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SubTropical lands
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O Urbanismo
é um campo do conhecimento, ora considerado como ciência ora como técnica, que tem a cidade como principal objeto de estudo e intervenção. Surge como campo do conhecimento, no final do século XIX, na Europa, período pós-revolução industrial, em busca de transformações necessárias à realidade caótica das cidades. No entanto uma maior maturidade teórica só foi alcançada no século XX. Observa-se hoje que ainda conserva-se um conceito tradicional sobre o mesmo, como preso a aspectos estético-funcionais. Porém o Urbanismo ultrapassou largamente esta visão, não se limitando a uma simples técnica do engenheiro ou do arquiteto para intervir no espaço urbano, pois abrange o campo da comunidade, da planificação social. Por isto é necessária uma abordagem sobre sua epistemologia, de forma mais crítica e ampla, rompendo paradigmas. O estudo sobre a realidade do espaço urbano (e regional) e suas manifestações concretas, para intervir na busca de uma melhor qualidade de vida constitui na essência do urbanismo, sendo que este espaço sofre transformações permanentes.O texto busca uma reflexão crítica sobre o Urbanismo, desde quando surgiu como suposta ciência que estuda a cidade e intervêm nos seus espaços, utilizando uma revisão bibliográfica de vários autores que abordam o seu conceito.

Observa-se que no Brasil há o conhecimento de poucos registros de discussões mais aprofundadas sobre o Urbanismo enquanto campo do conhecimento e sua epistemologia. Muitos estudiosos apenas consideram o mesmo como mero ramo complementar da Arquitetura ou “Arquitetura-Urbanismo” e o reduziram muitas vezes a projetos arquitetônicos, ou de engenharia em grande escala.

Um exemplo de discussão interdisciplinar que aconteceu foi a Semana de Urbanismo de 1935, em Salvador, aonde se tratou entre os temas principais, o Urbanismo enquanto novo campo do conhecimento e área de atuação. Buscava-se esclarecer o que seria o Urbanismo como um dos objetivos deste evento, apesar de não haver referências teóricas suficientes, então o mesmo seria conceituado pela Comissão do Plano da Cidade do Salvador como a “ciência de ordenar e harmonizar os elementos estáticos e dinâmicos da cidade”(Comissão de Planejamento da Cidade do Salvador, 1937). Dentro deste conceito o zoneamento é apontado como um dos instrumentos essenciais para o ordenamento das cidades, embora este conhecido instrumento de planejamento físico-territorial seja utilizado para organização funcional do espaço urbano favorecendo a uma segregação espacial, o que o distorce, politicamente, como instrumento de planejamento urbano.

Embora tenha alcançado um nível de discussão teórica e conceitual mais amplo, multidisciplinar e interdisciplinar no final do séc. XX, o Urbanismo no Brasil ainda é pensado e praticado muitas vezes dentro de uma concepção tradicional, que o considera apenas como técnica de planejamento físico-territorial visando o ordenamento morfológico do espaço urbano, dentro de princípios estéticos e construtivos, essencialmente de projeto, o que pode levar muitas vezes a uma visão limitada do espaço urbano que se quer planejar, e logo sobre o pensar o Urbanismo. Então creio que vale a pena uma referência a Del Rio (1990) para falar que no contexto brasileiro é preciso se romper com a forma reducionista com que o Urbanismo é abordado fazendo-se, entretanto, uma reavaliação e recuperação acadêmica do mesmo.

Segundo Villaça (1999), muitas das ações realizadas na esfera do planejamento urbano no Brasil, nas décadas de 30 e 40, se chamavam de Urbanismo ou Planos de Urbanismo. Assim existiriam as seguintes definições para o mesmo:

- O conjunto de técnicas e/ou discursos referentes à ação do Estado sobre a cidade, e este sentido existe no Brasil desde a sua criação em 1910, na França;

- Um estilo de vida urbana, ou o estilo de vida na cidade;

- “... o conjunto das ciências - e supostas ciências - que estudam o urbano; este último só passou a ser utilizado no Brasil nas décadas recentes...”(VILLAÇA;1999,p.180).



