cunhal não é um homem assim. Os milhões não lhe trazem felicidade. Para ele, o dinheiro é apenas um instrumento. Não é um objectivo.

À primeira vista, confunde-se com um trabalhador rural. Com 43 anos, estatura mediana e tez queimada pelo sol, este lisboeta rendido aos encantos do meio rural conduz um modesto automóvel e vive num monte sem luxos. As suas mãos calejadas revelam quanto gosta de pôr os dedos na terra, sem preconceitos nem tabus. Tanto pode pegar num tractor como transportar gado, semear ou feijão ou esquartejar um vitelo.

É no meio do Alentejo que encontra a sua essência. É aqui, em comunhão com a natureza, que descobre e dá o melhor de si. Diz que herdou do avô - um dos maiores proprietários de Montemor-o-Novo - e da mãe uma forte consciência social. Era primo de Álvaro Cunhal, mas nunca partilhou com ele o ideal da terra a quem a trabalha. Acredita que a propriedade é uma parte essencial para a dignificação do homem - desde que entendida para o bem comum. "A minha actividade deve distribuir riqueza, e não ser um meio para acumular bens."


Alfredo Cunhal junto de uma das casas de banho ecológicas espalhadas pela quinta

É no meio do Alentejo que encontra a sua essência. É aqui, em comunhão com a natureza, que descobre e dá o melhor de si. Diz que herdou do avô - um dos maiores proprietários de Montemor-o-Novo - e da mãe uma forte consciência social. Era primo de Álvaro Cunhal, mas nunca partilhou com ele o ideal da terra a quem a trabalha. Acredita que a propriedade é uma parte essencial para a dignificação do homem - desde que entendida para o bem comum. "A minha actividade deve distribuir riqueza, e não ser um meio para acumular bens."



Como gestor não persegue o lucro. Acha que a sua exploração agrícola deve ser sustentável e socialmente justa para si e para os seus colaboradores. Quer fazer do Freixo do Meio a primeira quinta auto-suficiente em termos energéticos de Portugal.

O gosto pela terra nasce-lhe cedo. Era ainda criança quando foi apanhado por uma febre reumática. Por conselho médico, é levado para o campo, onde vive durante um ano numa das herdades do avô, em Montemor. É durante esse tempo que nasce uma paixão pela terra que nunca mais haveria de esmorecer.

Nessa época observa a forma como o avô respeita e ajuda os trabalhadores. Dele e da mãe herda outro grande exemplo: "Embora tenham visto as suas propriedades serem nacionalizadas e terem ficado sem qualquer património, reagiram de forma extraordinária, pacífica, com uma atitude de desprendimento, aceitação e perdão." O avô era um homem muito especial. "Depois de ter trabalhado uma vida inteira com o propósito de desenvolver a região, integrar e ajudar as pessoas, levou com um balde de água fria no fim da vida." Morreu em Lisboa, quando as propriedades voltavam gradualmente para si.



"Tudo isto me marcou muito. Mas nunca tive qualquer ressentimento. Nunca fomos tentados pelo ódio ou pelo rancor." Apanhado pelo vendaval do pós-25 de Abril, Alfredo vai com os pais e irmãos para Pamplona, Espanha, onde permanecerá dois anos. De regresso a Lisboa tem de trabalhar para continuar a estudar. As férias no Algarve ligam-no ainda mais à natureza. Ajuda pescadores na faina, lança e conserta redes. Terminado o liceu, entra em Zootecnia na Universidade de Évora. É aí, numa cidade outrora dominada pelos senhores da terra, onde agora sopram ventos de mudança trazidos pela Revolução, que Alfredo desperta para a vida cívica. Sem nunca se ligar à política, está próximo dos colegas 'reaccionários' e faz parte do grupo para quem os ideais da Revolução de Abril eram possíveis.

Aos 23 anos, terminado o curso, é empurrado para uma tarefa na qual não se sentia à vontade. "A família começava a recuperar as propriedades e era preciso trabalhá-las." Alfredo via-se obrigado a vestir a "pele do lobo" e a ser um senhor da terra. De jovem estudante crítico do capitalismo a grande proprietário agrícola, tudo acontecia demasiado depressa. Assumia o papel de latifundiário de forma envergonhada. Numa primeira fase, não vivia bem com isso. Depois nasceu-lhe outra inquietude. "O que tinha de fazer, tinha de fazer bem."



