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Wind In The Wires
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Entrevista do público online:

Nas cidades actuais os automóveis privados já ocupam cerca de 70 por cento do espaço público. Um dia, isto será insustentável, diz o especialista em ecologia urbana, Francisco Cárdenas. Em Espanha, há cidades que já mudaram radicalmente. Portugal está a tentar.

Quando na quinta-feira passada o avião de Francisco Cárdenas se aproximou de terra, à chegada ao Porto, o espanhol não pôde deixar de reparar no aglomerado de casas que se vislumbrava. "Parece que dispararam casas do céu e elas caíram em todas as partes. Olhes para onde olhes, vês casas." O Porto, e toda a sua área metropolitana, é um exemplo daquilo a que o director de programação e planeamento da Agência Ecologia Urbana de Barcelona chama "cidade difusa", o protótipo que está, pouco a pouco, a apoderar-se da Europa: um modelo que tem no carro o elemento central de construção das cidades, que faz do cidadão um mero actor secundário. Em Barcelona já muita coisa mudou. Portugal tem muito caminho pela frente.

O Francisco Cárdenas defende que é urgente recuperar o modelo de organização de cidades do Sul da Europa. Que modelo é este?

É um modelo de uma cidade diversa e complexa, onde o espaço público é importante. Uma cidade compacta, o que significa que há densidade suficiente de população e de actividade para que haja contacto e relações entre as pessoas.

Quando é que esse modelo faliu?

Pouco a pouco fomos caminhando para outro modelo, o da cidade americana, onde o espaço público pertence aos automóveis privados. Agora, nas cidades, há peões ou condutores: não há cidadãos.

Consegue identificar um culpado?

O problema é que apareceu um artefacto de uma potência incrível, o veículo privado, que pouco a pouco se fez dono das cidades. E os planificadores passaram a desenhar as cidades a pensar neles. Na maioria das cidades médias e grandes, no Sul da Europa, cerca de 70 por cento do espaço público é para o veículo privado. É preciso alterar isto. A dependência do veículo privado é a grande perversão das cidades actuais.

Mas um carro é também um símbolo de liberdade...

É um símbolo de poder, uma questão de status. Ter carro numa cidade com uma boa rede de transportes públicos é uma estupidez. Não estamos contra o carro, mas queremos dar-lhe saída para que funcione. Uma coisa é que o veículo privado vá por toda a parte, outra é pensar simultaneamente nos peões e nas bicicletas.

O que propõe?

Para que um carro não passe numa rua há muito poucas soluções. A única que vejo, na verdade, é impedindo-o, fisicamente. O estacionamento e as portagens já são utilizadas (estas de forma algo injusta). As outras são repensar as vias, de maneira que os veículos não passem por onde querem. É a ideia dos quarteirões - à volta deles é possível circular, dentro não.

Isso não é incompatível com a funcionalidade das cidades?

Não. É uma questão de regular os usos. Mas porque é que as cargas e descargas se podem fazer todo o dia? Não é possível determinar que isso só se faz em determinadas horas? Quando as crianças estão na escola, por exemplo.

As redes de transportes públicos teriam de ser bem mais atractivas.

O transporte público tem de ter qualidade - frequência e cobertura - para ser competitivo. É óbvio que se demorar dez minutos de carro e uma hora de autocarro, nunca irei de autocarro.

Quando fala de cortar os automóveis está a falar de que percentagem de corte?

Na verdade, em algumas cidades, nem é preciso reduzir o número de carros. Mas geralmente falamos de reduções pequenas, à volta dos cinco por cento. Basta alterar os itinerários para que as cidades mudem radicalmente. Em Barcelona, um distrito com 150 mil pessoas, só tocamos em quatro por cento dos carros. O que se muda é que os carros em vez de irem por onde querem, vão por onde nós definimos.

É esse trabalho que a Agência de Ecologia Urbana de Barcelona tem feito...

O nosso trabalho é pôr ordem. Não somos gestores nem construtores, apenas damos apoio às cidades que têm vontade de implementar processos com outros critérios. Quando os arquitectos desenham uma casa pensam muito no conforto - as cores, a luz, a temperatura, o solo -, no espaço público não se pensa nisso. Quer desenhar cidades como se desenham casas?

Os conceitos de habitabilidade e de conforto têm de estar associados. Agora só se pensa na edificação e urbanizar é muito fácil: construir casas, iluminação, ruas. Fazer cidades é outra coisa. É pensar nos espaços para serem utilizados. Os espaços verdes são muito bonitos, mas se não há nada para fazer lá são pouco mais do que inúteis.

Depois de retirar os carros das cidades, é preciso levar as pessoas lá. A tendência tem sido outra, as cidades dormitório a aumentar...