Percebe-se uma certa “confusão” ao identificar o Urbanismo enquanto mero discurso, conjunto de ciências e supostas ciências, ou com políticas urbanas, que seriam as ações reais e as propostas, conseqüentes da ação do Estado, pois ele estaria inserido no campo da ideologia, dentro de adaptações para enfrentar novas situações, ou o agravamento das tendências para assegurar a hegemonia das classes dominantes (VILLAÇA,1999). Numa abordagem crítica feita por Ermínia Maricato (2000; p.112) que diz que “... o Urbanismo brasileiro (entendido como planejamento e regulação urbanística) não tem comprometimento com a realidade concreta, mas com uma ordem que diz respeito a uma parte da cidade apenas...”, e assim se percebe o Urbanismo como instrumento de dominação e de idealização de uma cidade “moldada” aos interesses as elites, e isto se faz através da busca por uma modernização cidade e aplicação de zoneamento funcional das atividades, através de uma normatização do espaço urbano (SOUZA, 2003). Isto seria a idéia central do Urbanismo Moderno que se estende ao planejamento físico-territorial clássico em geral, e muitos autores consideram como a base do Urbanismo.

Tratando-se da história do Urbanismo, Villaça (1999) aponta que houve três períodos principais de planejamento das cidades brasileiras, que neste caso serão utilizados para demonstrar como o Urbanismo se desenvolveu historicamente no Brasil:

- Séc. XIX até 1930 – período marcado pelos planos de embelezamento e melhoramentos, herdeiros da forma urbana monumental que exaltava a burguesia e destruiu a forma urbana medieval (ou colonial, no caso do Brasil)[13].

- Entre as décadas de 30 até a década de 90, do séc. XX – o planejamento enquanto técnica de base científica, indispensável para a solução dos chamados “problemas urbanos”. Enfoque para o zoneamento e organização físico-territorial das atividades no espaço urbano em decisões centralizadas.

- Da década de 90, do séc. XX até os dias atuais: - é o período atual, que seria marcado pela reação ao anterior. Período pós-Reforma Urbana.



Ao final do século XIX, e nas primeiras décadas do séc. XX, o Urbanismo era considerado desde o ponto de vista meramente higiênico e sanitário, que seria a causa de, sobretudo, da necessidade de proteger, naquela época, o desenvolvimento das enfermidades tropicais (cidades com o Rio de Janeiro, Recife e Santos, podem ser consideradas como exemplos), passando pelo ponto de vista estético, existia a necessidade de construir novas capitais adequadas à importância de suas funções cívicas (a exemplo de Belo Horizonte) até se preocupar com os problemas de trânsito urbano (fluidez), e assim coma abertura ou ampliação de vias públicas (LODI, apud Whittick, 1975), sendo que nesta época destacou-se o trabalho de engenheiros e médicos, no estudo e na prática do Urbanismo[14].

Então se percebe que houve períodos em que o Urbanismo teve abordagens e práticas distintas (muitas vezes chamados de teorias urbanísticas) e que se aprimoram à medida que a própria sociedade (cidade) pede respostas e soluções adequadas à sua realidade. Porém a verdade é que muitas vezes a base esteve sustentada em modelos e concepções trazidas de fora do país, e que se refletiram em padrões para a formulação de planos de desenvolvimento urbano, que predominaram entre a década de 30 e 90, que enfocavam o planejamento físico-teritorial. Grande parte deles não foi posta em prática e apenas serviam para referendar as ações das administrações municipais, e que em muitas vezes só abordavam os aspectos físicos, ou nada tinham a ver com a realidade[15].


É importante ressaltar que neste período supramencionado a influência do conceito de Urbanismo Moderno foi tão significativo, que, mesmo havendo em períodos posteriores uma busca por uma aproximação mais crítica na maneira de pensar a cidade, ainda evidencia-se como o conceito tradicional e predominante quando se fala de Urbanismo. Por isto há uma reação ao Urbanismo praticado entre ao período de 1930 e 1965, a partir da dedada de 90 (séc. XX), como forma de romper com os paradigmas do período anterior, apesar de que muitas vezes se reproduz idéias e conceitos do passado. Porém atualmente aproxima-se de um novo paradigma para o Urbanismo dentro de um contexto, em que se busca, a partir de políticas urbanas democráticas, planejar e gerir a cidade, afastando-se do cientificismo e do paradigma modernista.

http://sburbanismo.vilabol.uol.com.br/reflexoes_urbanismo.htm
 

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SubTropical lands
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Discussion Starter · #2 · (Edited)
Acredito que esta tendencia de "democratizar" o urbanismo proposto por Villaça também não pode deixar de lado o que é chamado de 'cientificismo'. O urbanismo comtemporaneo poderia ter duas esferas: A multidisciplinar("técnica-cientifica") e a democrática ou aquela que visa entender a necessidade da sociedade que ocupa a aera urbana em questão. O que vocês acham meus amigos do fórum?
 

