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Uma radiografia da produção e do consumo no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul

Saiu na revista Amanhã (uma revista que trata basicamente de assuntos da regiao sul) uma reportagem bem interessante sobre a nossa região.

http://www.amanha.com.br/NoticiaDetalhe.aspx?NoticiaID=2768ca04-429d-4a3e-a9c1-dac493322ce6



Pra quem quer conhecer um pouco mais sobre a economia e desenvolvimento da região.. vale a leitura.

abaixo um resumo da reportagem:

Consumo
Um mercado rico e seletivo
A crise não excluiu o Sul da elite do consumo brasileiro. Mas tornou ainda maior o desafio de conquistar clientes nessa região

Indústria
Barba, cabelo e bigode
Não há um item sequer na produção fabril brasileira que fique de fora do mix de produtos da indústria do Sul. O desafio é aliar essa versatilidade à inovação

Agronegócio
Vantagem duradoura
Por que o avanço do Centro-Oeste ainda está longe de ameaçar o peso do Sul no agronegócio

Infraestrutura
Não faltam oportunidades
Mesmo com gargalos preocupantes, o Sul se destaca em quase todas as áreas da infraestrutura

O peso político
Em busca de uma bandeira
Os Estados do Sul penam para construir uma agenda comum e atuar em bloco. Por enquanto, só estão unidos na queixa de que arrecadam muito para a União e recebem pouco em troca

Quem é quem
Confira gráficos que apontam potencial de consumo, PIB, densidade demográfica, expectativa de vida, PIB per capita, exportações, superávit comercial, maiores empresas e setores mais importantes de cada um dos três Estados do Sul do Brasil. Clique neles:
 

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J Dolci, excelente achado a matéria está excelente. Post a matéria inteira aqui que facilita bastante, com os textos e as imagens também.
 

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Nada menos do que 67% do maquinário agrícola produzido no Brasil tem origem no Sul, assim como metade dos motores elétricos e 41% da produção de papel. Em outros segmentos, o Paraná, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul concentram um terço da produção nacional, como petroquímicos básicos (34,3%), têxteis (27,6%) e fertilizantes (27,6%).

:laugh::colgate:


Ali apresentam o PIB do RS em 123 milhões, e do PR em 113milhões, será que isso procede? Acho que a diferença entra os dois é maior que isso.
 

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Isso sem citar a atividade agroindustrial, sendo o Oeste de SC sede das maiores agroindústrias da América Latina (Sadia, Perdigão, Aurora, Seara, Chapecó etc). O Planalto Norte de SC é um dos maiores pólos moveleiros da América Latina. O porto de Itajaí (SC) é o segundo maior do país, e primeiro em movimentação de containers; o porto de São Francisco do Sul (SC) é o quinto maior do país. As indústrias têxteis já foram citadas, mas vale mencioná-las: Hering, Teka, Carsten, Hacco (maior fabricante internacional de etiquetas), Buettner, Malwee etc. Isso só em SC.
 

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...ah ! se os estados tivessem mais autonomia sobre os próprios recursos financeiros...!!!

A história seria outra bem diferente para o Sul, melhor evidente.
 

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Sul, o pequeno gigante

Uma radiografia da produção e do consumo no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul

Os gráficos e tabelas deste especial não têm a pretensão de retratar o sul como um eldorado econômico. O objetivo é mais simples: mostrar como os três Estados da região conseguem acumular, em uma pequena ponta do mapa nacional, forças suficientes para ditar os rumos de alguns setores vitais para a prosperidade do país. A começar pelo agronegócio. Juntos, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul produzem nada menos do que 41,6% dos grãos colhidos no Brasil. Também fabricam 67,6% das máquinas agrícolas e dominam mais de um terço das lavouras. Para uma região que ocupa menos do que a décima parte do território brasileiro, são índices robustos.

Mas o fato é que esse protagonismo não se resume ao agronegócio - e aí está uma das grandes contribuições do material preparado por AMANHÃ. No especial "A Força do Sul", o leitor vai descobrir, por exemplo, que a região também se sobressai como um polo de consumo qualificado, onde as marcas que têm tradição e credibilidade encontram clientes leais e com alto poder de compra. Não por acaso, o sul é destino de 21% de todos os veículos comercializados no país. O grande desafio é conseguir entrar nesse mercado. Com um nível educacional relativamente mais alto e com uma cultura ainda muito influenciada pela imigração européia, o consumidor do sul tem gênio difícil. Não gosta de mudanças, desconfia do que não é da sua aldeia e, quando pode, tende a diversificar seus gastos em vez de concentrá-los em alguns poucos produtos, como ocorre na Bahia, por exemplo.

A indústria é outro setor no qual o sul exibe músculos avantajados. Com vocação para exportar, a região formou um parque industrial diversificado, capaz de produzir de tudo, como reconhece o próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa versatilidade é sustentada por uma base tradicional de indústrias, principalmente dos ramos metal-mecânico e de alimentos. Mas se estende cada vez mais por segmentos que empregam tecnologia intensiva, como fábricas de software, automação e até chips - caso do Ceitec, a primeira fábrica de circuitos integrados do Brasil, que se localiza em Porto Alegre. Hoje, é das indústrias do sul que saem metade dos motores elétricos do país, além de 41% do papel (e 22% da celulose), 34% dos calçados e 29% das resinas plásticas.

Não se trata de ver e retratar o sul mais forte do que realmente é. E isso se torna ainda mais evidente na análise sobre a infraestrutura da região. Juntos, os três Estados vivem uma situação atípica: apresentam médias altíssimas em quase todos os indicadores de transportes, energia e saneamento. Mesmo assim, ainda sofrem com gargalos logísticos preo¬cupantes - alguns deles, capazes até de comprometer o crescimento da região no futuro. A situação só não é mais séria por causa da crise, que afetou o ritmo da atividade econômica e impediu que a infraestrutura do sul entrasse em colapso. Para solucionar esse problema, os governos do sul apostam nos investimentos do PAC e da iniciativa privada, o que sinaliza boas oportunidades na área logística. Mas será necessário mostrar mais coesão nas ações junto ao governo federal. A reportagem final, sobre a força política do sul, deixa claro que esse poderio não é pequeno - mas ainda esbarra na falta de união e articulação dos parlamentares.

Sempre há uma oportunidade escondida atrás de grandes ameaças. Ajudar a encontrá-las é, também, um dos papéis do especial "Força do Sul". Veja mais acessando as reportagens abaixo:

http://www.amanha.com.br/NoticiaDetalhe.aspx?NoticiaID=2768ca04-429d-4a3e-a9c1-dac493322ce6
 

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Consumo

Um mercado rico e seletivo

A crise não excluiu o sul da elite do consumo brasileiro. Mas tornou ainda maior o desafio de conquistar clientes nessa região

Dependente das exportações - tanto de commodities agrícolas quanto de produtos manufaturados -, a região sentiu no âmago os efeitos da crise financeira global. Indústrias demitiram, salários encolheram e o resultado foi inevitável: o sul perdeu peso no ranking das regiões com maior potencial de consumo do país, elaborado anualmente pela consultoria Target Marketing. Como se não bastasse, vem sofrendo as conse¬quên¬cias de uma longa e rigorosa estiagem, que arruinou o crescimento da sua safra de grãos e, literalmente, fez secar o bolso do consumidor ainda mais. Hoje, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul respondem por 16,31% do potencial de consumo do país, segundo o estudo "Brasil em Foco", divulgado pela Target em maio deste ano. O índice não deixa de ser atraente, claro. Mas é menor do que costumava ser em outros tempos. Em 2001, por exemplo, o sul apresentava um potencial de consumo equivalente a 18,3% do total brasileiro, maior até do que o do nordeste, que desde 2008 é o vice-líder do ranking nacional, atrás do sudeste.

Apesar de tudo, o sul continua sendo um dos centros de consumo mais importantes do país. Consumo qualificado, vale frisar. Basta conferir os gráficos ao lado. Hoje, os três Estados detêm a segunda maior renda per capita do país, de R$ 14,3 mil por habitante - 15,5% supe¬rior à média brasileira e inferior apenas à do sudeste. Ao mesmo tempo, ostentam os melhores indicadores de qualidade de vida do país, a começar pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que leva em conta fatores como longevidade, renda e educação. Em uma escala que vai de 0 a 1, o IDH do sul é de 0,830. Já a média nacional não passa de 0,807. A diferença depois da vírgula é grandiosa: se formassem um país, os três Estados do sul ficariam nada menos do que 20 posições à frente do Brasil no ranking global do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), responsável pelo monitoramento do IDH.

