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Sampa!
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O que explica o sucesso da centenária companhia que loteou algumas das áreas mais nobres de São Paulo, como Pacaembu e Alto de Pinheiros


ALTO DA LAPA
Ruas sinuosas e áreas verdes são marcas dos projetos da companhia


Fotos aéreas de São Paulo exibem um acidentado tapete cinza pontilhado de manchas verdes. As mais gordas avançam pelas zonas Oeste e Sudoeste e nem sempre representam parques. Muitas correspondem a bairros caracterizados pela generosa vegetação, por arruamentos sinuosos e pela restrição a edifícios altos, conhecidos como bairros-jardins. Esse modelo foi introduzido na cidade há 100 anos com a fundação da Cia City, responsável por lotear áreas nobres como o
Jardim América, o Pacaembu e a parte mais cobiçada do Butantã, próxima à Cidade Universitária (confira o mapa). Na época, o Jardim América era um charco, o Pacaembu não passava de um aglomerado de chácaras, e o Butantã de um lugar ermo e distante.

Esses foram os principais bairros planejados por iniciativa do banqueiro francês Edouard Fontaine de Laveleye, numa São Paulo com quase 1 milhão de habitantes. Compradas a preços baixos, hoje essas terras concentram alguns dos endereços mais caros da cidade. Laveleye fundou a City of São Paulo Improvement and Freehold Land Company Limited em 1911, em Londres, associado a outros investidores franceses e ingleses. Como primeira ação, a empresa comprou 12.300.000 metros quadrados na capital paulista, ou 37% de toda a mancha urbana de então. Em 2005, somou cerca de 32.000.000 de metros quadrados urbanizados em todo o país, com bairros projetados em Goiânia (GO), Blumenau (SC) e Uberlândia (MG), entre outros municípios.

O primeiro bairro da City, incorporado em 1915 e loteado em 1919, foi o Jardim América, com 672 lotes. O projeto ficou a cargo do inglês Barry Parker, que já projetara áreas residenciais no entorno de Londres e tratou de reproduzir aqui o “que havia de melhor na Europa”, nas palavras do professor Nestor Goulart Reis, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Segundo Reis, a City inovou ao popularizar uma arquitetura sofisticada. “Projetos de qualidade deixaram de ser exclusividade de grandes mansões”, diz. Embora o Jardim América tenha sido concebido para a elite, bairros da empresa como o Alto da Lapa foram criados para atrair profissionais liberais e até operários.

Parker descartou o traçado reto da malha viária, hegemônico no país. Ele acreditava que a sinuosidade das ruas garantiria privacidade aos moradores e afastaria todo o trânsito que não fosse local. A estratégia deu certo. Os bairros-jardins funcionam ainda hoje como verdadeiros labirintos. Quem não os conhece se perde em vias que terminam em cruzamentos sem saída ou em vielas que desembocam na mesma avenida da qual se saiu 100 metros antes. Num relevo íngreme como o do ¬Pacaembu, Parker criou curvas que permitiram contornar ribanceiras e dispôs a maioria dos lotes com vista para o vale.

A inovação da City se apoiou num volumoso trabalho burocrático. No livro Jardim ¬América, de 2001, a arquiteta Silvia Ferreira Santos Wolff revela bastidores do relacionamento da empresa com órgãos do governo. “Foi preciso convencer a prefeitura a mudar a legislação, propondo alterações que tornassem legal a compartimentação proposta para a área”, diz ela. Instrumentos como as leis de uso e ocupação do solo serviram de arma contra a especulação imobiliária e garantiram a preservação dos bairros-jardins.


EU QUERO SOSSEGO
Cecília e a filha brincam com os cães nas praças do Alto da Lapa (à esq.). Há 36 anos no Jardim América, Rudge (de polo, acima) gosta de sair a pé com a família. Diz ter calma e segurança




QUASE BUCÓLICO
Hacker e Luciana andam de bicicleta e caminham pelo Pacaembu, tombado em 1991. “As casas, agora, têm muros mais altos. O resto está igual”, diz ele


Em geral, esses bairros mudaram pouco ao longo das décadas. Alguns são tombados – como o Pacaembu, desde 1991, ou o City Lapa, desde o ano passado. “As casas agora têm muros altos, mas o resto está praticamente igual”, diz o empresário George Hacker, de 40 anos, que mora no Pacaembu com a mulher, Luciana, e dois filhos. ¬George anda de bicicleta pelo bairro, onde moram também seus pais, um irmão e um tio. “As ruas ainda são tranquilas”, afirma. Em seu quintal, há um ipê, três palmeiras e outras árvores – frequentemente ocupadas por pássaros. O ambiente quase bucólico é constantemente ameaçado. “Neste ano, tivemos uma investida pesada contra o tombamento do bairro”, diz a presidente da Associação Viva Pacaembu, Iênidis Benfati. “Quem estava por trás a gente não sabe.” Mesmo os bairros que não são tombados preservam a maioria das características e se mantêm como zonas estritamente residenciais. Quem mora no Alto de Pinheiros, por exemplo, tem de se deslocar até a Praça Panamericana para ir à padaria ou à farmácia.

Uma das primeiras infrações contra o zoneamento em um bairro feito pela City aconteceu no Jardim América, antes da regulamentação pela prefeitura. Um posto de gasolina foi construído numa área residencial, na Rua Colômbia. A City processou o proprietário, mas perdeu. Em geral, a forma mais comum de descaracterização é a união de lotes. “Muita gente compra mais de um terreno para fazer casas enormes”, diz o advogado Fernando Rudge, de 48 anos, morador do Jardim América há 36 anos. “Não sou contra. O que pode ser ruim é o desmembramento de lotes, que causa adensamento.” Sua casa de cinco quartos, em um terreno de 1.900 metros quadrados, fica próxima das ruas Augusta e Estados Unidos e também do clube Paulistano, do qual a família é sócia. É para lá que ele costuma ir aos domingos, sempre a pé, com a mulher e os cinco filhos. Rudge só reclama do número de carros estacionados por ali. “No horário comercial, não há vagas na parte residencial”, afirma.