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Quem cala consente.
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De fato, aqui no Brasil ou é oito ou oitenta: os projetos (generalizando, claro) são meras modificações em avenidas ou grandiosos, como é o caso da Nova Luz, em São Paulo. Há planejamento? Há, pode parecer paradoxal, mas o planejamento aqui é muito mal planejado, e isso é algo que podemos ver todos os dias, nas cidades, bairros, casas... Lamentavelmente é algo que já está arraigado em nossa sociedade.

Se o Brasil fosse um estudante, eu o classificaria como aquele sujeito que só tira notas razoáveis ou abaixo da média, mas acaba por ficar em várias matérias, por pouco é verdade, mas como são várias, se mata de estudar no final... Sendo que os estudos poderiam ter sido distribuídos em doses periódicas ao longo do ano... Um exemplo de planejamento torpe: as Regiões Administrativas que ficam no DF. São planejadas? são, mas não possuem o mesmo esmero que o Plano Piloto. Essa questão do urbanismo no Brasil é algo que é complexo e que possui várias facetas.
 

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SubTropical lands
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Discussion Starter · #7 ·
De fato, aqui no Brasil ou é oito ou oitenta: os projetos (generalizando, claro) são meras modificações em avenidas ou grandiosos, como é o caso da Nova Luz, em São Paulo. Há planejamento? Há, pode parecer paradoxal, mas o planejamento aqui é muito mal planejado, e isso é algo que podemos ver todos os dias, nas cidades, bairros, casas... Lamentavelmente é algo que já está arraigado em nossa sociedade.

Se o Brasil fosse um estudante, eu o classificaria como aquele sujeito que só tira notas razoáveis ou abaixo da média, mas acaba por ficar em várias matérias, por pouco é verdade, mas como são várias, se mata de estudar no final... Sendo que os estudos poderiam ter sido distribuídos em doses periódicas ao longo do ano... Um exemplo de planejamento torpe: as Regiões Administrativas que ficam no DF. São planejadas? são, mas não possuem o mesmo esmero que o Plano Piloto. Essa questão do urbanismo no Brasil é algo que é complexo e que possui várias facetas.
Então essa questão da Nova Luz é interessante, alguém sabe dizer como nasceu esse projeto urbano? Foi só para tratar da necessidade pontual da cracolândia? Houve participação e opinião dos munícipes? Foi um projeto só do ponto de vista arquiteto/urbanista? Só as empresas interessadas foram ouvidas? Enfim como está situação hoje no Brasil? convido a todos para participar do debate!
Abraços!
 

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Acho o assunto interessante sim, mas da forma como foi colocado é muito complexo. Talvez esse tipo de fórum precise ter um assunto mais focado, pq é meio impossível abordar tudo.

Enfim, ao meu ver, o urbanismo é até hoje visto de forma muito pseudo-técnica. Se enxerga como uma "gestão" de terrenos / potenciais imobiliários. As defuntas teorias de zoneamento por usos e tal foram sim deixadas de lado por sua inadequação, mas a troco de que? Infelizmente se deixou de lado propostas erradas pra se adotar proposta nenhuma.

A evolução do pós-modernismo, de enxergar a cidade e seu conteúdo simbólico; com respeito às pré-existências, foi um avanço importante. Muito desse raciocínio perdura até hoje, mas de forma meio isolada - se promove uma manutenção de patrimônio cultural por exemplo, sem respeito a características específicas de ambientação de uma rua, por exemplo. Erros primários que acontecem todo dia.
 

