O município de Senhor do Bonfim fica situado no Norte do estado, distante 385 quilômetros de Salvador. Sua população no Censo de 2010 era de 74,937 habitantes, exercendo influência econômica em uma Região de 300 mil pessoas. A cidade está localizada na extensão da Chapada Diamantina, na Cordilheira do Espinhaço. O acesso pode ser feito pela BR-407/Rodovia Lomanto Jr. entre Capim Grosso (BA) e Juazeiro (BA) ou pela BA-131 vindo de Pindobaçu (BA). A cidade também conta com pista de pouso e em breve terá um Aeroporto Regional, além da Ferrovia Centro-Atlântica.
A ferrovia exerceu influência fundamental na estruturação e no desenvolvimento de Senhor do Bonfim, em especial no que concerne ao aumento da dinâmica comercial em função da maior agilidade no transporte de mercadorias e do acesso facilitado de viajantes. Além disso, uma outra forma de influência foi exercida pelos empregados da
Viação Férrea Federal Leste Brasileira, tanto os engenheiros quanto os operários, em termos econômicos, principalmente, com a geração de um movimento comercial considerável a partir de seus salários, e também em termos sociais. Entre os estabelecimentos então criados, destacam-se o Educandário Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento (Sacramentinas), onde só estudavam meninas, até hoje em funcionamento, e o Ginásio Sagrado Coração (Maristas), somente para meninos, atualmente Colégio Estadual, que funcionavam em regime de externato e internato, este último primordialmente visando o atendimento das necessidades dos alunos provenientes de outras cidades.
Quando da chegada do primeiro automóvel à cidade, em 1924, foi iniciado um movimento, liderado pelo comércio, em prol do estabelecimento de um sistema rodoviário de forma a complementar o sistema ferroviário já existente. Em 1927 foi terminada a estrada de rodagem para Uauá, velha aspiração dos comerciantes da zona. Em 1967, a inauguração da estrada Lomanto Júnior - totalmente pavimentada, de boa qualidade, ligando Feira de Santana (BA) à Juazeiro - impulsionou as comunicações com a capital, encurtando a distância rodoviária Bonfim-Salvador para 385 quilômetros.
Até o início da década de 40, não havia nenhuma agência bancária em Bonfim. Nessa época, dois banqueiros representavam alguns bancos, como o Banco do Brasil e o Banco Mercantil. Porém, em 1943, foi instalada a primeira agência da cidade, do Banco do Brasil, enquanto que o Banco da Bahia e o Banco do Estado da Bahia (BANEB), recentemente privatizado e adquirido pelo BRADESCO, foram ambos instalados em 1964. Atualmente, além do Banco do Brasil, a cidade conta ainda com agências da Caixa Econômica Federal, do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e do BRADESCO. Em Senhor do Bonfim, assim como em outras cidades do nordeste, houve incentivos fiscais e financeiros para a implantação de indústrias, porém estes não foram suficientes para consolidar o processo de industrialização. Dessa forma, algumas empresas instaladas à época foram posteriormente desativadas, como por exemplo a Cortumes Matadouros S/A (CORMASA) e o Centro de Experimentação e Melhoramentos Agro-Pecuários S/A (CEMASA).
No que se refere à infra-estrutura urbana, a cidade, no final dos anos 60, já contava com energia elétrica oriunda da Usina de Paulo Afonso, com serviços prestados pela COELBA. A luz elétrica mudou muito a face da cidade e os hábitos dos seus moradores, que anteriormente dependiam dos horários da iluminação pública a querosene, cujos candeeiros eram acesos às seis da tarde e apagados às onze da noite. A Rodovia Lomanto Júnior e a energia elétrica integrada ao complexo hidrelétrico de Paulo Afonso, somadas às vantagens locacionais do município, geraram expectativas positivas em relação ao setor industrial no fim dos anos 60. O Brasil vivia uma fase de aceleração produtiva, que ensejou o "Milagre Brasileiro", durante a década de 70.