É um fenómeno muito comum. Expulsava-se a população para os arredores; e depois para os arredores dos arredores... e por aí adiante. Mas chega-se a um momento em que as pessoas que vivem a 45 minutos da cidade não podem mais, em que deixam de estar dispostas a perder duas horas de vida por dia no trânsito. E nesse momento começa a regressar-se ao centro. Em Barcelona isso já foi resolvido e no Porto também será. A população vai regressar - não sei se daqui a cinco ou 15 anos, mas voltará.

O que já se fez em Barcelona?

Fizemos, por exemplo, uma nova rede de autocarros. A que havia já era boa, mas melhorámos ainda mais. Vamos aumentar a frequência de circulação com uma simples alteração topológica dos itinerários. Estamos a trabalhar na implementação de um urbanismo em três planos: altura, superfície e subterrâneo. Os veículos podem - e devem - ocupar mais o subsolo para estacionamento. A verdade é que, neste momento, Barcelona já está a ganhar população de novo. Depois, procuramos optimizar o consumo de energia com medidas tão simples como procurar que as casas recebam sol durante o maior número de horas possível.

Que outras cidades estão abrangidas pelo projecto?

Estamos a desenvolver projectos por toda a Europa. Em Espanha, além de Barcelona e arredores, trabalhamos com Madrid e Corunha, por exemplo. Em Portugal, com vários municípios do eixo atlântico: Porto, Vila Real, Bragança.

Como está Portugal neste capítulo de sustentabilidade?

Chama a atenção, quando o avião se aproxima de terra, que olhes para onde olhes, vejas casas. Parece que dispararam casas do céu e elas caíram em todas as partes. É um modelo de cidade difusa, que não cria cidades, cria ajuntamentos urbanos. Em Portugal, este modelo [das cidades difusas] está implementado de uma maneira particularmente escandalosa. Em Espanha também, na verdade.

Mas há projectos no terreno...

As soluções que se têm desenhado são pequenos tampões num depósito gigante a perder água por todo o lado. O que se tem feito é resolver problemas pontuais: se tenho um problema de resíduos, construo uma incineradora, se tenho problemas de circulação, amplio as estradas. Não chega.

De quem é a responsabilidade?

É um pouco de todos. Dos políticos em primeiro lugar, claro, mas é uma decisão que muitas vezes nem no Governo do país está, diz respeito à Europa. A grande dificuldade é que é um projecto a longo prazo e os políticos não têm coragem de assumir esse compromisso. Perderiam eleições.

Que parte cabe ao cidadão?

Cabe a parte de reivindicar a cidade para si, de reivindicar o direito de sair à rua sem medo de ser atropelado, de poder caminhar numa cidade com qualidade de ar, sem ruído excessivo. É preciso consciencializarem-se de que não podem circular por todo o lado e ainda ter tudo.

O que prevê que aconteça, caso este modelo de cidade se mantenha?

Será insustentável. Gostaria de saber o que vai acontecer quando o barril de petróleo estiver outra vez a 200 euros, quando for um bem escasso... e nós continuarmos a depender dele. Em menos de 20 anos os recursos acabam. Agora, vivemos como se os recursos fossem infinitos, fazemos cidades como se a energia fosse infinita, como se a tecnologia resolvesse tudo. E olha-se para o PIB e parece que está tudo bem. Se se vendem mais carros, é possível que ele cresça. A ver se começamos a mudar mentalidades. Não é nada fácil. É que há pessoas que aqui [aponta para a cabeça] a única coisa que têm é um automóvel.
 

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'tou na lua...
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Muito boa entrevista... realmente cá as redes de transportes públicos são deficientes e os projectos para melhorar são impedidos por quem pode, por simples interesse. A cidade está cheia de carros. Adoraria não ter que levar o carro para a cidade algumas vezes, especialmente de noite, mas sou obrigado a isso pois não tenho autocarros entre a meia noite e as 6 da manhã... :(

E ele tem razão, no norte da Europa as cidades são organizadas para as pessoas. Quando saí de Portugal em 2004 é que reparei bem do avião: umas casas ali, um armazém ali, uma estrada, tudo ao calhas. Na Alemanha é uma aldeia aqui, uma floresta ali ao lado, uma estrada ao lado, outra cidade lá adiante.
 

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^^ É verdade. Vivi na Figueira da Foz 6 anos, e nunca apanhei um autocarro local. Se o meu pai não estava comigo e com a minha mãe, andavamos para todo o lado, alguns dias andavamos 20km, porque nem sequer há mapas de rede, nada.

