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on the road
leptokurtic
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Antes de pasar ao argumento em si, reforço meu posicionamento anti-"racista" ou antidiscriminatório por origem, apenas para evitar que eventuais leituras rápidas gerem respostas inflamadas, as quais responderei com quote deste primeiro parágrafo.

Costumo estar a escrever que, em certas ocasiões, o urbanismo como ferramental social tem pretensões totaliátias, prepotentes e que em muito excedem ao papel que deve ter em uma socidade. Claro, esse fenômeno não é restrito ao urbanismo: medicina, economia, engenharia muitas vezes geram movimentos profissionais que pretendem extrapolar o seu espaço e ditar normas e regras onde não lhes convém em um regime democrático.

No início da década de 1970, nos EUA, após a segunda onda de legislação de direitos civis, que acabou com a discriminação legal contra grupos étnico-culturais e trouxe investimentos públicos pesados para reverter a segregação, pesquisadores começaram a perceber que, mesmo em condições materialmente favoráveis em termos urbanísticos como acomodados em imóveis minimamente decentes, livres para circular por onde quisessem, e com filhos frequentando escolas públicas mistas, alguns grupos outrora marginalizados simplesmente não manifestavam capacidade política alguma de se organizarem em atividades típicas de famílias americanas como organizar um jardim comunitário, ou um conselho escolar na escola local, ou mesmo formar qualquer rede de apoio para evitar a prevalença do crime e da vadiagem.

Já passado (felizmente) o tempo em que isso seria atribuído a uma "inferioridade cultural das pessoas de cutis escura e cabelo crespo", sociólogos identificaram um fenômeno de que certas comunidades, mesmo que dotadas da infraestrutura física e de serviços comuns a outras (escolas, ruas decentes, policiamento), não prosperavam e ficavam inertes a problemas como crime, vandalismo, fraude em repartições públicas ou escolas caindo de nível porque não tinham uma "massa crítica" de pessoas culturalmente treinadas para agir como cidadãos com direitos e noções de civismo, e ao invés disso acostumaram-se à passividade social completa, em parte explicada por gerações que se acostumaram a ter a vida ditada por outros sem qualquer chance de mudá-la.

Ao mesmo tempo, outros estudos sociológicos trouexeram as primeiras luzes para a importância - até então ignorada - que a presença de "modelos sociais" tem, no longo prazo, sobre o desenvolvimento e comportamento de crianças e adolescentes, principalmente entre os mais vulneráveis. Isto se refere a um fato comumente aceito hoje de que uma criança socialmente vulneráel (pais que usam drogas, ausência de um ou ambos os genitores, parentes envolvidos com crime) tem muito mais chance de sucesso se, nos anos de formação, estiver próxima a outros adultos cujas vidas e atitudes ofereçam algum contraponto à moral, valores ou exemplos equivocados que têm dentro da própria casa.

A combinação de ambos os consensos científicos deu origem, no entanto, a uma escola de pensamento urbanístico-social preocupante. No seu cerne, está a ideia de que a autossegregação econômica nas cidades (ou seja, pessoas com determinado perfil de renda vivendo próximas a pessoas do memos perfil, com filhos estudando junto com filhos de outras famílias com o mesmo perfil, e frequentando áreas comerciais, de lazer e igrejas onde os demais têm o mesmo perfil) seria muito mais nociva e pervasiva do que a segregação racial imposta pelo Estado.

É importante notar que tal fundamentação não tem um viés necessariamente marxista, ou ao menos não teve na sua concepção: a ideia principal era a de que a única forma pela qual famílias pobres e desestruturadas poderiam, de forma sistemática, ter suas vidas melhoradas no contexto de serviços urbanos, participação cidadã e respeito a direitos básicos seria se elas pudessem "aprender" a se comportar como cidadãs, o que seria muito mais fácil se tivessem um "empurrão", mesmo que passivo, resultante de viverem e coviverem com pessoas já acostumadas a tal comportamento, ainda que nào de forma perfeita.

Então, parte da escola do chamado "New Urbanism" incroporou de maneira perniciosa uma ideia essensialmente anti-democrática: a de que "é justo" que pessoas e famílias de classe média sejam compelidas, através de zonemaneto misto, políticas habitacionais que não coloquem todos os pobres juntos mas distribuídos entre a cidade, escolas obrigadas a terem diversidade não apenas étnico-cultural [n.r.: conceito não aplicável ao Braisl, que nunca teve escolas segregadas por origem étnica], como também econômica, de forma a promover os tais "modelos sociais" que a população mais vulnerável tanto precisa. Correntes mais radicais até defenderam ideias como proibir qualquer novo bairro de ter casas sem uma precificação que permitisse a pessoas de um amplo espectro sócio-econômico morarem lá, ou até mesmo obrigarem prédios a terem tal diversidades de preços.

A idéia imbuída nessas políticas seria a de fazer os mais pobres e desfavorecidos, que no caso americano eram em sua maioria oriundos de grupos discriminados com base éntico-cultural, se "beneficiarem", indiretamente, do ativismo social típico dos "brancos", de forma passiva: se um grupo de mães "brancas" de classe média pressiona o chefe local da polícia para manter traficantes fora do playground e a prefeitura para manter limpa e com salva-vidas a piscina no centro comunitário, as famílias "negras" (em geral) pobres se beneficiariam indiretamente desse ativismo, enquanto se estas morassem todas juntas e usassem as mesmas escolas, parques e praças, não reagiriam por terem sido acostumadas por gerações a aceitarem "migalhas" dos tempos da segregação.