Um mercado à parte

Tais peculiaridades fazem do sul uma região diferenciada para investimentos. Trata-se de um mercado mais rentável e diversificado que o das demais regiões, com segmentos sociais claramente definidos. E o que é melhor: com polos de consumo altamente concentrados - ao todo, a região ocupa apenas 6,7% do território brasileiro. Conse¬quentemente, o consumidor do sul também é diferente. É mais endinheirado e exigente, mas menos impulsivo e muito menos tolerante a mudanças. De certa forma, o sul é um mercado à parte onde a regra dos 4 Ps - de Produto, Preço, Praça e Promoção, utilizada para estruturar ações de marketing - tem de obedecer a critérios peculiares. Os Ps de "Produto" e "Promoção", por exemplo, costumam ter importância redobrada, ao contrário de "Preço", que exerce um impacto menor no mix de marketing das empresas. "O planejamento das famílias é maior. As pessoas aceitam pagar mais por um computador, por exemplo, desde que ele dure mais, seja con¬fiável e tenha qualidade reconhecida", garante Denise Pereira, gerente de marketing de consumo da Intel Brasil. Isso explica, por exemplo, por que o sul tem tanta força naqueles segmentos em que ter uma marca forte é um fator-chave de sucesso. No mercado de veículos, segundo a Target, a região responde por 21% da demanda total do país. Já no de combustíveis, beira os 25%. Bem mais do que seu peso no PIB nacional, que é de 16,5%.

Outra característica que precisa ser respeitada é o conservadorismo. Apesar da crescente integração com mercados e culturas alheias, o consumidor do sul continua muito apegado à história e aos valores locais. E isso tem impacto direto nas estratégias das empresas que buscam espaço na região. Empresas com sede no sul e marcas que têm uma trajetória claramente ligada ao desenvolvimento local ocupam um lugar cativo no coração e na mente da maioria das pessoas. Até mesmo quando essas empresas atuam basicamente no mercado business-to-business, como é o caso da Gerdau - que acaba de ser reeleita a marca mais lembrada pelos gaúchos segundo a pesquisa Top of Mind, realizada por AMANHÃ e Segmento Pesquisas. Evidentemente, esses traços também reverberam nas estratégias daquelas companhias que nunca tiveram relação direta com o sul, mas desejam explorar uma parte do seu potencial. "Vimos que as pessoas são muito exigentes e já estão acostumadas com produtos de alta qualidade, mostrando-se bastante leais a marcas com mais tradição", relata Rafael Martins, diretor comercial da Tyson Foods no Brasil.

Maior processadora de carnes do mundo, a Tyson Foods está apenas começando a descobrir as peculiaridades do mercado do sul. Em setembro do ano passado, o grupo americano adquiriu três empresas da região - a Macedo Agroindustrial e a Avícola Itaiópolis (Avita), em Santa Catarina, e a Fran¬gobras, no Paraná. Disposta a conquistar terreno rapidamente, a empresa adotou a estratégia de falar o "idioma local". Vai manter e até fortalecer as marcas adquiridas na região, especialmente a Macedo, que será comercializada no Brasil inteiro. Além disso, instalou sua sede administrativa em Curitiba, bem no meio do caminho entre a zona de produção, no sul, e o seu principal mercado-alvo, o sudeste. "A cidade dá toda a infraestrutura necessária para apoiar nosso negócio", explica Martins. Empregos e funções executivas também serão integralmente preservados - pelo menos, por enquanto.

Comparar com quem?

Conquistar o consumidor mais exigente do Brasil não é fácil. Mas é possível. Para isso, o primeiro passo é dar a ele todas as informações de que ele precisa - e que não costumam ser poucas. "As pessoas aqui questionam muito mais as coisas", resume Eduardo Oltra¬mari, diretor do Shopping Total, de Porto Alegre. Por causa disso, muitas redes de varejo já consagradas em re¬giões como o norte e o nordeste enfrentam dificuldades ao se deparar com o mercado do sul. Um exemplo é a Casas Bahia. Muito já se falou sobre os motivos que impedem a maior empresa do setor de emplacar na região, particularmente no Rio Grande do Sul. Um deles seria o bairrismo do consumidor gaúcho, que tende a torcer o nariz para redes que não têm um sotaque local. Oltramari, no entanto, pensa que a questão não é tão simples assim. Ex-diretor do Shopping Mueller, de Joinville, ele acredita que um dos grandes obstáculos da Casas Bahia no sul do país é, justamente, a fome de informação dos seus clientes. "Muitas vezes, no esforço de oferecer o melhor preço, eles compram todo o estoque disponível de um determinado produto", argumenta Oltramari. "O resultado é que, nesses casos, os consumidores não têm como comparar a relação preço-produto da Casas Bahia com a de seus concorrentes". No sul, diz Oltramari, comparar o custo-benefício de cada produto ou marca é mais do que um hábito - é uma necessidade.

Há uma série de fatores sociais e culturais que moldam esse jeito de ser do consumidor do sul. Um deles é a influên¬cia da imigração europeia - que ainda se mantém viva em hábitos de consumo, principalmente aqueles ligados à alimentação. Outro é o nível de educação. O sul tem uma taxa de analfabetismo de 7,4%, bem menor do que a média brasileira, de 13,6%. Ao mesmo tempo, o ensino superior é uma realidade para 16,5% da população da região, parcela bastante superior à do Brasil, que é de 10%. Tudo isso resulta em um consumidor bastante crítico - e até um tanto cético - em relação às marcas. "Existe um padrão crítico, algo que implica uma certa desconfiança em relação ao poder privado", argumenta Paulo Al-Assal, diretor da Voltage, agência de pesquisa qualitativa que trabalha com perfis de comportamento do consumidor. "Ao mesmo tempo, esse padrão leva a uma valorização do Estado e a uma crença mais arraigada na realização do papel do governo", diz ele. Nos levantamentos feitos pela Voltage, os entrevistados do sul foram os que se mostraram mais inclinados, por exemplo, a confiar seu patrimônio a um banco estatal no lugar de uma instituição privada. Coincidência ou não, a região é sede das duas últimas instituições financeiras estaduais do país. Em Santa Catarina, o Besc foi incorporado ao Banco do Brasil, mas teve sua marca e o padrão visual de sua rede de agên¬cias preservados. Já no Rio Grande do Sul, falar em uma possível pri¬vatização do Banrisul é quase mexer com um tabu.

As empresas que superam essas barreiras, porém, encontram consumidores leais e com alto poder aquisitivo. Segundo a Target, Florianópolis e Porto Alegre estão entre as cidades que apresentam maior consumo per capita do país, de R$ 16,8 mil e R$ 16,5 mil por ano, respectivamente. São valores expressivos, que superam as médias de cidades que compõem a elite econômica do país. Entre elas, São Paulo - onde o consumo per capita não passa de R$ 14,9 mil por ano. As operadoras de cartão de crédito, por exemplo, já assimilaram essa diferença. No sul, o ticket médio do setor é de R$ 73,20, segundo um levantamento realizado em 2008 pela Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito (Abecs). Maior do que no nordeste, por exemplo, onde o ticket médio é de R$ 66,40. "É um dado interessante. Até porque gaúchos e catarinenses sempre foram notadamente mais conservadores no uso desse meio de pagamento", recorda Luiz Goes, sócio-sênior da Gouvêa de Souza, consultoria especializada em varejo. Conforme a Abecs, o sul é origem de apenas 11% das transações com cartão de crédito realizadas no país. Já o nordeste responde por 15% do total.

Ser e parecer local

A Renault é uma das empresas que souberam fazer uma aproximação cuidadosa (e altamente lucrativa) com o consumidor do sul. Quando escolheu a cidade de São José dos Pinhais como sede de sua fábrica no Brasil, em 1996, a montadora francesa estava em busca de uma vantagem logística. Mas a decisão também rendeu outros dividendos estratégicos à Renault. Um deles é a boa vontade dos consumidores do sul, especialmente os do Paraná, que foram beneficiados por um investimento de US$ 1,3 bilhão e pelos milhares de empregos do Complexo Ayrton Senna. Hoje, a Re¬nault tem um market-share de 8% nos três Estados do sul, o dobro da média que obtém no resto do país. Em Flo¬rianópolis, por exemplo, chegou a liderar o ranking das marcas de veículos mais vendidas, o que culminou na criação de uma linha especial do Clio - batizada de Clio Floripa.