Os setores da economia municipal também tiveram seus destaques históricos. Em relação à agricultura, ao longo dos anos, as culturas temporárias de feijão, milho, mandioca e mamona, além do cultivo do sisal e da extração do ouricuri foram se desenvolvendo como atividades produtivas secundárias. Na década de 70, o beneficiamento do sisal, da mamona, do ouricuri e do leite, ao lado da expansão do comércio, promoveram o progresso da economia do município. Contudo, na década seguinte, o declínio das culturas de sisal, mamona e ouricuri, devido a sua substituição por produtos e fibras sintéticas, provocou o fechamento das indústrias beneficiadoras. Esta retração da agricultura teve seus impactos minimizados pela intensificação da atividade pecuária, historicamente a principal atividade do setor primário, e pela criação de uma bacia leiteira na região. Com isso, foi criada uma dependência muito grande da economia em relação à pecuária, que, apesar dos reflexos positivos sobre outros setores, revela-se extremamente prejudicial em épocas de crise, especialmente quando a seca assola a região.
O setor terciário bonfinense, sempre o mais vigoroso, nunca parou de se expandir, o que pode ser evidenciado pelo aumento constante do número de estabelecimentos comerciais, sobretudo no comércio varejista. É historicamente um ramo diversificado, porém com alguma concentração em produtos como calçados, vestuário, e gêneros alimentícios. A característica principal do setor diz respeito ao pequeno porte dos estabelecimentos, que funcionam em instalações precárias, com estrutura familiar. A feira livre de Senhor do Bonfim sempre representou uma parte importante da atividade comercial da cidade. Suas origens estão ligadas ao ciclo do gado, o que pode ser inferido em função do local inicial da feira: o Campo do Gado, atual Praça Luís Viana Filho. Há algum tempo a feira está localizada nas praças José Gonçalves e Augusto Sena Gomes, que são divididas pelo correio. É uma das maiores do Nordeste, em tamanho e em diversidade de produtos. Acontece durante todos os dias da semana, intensificando o seu movimento às sextas-feiras e sobretudo aos sábados.
HISTÓRIA - Criação e condução de gado, como também a busca e mineração de ouro e pedras preciosas foram a causa de genocídio dos índios no sertão baiano no século XVII e XVIII, dos que não queriam submeter-se a escravidão e domínio dos brancos. Os que deixaram dominar-se, foram escravizados ou juntados em aldeias e submetidos à ação doutrinaria e "civilizatória" dos missionários católicos. Foi assim que em 1697 os franciscanos criaram Arraial da Missão de Nossa Senhora das Neves do Sahy. Seus habitantes, os índios (sobretudo Payayos e Kariris eos trazidos para cá do litoral, alguns índios Pataxos), foram vistos e tratados como uma fonte de mão de obra para o trabalho do salitre e nas fazendas de brancos, como está escrevendo numa carta aos frades franciscanos Luiz César de Meneses (de 12 de março de 1706).
De 24 de julho de 1722 - 5 de junho de 1724 - Missão foi elevada a categoria de vila (virando um espaço administrativo da Coroa, com a finalidade de administrar a justiça, efetuar a cobrança dos impostos sobre o ouro produzido pelas minas, implantar a lei e combater a violência), mas logo depois Missão do Sahy perdeu este título e importância, sendo esquecida e ignorada. Em 1721, num episodio dramático, frei capuchinho, Martin de Nantes (francês), evitou a todo custo que o poderoso Garcia D´Ávila levasse todos os índios da aldeia de Missão do Sahy como escravos para vendê-los aos senhores de engenho da região. Em 17 de dezembro de 1841 o juiz de direito de Jacobina, Ângelo Muniz da Silva Ferraz, assinou um documento de apreensão de todos os bens que pertenciam a Missão. Estes bens deveriam ser devolvidas a último frade da Missão, frei Sebastião de Santo Antônio, segundo o decreto de 16 de maio de 1843 (hoje ninguém sabe, onde pararam estes bens).
Missão do Sahy hoje conta com uma população de aproximadamente 3.000 pessoas. Seus habitantes sobrevivem de pequenas culturas de subsistência e de prestação de pequenos serviços, pois suas terras foram transformadas no passado em latifúndios. Há também uma associação comunitária do cultivo de flores e um pequeno grupo de descendentes de indígenas num local afastado, denominado "Aldeinha", fazendo o artesanato em cipó. O distrito de Missão do Sahy é bastante rico em cultura e história. No passado, já foi uma das localidades mais importantes da Bahia, quando sendo um posto de fiscalização e administração da Coroa portuguesa. Mas, depois de perder importância para localidades vizinhas (como a Vila Nova da Rainha, atual município de Senhor do Bonfim, do qual é hoje distrito, e Vila de Santo Antônio de Jacobina), Missão do Sahy foi ignorada e esquecida. Mesmo assim, ainda existem resquícios desse passado glorioso, que resiste na cultura do local. A antiga "Missão de Saí" dos franciscanos foi extinta em 1864.