É claro que eu desaprovo a ideia de que um grupo de pessoas deva ser forçado a militar em nome de outro, mesmo que eu considere, no plano individual, um dever moral o de defender certar (mas não todas) as causas alheias de quem não tem voz no cenário político-social (eu, por exemplo, defenderia facilmente o direito de deficientes físicos mesmo não sendo um, mas não moveria uma palha para direitos de certos grupos de afinidade comportamental, ou para lutar contra "a desfiguração da vila de pescador abc por um resort").

No Brasil, as teorias desenvolvidas no Primeiro Mundo em geral sofrem uma "tropicalização" e desvirtuação, e não poderia ser diferente. O Brasil nunca teve segregação racial-étnica institucionalizada desde 1888. Afro-descendentes jamais foram barrados de morar em determinados bairros ou restritos no seu direito de ir e vir. A discriminação e a segregação sempre foram econômicas, atingindo amplos espectros da altamente miscigenada população brasileira.

Ainda assim, ausentes as condições originárias de uma tese já temerária e fascita nos EUA, há quem a tente aplicar, com 20 anos de atraso, ao Brasil. Na versão tupiniquim, o alvo destes urbanistas radicais são condomínios fechados e os bairros "só para classe alta". Enquanto existe tolerância para o fato dos muito ricos e abastados viverem em um mundo à parte onde se chega e sai de helicóptero, existe nesse meio inegável hostilidade à ideia de que a classe média brasileira quer se afastar, em geral, dos mais pobres e desestruturados na sociedade, morando longe dos mesmos, não necessariamente fisicamente distantes, mas socialmente.

A acusação mais frequente é de que a classe média, emergente ou não, quer ignorar a massa de despossuídos nas cidades, se isolando em condomínios fechados, frequentando shoppings centers "que intimidam os muito pobres, exceto se esses entrarem para trabalhar como faxineiros", colocando os filhos em escolas particulares mesmo que ruins e andando de carro. Certos urbanistas radicalizam suas visões defendendo que o Estado deveria intervir na situação, e daí nascem todo tipo de ideia totalitária, como:

- eliminar a prática de se construir conjuntos habitacionais agregados e plantá-los em terrenos no meio de bairros "nobres" ou mesmo nem tão nobres

- "combater" o uso de carro, com o argumento de que quanto a classe media usar transporte público em massa, aumentará a pressão pela qualidade e pela confiabilidade do mesmo (até citam o perfil "diferenciado" dos usuários da CMSP como razão para tal argumento vil e autoritário)

- taxar pesadamente escolas privadas para incentivar a classe média a voltar para e escola pública e, assim, pressionar pela sua melhoria, que acabará beneficiando toda a população (e desde quando urbanismo tem de dar pitaco em política educacional?)

- fazer o mesmo com planos de saúde, e priorizando-se clíninas locais de pequeno porte, pois "se a classe média alta tiver de usar o SUS, ele vai melhorar muito porque no dia que houver uma fila de 8h ou alguém morrer sem vaga baixa a imprensa, acontece passeata e políticos ficam eleitoralmente preocupados e a cidade fica mais justa"

- "desincentivar" (e.g., proibir) shopping centers porque eles seriam espaços de segragação e criar leis para que áreas comerciais sempre tenham negócios voltados para difernetes públicos com difrentes níveis de poder de compra

- priorizar parques de médio porte locais ao invés de grandes parques (como FLoresta da Tijuca, Ibirapuera, PN de Brasília) para "reforçar o senso de comunidade"

- limitar o desenvolvimento de grandes bairros exclusivamente de escritórios e comerciais, para incentivar a dispersão dos empregos e que "o gerente more no mesmo bairro que o office-boy e seus filhos frequentem a mesma escola".

Um dos esperados impactos seria "maior chance" de que crianças morando com mãe solteira que fuma crack aos 17 anos tenham mais chance de não seguir o mesmo caminho porque os vizinhos, os amigos da escola etc. acabariam fornecendo uma "influência positiva" geralmente ausente em comunidades traumatizadas pelo crime e pela falta de referências e oportunidades.

Eu sou contrário a todas essas teses e, mais do que isso, as considero fascistas e violadoras dos direitos individuais. A segregação econômica, se passiva e auto-executada, não é nenhum mal social por si só, e o Estado não tem que meter o bedelho se as pessoas preferem morar em um bairro cercado por muros só com outras casas de pessoas na mesma faixa de renda, ou em um prédio MRV com 200 apartamentos idênticos.

Como cidadão, acredito que eu tenho algumas responsabilidades morais com a sociedade, entre as quais a de defender (quando, se e como quiser), os direitos de outros cidadãos como livre expressão e igualdade formal. Eu acho que escola e saúde pública precisam melhorar, mas que não venha o Estado me obrigar a não usar serviços particulares só para que eu, no alto da minha indignação, seja forçado a lutar por melhorias que vão beneficar quem nào tem ideia alguma de cidadania.

Em termos urbanísticos "strictu sensu" - já que educação e saúde não pertencem ao domínio do urbansmo -, minha preocupação é com propostas totalitárias sobre transportes e dispersão espacial da população. Antes de elaborar mais sobre esses pontos, gostaria da opinião de outros foristas.
 