Apoiado pela vontade de realização da mãe, Alfredo instala-se na Herdade do Freixo do Meio, junto à povoação de Foros de Vale Figueira, às portas de Montemor-o-Novo. Conviveu com a cooperativa agrícola que até então explorava as suas terras, deu trabalho a antigos ocupantes e repartiu com a povoação vizinha a área de caça existente na herdade. Mais tarde, haveria de criar uma escola para os seus dois descendentes e para os filhos dos trabalhadores. Surgiriam depois as actividades de ocupação de tempos livres para os mais novos e a cantina para pequenos e graúdos. Ainda hoje fornece uma vez por semana as refeições biológicas para a escola da povoação vizinha e para a de Montemor, ao mesmo preço que o Estado.

Naquela altura Alfredo deparou-se também com uma terra exaurida por anos de monocultura intensiva. Decidiu voltar ao tradicional montado, "um sistema criado pelo homem, retirando da natureza apenas o suficiente, sem a destruir". Acredita que o exercício de gestão de qualquer propriedade deve ter fortemente presente a noção de bem comum. Foi assim que chegou à agricultura biológica. Tudo começou com o aproveitamento de um subsídio comunitário para introdução de olival biológico.

Quando se ultrapassa o modesto casario, paredes-meias com a sua própria habitação, encontra-se um centro de transformação de carne de produção biológica, repartido por várias salas climatizadas e algumas frigoríficas impecavelmente limpas. Lá dentro, 15 pessoas transformam carne fresca de vitela, porco preto, borrego, cabrito ou peru em espetadas, hambúrgueres, carne picada, almôndegas, salsichas frescas, croquetes, rissóis, empadas, enchidos tradicionais alentejanos, fiambre, bacon e presunto. É este o centro nevrálgico de uma das maiores explorações agrícolas biológicas da Europa.


É um dos maiores latifundiários, mas Alfredo, primo do antigo líder do PCP, só está bem quando põe as mãos na terra

Escoa os seus produtos na sua maioria em Portugal, vendendo sobretudo para lojas especializadas em agricultura biológica, mas também para alguns hipermercados. "Infelizmente ainda vendemos para uma elite", refere, sem orgulho. "Não gosto de vender comida para um grupo privilegiado de pessoas. A comida biológica devia ser mais barata e acessível a toda a gente", defende. "Num mundo em que um sexto das pessoas vivem com fome, pensar em comida como um produto de luxo é um absurdo."

Alfredo Cunhal combate os custos de exploração através de ganhos de eficiência. Já utiliza, por exemplo, óleo de cozinha usado para mover máquinas agrícolas e carros de trabalho. Recolhe o óleo em alguns restaurantes da região e abriu as portas da Herdade do Freixo do Meio para visitas de escolas, dizendo aos alunos que podiam pagar com 200 litros de óleo ou com 200 euros. Acredita que dentro de pouco tempo as suas explorações serão totalmente auto-suficientes em água e energia e está a apostar na introdução de painéis solares e a construir vários depósitos para recolher a água da chuva.

A produção de biogás, a partir de excremento de animais, faz também parte dos seus projectos. Das suas herdades, os adubos químicos estão banidos. Em vez disso aposta na combustagem de estrumes resultantes das camas dos animais. Sabe que há quem não o entenda. "Há quem ache que tudo o que faço é um capricho de menino rico que gasta dinheiro em devaneios." Para Alfredo, dormir bem com a sua própria consciência ajuda-o a passar os dias alegre. "Um agricultor não pode pensar apenas em produzir comida. Tem que pensar também no que as suas acções fazem à sua volta, quer em termos sociais quer ambientais."

Tem como último sonho trazer os consumidores para a Herdade do Freixo do Meio. Só assim conseguirá torná-la totalmente auto-suficiente.
Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Junho de 2009
 

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You may call me Lamp...
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Já tinha ouvido falar dele. É um lutador.
 

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^^

A versão mais famosa dessa frase até é lida ao contrário, e é do Richard Branson, quando perguntado como ser milionário ele respondeu que 1º tem-se de ser bilionário e depois compra-se uma companhia de aviação.

Isto porque ter acções de companhias de aviação ou ser dono de uma é fino, mas é uma actividade tão regulamentada e com interferência governamental que é consistentemente para quem investe nela uma actividade não lucrativa. Ver Michael douglas in Wall Street :)

^^ Isto para dizer que a agricultura também tem semelhanças com a aviação no grau de especialização e na intervenção governamental. Mas não tenham muita pena dos agricultores pois os apoios que estes recebem são simplemente imensos.

Parabéns ao impreendorismo! Hands down!
 

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'tou na lua...
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*empreendedorismo ;)
O pior é que muitos subsídios são para não produzir, precisamente... temos quotas de produção baixíssimas e a produção que vai além desse limite vai para o lixo, o que é um insulto a quem passa fome...
 
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