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Natália Garcia 30 de maio de 2014

Viajando pelo Centro-Oeste fiz uma descoberta inesperada: Goiânia é a cidade com mais potencial no Brasil. Pelo menos na minha humilde opinião, que tem como base de comparação todas as outras cidades que conheço no país. Potencial, vejo aqui no meu dicionário de analogias, tem relação com as ideias de poder e inexistência. Goiânia tem uma estrutura, topografia, clima e cena artística que poderiam transformá-la numa cidade incrível. Só que hoje essa possível cidade incrível ainda não existe. E para ativar esse potencial é preciso conhecer sua história.

Goiânia foi planejada em 1933 para ser a capital de Goiás como parte da Marcha para o Oeste do então presidente do Brasil Getúlio Vargas. Seu desenho, concebido pelo urbanista Atílio Corrêa Lima (que revisou o plano anterior, de Armando de Godoy), foi inspirado nas ideias do também urbanista inglês Ebenezer Howard, que propunha o fim da dualidade entre os mundo urbano e rural. Howard queria que as cidades fossem pequenas vilas para até 35 mil habitantes cercadas de verde, de onde viriam os alimentos para abastecê-la. Essa ideia de uma cidade-jardim norteou a urbanização de várias cidades pelo mundo, como é o caso do setor-sul de Goiânia:



O coração desse bairro central na cidade seria uma rede pública de jardins, por onde as pessoas caminhariam a pé. As casas ficariam de frente para essa cidade verde e de costas para pequenas vielas, por onde os carros passariam para entrar nas garagens. O problema é que os moradores viraram Goiânia do avesso: construíram as casas de frente para os becos asfaltados e de costas para os jardins. Com os tempos, esses becos foram sendo aumentados, rasgando os jardins ao meio, como acontece na rua Cora Coralina.


as manchas verdes são antigos jardins recordados pela rua.

Hoje, os jardins estão isolados pelos muros dos fundos das casas. E, de uns tempos para cá, esses muros começaram a ser ocupados por grafites incríveis. Foi graças à Carol Farias e ao seu marido e sócio André Gonçalves na empresa Sobreurbana que conheci os jardins invisíveis de Goiânia. Eles os apresentaram a muitos moradores locais que também não conheciam a região em uma Jane’s Walk, uma caminhada inspirada nas ideias da jornalista e ativista Jane Jacobs. Daí fizeram a gentileza de repetir o percurso comigo.





















Quando a noite caiu, ficamos em silêncio debaixo de uma árvore vendo a lua cheia subir pelo céu. Os sons de cigarras e grilos tomaram conta do mato. No coração da cidade, tive a sensação de estar no meio da floresta. Lembrei que a palavra silêncio, em tupi-guarani, é quiriri. Não parece fazer muito sentido se pensarmos que a língua indígena é onomatopeica, as palavras imitam os sons das coisas. Mas é mais ou menos assim o silêncio da floresta: quiriri quiriri quiriri quiriri quiriri quiriri…

Encontramos em seguida com a ilustradora Sophia Pinheiro, que sonha em transformar os jardins invisíveis de Goiânia em uma grande galeria de arte a céu aberto. Ainda curtindo o barato daquela experiência compreendi que o potencial de Goiânia está justamente na visão de pessoas como a Sophia, a Carol e o André. A vida, diz o filósofo Soren Kiergaard, “só se entende olhando para trás, mas só se vive olhando para a frente, ou seja, para o que ainda não existe”.

Por isso, volto a afirmar: Goiânia é a cidade com mais potencial (poder + inexistência) do Brasil.

http://super.abril.com.br/blogs/cidadesparapessoas/2014/05/30/os-jardins-invisiveis-de-goiania/
 

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É incrível como é perceptível até pra pessoas de fora o tanto que essa cidade possui um potencial desperdiçado. Os jardins internos do setor Sul estão há dezenas de gestões da prefeitura praticamente às moscas, quando é óbvio que, com as devidas intervenções urbanísticas, eles poderiam contribuir sendo um referencial e tanto pra Goiânia, que infelizmente, é tão negligenciada pelo poder público.
 

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Essa ideia de casas com um lado para uma ruade acesso e do outro para um jardim público também norteou alguns setores de casas em Brasília, como as quadras 700 nas asas sul e norte do plano piloto.
Em Brasília a ideia de a frente da casa ficar voltada para o jardim também não funcionou, mas com uma fiscalização mais rigorosa e com a arborização dos espaços, os jardins foram preservados e formam charmosas passagens para pedestres, além de contribuírem para a altíssima arborização de Brasília.
 

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Interessante isso, mas os espacos precisam ser ocupados e receberem a devida manutencao, senao serao para sempre becos, muitas cidades possuem essa situacao, em alguns funcionam e outras nao... Por exemplo, pouca gente sabe, mas os interiores de quarteirao do Plano Cerda, em Barcelona, eram para ser pequenas pracas, so que nao foi em frente... Acho que a Prefeitura local abriu alguns deles, inclusive estive em um deles e estava bem frequentado e com boa manutencao...

Possa ser que o grafitti chame mais a atencao das pessoas, mas realmente e' uma pena as casas virarem costas para esses parques... Em Londres isso seria impensavel...

Voce tem uma imageplanta com melhor definicao da planta geral do setor sul? Os outros setores da cidade tambem possuem o mesmo esquema?
 

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Grande parte dos grafites são de um amigo chamado andré morbeck em parceria com decy. o trabalho dos caras é de um nível altíssimo. colorindo com propriedade os "fundinhos" do setor sul.
sou morador do bairro desde que nasci, e apaixonadíssimo por esse lugar, são caminhos pouco conhecidos pela maioria da população, mas que se revelam surpreendentes a cada nova passagem.
como afirma o autor do tópico, o bairro tem potencial extremo, possui enormes áreas em que pode ser investido em vasta vegetação, equipamentos de lazer para a população, mobilidade com ciclovias.
 
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