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#ELESNÃO
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Muito interessante! li com atenção, e assim como vc concordo e discordo com partes desse pensamento/corrente.
É fato que a convivencia em um "meio social estruturado" pode trazer benefícios para pessoas em situação de risco, o contrário também é verdade.
No entanto isso não é uma regra, basta ver os inúmeros exemplos de pessoas de condições humildes e vivem sob situações adversas , porém mantem a dignidade, e pessoas que tem tudo a disposição, convivem em um meio social de iguais e suas vidas são um desastre.
Há uma relatividade nisso tudo, quanto ao estado forçar mesmo que indiretamente o cidadão a morar em determinada área,utilizar o transporte público, proibir determinado tipo de construção como shoppings por considerá-lo meio de segregação social, eu acho absurdo, inaceitável, além de inconstitucional.

Assino embaixo suas plavras:

Como cidadão, acredito que eu tenho algumas responsabilidades morais com a sociedade, entre as quais a de defender (quando, se e como quiser), os direitos de outros cidadãos como livre expressão e igualdade formal. Eu acho que escola e saúde pública precisam melhorar, mas que não venha o Estado me obrigar a não usar serviços particulares só para que eu, no alto da minha indignação, seja forçado a lutar por melhorias que vão beneficar quem nào tem ideia alguma de cidadania.

Em termos urbanísticos "strictu sensu" - já que educação e saúde não pertencem ao domínio do urbansmo -, minha preocupação é com propostas totalitárias sobre transportes e dispersão espacial da população.
 

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no encalço do meliante
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Uma idéia fascista, educação de qualidade para todos (mesmo na marra).

Se o cara depois quiser frequentar o clubinho-dos-amantes-de-vinhos-cabernet-suavingon, problema dele.
 

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Reset
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Não seria "fascista"?
Yep. E a idéia de que cobrar uma obrigação moral seria fascista é uma expansão do conceito de fascismo para além até do significado popular dele de "autoritário," que dirá do significado próprio.

Equivocado? Sem dúvida. Ninguém tem a obrigação moral de ir morar em lugar algum. O que não é a mesma coisa que ser contra o Estado, com o dinheiro de todos, incentivar a especulação imobiliária e privilegiar serviços em áreas ricas. Ou que apontar que uma segregação residencial menor geralmente implica em menos problemas de segurança.
 

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E outra, o termo "obrigação moral" é generalizado. Pode ser usado para qualquer fim.

A) O Estado tem "obrigação moral" de adensar a região da Água Branca pois alí existe infra-estrutura consolidada. Um projeto considerando diversas torres residenciais será proposto e entregue à iniciativa privada.

B) O Estado tem "obrigação moral" de proporcionar lazer adequado à população e de criar áreas permeáveis e propícias à contenção das (históricas) enchentes na região da Agua Branca. Um projeto considerando um grande parque verde e lagos será proposto e entregue à iniciativa privada.

Cada um pode usar a "obrigação moral" como lhe convém. Tanto VOCÊ como as INCORPORADORAS.
 

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Inconsciente Coletivo
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Implicando que a classe média tem poder político, de cobrança, de fiscalização e decisão acima da média.
 

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on the road
leptokurtic
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Discussion Starter · #9 ·
Implicando que a classe média tem poder político, de cobrança, de fiscalização e decisão acima da média.
Não diria "acima da média" mas certamente acima dos mais pobres ou fragilizados, com certeza. Como alguém semi-analfabeto vai conseguir sequer entender o que é "orçamento público", "superfaturamento", "licitação", "estado democrático"?
 

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Acredito que qualquer extremo é prejudicial.
Isso se dá quando o poder público interfere demais na vida do cidadão, tanto quando não interfere o suficiente.

Acredito que algumas coisas devem ser impostas pelo governo para o funcionamento da sociedade, tais como: O cumprimento das leis, a obrigatoriedade dos pais de manterem seus filhos na escola (ou mesmo home schooling), o cumprimento das penas, a obrigatoriedade de atendimento de emergência, etc.
Por outro lado, liberdade de expressão, liberdade de escolhas, etc devem também ser garantidas pelo governo. E uma coisa não pode anolar a outra.

Na situação de "obrigar" a classe média viver juntos dos pobres, eu acho um erro. O que pode ser feito é o governo construir edifícios para a classe pobre em áreas de classe média, ou incentivar a construção de edifícios para a classe média em áreas mais pobres para atrair as famílias que acabaram de subir de classe e que consideraríam um apartamento melhor e maior, mesmo que em área mais pobre.

Isso eu acho favorável, pois diminui o "gap" cultural entre as classes, além de forçar o governo em investir em infraestrutura nas áreas mais carentes, já que a classe média é mais exigente. Isso inevitavelmente melhoria a condição de vida dos mais pobres, o que elevaria a qualidade de vida geral no país.
 

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A função do Estado, em minha concepção, em suma, é de prover Saúde, Educação, Segurança, Infraestrutura, e regular (não controlar) alguns setores da economia, principalmente o setor financeiro, ao mesmo tempo protegendo a indústria e a economia nacional, sobretudo Ciência e Tecnologia.

A função do Estado não é a de decretar onde determinado cidadão deve morar ou não, independente da condição social. Cada indivíduo deve morar onde bem entender, pela razão que quiser. O Estado influir nisto seria um desrespeito à liberdade individual.

Naturalmente, o Estado deve sim tomar atitudes para que a desigualdade sempre se mantenha caindo, e principalmente, provendo oportunidade para todos os cidadãos, sobretudo no que diz respeito a educação, dentro do mundo que concerne o capitalismo, e fazer com que a população mais pobre cada vez menos necessite do auxílio do Estado, ascendendo assim a situação de classe média. Contudo, no que diz respeito as liberdades individuais dos cidadãos de seu país, independente da condição social, o Estado não deve meter o dedo.
 