"A aproximação deve ser feita com o apoio de gente da região. Querer parecer um local sem saber fazê-lo de fato é arriscado", conta Eloi Zanetti, colunista de AMANHÃ e especialista em marketing. Atenta, a Renault, mantém uma rede de concessionárias construída em parceria com empreendedores da região. Só em abril deste ano, duas unidades foram inauguradas: uma em Pato Branco, no su¬doeste do Paraná, a outra em Gravataí, na Região Metropolitana de Porto Alegre, onde também funciona a fábrica da concorrente General Motors. Apesar do conservadorismo, os grandes centros urbanos do sul do país costumam dar boas-vindas às "marcas novas" do setor de veículos, como Honda, Toyota e a própria Renault - além de todas aquelas que chegaram ao Brasil a partir da metade dos anos 90. "O Vale do Itajaí, por exemplo, é a área em que essas marcas conseguem rivalizar melhor com as antigas", aponta Bruno Hohlmann, diretor comercial da Renault para a Região Sul.

A estratégia da aproximação local, porém, deve ser utilizada com cuidado. Ao contrário do que muita gente pensa, o sul não é uma região homogênea. Muito ao contrário: em alguns aspectos, é uma verdadeira colcha de retalhos. Os gaúchos, por exemplo, são declarada¬mente bairristas. Tanto, que até a General Motors lançou uma campanha institucional reforçando o seu "orgulho de ser gaúcha" desde 2000, quando começou a operar em Gravataí. Em compensação, há regiões do Rio Grande do Sul onde a procedência da marca não tem tanto valor assim. É o que ocorre no noroeste do Estado, de economia predominantemente agrícola e fortemente influenciada pelo comércio com a Argentina e com o Uruguai. No Paraná, a diversidade é ainda maior. O Norte Pioneiro, por exemplo, tem consumidores mais questionadores e desconfiados - herança cultural da colônia mineira que deu início ao povoamento da região. Já os habitantes do Norte Novo, que engloba cidades "jovens" como Londrina e Maringá, têm traços de comportamento semelhantes aos de São Paulo, onde o consumo é um meio de socialização. "Por ter uma mistura maior de povos, o Paraná parece mais com o restante do Brasil do que Santa Catarina e Rio Grande do Sul", acredita Eloi Zanetti.

Poucas dívidas

Uma das poucas características que se repetem de uma ponta a outra da Região Sul tem a ver com a maneira como o consumidor lida com o próprio dinheiro. Aí não tem distinção: pode ser no Vale do Itajaí, nas Missões ou até no Novo Norte do Paraná - o certo é que a população faz de tudo para não contrair dívidas. Na média, o consumidor do sul destina apenas 35% da sua renda mensal ao pagamento de parcelas de financiamento e a outros gastos com endivi¬damento, conforme um estudo realizado pela Federação das Indús¬trias do Estado de São Paulo (Fiesp). É um índice baixíssimo, especialmente se comparado ao das regiões centro-oeste e norte, onde o consumidor compromete cerca de 64% de sua renda mensal com dívidas. "No sul, as pessoas têm essa preocupação de buscar as taxas mais baixas na hora de contrair um financiamento", aponta Celso Cláudio de Hildebrand e Grisi, da Fractal, con-sultoria especializada em pesquisa e consultoria de negó¬cios no Brasil. Esse hábito é comum inclusive nas classes C, D e E, que dependem do crédito para adquirir bens duráveis como geladeiras, televisores etc.

Para seduzir

Em compensação, o consumidor do sul costuma diversificar mais os seus gastos. Isso significa que ele compra uma gama de produtos maior, mas gasta proporcionalmente menos com cada um deles. Artigos de manutenção para o lar, segundo a Target Marketing, absorvem não mais do que 26,5% do orçamento familiar - um ponto percentual abaixo da média brasileira. Já alimentos e bebidas correspondem a 18,8% dos gastos da casa, índice que também é inferior ao do resto do país. "Em compensação, o consumidor do sul gasta mais com eventos culturais, bens duráveis e até com oportunidades de negócio", conta Marcos Pazzini, diretor da Target. O Boticário aprendeu isso na prática ao lançar o perfume "Free", recentemente. No Rio Grande do Sul, onde opera 180 lojas, a companhia paranaense vendia somente 80 unidades do produto por mês. Já na Bahia, onde o número de pontos-de-venda era bem menor, as vendas passavam da marca de 100 mil exemplares mês. "Acontece que, no nordeste, as mulheres utilizam o perfume no dia-a-dia, para se sentir bem. No sul, ao contrário, elas utilizam o produto de vez em quando, em ocasiões especiais, para seduzir. E diversificam mais seus gastos no trato com a pele, cabelos etc", interpreta Eloi Zanetti.

É por isso que, para alguns segmentos, o sul apresenta uma demanda ainda inferior ao seu potencial de consumo geral - equivalente a 16,3% do total do país. Alguns exemplos podem ser vistos no quadro ao lado. "É nesses segmentos que se encontram as grandes oportunidades de negócio da região", garante Marcos Pazzini, da Target. Resta saber quais empresas conseguirão dar todos os passos necessários para aproveitá-las plenamente.

http://www.amanha.com.br/NoticiaDetalhe.aspx?NoticiaID=d8fed489-43cb-41d9-8d45-77d08295699d
 

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Indústria

Barba, cabelo e bigode

Não há um item sequer na produção fabril brasileira que fique de fora do mix de produtos da indústria do Sul. O desafio é aliar essa versatilidade à inovação

Os economistas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) usam o termo "quinau" para nomear cada um dos milhares de itens de produção industrial feitos diariamente no país - de um prosaico prego galvanizado ao chip mais compacto. O quinau serve para comprovar o estágio alcançado pelo sul como potência industrial. Juntos, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul não deixam de fora nenhum item sequer da extensa lista de quinaus que o IBGE utiliza para avaliar as condições econômicas de cada região brasileira. No sul, em síntese, produz-se de tudo.

Essa versatilidade parte de uma base tradicional de indústrias - metalúrgica, mecânica, elétrica, automotiva e agroindustrial - e se sofistica com fábricas de software, automação e, inclusive, chips, como é o caso do Ceitec, primeira fábrica de circuitos integrados do Brasil. A diversificação se mostra particularmente importante em um cenário de crise, como o atual. "A característica interindustrial do sul cria uma relação segura entre os diversos setores, protegendo-os mesmo em momentos adversos", salienta Clélio Campolina Diniz, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em distribuição regional do desenvolvimento. Diniz foi um dos primeiros a vislumbrar, ainda nos anos 90, que o sudeste perderia concentração industrial para outras regiões do país, entre elas o sul.

"Fatores como seca, política cambial ou preços baixos até podem influenciar ramos mais vulneráveis, mas a força da indústria tradicional acaba compensando os desequilíbrios", avalia Frederico Cunha, gerente de contas regionais do IBGE. Essa força adquire proporções surpreendentes em alguns ramos da ndústria. Nada menos do que 67% do maquinário agrícola produzido no Brasil tem origem no Sul, assim como metade dos motores elétricos e 41% da produção de papel. Em outros segmentos, o Paraná, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul concentram um terço da produção nacional, como petroquímicos básicos (34,3%), têxteis (27,6%) e fertilizantes (27,6%).

Nos últimos dez anos, um dos focos de dinamismo da indústria do sul se instalou no Paraná. Dados do Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), com sede em Curitiba, dão conta de que a produtividade do trabalho (indicador que relaciona valor gerado e pessoal ocupado) cresceu 23,8% no Paraná, nos últimos dez anos. No Brasil, segundo o IBQP, a produtividade cresceu bem menos nesse período: 16%. As empresas paranaenses captaram no BNDES, no ano passado, cerca de R$ 6,9 bilhões - mais que o dobro do valor financiado dois anos antes. Hoje, o Paraná é o terceiro Estado do país em negócios realizados por meio do cartão BNDES. Só a indústria responde por 40% dessa demanda. "O trabalho de disseminação da informação está sendo feito em todo o Paraná, o que só contribui para a concretização de investimentos", comemora Rodrigo da Rocha Loures, presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep).