Eu não entendo porquê, a Figueira, por uma cidade do seu tamanho, até tem uma rede rodoviária boa:

 

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'tou na lua...
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Na Figueira ter autocarro e não ter é a mesma coisa... horários de caca, percursos que não lembram ao diabo, um comboio chega a uma hora e só uma hora depois há autocarro vindo de Lavos ou sei de lá de onde... vou mais depressa a pé...
Mas como normalmente vamos de carro para a Figueira (até para parar em Tentúgal)... e com malta é melhor ir de carro, dá para parar nos pastéis e ir ao castelo. Em Montemor-o-Velho a estação fica a 5km do outro lado do rio :nuts: e só se vai de táxi ou de carro... ou a pé como já fiz :lol:
 

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Silos automoveis resolve a questão dos carros estarem estacionados por todo o lado se o automobilistas não forem comudistas ao ponto de preferir que os carros estejam à porta e não a 500 metros da porta.

Bairro Salgado - Setúbal



Não existe uma unica rua não tenha carros estacionados depois da TST ter a sua nova estação rodoviária construida pode ser que a actual estação se transforme em silo auto, já esteve planeado um silo auto(3 pisos) no ambito do polis mas abadonaram a ideia porque a Tst não tinha uma alternativa para sair do local como tem hoje.
 

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Whatever
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só investindo em excelentes redes de transportes públicos é que se consegue tirar o trânsito do centro das cidades, coisa que em Portugal está longe de acontecer.
 

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Fluorescent Adolescent
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Há duas semanas, acreditem ou não, vi um instrutor de condução a ensinar um aluno a estacionar em cima do passeio...foi assim um tudo nada irreal até porque no centro da cidade os passeios agora são bem altos e as vias têm pouco mais que a largura de um carro :nuts:
 

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'tou na lua...
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Essa palavra também começa com "m" e acaba com "a", mas a outra é mais curta :lol:
é igual àquilo que se pisa no passeio se não se tiver cuidado :bash:
Essa do instrutor brada aos céus...
Em Pádua, junto ao hospital, têm um silo de estacionamento e dá muito jeito na zona.
Em Coimbra havia a ecovia (chamada de ecovazia porque ia sempre vazia) mas com o estacionamento até era boa alternativa... mas mesmo assim o povo prefere levar o carro até dentro de casa e do trabalho.
Em Coimbra a zona da Solum à hora da entrega e da saída dos miúdos é hora de caos... na rua supostamente pedonal ao pé do estádio e do Jardim Escola João de Deus é carros estacionados a toda a hora :bash:

PS: nota ao senhor google earth. Na Figueira há o Teimoso, não o Termoso :bash:
 

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Portugal
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Ministério das Finanças prepara

Aumento de 5% nos transportes públicos
O Ministério das Finanças está em conversações com os operadores de transportes públicos e já avançou que, no próximo ano, se prepara para subir em 5% os preços das tarifas.
Segundo o 'Jornal de Negócios', o Governo pretende fazer uma actualização real dos títulos de transporte, bem acima dos 2,2% de inflação previstos, pois vai reduzir as compensações indemnizatórias às empresas do sector.

O jornal adianta ainda que, além da actualização tarifária, o Executivo já informou igualmente os operadores de que vai diminuir a sua contribuição para suportar os descontos nos passes de estudantes, o 4_18 e o sub 23.

in: http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/ultima-hora/aumento-de-5-nos-transportes-publicos
 

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Profissional da desordem
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Silos automoveis resolve a questão dos carros estarem estacionados por todo o lado se o automobilistas não forem comudistas ao ponto de preferir que os carros estejam à porta e não a 500 metros da porta.
Em Sesimbra preferem deixar o carro parado no meio da Av. da Liberdade em vez de deixarem o carro convenientemente estacionado a escassos 50 metros de distância ... quanto mais a 500 metros ...
 

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'tou na lua...
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Esse aumento é para gozar só pode... qualquer dia cobram o ar que respiramos... :bash: em vez de estimular o uso dos transportes só os prejudicam...

Carros no passeio é o prato do dia... ou no meio dos cruzamentos...
dou um exemplo:


em Portugal há pessoal com mania de estacionar aqui no meio ...
 

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Portugal
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Esse aumento é para gozar só pode... qualquer dia cobram o ar que respiramos... :bash: em vez de estimular o uso dos transportes só os prejudicam...

...
Quando não há dinheiro, não há vicios. Além disso a venda de combustivel rende muito dinheiro ao Estado, assim como a venda e importação de veiculos.
 

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'tou na lua...
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Podem aumentar nos particulares, agora aumentar o transporte público... em vez de incentivar fazem o contrário...
 

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se as pessoas vivessem mais perto da cidade, ou mesmo na cidade como vivem em espanha, a situaçao era completamente diferente. mas como pais de suburbios que somos, vamos continuar a usar o carro sempre
 
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