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A função do Estado, em minha concepção, em suma, é de prover Saúde, Educação, Segurança, Infraestrutura, e regular (não controlar) alguns setores da economia, principalmente o setor financeiro, ao mesmo tempo protegendo a indústria e a economia nacional, sobretudo Ciência e Tecnologia.

A função do Estado não é a de decretar onde determinado cidadão deve morar ou não, independente da condição social. Cada indivíduo deve morar onde bem entender, pela razão que quiser. O Estado influir nisto seria um desrespeito à liberdade individual.

Naturalmente, o Estado deve sim tomar atitudes para que a desigualdade sempre se mantenha caindo, e principalmente, provendo oportunidade para todos os cidadãos, sobretudo no que diz respeito a educação, dentro do mundo que concerne o capitalismo, e fazer com que a população mais pobre cada vez menos necessite do auxílio do Estado, ascendendo assim a situação de classe média. Contudo, no que diz respeito as liberdades individuais dos cidadãos de seu país, independente da condição social, o Estado não deve meter o dedo.
O mercado Rajude não tem o menor compromisso com o patrimônio histórico...

O mercado não tem o menor compromisso social com a cidade e muito menos com o seu desenvolvimento urbano...


É preciso sim haver o mínimo de intervenção governamental para que o "mercado" , no caso específico, imobiliário,não faça com SP o que já fez nas últimas décadas, ou seja, desfigurou a cidade, criou ilhas de riqueza e zonas de miséria africana.
 

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O mercado Rajude não tem o menor compromisso com o patrimônio histórico...

O mercado não tem o menor compromisso social com a cidade e muito menos com o seu desenvolvimento urbano...


É preciso sim haver o mínimo de intervenção governamental para que o "mercado" , no caso específico, imobiliário,não faça com SP o que já fez nas últimas décadas, ou seja, desfigurou a cidade, criou ilhas de riqueza e zonas de miséria africana.
Exatamente, por isso é que o Estado deve ser sempre o responsável por prover Saúde, Educação, Segurança, e assim por diante, sempre favorecendo a população mais pobre a fim de que possa ascender socialmente, dando condições para que a classe média melhore cada vez mais, e dar competitividade para a indústria nacional diante de questões globais adversas, sempre provendo condições para que a população mais pobre dependa cada vez menos do Estado, de modo que possa passar a adquirir os seus bens com o seu esforço próprio, mas, para isso, naturalmente, o Estado deve ser o responsável por dar o "empurrão inicial", em minha concepção.

O mercado, no mundo capitalista em que vivemos, naturalmente tem o interesse no lucro, e nisso não há segredo, e por isso, dentre outras coisas, deve ser devidamente regulado. A intervenção governamental deve existir, mas isso varia dependendo do lugar, da época vivida, e de outros fatores. Eu, particularmente, odeio a idéia de uma ideologia imutável e fixa que prega pelo mesmo ideal independente do lugar do mundo ou da situação a qual diz respeito. Cada país, cada Estado, e cada município, possuem prioridades distintas, e devem ser tratadas como tal, de modo que o programa de governo deve se adaptar a situação vivida pelo país.

Por outro lado, no que diz respeito às liberdades individuais, que é o que é tratado aqui, sou veemente contra qualquer intervenção do Estado. Sou veementemente contra qualquer idéia que passe perto de um Estado autoritário, que tenha por tendência controlar de alguma forma a vida e a opção defendida por cada cidadão, que neste caso se reflete na questão da obrigatoriedade de se morar em bairros mais pobres, mas que abrange um espectro muito maior, como censura, opressão as minorias, e outros fatores. É o Estado que trabalha para a população, e não a população que segue as ordens delineadas pelo Estado, sendo que Estado sempre deve se sobrepor aos interesses privados e/ou partidários, tendo sempre uma visão desenvolvimentista, provendo sempre o que é melhor para o país.

O que ocorre em São Paulo, no que diz respeito a questão do patrimônio histórico, é algo realmente lastimável. Eu, particularmente, valorizo demais os valores históricos e culturais de nosso Estado, de nossa cidade, e de cada particularidade existente em nosso país, que é o que de fato forma o país, com a sua diversidade. Aliás, por essa razão, sou contra a idéia de "cosmopolitismo", sou desfavorável aos que se dizem "cidadãos do mundo", pois isso se trata de uma massificação cultural, que despreza os valores de cada povo, fazendo-os perder a sua identidade cultural original, que em geral é substituída pela "cultura Yankee". Ocorre que os interesses das construtoras, sempre tem literalmente esmagado o nosso patrimônio, e isto principalmente em função do Plano Diretor terrível que não sabe lidar com o desenvolvimento econômico aliado a manutenção dos valores históricos e culturais da cidade. Em uma cidade como São Paulo, é perfeitamente factível que ambas as coisas possam coexistir, de modo que o nosso patrimônio seja preservado, e ao mesmo tempo a construção civil cresça, gerando riqueza e renda para diversos setores da economia. Lamentavelmente, atualmente, tanto no Brasil, quanto em São Paulo, assim como vários outros lugares do mundo, os valores históricos, culturais, e regionais, são cada vez mais subestimados, e interesses privados passam a se sobrepor ao interesse coletivo.
 

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Então, no caso da prefeitura de São Paulo e do governo do Estado de São Paulo, penso que deveriam agir e de forma efetiva no combate a prática do mercado imobiliário de mudar os nomes, as identidades do bairros da cidade, por exemplo.

Isso é um crime contra a memória e contra a cidade.