Ainda que a partir dos anos 90 a indústria de transformação paranaense tenha se revigorado com a chegada das montadoras e das fábricas de autopeças e do ramo eletroeletrônico, o carro-chefe continua sendo o agronegócio. Vieram da agroindústria 60% dos pedidos de financiamento de capital de giro atendidos em 2008 pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul. No total foram emprestados R$ 628 milhões, que resultaram em investimentos superiores a R$ 1 bilhão. "Neste ano, devemos repetir a dose. Se não fosse a crise econômica, esse valor poderia ser até 25% maior", constata Carlos Olson, superintendente do BRDE no Paraná.

O Rio Grande do Sul também espera acelerar o ritmo do seu parque fabril - um dos mais importantes do país. Com base em dados de 2006, o IBGE atribui à indústria gaúcha uma participação de 8% no valor bruto de produção do país , fatia inferior apenas à de São Paulo e à de Minas Gerais. Quando o critério passa a ser o de valor adicionado de produção, a indústria do Rio Grande do Sul cai duas posições e desliza para o quinto lugar entre os Estados brasileiros. Um caminho para melhorar essa posição é a diversificação do parque industrial - cerca de 40% do PIB regional ainda está atrelado ao agribusiness. "Ficamos muito na mão de São Pedro", brinca Paulo Tigre, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs).

Em parte, essa transformação já é visível nas estatísticas do IBGE. A indústria gaúcha de fumo, por exemplo, representava 73% de tudo o que o país produzia há sete anos. Em 2006, esse percentual caiu a 40% - em parte pelo crescimento da produção em Minas Gerais e Santa Catarina, em parte por um esforço de descentralização. "Temos de trabalhar para que nossa produção dependa cada vez menos das commodities", observa Tigre, preocupado com a adição de valor.

O Rio Grande do Sul também contribuiu para que o sul perdesse participação na produção de artefatos de couro - de 2002 a 2006, o índice caiu de 53% para 39% devido à migração dos fabricantes de calçados gaúchos para terras nordestinas. "A indústria calçadista perdeu muito, durante muito tempo, com a cotação subvalorizada do dólar", lembra Frederico Cunha, do IBGE.

A indústria catarinense também não se mostra confortável, apesar de ostentar uma participação significativa - 5,5%, segundo o IBGE - no valor bruto da produção industrial brasileira. A preocupação é com o fato de que há pelo menos seis anos essa fatia não cresce. Um diagnóstico que se impõe entre os catarinenses é a carência de investimentos em infraestrutura - essencial para um Estado que tem uma forte produção agroindustrial e concentra, por exemplo, 21% da produção brasileira de carne suína. "Falta vontade política e um pouco de união dos empresários para pressionar pelas soluções dos nossos problemas", cobra o presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Alcantaro Corrêa. Um das reivindicações é a ampliação da pista do aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis, que evitaria o deslocamento de cargas para Campinas ou Guarulhos, percurso que acarreta aumento de custos.

Cosmopolitismo


Não foi por acaso que grandes companhias escolheram o sul como base de operações. Entre as principais vantagens da região apontadas por corporações como GM e Renault está a oferta de profissionais capacitados, seja para o chão de fábrica ou para funções executivas. A infraestrutura de aeroportos, portos e rodovias também pesa a favor da região - ainda que persistam gargalos a serem superados. O convívio de diferentes culturas conta pontos, igualmente. "Essa característica cosmopolita de cidades e pessoas cria um caldo cultural que coloca a forma de se fechar negócios no sul em outro patamar no Brasil", aponta Antonio Cordeiro, sócio da Simonsen Associados, de São Paulo. Acostumado a assessorar companhias na decisão sobre o melhor lugar para localizar uma indústria, Cordeiro valoriza a experiência exportadora que a região desenvolveu antes mesmo da abertura econômica comandada pelo governo de Fernando Collor, no início dos anos 90. Companhias como a fabricante de motores elétricos Weg, de Jaraguá do Sul (SC), exporta desde a década de 70. Um fator que Cordeiro valoriza no sul é o nível educacional dos trabalhadores. "Tanto isso é verdade que o número de horas de trabalho perdidas no sul chega a ser a metade da média nacional", sustenta.

Sem arrependimentos


A posição geográfica do sul pode não ser tão favorável quanto a do nordeste para atingir mercados como o norte-americano. Mas há compensações no âmbito de clientes e fornecedores latino-americanos. "É só olhar o mapa: em Caxias do Sul, estamos à mesma distância de Buenos Aires e de São Paulo", indica David Abramo Randon, diretor-presidente das Empresas Randon. O mapa também foi decisivo para a Braskem decidir instalar no Rio Grande do Sul a sua nova unidade de eteno verde, que produzirá em escala comercial o plástico feito a partir da cana-de-açúcar. "Paraná e Santa Catarina abrigam empresas transformadoras de plástico expressivas que são um importante mercado para nós", revela Marcelo Lyra, vice-presidente de relações institucionais da Braskem. O investimento, de R$ 3 bilhões, criará uma fábrica com capacidade instalada para produzir 200 mil toneladas do produto por ano.

O ambiente industrial da região foi determinante para a chegada da General Motors no Rio Grande do Sul, em 2000. Entre os fatores que atraíram a montadora para Gravataí, foi decisivo o nível de qualificação da mão-de-obra especializada no setor metal-mecânico. "Decorridos quase nove anos do início de nossa operação, temos plena convicção do acerto de nossa decisão", afirma José Carlos Pinheiro Neto, vice-presidente da GM no Brasil.

O Complexo Industrial Automotivo de Gravataí (Ciag) é apontado como uma das bases mais modernas e eficientes de operações da GM no mundo. O layout da fábrica tem sido aplicado nas fábricas da Argentina e da Tailândia. Muito do sucesso da planta do sul se deve ao conceito de reunir, em um mesmo espaço físico, os fornecedores de conjuntos e de subconjuntos para a linha de montagem - os chamados sistemistas. O resultado animou a GM a decidir pela ampliação da planta para o desenvolvimento de um novo modelo de carro - investimento de cerca de US$ 1 bilhão que aguarda, ainda, os desdobramentos da crise na matriz norte-americana. "Desde o início do Ciag, havia um plano de expansão", assegura Pinheiro Neto.

A GM também elegeu Joinville, em Santa Catarina, para sediar a fábrica de motores que abastecerá as unidades de Gravataí, Rosário (Argentina) e São José dos Campos (SP). Na disputa pelo empreendimento, Joinville virou o jogo com base em atrativos como infraestrutura, localização e condições de transporte, mão-de-obra especializada e fornecimento de energia.

Parece inevitável que o sul passe por uma nova fase de reestruturação industrial. A diversificação do parque fabril deve se tornar ainda maior - algo que vem se intensificando pelo menos nos últimos seis anos, como demonstram os indicadores do IBGE. Dois grandes setores ganharam representatividade desde 2002: a produção de celulose e papel, por exemplo, alcançou participação de 26% da produção nacional em 2006 diante dos 16% de quatro anos antes. O Paraná foi o que mais ganhou, saltando de 8% para 13% do total. "O sul tem matéria-prima abundante em seu território para essa atividade", atesta Frederico Cunha, gerente de contas regionais do IBGE. Não foi por acaso que o grupo Votorantim e a multinacional Stora Enso anunciaram investimentos no Rio Grande do Sul. Outra atividade que ganhou peso foi a produção de resinas e elastômeros, que atingiu 27% do total nacional. O Polo Naval de Rio Grande (RS) também desponta como uma nova perspectiva de desenvolvimento para a região.

Com seus números imponentes, a construção pesada ligada ao pólo naval desembarca ruidosamente no sul. Mas está em consolidação uma outra indústria, leve e de grande potencial para adi¬cionar valor - o ramo de software e informática. Santa Catarina que o diga. O Estado é sede de várias empresas que se projetaram nesse segmento, como a Datasul, em Joinville, e a Sênior Systems, - a segunda maior produtora brasileira de ERP (softwares de gestão empresarial). Blumenau, sede da Sênior, tornou-se um polo do setor. Estatísticas da Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia (Acate) revelam que a cidade concentra quase metade das cerca de mil empresas do segmento. Outra referência é Florianópolis, que reúne 460 firmas de tecnologia.