No Alto da Lapa, as ameaças de descaracterização ocorrem toda vez que um proprietário desrespeita as regras de recuo e permeabilidade do solo. “Tem gente que constrói no terreno inteiro”, diz a atriz Cecília Audi, de 60 anos. Ela divide a casa com a filha, Maria Fernanda, de 39 anos, e dez cachorros. Quando se mudou para o City Lapa, aos 2 anos, cabras e vacas costumavam pastar por ali. Hoje, o que permite aos bairros-jardins preservar a atmosfera interiorana e sobreviver à especulação imobiliária é o trabalho das associações de moradores. “No início, era a própria empresa que fiscalizava as construções”, diz o presidente da City, José Bicudo. “Hoje, damos apoio às associações.”

Num escritório na Vila Olímpia, com janelas para o mesmo Rio Pinheiros que a City ajudou a retificar, entre as décadas de 1920 e 1940, Bicudo confere mapas do Centro. A empresa está envolvida no audacioso projeto de revitalizar a região da Luz. Ela venceu, no ano passado, a licitação para realizar o projeto de implantação da Nova Luz, em parceria com a companhia norte-americana Aecom, a Fundação Getúlio Vargas e a construtora Concremat. A City, controlada pela colombiana Deldec Holdings desde os anos 1990, também se dedica à incorporação de um condomínio residencial de 100.000 metros quadrados no Morumbi. O City Parque Morumbi, ainda sem prazo para execução, será o primeiro condomínio fechado da empresa – que, no passado, sempre se opôs a eles. Uma maneira inovadora de iniciar mais um século de grandes projetos.

Epoca SP
 

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Ótimo texto KAS! Não é a toa que são dos melhores bairros da cidade e impressionam os turistas desavisados que não esperam encontrar lugares tão arborizados e calmos no meio da muvuca da cidade.
 

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Around the World
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um ícone de São Paulo.

Um ícone de São Paulo e prestes a fazer 100 anos (em 2012).
Uma história de sucesso sem dúvida.
Trabalho aqui na Paulista e daqui dá para ver o verde do Jardim América.
Já fiz uns "tours" pelos bairros da City e realmente é supreendente notar a preocupação de seus idealizadores para com o bem estar da pessoas. São bairros agradáveis, bonitos aos olhos.
A pena é que muitos se valorizaram absurdamente, tornando-os para poucos.

Um dos grandes trunfos da City é que no passado seus diretores tinham um bom relacionamento com o poder (prefeitura de sp) e com outra empresa: The São Paulo Tramway, Light and Power Company, que até tinha funcionários seus no quadro da City como diretores. Algumas linhas de bondes da Light eram criadas junto com as obras da Cia. City, o que fazia de seus empreendimentos um sucesso.
 

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Sempre tem um chato para falar do lado ruim.. rss

"com janelas para o mesmo Rio Pinheiros que a City ajudou a retificar"

A City é uma empresa, e como tal, tem o objetivo de buscar o lucro. Básico. As cidades-jardins da City destacam-se pelo pioneirismo, em uma São Paulo pré-explosão populacional, onde ainda existiam imensas áreas desocupadas entre o Tietê e o Pinheiros. Lançaram um produto de ponta, cobraram caro e obtiveram sucesso. Hoje, esses loteamentos são a cereja do bolo da cidade.

Agora, o outro lado da moeda.

Após ocupar e lotear as colinas do Pacaembu e Alto da Lapa, a City se volta para as várzeas dos rios Tietê e Pinheiros. Ignorando o fato de se tratar de áreas de "várzea", ou seja, "inundáveis".. mesmo motivo pelo qual ninguém havia ocupado antes, a cia City propõe à Prefeitura "sanear" as margens desses rios.

É o mesmo blá-blá-blá que ocorre hoje com a operação urbana Agua Branca e, futuramente, com a da Lapa, ercorre-se à uma justificativa bonita para esconder o real objetivo: lucro! "Precisamos adensar a várzea!". Quem tem interesse nisso? Não seria melhor levar emprego ou transporte à periferia? Ou uma áera verde tampão e permeável?

Voltando à City..

Sanear à época, significa aterrar, retificar e lotear essas várzeas historicamente de domínio dos rios. A prefeitura autorizou (quem será que encheu o bolso desta vez?) e disse que a City poderia "sanear" essas várzeas até o limite médio histórico das inundações.

Curiosamente, dios anos depois, São Paulo registrou a maior inundação da história da Cidade!! Detalhe sórdido: Choveu sem parar, a água subiu e "fecharam" as comportas à jusante. (??) Agora o pior. As águas estabilizaram e, depois de dois dias, começaram a subir novamente! Sem chuva!!! Simplesmente alguém (advinha quem?) mandou abrir as comportas do tiete à montante.. ou seja, antes da cidade... qual seria o motivo?

Resumo da ópera, a City delimitou a área concedida, não pela média histórica, mas pelo PICO, e da maior inundação que a Cidade já teve. Alguém tem qualquer dúvida de que, na balança, a City fez mais mal à cidade do que bem? Se a prefeitura não tivesse atropelado o parque proposto por Saturnino de Brito talvez hoje tivéssemos um parque maravilhoso de ponta a ponta do Tietê e, quem sabe pelo exemplo, até lá no Pinheiros..?

Fatos dados, não adianta chorar... apenas a hipótese.
 
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