Anunciar que um prédio que será construído em frente ao Shopping Bourbon na Pompéia fica em Perdizes é um atentado à cidade.

Chamar Santa Cecília de Higienópolis, Campo Limpo de Morumbi Sul e coisas do tipo são práticas asqueirosas do mercado contra a cidade.

A barganha com políticos para desfigurar bairros residenciais de casas antigas e expulsar moradores para a construção de prédios de apartamentos horríveis com muros de 3 metros de altura, matando ruas ao redor e contribuindo para a degradação urbana. Isso deveria ser combatido.

A especulação imobiliária através da troca de favores e tudo mais DEVE ser controlado pelo poder público, porque o "mercado" quer mais é empilhar as famílias em prédios feiosos de 40 andares e se pudessem empilhavam mais alto para obter mais lucro, sem se importar com outros impactos à cidade, como a mobilidade urbana, o caos, o meio ambiente enquanto espaço de todos.

Quanto a moradia popular, não vejo a menor razão para não se construir junto a classe média.

Segregar pessoas só serve para criar um abismo entre elas.
 

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Construir junto da classe média conjuntos habitacionais evidentemente sim, mas uma coisa é isso, outra coisa é obrigar os moradores a morar perto de quem quer que seja.

Quanto a questão de controlar as construtores, isso depende dos meios. Quando eu cito o termo regular as construtoras, me refiro no seguinte aspecto:

O objetivo do Plano Diretor é, evidentemente, o de regular e inclusive controlar o crescimento do município, e acho que é por meio dele que isso deve ser feito, pois de fato não ocorre efetivamente na atualidade.

O Plano Diretor deveria proibir a demolição de construções em determinados locais, e, ao mesmo tempo, conceder benefícios para que as construções dos locais sejam revitalizadas, naturalmente mantendo os seus aspectos originais, pois também não adianta dizer que não pode construir em determinada região, e depois largar a região. Ela simplesmente se degradará.

Por outro lado, as construtoras constroem de acordo com a demanda existente, pois se existem famílias melhorando de vida, essas querem ir morar em um lugar melhor, e daí cresce a demanda, que aquece o setor de construção civil.

Nesse sentido, deveria haver áreas onde seria feito um adensamento planejado, e não de qualquer jeito, onde as regiões seriam providas de meios de transporte, e outros. Com um bom planejamento, é possível promover o desenvolvimento econômico aliado a preservação de nossa história. Ainda existe muita coisa para acontecer, mas quero ver qual vai ser o resultado efetivo da revitalização da Cracolândia.

Lamentavelmente, é difícil se sobrepor aos interesses de alguns, e também existe outra questão que deve ser considerada, a bem da verdade, que é a de que as prefeituras do Brasil, o que inclui São Paulo, possuem uma participação muito pequena no recolhimento de impostos se comparado a outros países, e assim elas passam a ter menos recursos para realizar intervenções urbanas, desse modo, o orçamento disponível torna-se insuficiente.

De todo modo, também não existe vontade política pela maior parte para realizar tais reformas no Plano Diretor, e as medidas adotadas, que existem sim, ainda são bem limitadas em comparação com o aspecto global, e temos que ficar a mercê dessa situação.
 

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Discussion Starter · #18 ·
Seria facista a idéia de que os pobres teriam obrigação mercadológica de morar na periferia?
O exercício de diversas prerrogativas da vida social, como a compra de uma casa, de um carro, uma viagem, cursos de artes para os filhos etc. está condicionado à capacidade econômica. Ninguém considera autoritária a ideia de que quem não é milionário não pode comprar as mais caras joias disponiveis no mercado, ou jantar em um restaurante estrelado com curso completo a R$ 430 + bebidas. É algo normal em uma sociedade em que cada um tem um diferente nível de renda.

Considero que, no cenário ideal, todos os bairros deveriam ter condições habitáveis decentes, asfalto, água e esgoto, policiamento, limpeza urbana e construções apenas regulares. Mas se, dadas essas condições, o mercado empurrar as moradias mais baratas para a periferia (como no Brasil) ou para as áreas entre o centro e a periferia externa (como nos EUA, em geral), é o livre resultado do livre mercado.

Em geral, quando alguém não tem como pagar por algo mas quer a qualquer custo, chamamos de roubo, invasão, assalto, descaminho etc.

O mercado Rajude não tem o menor compromisso com o patrimônio histórico...
E nem precisa ter, tchello. Construtora tem um papel: ganhar o máximo possível construindo e vendendo imóveis de acordo com as demandas dos compradores. Claro que o Estado precisa regular essa atividade para que os edifícios sejam seguros, sigam os limites impostos pela legislação em altura, recuos, pé-direito etc., mas não é função dos agentes do mercado imobiliário se preocuparem com o resultado das suas atividades, a menos que isso afete seus lucros. Se está dentro da lei, podem atuar com liberdade, sem preocupações adicionais.

É preciso sim haver o mínimo de intervenção governamental para que o "mercado" , no caso específico, imobiliário,não faça com SP o que já fez nas últimas décadas, ou seja, desfigurou a cidade, criou ilhas de riqueza e zonas de miséria africana.
O problema da distribuição de renda passa por, mas não tem origem necessária na situação habitacional. Precisamos é que o Estado construa infra-estrutura (rodovias, ferrovias, redes principais de água e esgoto, energia) para que as construtoras ergam as casas que o povo pode pagar. E se a renda do povo é baixa, então temos um outro, não negligenciável.