Trata-se de um ramo da indústria catarinense que, ao movimentar R$ 771 milhões em 2008, conseguiu ultrapassar até mesmo o faturamento do turismo. "Queremos transformar Santa Catarina no grande celeiro tecnológico do país", entusiasma-se Rui Gonçalves, presidente da Acate. O BRDE pretende garantir o aporte de capital para a empreitada. "Em conjunto com a Finep, estamos criando linhas de financiamento para fundos de private equity que possam colocar recursos em empresas da região", anuncia Rogério Penetra, gerente de planejamento da agência do BRDE em Florianópolis.

A aliança entre companhias privadas e universidades, com o apoio de instituições públicas, já provou ser o melhor caminho para explorar a vocação tecnológica da região. A norte-americana HP instalou em Porto Alegre o seu maior centro de pesquisa e desenvolvimento na América Latina. O local é o Tecnopuc, que se tornou o maior parque científico e tecnológico do Brasil ao atrair parceiros como Microsoft, Sebrae, Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e CNPq.

O próprio Tecnopuc se envolveria na coalizão de forças que resultou no Ceitec, centro de produção de circuitos integrados sem paralelo na América Latina. Sem fins lucrativos, o Ceitec realizou, no final de abril, sua primeira operação em escala comercial - a entrega de 15 mil chips para a Altus, empresa de automação industrial. O Ceitec nasceu de um protocolo de intenções entre o governo federal, o governo gaúcho e a prefeitura de Porto Alegre, mas sua origem está ligada a uma iniciativa da Motorola, que doou equipamentos de sua fábrica em Austin, no Texas. "O sul tem tradição em fazer parcerias entre as fontes de conhecimento cientifico e empresas particulares, que agem sob uma lógica bem diferente. Ambos, claro, tem lucrado com isso", observa o economista Clélio Campolina Diniz, da UFMG.

A mesma capacidade de articulação se mostra bem menos efetiva no resgate a setores tradicionais do sul - especialmente polos médios, como o de confecções do norte do Paraná ou o moveleiro do oeste catarinense. A valorização do real perante o dólar fragilizou ramos exportadores, como a indústria da madeira, no Paraná - tal como aconteceu com as fabricantes de calçados do Vale do Sinos, no Rio Grande do Sul, que viram sua rentabilidade despencar com o dólar fraco. "Queremos sugerir ao governo do Estado e ao governo federal um pacote de incentivos para que possamos alavancar as vendas no mercado interno", anuncia o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), Antonio Camilotti, preocupado com a redução de 30% das exportações no setor.

Articulação, eis o desafio. "O empresário sulista conversa pouco com o resto do país. Esse isolamento impede que algumas boas oportunidades cheguem ao sul e vice-versa", critica Thomaz Assumpção, presidente da Urban System, companhia paulista especializada em georreferenciamento."É preciso melhorar a articulação com o governo federal", ratifica Julio Suzuki, do Instituto Paranaense de Desenvolvimento (Ipardes).

Nem tudo se resolve com soluções políticas, naturalmente. Os produtores de cerâmica, calçados e móveis, especialmente em Santa Catarina, têm buscado auxílio para agregar valor a seus produtos. "Temos de ensinar noções básicas de como organizar uma empresa", incentiva Alcantaro Corrêa, presidente da Fiesc, em referência ao desafio de promover um choque de gestão em pequenas e médias empresas. "É preciso promover a passagem de setores intensivos em recursos naturais para setores intensivos em conhecimento. Só assim, ganharemos competitividade", emenda Rodrigo Loures, presidente da Fiep.

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Agronegócio

Vantagem duradoura

Por que o avanço do centro-oeste ainda está longe de ameaçar o peso do sul no agronegócio

Não restam dúvidas de que o centro-oeste tem todas as condições de tomar o posto de maior produtor de grãos do país. Nas últimas três décadas, a colheita na região saltou de 4,2 milhões para 49,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Um aumento de quase 12 vezes, portanto - suficiente para ameaçar o longo reinado do sul nessa área. Está certo que, juntos, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul colhem a maior parte da safra brasileira de grãos (veja os gráficos). Mas o fato é que o centro-oeste ainda dispõe de áreas para expandir suas lavouras, enquanto o sul está próximo de esgotar seus territórios agricultáveis.

Mesmo assim, é errado pensar que o sul corre riscos de perder as rédeas do agronegócio brasileiro. Embora não possa competir na extensão de suas lavouras, a região ainda apresenta diferenciais que o centro-oeste dificilmente conseguirá igualar em um futuro imediato. O primeiro deles é o da diversidade. Da carne bovina do Rio Grande do Sul ao café do Paraná, passando pela carne de frango de Santa Catarina, o sul abriga a elite de quase todas as cadeias produtivas do agronegócio. "Além disso, a sua produção de grãos está fortemente relacionada com o complexo agroindustrial de carnes de aves e suínos, que é mais forte no sul do que em qualquer outra parte do país", explica o consultor Silmar Müller, especializado em agronegócios.

Esse complexo industrial é outra vantagem que o sul ostenta na competição com outras regiões. José Carlos Vaz, diretor de agronegócios do Banco do Brasil, explica que há décadas os três Estados vêm desenvolvendo indústrias em torno de suas lavouras. Já o centro-oeste recém começa a percorrer o caminho da industrialização - suas forças ainda se concentram, principalmente, no setor primário. "As duas regiões estão em estágios diferentes", resume Vaz, que é natural do Paraná. "Mas ambas estão contribuindo para fazer do Brasil uma grande fonte de alimentos para o mundo", pondera.

O centro-oeste, porém, esbanja força no quesito "produtividade". Seu clima é mais estável que o do sul. Suas terras avermelhadas são altamente férteis - e se tornaram ainda mais produtivas com a introdução das técnicas de manejo de solo. Por tudo isso, cada hectare do Cerrado brasileiro é capaz de gerar, hoje, uma quantidade de grãos que as outras regiões só conseguiram igualar - e olhe lá - com o uso de sementes transgênicas. Consequentemente, o centro-oeste também detém uma ampla vantagem nos custos de produção. A região só não é insuperável nesse aspecto por um detalhe crucial: a logística.

"O centro-oeste sempre vai ser longe de tudo", resume José Aroldo Gallassini, presidente do Coamo, de Campo Mou¬rão (PR) - que opera unidades no Mato Grosso do Sul. Sem ferrovias ou rodo¬vias expressas para acessar os principais portos do país, a competitividade da soja e do milho do Cerrado se anula nos custos de frete e armazenamento. Na ponta do lápis, esses produtos chegam ao mercado por um preço equivalente ao daqueles oriundos do sul. É por isso que Rui Polidoro Pinto, presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul (Fecoagro), duvida que o agronegócio vá perder força no sul. "Não é à toa que o setor ainda movimenta, por exemplo, 40% da economia gaúcha", aponta.

Competir com quem?

Verdade seja dita: a ideia de que existe uma competição inter-regional por espaço no mercado de alimentos não tem boa recepção entre os especialistas do setor. E a razão é simples: a maior parte da demanda do agronegócio se encontra fora do Brasil, especialmente nos mercados da Ásia, do Oriente Médio e do Leste Europeu. Logo, o avanço do centro-oeste não retiraria espaço do sul, e sim de outros países menos competitivos, especialmente aqueles que ainda dependem de subsídios para viabilizar sua agricultura - como é o caso dos Estados Unidos. "A atual crise mundial está acelerando o corte de subsídios", afirma o economista Antonio da Luz, assessor da diretoria da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul). A conjuntura global, aliás, é considerada uma ameaça muito mais séria ao sul. "Quem sobreviver à crise vai viver bons momentos", antevê Neivor Canton, vice-presidente da Coopercen¬tral Aurora, de Chapecó (SC).

Entretanto, é inegável que o sul e o centro-oeste competem, sim. A disputa se dá, inclusive, por uma série de fatores que ditam os rumos do setor: investimentos industriais, incentivos fiscais, crédito agrícola, fretes e até mesmo espaço nos portos e armazéns disponíveis no país. Um exemplo são as cooperativas agroindustriais. As maiores do Brasil têm sede na Região Sul - mas investem cada vez mais no centro-oeste. É o caso da Aurora, que concentra a maior parte de suas atividades em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, mas já opera uma unidade industrial em São Gabriel d'Oeste, no Mato Grosso do Sul. "Há pelo menos duas décadas, para não dizer mais, o sul vem perdendo por causa desse processo de migração para o centro-oeste. A maioria dos agricultores em atividade por lá saiu dos Estados do sul", diz o economista Luiz Hilton Temp, ex-presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (Ocesc).