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Quem tem contato com os planos diretores de cidade tem uma dose fatal da hipocrisia urbanística. Usam-se termos, frases de efeito e referências que respeitam a tudo e a todos, proporcionando cidades perfeitas.
Mas se vc confere os índices de ocupação, aproveitamento e a forma como são geridos; a ineficiência no reconhecimento do potencial ou da situação de ruas e vias, etc... Você vê que no fundo é só uma ordenação do mercado imobiliário definindo áreas onde se ganha mais ou menos, e áreas de fluxo.
Aliás, essa parece ser a preocupação maior dos leigos: circulação de veículos.

Pra mim, é isso que caracteriza o planejamento urbano no Brasil :)
 

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Não JP não é porque você me acha troll talvez por causa que critiquei cenas ridículas como a notícia da BOLSA dos tres países da AL, e tantos outros exemplos e você deve ter se identificado.... Na verdade este thread está vazio porque tem um conteúdo muito complexo e talvez os foristas não queiram se incomodar para tratar de um assunto tão delicado!


Eu nem sei que thread é esse que você mencionou...

Eu só postei a imagem porque achei engraçado o fato do thread só ter 2 comentários, e os mesmos terem sido postados pelo próprio autor.

Sinceramente não entendi os suas visitor messages para mim. Que tipo de provocação é essa? Em momento algum eu disse que você é troll (apesar de ter comportamento semelhante em alguns threads).

Concordo que é um tema muito complexo, talvez ele não seja tão interessante para os foristas que não são formados na área de arquitetura e urbanismo.
 

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SubTropical lands
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Discussion Starter · #14 ·
opa mal entendido resolvido XD
continue aparecendo para discutir aqui JP
XD
Abraço!
 

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Discussion Starter · #15 ·
Quem tem contato com os planos diretores de cidade tem uma dose fatal da hipocrisia urbanística. Usam-se termos, frases de efeito e referências que respeitam a tudo e a todos, proporcionando cidades perfeitas.
Mas se vc confere os índices de ocupação, aproveitamento e a forma como são geridos; a ineficiência no reconhecimento do potencial ou da situação de ruas e vias, etc... Você vê que no fundo é só uma ordenação do mercado imobiliário definindo áreas onde se ganha mais ou menos, e áreas de fluxo.
Aliás, essa parece ser a preocupação maior dos leigos: circulação de veículos.

Pra mim, é isso que caracteriza o planejamento urbano no Brasil :)
O que você está nos revelando aqui é que praticamente inexiste um zoneamento da cidade e o que existe é uma adaptação segundo o mercado imobiliário? Alguém trabalha em secretaria de planejamento urbano aqui?
Abraço!
 

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Então essa questão da Nova Luz é interessante, alguém sabe dizer como nasceu esse projeto urbano? Foi só para tratar da necessidade pontual da cracolândia? Houve participação e opinião dos munícipes? Foi um projeto só do ponto de vista arquiteto/urbanista? Só as empresas interessadas foram ouvidas? Enfim como está situação hoje no Brasil? convido a todos para participar do debate!
Abraços!
Eu não sou muito teórico e nem tenho muita informação técnica sobre o projeto Nova Luz para opinar com propriedade, mas o pouco que sei me faz pensar que a tal revitalização do espaço está atrelada a higiene social.

NADA foi pensado voltado aos usuários de drogas. NADA... Mesmo levando em conta que muitos usuários de drogas moram nas redonzedas, nos prédios e cortiços.

Que eu saiba, posso estar redondamente enganado, não houve consulta popular, apenas alguns "especialistas" visitando a região...

Se eu tivesse o poder e fosse fazer algo na região, primeiramente faria uma clínica para tratamento dos usuários de drogas, com internação e tudo.

Depois, ao invés de elitizar a arte na região, faria também espaços de arte popular e integraria os usuários de drogas em recuperação aos projetos desse tipo de arte.
 

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Heh, eles não são nem um pouco hipócritas, pelo menos, quanto ao Nova Luz. Já rejeitaram explicitamente "pitacos" da população, e são francos quanto ao higienismo. Lembro até hoje do secretário de habitação da prefeitura (então ainda sob o Serra) falando de trocar de população da Luz, porque a população atual "é muito promíscua, se reproduz muito" e "não vai ao Mappin comprar, não gira a economia." (Além de higienista é meio vetusta a opinião, já que o Mappin fechou há sei lá quanto tempo.)
 
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