O fato de que todas as áreas devam ter serviços públicos básicos nào significa que devamos mascarar a desiguldade de renda induzindo as pessoas a moraram em bairros mistos, por exemplo. Isso deve ser uma opção individual, quase sempre uma opção individual de quem tem mais grana.
 

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leptokurtic
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Discussion Starter · #19 ·
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Construir junto da classe média conjuntos habitacionais evidentemente sim, mas uma coisa é isso, outra coisa é obrigar os moradores a morar perto de quem quer que seja.
Se vc restingir excessivamente as liberdades do mercado imobiliário, vc acaba "obrigando" a ocorrência desse cenário. É o que ocorre em algumas cidades da Europa, tão, mas tão cheia de regras para novas construções que obrigam os emrpeendedores a reservarem parte de novas unidades para baixa renda, e nos mesmos prédios/ruas.
também existe outra questão que deve ser considerada, a bem da verdade, que é a de que as prefeituras do Brasil, o que inclui São Paulo, possuem uma participação muito pequena no recolhimento de impostos se comparado a outros países, e assim elas passam a ter menos recursos para realizar intervenções urbanas, desse modo, o orçamento disponível torna-se insuficiente.
Não é o caso. Esse é um certo "mito" propagado por aí, mas se você considerar as transferências estatutárias de recursos como FPM, Fundeb etc., o % de arrecadação gerido pelos municípios é até bem elevado. Aliás, se as prefeituras quisessem poderiam aumentar sua arrecadação cobrando mais IPTU, mas em geral esse é um tópico sensível, gera perda de votos, e então prefeituras, principalmente as de pequeno porte, preferem até ignorar o imposto. Um imposto territorial, em suas diversas formas, é o meio mais tradicional de financiar os serviços públicos básicos locais.

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Então, no caso da prefeitura de São Paulo e do governo do Estado de São Paulo, penso que deveriam agir e de forma efetiva no combate a prática do mercado imobiliário de mudar os nomes, as identidades do bairros da cidade, por exemplo.

Isso é um crime contra a memória e contra a cidade.

Anunciar que um prédio que será construído em frente ao Shopping Bourbon na Pompéia fica em Perdizes é um atentado à cidade.

Chamar Santa Cecília de Higienópolis, Campo Limpo de Morumbi Sul e coisas do tipo são práticas asqueirosas do mercado contra a cidade.
Acho que isso é tempestade em copo d'água. As pessoas, construtoras, imprensa podem e devem chamar locais e regiões como bem entenderem. Não dá pra controlar algo fluido como denominação extra-oficial de praças, conjuntos de ruas e avenidas etc. Intervir aí seria apenas colocar uma burocracia extra, e abrir a porta para mais abusos, do tipo vereador topando mudar a linha que divide dois bairros para que uma construtora possa anunciar um empreendimento como localizado em um bairro top, e nào em um bairro "loser".

Quanto a moradia popular, não vejo a menor razão para não se construir junto a classe média.

Segregar pessoas só serve para criar um abismo entre elas.
O problema é que, quando isso ocorre, muitas vezes a classe media sai do local, e busca locais mais exclusivos.
 

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kriok
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Suburbanist,
Antes de tudo, agradeço-te por ter a iniciativa de criar um tópico sobre este assunto. Em seguida eu me sinto obrigado (por mim mesmo, claro) a me posicionar contrariamente ao teu eixo ideológico, reponsável talvez, pela alcunha "fascista" implementada ao Urbanismo Social. Abaixo exponho meu ponto de vista.

Não estaríamos nós, controlados eternamente por entidades maiores que o próprio indivíduo? Claro que sim. Seja o Estado, seja a iniciativa privada (a imprensa, a construção civil, os planos de saúde, a educação e acima de tudo, a formação privada, a religião...), estamos sempre sendo controlados por estas.

A questão é: qual é o interesse do Estado em obter o comando da sociedade e qual o é interesse destas entidades privadas. Pareço fugir ao tema, pois pegarei como exemplo o caso das emissoras de tv. Uma emissora pública, não-estatal, normalmente não tem ou não deve ter fins lucrativos, enquanto uma emissora privada tem como vital interesse o seu próprio lucro. Agora volto-me ao urbanismo.

Qual é o propósito da existência do Estado senão a própria gerencia do espaço físico, socio-cultural e econômico ao que damos o nome de país, estado, município?

Ninguém é obrigado a morar em situação que o desagrade. Esta regra vem do próprio capitalismo. Os insatisfeitos juntam suas economias e vão para um outro lugar. Por isso mesmo o urbanismo age neste sentido. Qual(quais) camada(s) social(sociais) teriam esta mobilidade facilitada pelo capital? As classes alta e média. E qual o tipo de interferência deve ser tomada pelo Estado? Ao meu ver, como urbanista, é favorecer ao funcionamento da mesma. Para isso, criamos leis e consequentes planos.

Um Plano Diretor deve prever como a cidade deve crescer para que ela cresça da melhor maneira possível. E nesta hora é importante olharmos para a classe pobre, pois na Suécia, na Dinamarca, no Brasil, no Irã e na Somália, o que determina o grau de desenvolvimento e a qualidade de vida em geral não é a condição da classe alta ou da classe média, e sim, qual o nível de vida da classe pobre. Afinal em todos os países citados, notamos a existência destas três classes sociais. Agora, o que é ser pobre na Suécia e o que é ser pobre na Somália? Isso é de responsabilidade do Estado. Se ele observa um processo de bipolarização da sociedade, entre uma pequena elite e uma maioria pobre, é dever dele, agir de maneira contrária a esta tendência, mesmo que tenha que forçar algumas medidas.