Mesmo assim, vai demorar para que o centro-oeste se torne o grande glutão dos investimentos da agroindústria brasileira. Além dos gargalos logísticos, a região tem uma densidade populacional baixa. Por isso, muitas indústrias ainda preferem dirigir seus investimentos para re-giões mais povoadas, onde existe maior oferta de mão-de-obra competitiva - como o norte do Paraná ou o oeste de São Paulo. É o caso da Coamo, que também tem uma filial no Mato Grosso do Sul, mas descarta a hipótese de construir ou transferir grandes instalações para o centro-oeste. "Onde predomina a grande propriedade não há espaço para o cooperativismo", diz Gallas-sini. Nos Estados do sul, explica ele, a estrutura agrária um pouco mais fragmentada é fundamental para viabilizar o associativismo entre produtores e dar força à cadeia de produção que sustenta as grandes cooperativas.

Ameaças à frente


O sul tem, ainda, outros diferenciais que tendem a mantê-lo na função de dínamo do agronegócio brasileiro. Um deles é o clima subtropical. Graças às temperaturas mais amenas, o sul é a única região em condições de explorar determinadas culturas. Não é à toa que 93,6% do trigo brasileiro sai do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná. São atividades que sustentam verdadeiros polos de excelência agroindustrial, como acontece com o trigo em Passo Fundo, a uva em Bento Gonçalves, a pecuária bovina em Bagé, a avicultura no oeste catarinense, o cultivo de banana no vale do Itajaí, a atividade florestal em Colombo e a sojicultura em Londrina.

Curiosamente, o clima não é apenas um trunfo: é também uma ameaça permanente ao agronegócio do sul. Nos últimos anos, a região foi castigada por uma série de estiagens - problema que não ocorre no Cerrado, onde o tempo é mais estável. Além disso, o clima impede que o sul consiga aproveitar plenamente o atual ciclo de investimentos em agroenergia. Dos três Estados, apenas o Paraná consegue ter peso nesse segmento, com 30 usinas que produzem quase 10% do etanol de cana do país. Santa Catarina, por exemplo, sequer aparece nas estatísticas de produção. Já o Rio Grande do Sul conta com apenas uma destilaria nas Missões, a noroeste do Estado. Atualmente, um grupo de fazendeiros e comerciantes de combustíveis trabalha em parceria com uma empreiteira para erguer uma usina de maior porte naquela região. O objetivo é abastecer o mercado gaúcho com álcool carburante - hoje, nada menos que 98% da demanda do Estado é atendida por São Paulo.

O que pode favorecer a região, ou pelo menos o Rio Grande do Sul, são os incentivos governamentais. Em abril, o Ministério da Agricultura incluiu 216 municípios gaúchos no zoneamento agrocli¬mático da cana-de-açúcar. Somando-se aí os municípios que já cultivavam cana para alambiques e tambos, calcula-se que até 1 milhão de hectares poderiam ser ocupados por canaviais no Rio Grande do Sul. Se toda a cana colhida nessa área fosse convertida em etanol, o Estado produziria, então, 4,3 bilhões de litros por ano. Daria para atender a toda a demanda automotiva e ainda abastecer a nova planta de "plástico verde" da Braskem - que consumirá 450 milhões de litros de etanol por ano. "Mesmo assim, precisaríamos de dez a 12 anos para adaptar as variedades às latitudes do sul", explica o agrônomo Marcos Landell, gerente de pesquisa de cana do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). Como se vê, não dá para ser forte em tudo.

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Infraestrutura

Não faltam oportunidades

Mesmo com gargalos preocupantes, o Sul se destaca em quase todas as áreas da infraestrutura

Os números não deixam dúvidas: a infraestrutura é uma das grandes forças do sul. Afinal, não há como ignorar o trunfo de uma região que concentra, entre outras coisas, 31% da movimentação portuária, 25% da energia elétrica e 22% da malha ferroviária do país - tudo isso em uma área que equivale a apenas 7,6% do território nacional. De fato, na comparação com outras regiões, o sul tende a se destacar em quase todos os quesitos. Mas a verdade é que os três Estados também enfrentam uma série de gargalos que não aparecem nos números. "A nossa infraestrutura já está implantada. O que falta é fazer os aprimoramentos e buscar um crescimento", resume Paulo Ceschin, coordenador do Conselho Temático de Infraestrutura da Federação de Indústrias do Paraná (Fiep).

O sul é responsável por 41,3% da produção de grãos. Ao mesmo tempo, abriga 23% de todas as indústrias do país. Com tamanho dinamismo, é natural que a região tenha uma demanda tão grande por estradas, ferrovias, portos e energia que continue sendo subatendida - mesmo com os números vistosos que apresenta nessas áreas. "Nós temos alguns dos melhores portos do país. Mas veja o que acontece em Paranaguá, por exemplo: cada vez que começamos a escoar a safra de grãos, as filas de caminhões são enormes", ilustra David Abramo Randon, diretor-presidente do Grupo Randon, um dos maiores fabricantes brasileiros de implementos rodoviários e ferroviários. Alguns gargalos, diz ele, já ameaçam frear o crescimento econômico do sul. Até o início da crise do sistema financeiro, em agosto de 2008, o Brasil vinha crescendo a taxas de 5% ao ano. "Se continuássemos naquele ritmo, a nossa infraestrutura não iria aguentar", garante Randon.

O problema mais crítico está na malha rodoviária. A indústria do sul é simplesmente viciada em asfalto - nada menos do que 85% do transporte de cargas da região se dá por rodovias. É um índice alto demais até para os padrões brasileiros. Para piorar, as estradas disponíveis estão longe de ser um tapete. Das 25 BRs que cortam os Estados do sul, 15 estão em condições "regulares", segundo a Confederação Nacional de Transportes (CNT). Isso significa que elas estão no limite da usabilidade, apenas um degrau acima da pior avaliação possível da CNT - cuja escala se divide em "ótimo", "bom", "regular" e "ruim". Como se não bastasse, algumas dessas rodovias estão sob concessão privada. Ou seja: caminhoneiros e motoristas em geral têm de pagar pedágio para trafegar sobre os remendos, barrigas, ranhuras e outros defeitos. "Achávamos que as concessionárias fariam investimentos nessas estradas. Mas elas só fizeram reparos", critica Paulo Caleffi, diretor da CNT no Rio Grande do Sul, Estado pelo qual passam metade das rodovias em condição "regular". Por sinal, o sul é forte em pedágios. Paraná e Rio Grande do Sul ocupam a segunda e a terceira posição no ranking dos Estados com maior número de postos de cobrança, respectivamente. Perdem só para São Paulo.

Com a evolução das obras do PAC, porém, parte desses problemas tende a ser solucionada. Basta conferir o mapa da página anterior, que mostra quais são as obras que o governo federal pretende concluir na região, até o final de 2010. Não é pouca coisa. O investimento total chega a R$ 3,9 bilhões e contempla melhorias que já vinham sendo reivindicadas há décadas, tais como a duplicação da BR-116 - principal via de ligação entre as cidades que compõem a Região Metropolitana de Porto Alegre. Mesmo assim, as obras ainda são insuficientes para cobrir as necessidades da indústria da região. No ano passado, por exemplo, a Fiep concluiu um estudo mostrando que a cesta de investimentos do PAC contemplava somente 29% dos projetos demandados pelo Paraná, por exemplo.

É preciso ter em conta que nem todos os projetos anunciados saem do papel. Em 2007, o sul recebeu apenas 45% dos recursos a que teria direito na rubrica "infraestrutura de transportes" do Orçamento Geral da União, segundo um levantamento do Fórum Parlamentar-Industrial do Sul - entidade que reúne líderes políticos e membros das federações de indústrias dos três Estados da região. "Não é só a previsão que está aquém das nossas necessidades. A execução também está", reclama Rodrigo da Rocha Loures, presidente da Fiep. Exemplo dessa defasagem é a duplicação da BR-101, uma das principais bandeiras do Fórum Parlamentar-Industrial do Sul. Embora tenha sido incluída no PAC, a obra está com o cronograma atrasado e sofre interrupções recorrentes. "A duplicação não termina nunca. Nós, empresários, devemos nos unir e pressionar para que seja concluída o mais rapidamente possível", cobra Alcantaro Corrêa, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc).