Considerada uma das melhores e mais tradicionais festas do Nordeste, o São João na “Capital Baiana do Forró”, acontece no Espaço Gonzagão (Parque da Cidade) com shows no Arraiá da Tapera (Espaço Gonzagão), o forró pé de serra no Forrobodó, o Forró no Trem, o Show de Espadas, as alvoradas e a Casa do São João, onde baianos e turistas poderão apreciar outros aspectos da festa e da cultura regional.
Outro fator que contribui para que a cidade seja um exemplo de São João é que, mesmo com a grandiosidade do evento, Senhor do Bonfim preserva características tradicionais, como trios de sanfoneiros, quadrilhas, bandas de pífanos (calumbis) e alvoradas juninas, que arrastam multidões pelas ruas durante as madrugadas, sem falar que na festa oficial, promovida pela prefeitura do município, só toca forró.
Um belo espetáculo também pode ser visto na cidade na véspera do São João: é a guerra de espadas. Realizada em algumas ruas determinadas pela prefeitura, o evento reúne bonfinenses e turistas que travam uma guerra pacífica em volta de grandes fogueiras. Para dar mais encanto e segurança ao show, em algumas vias as luzes são apagadas. Aqueles que quiserem apenas assistir, sem participar, podem acompanhar protegidos das janelas e varandas de casas e edifícios. Para a realização da batalha, as vias onde ela acontece são sinalizadas. A Polícia Militar também faz o bloqueio preventivo para que veículos não trafeguem nessas ruas. Mais de três mil dúzias de espadas são utilizadas na ocasião.
O Território Quilombola de Tijuaçu é o maior em número de famílias, na Bahia, de acordo com o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) publicado pelo Incra/BA. Numa área delimitada de 8,4 mil hectares residem 828 famílias remanescentes de quilombos de 14 comunidades. O território está inserido entre os municípios de Senhor do Bonfim, Filadélfia e Antonio Gonçalves, situado a 367 quilômetros de Salvador. A histórica começa quando, vagando por caminhos desconhecidos, cansadas da caminhada e da vida escravizada, há 200 anos, três mulheres param numa lagoa a mais de 300 quilômetros de uma senzala perto de Salvador, local de onde fugiam, para descansar os pés fatigados e matar a sede de água, de paz e liberdade negada. Foi neste lugar que essas guerreiras decidiram ficar e depositar a esperança de uma vida digna. E conseguiram: construíram Tijuaçu, “O Lagarto Grande”, localizado a 23 quilômetros da cidade de Senhor do Bonfim. Hoje, lugarzinho pacato, onde quase todo mundo é parente, vive da plantação, do acarajé e do samba de lata, que traz no olhar as evidências da luta, da força e da perseverança de um povo marcado pelo sofrimento, mas com um brilho no sorriso, inigualável. A existência dos quilombos provocou desgastes não só ao escravismo enquanto categoria econômica, mas à sociedade escravista como um todo. E Tijuaçu se coloca entre os principais da Bahia, sendo habitado até a atualidade pelos negros descendentes.
Quando não estão trabalhando, os moradores estão exercitando seu lazer predileto o “Samba de Lata”, sua diversão maior. Samba tradicional criado pelos próprios moradores, que tem como instrumento principal a lata de zinco. Essa diversão é apreciada por todos: homens, mulheres, crianças que se reúnem para cantar e para dançar, constituindo uma tradição do distrito. O Samba de Lata é dançado ao som de apenas uma lata que é tocada por uma mulher, conhecida na região por Dinha. Na roda algumas mulheres vestidas de branco usam colares longos no pescoço e dançam batendo o pé direito e circulando em sentido esquerdo, para, em seguida, repetir o mesmo gesto com o pé esquerdo, circulando em sentido contrário. Mesmo com algumas características similares ao Candomblé, eles afirmam serem católicos.