Participei ativamente do chamado PAC Manguinhos, no Rio de Janeiro. Ele acaba de ser premiado no MoMa, em Nova Iorque. Mas antes de falar em premiação, eu chamo atenção para o impacto de um projeto destes na cidade do Rio. "Espalhar" desenvolvimento é contribuir para a cidade num todo. Por isso acho válido implementar equipamentos urbanos, outrora postos em áreas nobres da cidade, nas áreas que precisam urgentemente de desenvolvimento. Seguindo esta lógica, sou totalmente a favor que sejam implementados equipamentos voltados a classes menos abastadas financeiramente, em regiões elitizadas da cidade.

Este "forçar" nada mais é do que uma necessidade de estado, numa sociedade capitalista. Notório é que, numa sociedade capitalista, as classes se defendem com o poder financeiro que tem, pois é ele que determinará a eficácia desta defesa. Se o Estado se ausenta, vira a lei do mais forte. E durante a maior parte da História do Brasil o que vemos é o poder da elite determinar políticas de Estado. Isto concretizou todo o desequilíbrio social que temos hoje no país. Isto desmontou a Educação, a Saúde, a Estrutura e a Infra do país e de cada cidade. Daí vêm os problemas sociais. No Brasil existem São Paulo, Rio, BH, Porto Alegre, Curitiba, e ao mesmo tempo existem cidades que são quase inacessíveis por não terem estradas, cidades com IDH somente vistos em países estereótipos de pobreza no mundo. Tudo isso por influência do capital que uns tem e que para outros, falta. Para o urbanista, mais vale uma transposição do Rio São Francisco que uma Cidade da Música na Barra da Tijuca. Por que a Cidade da Música não foi feita em Santa Cruz, ou Campo Grande, deslocando o eixo de desenvolvimento para áreas que carecem dele na cidade?

Eu acompanho este tipo de urbanismo social(que eu chamo de Urbanismo mesmo, porque ele é ou deveria ser sempre de cunho social) aqui em Toulouse, na França. Estudei o desenvolvimento da cidade que, como demais cidades de expressão na Europa, passaram e ainda passam por uma reconstrução após a Segunda Guerra. No caso francês, o pós-guerra também significou uma explosão demográfica em meio à pobreza de um país devastado, que chamam aqui de baby boom. Para evitar o crescimento desordenado, foi criado em Toulouse um plano previsto para uma atuação de 50 ou mais anos. Nada de plano decenal, que para a escala urbanística, representa um espaço de tempo muito curto. Enfim, e o foco escolhido foi o de sempre: a posição do pobre na sociedade local.

Desde então, vemos políticas urbano-sociais que fazem da cidade, a quarta maior do país. Agora veja, onde fizeram o mais recente campus da Université Nationale? No Mirail, um bairro distante do centro, onde habitam em maior parte, imigrantes das ex-colônias norte-africanas. A Ecole Nationale Superieure d'Architecture também está nesse mesmo bairro do subúrbio toulousain. O aeroporto da cidade, assim como a sede da Airbus, se encontra numa cidade satélite de Toulouse, Blagnac. O maior Centro Comercial se encontra noutra, Balma e, como complemento dessa lógica, um corredor expresso foi criado, circundando a cidade e espalhando os investimentos essenciais por estes lugares. O resultado é que todos estes lugares possuem uma economia própria e estável, a ponto de terem seus próprios cadernos dentro do Plano Urbanístico. Bairros residenciais inteiros estão sendo construídos nas proximidades destas cidades satélites, assim como no subúrbio da cidade, prevendo uso misto entre comércio, escritórios e também, tendo ofertas de apartamentos para todas as demandas sociais. A cidade agora se prepara para receber, além das duas linhas de metrô existentes e completas, o tramway que através de três linhas integrará modais e cidades do centro metropolitano de Toulouse.

O que quero dizer é que, na presença de um Estado atuante e de um Urbanismo com foco na sustentabilidade de um sistema social, a França possui um número infinitamente maior de pequenas e médias cidades estruturadas, que o Brasil. Toulouse seria equiparável em tamanho à Juiz de Fora, mas em estrutura viária, saúde, educação, mobilidade social, acima do Rio de Janeiro, e tudo isso com menos dinheiro. E por que?
Porque só agora o Rio está levando a sério o abismo social que existe na cidade. Não temos mais o make up chamado Rio Cidade, para termos projetos que contemplam bairros pobres, implementando equipamentos como uma Biblioteca Parque, Centro de Referência da Juventude, Centro de Geração de Renda, Escola de Ensino Médio de Referência e tudo isso com uma agenda de projeto sustentável.

Em contrapartida, temos a Metro Rio, uma concessionária do Metropolitano do Rio de Janeiro, responsável pela extensão e manutenção de duas linhas: a linha 1, que atende áreas da cidade onde estão em maior parte a classe alta e a classe média, e a linha 2, que liga bairros pobres ou de classe média baixa ao Centro do Rio. Pois bem, existe uma demanda gigantesca na linha 2 que não é atendida porque faz anos que trecho do projeto que a liga ao centro nervoso da cidade não foi completado. Por outro lado a linha 1 está aos poucos sendo prolongada da Zona Sul (Ipanema, Leblon) até a Barra da Tijuca. Pressão do capital especulativo, pressão do capital hoteleiro, pressão das associações de moradores que representam as camadas mais influentes da sociedade. Convenhamos, a concessionária está certa, porque ela visa o lucro, e não o bem da cidade. Ela é privada, logo o capital é determinante. O Brasil é capitalista, logo o capital é determinante. Mas felizmente, temos o Estado regulando, o que permite que nem sempre o investimento esteja do lado do capital. E nesta hora o profissional do urbanismo coaduna com o Estado. Inevitável. Cito os itens por ti listados agora:

"- eliminar a prática de se construir conjuntos habitacionais agregados e plantá-los em terrenos no meio de bairros "nobres" ou mesmo nem tão nobres

- "combater" o uso de carro, com o argumento de que quanto a classe media usar transporte público em massa, aumentará a pressão pela qualidade e pela confiabilidade do mesmo (até citam o perfil "diferenciado" dos usuários da CMSP como razão para tal argumento vil e autoritário)

- taxar pesadamente escolas privadas para incentivar a classe média a voltar para e escola pública e, assim, pressionar pela sua melhoria, que acabará beneficiando toda a população (e desde quando urbanismo tem de dar pitaco em política educacional?)

- fazer o mesmo com planos de saúde, e priorizando-se clíninas locais de pequeno porte, pois "se a classe média alta tiver de usar o SUS, ele vai melhorar muito porque no dia que houver uma fila de 8h ou alguém morrer sem vaga baixa a imprensa, acontece passeata e políticos ficam eleitoralmente preocupados e a cidade fica mais justa"

- "desincentivar" (e.g., proibir) shopping centers porque eles seriam espaços de segragação e criar leis para que áreas comerciais sempre tenham negócios voltados para difernetes públicos com difrentes níveis de poder de compra

- priorizar parques de médio porte locais ao invés de grandes parques (como FLoresta da Tijuca, Ibirapuera, PN de Brasília) para "reforçar o senso de comunidade"

- limitar o desenvolvimento de grandes bairros exclusivamente de escritórios e comerciais, para incentivar a dispersão dos empregos e que "o gerente more no mesmo bairro que o office-boy e seus filhos frequentem a mesma escola."



Eu só posso estar de acordo com esta lista, pois é a partir dela que a cidade evolui num todo. Mas talvez não tenha posto o real motivo destas medidas:

Conjunto Habitacional é um conceito, ao meu ver, falido. Seria como o panis et cincences do urbanismo. Dá-se casa e não cidadania, não se insere o cidadão no seu contexto e na cidade formal, ele não se sentirá em seu lar.

Combater o uso do carro nada mais é do que estar em dia com a agenda mundial de sustentabilidade. Qualquer um que more um qualquer região metropolitana sabe que é o carro o maior responsável pelos congestionamentos. O teor social deste combate é simplesmente que o transporte público esteja ao alcance de todos. E combater congestionamentos e poluição faz bem para a cidade, num todo.

Escolas privadas deveriam, ao meu ver, ser taxadas (ou melhor, multadas)quando não representarem uma relação custo/benefício para o cidadão. E ao mesmo tempo deveria funcionar como concessões. Se a qualidade cai, perde a concessão. E na verdade essa coisa de valores financeiros de taxa de matrícula e mensalidades é determinada baiscamente pela escola. Lógica obviamente capitalista, pois são privadas e depende do lucro. O ensino no país deveria ser essencialmente público para ser igualitário.

Saúde Pública. Nada melhor do que forçar o povo a usar um sistema bancado por ele mesmo. Faço um parêntese para explicar que, se o Estado não força o cidadão, num meio capitalista, ele não se importará com o que acontece com o outro. Esta é uma regra do individualismo. Oferecemos a liberdade de mercado, onde somente os mais aptos (financeiramente capazes) têm alguma chance.

Shopping centers, que aliás poderiam se chamar Centros Comerciais, são uma catástrofe urbana a partir de que se fecham para o espaço público. Tão bonito é, passearmos pelas ruas belíssimas de Paris, com suas lojas de grife e fachadas luminosas. Pergunto-me então por que não desejarmos isto para nossa própria cidade. Uma cidade com espaço público não dotado de vida estará sujeito à violência urbana.

Parques como o Parque Nacional da Floresta da Tijuca, são parques de difícil manutenção ou mesmo de controle. São áreas densas que ao mesmo tempo que permitem a expansão de favelas e rotas de fuga para o tráfico, dificultam a ação policial, o controle territorial do estado e mesmo a defesa destes parques contra invasões é extremamente complicada. Entretanto, sou a favor da preservação destes. O que digo é que, sejam de acesso restrito, enquanto parques de médio porte permitem atividades esportivas, de contemplação e lazer sem afetar a segurança do cidadão.

Bairros de grande desenvolvimento comercial e econômico atraem uma demanda numerosa, o que acarreta em problemas sérios nas vias urbanas. O ideal é que sempre haja uma relação entre a população de uma área e a presença de um centro próximo para evitar grandes deslocamentos.

Termino com uma provocação sadia para debate:

O muro e a grade dos condomínios e edificações em geral combatem a violência urbana ou geram a violência urbana? Afinal, numa cidade desigual, em que todos os edifícios apresentem grades, muros, circuitos internos de tv, e outras tecnologias, a violência será maior do que numa cidade em que nenhum prédio apresente estas coisas, embora a violência ainda esteja lá. O abismo social e desigualdade perante a Justiça (corrupção) é que é o culpado da violência urbana. A progressão dos equipamentos de segurança é simplesmente ******* pois, hoje já não basta blindados, tem que ser helicóptero e daqui à algum tempo eles serão alvos de qualquer forma.

O que determina o grau de desenvolvimento de um lugar é a qualidade de vida do pobre, na minha humilde e técnica maneira de ver.


Obrigado pelo tópico.
 
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