Energia para crescer


Em matéria de energia, o sul não tem gargalos urgentes. Além de produzir 25% da energia elétrica disponível no país, a região também conta com uma matriz energética diversificada e moderna. O Paraná, por exemplo, dispõe de ampla estrutura hidrelétrica da Copel e de Itaipu. Santa Catarina tem a Tractebel, empresa que atua não só com termelétricas, mas também com pequenas hidrelétricas e até usinas de biomassa. Já o Rio Grande do Sul é sede do Parque Eólico de Osório, o maior da América Latina. Finalmente, o sul guarda em seu solo um patrimônio energético ainda pouco explorado: o carvão mineral. Sozinha, a região detém praticamente todas as reservas carboníferas do país, como se pode ver no gráfico abaixo.

Não por acaso, a área de energia é, também, a que apresenta as melhores oportunidades para quem está disposto a investir na infraestrutura do sul. Só no ano passado, o volume de recursos disponibilizado pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) para projetos no setor chegou a R$ 74 milhões - um salto de 49% em relação a 2007. "Todo esse volume foi encaminhado para projetos de Pequenas Centrais Hidrelétricas", indica Mário Bernd, presidente do BRDE. "Mas, no Rio Grande do Sul, também estão começando a surgir iniciativas no campo da energia limpa", diz.

Outra área com oportunidades cada vez mais nítidas é a de transporte ferroviário. O sul tem tradição nesse modal e, graças à enorme demanda para o escoamento de grãos, vem recebendo cada vez mais investimentos privados. O desafio de apostar nesse tipo de negócio, porém, é grande - principalmente devido ao alto custo de entrada. Em média, um quilômetro de ferrovia custa US$ 1 milhão, quase o dobro de uma rodovia. "Isoladamente, o setor privado não consegue hoje fazer grandes projetos. Por isso, os consórcios têm sido fundamentais para ampliar as ferrovias", explica Adriano Bernardi, gerente de projetos logísticos da América Latina Logística (ALL), empresa que detém a antiga malha sul da Rede Ferroviária Federal, que corta os três Estados da região.

Atualmente, os governos do Paraná e de Santa Catarina estudam formas de viabilizar uma rodada de investimentos nos trilhos. Os projetos envolvem a criação de uma rede de ferrovias que começaria em Maracaju, no Mato Grosso do Sul, passaria pelo oeste catarinense e se estenderia até a região portuária. "Seria uma via de comércio importante para produtos vindos do Mato Grosso para Santa Catarina, onde a produção avícola é muito grande", explica Rogério Tizzot, secretário de Transportes do Paraná. O investimento, que será público, pode chegar a R$ 2,9 bilhões. Resta saber se, de fato, sairá do papel.

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O peso político

Em busca de uma bandeira

Os Estados do Sul penam para construir uma agenda comum e atuar em bloco. Por enquanto, só estão unidos na queixa de que arrecadam muito para a União e recebem pouco em troca

Os três Estados do sul são vistos pelo restante do Brasil como os primos ricos da federação. Exageros à parte, há algumas razões para isso. Com pouco menos de 15% da população, a região desponta acima da média nacional em boa parte dos indicadores econômicos e sociais reproduzidos nesta edição - do nível de industrialização e infraestrutura ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Por conta dessa imagem, a realidade é que o sul vem colocando, proporcionalmente, bem mais farinha no bolo da federação do que a fatia que lhe é dada nos recursos distribuídos pela União.

"Há vários anos, os três Estados são responsáveis por uma grande parcela das exportações e do superávit da balança comercial, mas não recebem do governo federal o mínimo para continuar se desenvolvendo", lamenta Alcantaro Corrêa, presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc). Alguns números ilustram essa desproporção. Só no ano passado, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul contribuíram com R$ 58,3 bilhões em tributos federais, o que corresponde a 11,5% de toda a arrecadação da Receita Federal. Considerando-se o tamanho da população e a participação da região no PIB nacional (cerca de 16%), o percentual nem chega a ser tão elevado. O problema é o desequilíbrio entre o que vai para os cofres da União e o que retorna em investimentos.

No ano passado, as transferências constitucionais e voluntárias da União para os governos estaduais e municípios do sul, aí incluídos os investimentos diretos, somaram R$ 20,7 bilhões. É menos da metade do valor arrecadado em impostos federais no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no mesmo período. Caso sejam levados em conta apenas os investimentos diretos da União, os números são ainda mais desfavoráveis. "Nos últimos cinco anos, menos de 53% do valor previsto para obras de infraestrutura de transportes na região foi executado de fato", afirma o presidente da Fiesc. Em 2008, por exemplo, o Orçamento Geral da União (OGU) previa recursos de R$ 2,5 bilhões para a infraestrutura de transportes nos três Estados, um valor 65% maior do que o orçado em 2007. Devido a contingenciamentos, porém, apenas 26% desse valor foi liberado. "Talvez, a imagem de que somos uma região desenvolvida esteja sustentando uma visão distorcida do governo federal: a de que não é necessário priorizar os investimentos no sul", analisa Rodrigo da Rocha Loures, presidente da Federação das Indústrias do Paraná.

Bancada de oposição


A falta de articulação entre os líderes empresariais e políticos é uma das dificuldades que a região terá de superar se quiser maior atenção de Brasília, especialmente na partilha dos investimentos em infraestrutura. É verdade que o sul não elege um presidente pelas urnas desde Getúlio Vargas - o último líder que teve chances de chegar à presidência foi Leonel Brizola. Mesmo assim, o cientista político Cristiano Noronha, da Arko Advice, sustenta que a região esteve bem representada nas últimas administrações no governo federal. Ele lembra, por exemplo, que o governo de Fernando Henrique Cardoso teve pelo menos dois ministros gaúchos - Eliseu Padilha e a atual governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius. Já o mandato de Lula chegou a ter seis representantes da região entre ministérios e secretarias especiais.

"Além disso, não podemos esquecer que o sul sempre esteve muito bem representado na elite do Congresso, com parlamentares atuantes e de grande capacidade de liderança", reforça Antônio Augusto de Queiroz, diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), órgão que, anualmente, organiza a pesquisa "Os Cabeças do Congresso". O levantamento do ano passado revelou que 22 parlamentares do Rio Grande do Sul, do Paraná e de Santa Catarina estavam entre os 100 mais influentes do país, embora os 79 deputados e senadores da região representem apenas 13% dos membros que circulam no Congresso. Mesmo assim, diz ele, não dá para ignorar o fato de que uma parcela expressiva dos parlamentares do sul faz oposição ao atual governo, o que afeta o atendimento de demandas da região.

Outra explicação está na própria dinâmica do Congresso Nacional. Normalmente, os diálogos não estão polarizados em torno de representantes de regiões, propriamente, e sim de alguns setores - como o agronegócio, a indústria da construção e a saúde. "Essa é uma tendência que vem se consolidando e as bancadas que trabalham na defesa de interesses específicos de um setor econômico ou de uma categoria têm maior capacidade de união", diz Queiroz. Uma das mais bem articuladas é a bancada ruralista - que conta com vários parlamentares do sul.

Embora seja decisiva, a capacidade de articulação dos deputados e senadores não é o único fator que afeta a distribuição dos recursos para o sul, adverte Noronha. "O Rio Grande do Sul perdeu a fábrica da Ford para a Bahia não só pela influência do senador Antônio Carlos Magalhães e pela força do PFL dentro do governo, mas também por causa da realidade econômica baiana, que demandava uma ação federal para impulsionar a industrialização", explica o cientista político. Esse fator foi decisivo em várias decisões sobre concessão de incentivos federais. É como se a União tivesse de destinar ao nordeste uma fatia maior do bolo para compensar o passado de abandono e exploração - sentimento, aliás, de muitos parlamentares do sudeste.

A bandeira da superação das carências regionais funciona como um instrumento de unificação dos parlamentares . "Por essa razão, as bancadas do norte e do nordeste se apresentam como as mais compactas do Congresso, enquanto as do sul e do sudeste têm mais dificuldade para se unir ", afirma Queiroz, do Diap. O sudeste, porém, leva a vantagem de ser a região mais rica e de maior peso no Congresso.