Tijuaçu, distrito de Senhor do Bonfim, é composto pelos seguintes povoados: Fazenda Alto, Olaria, Quebra-Facão, Água Branca, Lajinha, Conceição, Macaco, Barreira, Queimada Grande e Fazenda Capim. A maior parte desses povoados está localizada no município de Senhor do Bonfim, enquanto uma menor parte encontra-se nos municípios de Filadélfia e de Antônio Gonçalves. Sobre a origem do nome – Tijuaçu – alguns depoentes dizem que, na língua dos índios que viveram na região, significa “lagarto grande” e tem esse nome porque na região existiam muitos deles. Até a segunda metade do século XX, essa comunidade recebeu a nomenclatura de povoado do Lagarto. Os habitantes de Tijuaçu zelam pela terra e pela família, pois representam sua identidade. A família significa a própria reprodução dessa memória e dessa existência. Assim, podese sintonizar o viver dessa população, caracterizando-o por três palavras: família, terra e tradição. A família é a célula mãe da permanência da própria localidade; a terra concretiza as relações de trabalho e de sobrevivência e a tradição é representada pelos laços culturais, pelas relações de trabalho e os modos de vida desses afro-descendentes. A preservação do sistema de parentesco estabelece relações hierarquizadas e ritualizadas, sob a autoridade dos mais velhos, permitindo a continuidade dos costumes e das tradições.
As histórias sobre a comunidade negra rural de Tijuaçu estão presentes na memória dos mais velhos, bons narradores da saga dos seus antepassados, permitindo resgatar um passado nem sempre revelado nos documentos escritos. Através de sua religiosidade, do seu cotidiano e do modo de ser de seus habitantes, revela-se a sua identidade cultural. Assim, esses aspectos são percebidos não apenas na cor da pele de sua gente, mas, sobretudo, na memória dos mais antigos moradores de Tijuaçu, que narraram as histórias contadas por seus avós, remetendo às experiências vivenciadas na escravidão. A presença da mão-de-obra escrava, principalmente na Bahia, bem como em outras partes do país durante a escravidão, foi absorvida em diferentes setores de produção: nas fazendas, nas casas e no comércio. Escravos e libertos, crioulos e negros africanos desempenhavam quase todas as funções da economia urbana e rural, das mais especializadas às menos qualificadas: eram carregadores, trabalhadores nos portos e nas oficinas, lavadeiras, quitandeiras, domésticas, artesãos e lavradores. Escravos e negros livres transitavam com extrema agilidade pelas ruas das cidades, chamando atenção por seus trejeitos, cores e sons, contrastando com a reclusão e hábitos disciplinados das famílias senhoriais. Os negros nagôs foram desde logo os preferidos, nos mercados de escravos da Bahia. Eram altos, corpulentos, valentes, trabalhadores, de melhor índole e os mais inteligentes de todos. Além do nagô, outro grupo que contraiu matrimônios formou a localidade, foram os congos, que habitavam na região do atual distrito de Quicé, localidade próxima Tijuaçu. Estes, segundo os depoentes, viviam no mato como os Cariris (índios da região).
Nessa comunidade, encontra-se um hibridismo cultural que emergiu no momento da colonização do Brasil. Há uma reinvenção das tradições culturais, seja ela negra, branca ou indígena. Encontram-se esses elementos nas diferentes relações que os habitantes se entrelaçam em Tijuaçu. É nesse mundo de “entre-lugares” deslizante que vivem os moradores de Tijuaçu, dentro dessa junção de culturas que se mediaram no decorrer do tempo, possibilitando a constituição de sujeitos culturais híbridos. Esses narradores consideram-se descendentes diretos dos africanos nagôs. Alguns depoentes narram que seus ancestrais foram cativos e quando chegaram em Tijuaçu estavam fugindo da escravidão; tinham esperança de viver para sempre nesse território, longe dos olhos do senhor, o que formou esse berço cultural dentro do território bonfinense.
Créditos & Fontes
-- Williams Correa --
-- Grupo CRIA --
-- Carmélia S. Miranda (Uesb) --
-- Luciano Ramos --
-- Lúcia Ramos --
-- Marcos Cesário --
-- Dr. Glória da Paz (Uneb) --
-- Prefeitura Municipal de Sr. do Bonfim --
-- Governo da Bahia --
-- São João da Bahia --
-- Forró do Sfrega Organização --
-- Bahiatursa --
BR 407
A Cidade
Rumo à Juazeiro
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