"De um lado, há a reconhecida necessidade de suprir as enormes deficiências do norte e do nordeste. De outro, há o peso político e econômico do sudeste. O resultado é que o sul fica encurralado", analisa Noronha. Só o Estado de São Paulo, por exemplo, tem 70 deputados federais - sete a menos do que a soma dos três Estados do sul. A segunda e a terceira maior bancada na Câmara são as de Minas Gerais (53) e Rio de Janeiro (46). Sem esquecer que a força de São Paulo como centro econômico e financeiro do país transcende a representação parlamentar. "Quando o Congresso ou o governo federal querem saber a opinião dos empresários sobre os juros ou impostos, a opinião que conta é a da federação das indústrias de São Paulo, não do Ceará ou do Maranhão", diz Noronha.

"No caso do sul", pondera o senador Pedro Simon, "não temos nem a força de São Paulo e Minas e nem a bandeira comum da industrialização e do combate à pobreza que o nordeste tem. Eu não consigo enxergar quais seriam as bandeiras que poderiam unir os três Estados", comenta o mais antigo dos senadores ligados à Região Sul. Numa crítica ao seu próprio Estado, Simon lembra que foram raras as vezes em que a sociedade e os líderes políticos do Rio Grande do Sul se uniram em torno de bandeiras comuns. Quando isso aconteceu, lembra, os gaúchos tiveram conquistas importantes, como o Pólo Petroquímico do Sul. O presidente da Fiergs, Paulo Tigre, lembra que a instalação em Porto Alegre do Ceitec, primeira fábrica brasileira de chips, é produto dessa mesma mobilização entre líderes do mundo empresarial e político. Mas essa união está longe de ser a tônica, admite Tigre."Há uma característica gaúcha - e não do sul como um todo - de sermos pouco negociadores e de raramente estarmos alinhados com o governo federal", aponta Tigre.

Na mesma linha de raciocínio, o presidente do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), Mário Bernd, vê o Rio Grande do Sul em dificuldades maiores que as de seus vizinhos. "Quando o projeto é importante para o Paraná, a oposição local silencia. O mesmo vale para Santa Catarina, que conseguiu, em tempo recorde, a aprovação do novo código florestal para o Estado", afirma Bernd. Já entre os gaúchos", compara, prevalece o que chama de "espírito grenal", com grande polarização política e debates com mais paixão do que racionalidade. "O raciocínio é: quanto pior para o adversário, melhor para mim", diz Bernd, com a ressalva de que expressa uma opinião sua, não do BRDE.

Um dos mecanismos que Simon defende para melhorar a integração entre o Paraná, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul é a recriação da Superintendência do Desenvolvimento do Sul (Sudesul), órgão que funcionou entre 1967 e 1990 com funções semelhantes às da Sudene, no nordeste. Em 2007, o deputado catarinense Odacir Zonta apresentou um projeto na Câmara Federal para ressuscitar a Sudesul com a missão de promover o desenvolvimento e a cooperação entre as cadeias produtivas da Região Sul.

Além disso, o Conselho de Desenvolvimento e Integração do Sul (Codesul) poderia ser mais atuante. "Hoje, os governadores se reúnem de vez em quando, mas cada um age por conta própria, de acordo com as prioridades de seu Estado", critica Simon. O Codesul reúne os três governadores do sul e, também, o do Mato Grosso do Sul.

O presidente da Fiep, Rocha Loures, tem a convicção de que a articulação política da região depende de dois pontos: um maior protagonismo do empresariado e a identificação de uma agenda comum. "Apesar da diversidade econômica e dos legítimos interesses de cada Estado, é possível trabalhar em torno de questões que são transversais à região e que contribuem para ampliar nossa competitividade", observa Loures.

Nessa perspectiva, já há um caminho, segundo o presidente da Fiesc, Alcantaro Correa: a revitalização do Fórum Industrial-Parlamentar Sul, que reúne os presidentes das federações das indústrias e as bancadas federais do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. O fórum foi criado em 2004 exatamente para debater problemas e soluções comuns aos três Estados, especialmente nas áreas de infraestrutura, logística e tributação. "No ano passado, com os deputados envolvidos nas eleições municipais e os empresários com a crise econômica, o fórum esteve parado. Agora, queremos retomar as reuniões periódicas", diz Corrêa.

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Consumo
Um mercado rico e seletivo
A crise não excluiu o Sul da elite do consumo brasileiro. Mas tornou ainda maior o desafio de conquistar clientes nessa região
Ao contrário do que muitos pensam, a Região Sul está longe de estar estagnada. Em um dos piores períodos da história econômica da região (2002-2006), com a quebra da safra, falta de investimentos públicos, o Sul conseguiu crescer 54,9% contra 60,4% da média nacional. Praticamente um empate. Em 2007 e 2008 o número de empregos na região cresceu acima da média nacional.

Agronegócio
Vantagem duradoura
Por que o avanço do Centro-Oeste ainda está longe de ameaçar o peso do Sul no agronegócio
O Sul é responsável pela metade da produção de grãos do país. O PR sozinho, com 2% do território nacional, é responsável por 25% da produção. Além disso, a região é líder na produção de leite, e possui os três primeiros lugares na produção de aves e suínos. Outros setores importantes são a fruticultura e horticultura nacionais.

O CO sempre é apontado como a grande fronteira agrícola do mundo, mas está muito longe do Sul. Vale lembrar ainda, que praticamente toda a produção agrícola do MT é resultado da imigração sulista nas décadas de 70 e 80.

Infraestrutura
Não faltam oportunidades
Mesmo com gargalos preocupantes, o Sul se destaca em quase todas as áreas da infraestrutura
Não concordo com a análise. Para mim, a infra-estrutura é o calcanhar-de-aquiles da região.

O peso político
Em busca de uma bandeira
Os Estados do Sul penam para construir uma agenda comum e atuar em bloco. Por enquanto, só estão unidos na queixa de que arrecadam muito para a União e recebem pouco em troca
Esse é o ponto mais preocupante. O Brasil é o país com uma das piores cargas tributárias do mundo (cerca de 40% do PIB). O Sul sofre duplamente: além de estar completamente sufocada pelo peso dos impostos, não recebe praticamente nada de volta. Essa situação é ímpar no mundo. Dificilmente há uma região no planeta que paga tantos impostos sem receber quase nada em contrapartida.

Agora o que mais espanta nisso tudo é a apatia da população e dos políticos da região com relação ao tema. Não há cobrança alguma.

Não, RS 193 bi e PR 168 bi, SC 115 bi
Mbv, de onde saíram esses números?
 

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Não concordo com a análise. Para mim, a infra-estrutura é o calcanhar-de-aquiles da região.
Concordo. Pelo menos em SC, que tem o segundo pior saneamento básico do país, que atende menos de 15% da população urbana, por exemplo. Em portos SC está bem servida, porto de SFS, Itajaí como dois dos 5 maiores do país, futuramente Itapoá e Imbituba pra engrossar a lista. Mas ainda faltam investimentos pesados em rodovias, ferrovias e outros. A BR-101 que é duplicada já deveria ser triplicada, desde Curitiba (na verdade de Curitiba até a fronteira com SC é 376) até Porto Alegre, a BR-470 que é de pista simples ainda, BR-280, BR-282, BR-116 principalmente. E também com uma linha de trem de passageiros também ligando São Paulo a Porto Alegre e passando por outras importantes da região, como Curitiba, Joinville, Balneário Camboriú, Florianópolis e Criciúma.

Enfim, na minha opinião é muito errado falar que infraestrutura no Sul é muito boa. É melhor que do Norte, por exemplo, mas está longe de ser exemplar.
 

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Achei bem interessante a matéria, embora não concorde com a parte da infraestrutura. Muito obrigado por postar, e a parte política está corretissima. O que falta para trazer mais investimentos para o sul, é a união dos três estados. Talvez algum dia, esses caras pensem diferente, e consigam captar mais dinheiro para a região. :)
 

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:laugh::colgate:


Ali apresentam o PIB do RS em 123 milhões, e do PR em 113milhões, será que isso procede? Acho que a diferença entra os dois é maior que isso.
Esses números se referem ao potencial de consumo de cada estado e não ao PIB

o PIB de cada estado é o postado um pouco acima.
 
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